27/01/04

Repertório de factos extraordinários

O que a seguir se lerá é a mera transcrição de uma carta que recebi na minha caixa do correio. Omito apenas o nome do remetente, cumprindo o seu desejo expresso na missiva.

Lisboa, 20 de Novembro de 2003

Excelentíssimo Senhor,

Começo por lhe dar uma satisfação relativamente ao motivo que me levou a escrever-lhe esta carta, tanto mais que não tenho o prazer de o conhecer pessoalmente, nem V. Ex.ª me conhece. Sucede que soube do interesse que V. Ex.ª alimenta por factos verdadeiramente extraordinários, dedicando-se ao seu estudo e divulgação. Por tal razão, tomei a iniciativa de me dirigir por escrito a V. Ex.ª, pedindo desculpa se o venho incomodar.
Na verdade, algo de verdadeiramente excepcional me sucedeu recentemente. Muito tenho pensado no episódio que a seguir relatarei, não encontrando explicação plausível para o ocorrido, pelo que deixo ao encargo de V. Ex.ª qualquer explicação sobre o assunto, bem como liberdade plena para fazer o uso que bem entender do que aqui lhe conto.
Vivo e trabalho em Lisboa, ainda que tenha uma costela inglesa por via materna. A minha esposa é natural da Beira-Baixa, mais precisamente de Proença-A-Velha, pelo que no mês passado, a pretexto do casamento da minha cunhada, me desloquei a essa localidade. Desprezo todos os pormenores dispensáveis, menos um: possuo um automóvel desportivo de colecção, um MG Midget conversível de 1965, que raramente conduzo por razões óbvias e que herdei do meu saudoso pai. Aproveitei o bom tempo e a ocasião especial para rumar à Beira ao volante deste automóvel, coisa que faço com muito prazer, como facilmente deve calcular. Chegámos bem, pernoitámos em casa de minha sogra e, na manhã seguinte entregámo-nos aos preparos exigidos pela cerimónia. Dirigimo-nos, por volta das dez horas, à capela onde decorreria a celebração do casamento, pequena capela românica que dista pouco menos de seis quilómetros da vila. Aí chegados, a minha mulher reparou que se esquecera do brinco esquerdo. Lembrou-se que o tirara para fazer um telefonema e que o deixara esquecido sobre uma mesinha. Como ainda era cedo e a noiva estava atrasada, como é sempre um prazer para mim guiar o meu MG, e também porque eu próprio reparei ter colocado os botões de punho desaparelhados, aproveitei o lamento da minha mulher para ir a casa rapidamente buscar o brinco solitário e trocar os botões. Assim fiz. Ao chegar à vila, ao cimo de uma ruela estreita que entronca em ângulo recto numa outra artéria principal, tive que parar o carro, dado o sinal de trânsito que indica perda de prioridade. Como a visibilidade é nula e o local é palco frequente de acidentes, foi há pouco aí instalado um espelho convexo para que os automobilistas tenham visão dos veículos que se aproximam do cruzamento, fornecendo-se assim maior segurança aos passantes. Parei, olhei para o espelho e não vi ninguém. Ou melhor, ninguém para além do meu reflexo deformado pela convexidade do espelho. Lá estava o meu MG descapotável, estofos acastanhados contrastando com o verde seco da carroçaria. Como a estrada estava livre, avancei e, no exacto momento em que acelerei, embati frontalmente, com enorme estrondo e violência, causando graves danos no meu carro, com um outro automóvel que curvava na minha direcção, vindo de um outro beco paralelo à ruela por onde eu circulava. Fiquei, como imagina, atordoado. Primeiramente, não consegui recompor-me do susto. Depois, lamentei os prejuízos provocados no meu veículo e, ao mesmo tempo que sentia a pressão de não poder chegar atrasado à cerimónia, delineava um qualquer argumento desculpabilizador que me inocentasse e devolvesse ao outro acidentado a responsabilidade do embate. Só depois, lembrando-me como mirara tão atentamente o espelho reflector e nada vira, é que, intrigado, me virei para o veículo em que embatera e tive a noção exacta da extraordinária singularidade da situação: é que o outro veículo no qual eu embatera, era um MG em tudo igual ao meu. Na cor, nos estofos, nas jantes, nos acessórios! Espantoso! O outro condutor lá estava de porta aberta, vestido a rigor e estarrecido ao lado do veículo, olhando embasbacado, certamente com o espírito também dominado pela surpresa.
Faça V. Ex.ª o melhor uso que entender desta carta e deste episódio, pedindo-lhe somente que não divulgue a identidade deste que se despede
Atenciosamente,

XXXXXXXX

Achei extraordinária a coincidência. Respeito o desejo do anonimato e porque me pareceu que o episódio aqui relatado merecia qualquer forma de aproveitamento, cumprindo o desejo manifesto do seu autor, decidi inventar esta carta, bem como todos os factos nela contidos, bem assim, e ainda, o próprio remetente.

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