16/02/04

Kasimir Malevich e Andy Warhol

Alcançar um superlativo sintético absoluto foi o desafio estético de Kasimir Malevich. Partindo do cubismo e de uma atitude racionalizadora do espaço e das suas figuras, numa estratégia de depuração progressiva, foi eliminando o pormenor e o acessório na busca de uma essencialidade geométrica. Este ascetismo essencialista começou por negar o tecnicismo perspectivista e a tirania do belo herdados do Renascimento, por reduzir a técnica à infimidade do estritamente necessário, limitar a plasticidade à condição mínima capaz de conter a síntese suprema, de tal modo que a arte se cumpriu ao atingir a essência irredutível: um quadrado negro sobre fundo branco. Sem cor e sem profundidade, sem significado, sem temporalidade, sem referentes, sem tradição e sem continuidade possível. A estabilidade final equiparável à morte. Daí que o cume sintético do conceito artístico de Malevich tenha figurado sobre a sua urna funerária, em 1935, a seu pedido. E porque a abstracção pura é irmã gémea da metafísica, o regime soviético baniu ambas. Os sovietes, apostados numa estética propagandística, não podiam deixar de reprovar a ambição espiritualista de Malevich.
Fornecer valor estético ao objecto vulgar que assim se torna ícone civilizacional, foi o processo inverso de Andy Warhol. Se Malevich se viu comprometido entre uma herança iconográfica profundamente enraizada na tradição russa ortodoxa e o figurativismo do realismo soviético, recusando ambos, Warhol construiu, por via de uma plasticidade cromática, uma estética iconológica, desespiritualizada mas sacralizadora do banal. Malevich é um iconoclasta que não pode ser entendido fora da tradição russa que teve em Andrei Rubliev o expoente máximo. A iconoclastia chegou à abstracção máxima e descobriu que este extremo é equiparável à religião e à metafísica. Por isso acabou amaldiçoado por uma ideologia que exigia um comprometimento da arte na realidade. Por outro lado, Warhol afirmar-se-á como o maior iconista contemporâneo. Foi mesmo mais do que isso, uma vez que as personagens não eram sagradas, não eram deuses, nem santos, nem mártires. Marilyn, Liz, Elvis, Mao, Bowie, Jagger, Jackie Kennedy ou mesmo o Rato Mickey tornaram-se símbolos culturais e referentes estéticos, sacralizaram-se depois de serem iconografados por Warhol. Este, mais do que um retratista, é um demiurgo, criador de ícones que oferece a uma sociedade de massas idólatra, carente de imagens e adoradora do efémero. O supremo absoluto e ascético de Malevich e o banal iconografado de Warhol são justamente as duas modalidades da intemporalidade. Um quadrado negro ou uma caixa de detergente, ou uma lata de sopa, feitas obras de arte. Malevich iludiu-se com a crença na síntese absoluta, e acabou anulado pela arrogância do materialismo histórico. Warhol criou uma ilusão e estimulou uma mentalidade individualista, consumista e liberal. Warhol, que nunca deixou de ser um homem profundamente religioso, sacralizou a banalidade ao conferir aos objectos comuns valor estético e às personalidades famosas estatuto sobrehumano. Warhol é pois o Andrei Rubliev americano. Marilyn é a sua Virgem, e está para a América do pós-guerra como a Virgem Maria dos ícones do monge russo estavam para a Rússia ortodoxa do século XV.

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