15/03/04

O amor, segundo Hannibal Lecter e Vlad O Empalador, por Mangas

O encantamento de alguns filmes vai para além do enredo desenvolvido, ou do fascinante universo criado pelos personagens que o compõem. A importância do que se não vê mas adivinha, o pressentimento de uma emoção encoberta, ou a disponibilidade para sermos tocados pelas palavras que nunca foram proferidas, são muito provavelmente, as causas que transformam a composição, ou parte dela, em fábulas, dramas ou lendas que sobrevivem à história contada.

A sequência final de Hannibal de Ridley Scott (2001), é o desfecho lógico - ainda que as paixões não sobrevivam da coerência de conceitos ou acções -, de um amor condenado desde o primeiro encontro entre Clarice e Hannibal Lecter, em O Silêncio dos Inocentes (1991). Com um cutelo na mão livre, e preso com a outra às algemas que o impedem de fugir, Dr. Lecter não hesita em sacrificar a sua própria mão acorrentada para escapar e, dessa forma, preservar a integridade física de Clarice. A fascinante mente deste homem de paladares requintados, amante de arte sacra e música clássica e que, por contingências do destino, encontra um raro sentido de prazer e justiça nos mistérios de cortar às postas e temperar com folhas de louro outros homens de mesquinhos apuros éticos ou estéticos, fazem dele um verdadeiro herdeiro do espírito renascentista até na capacidade infinita de amar com altruísmo. Mais tarde, quando Clarice detém a sua perseguição junto ao rio, não é por acaso que o céu negro é pincelado por um fogo de artificio que rasga as trevas da noite. A explosão multicolor acontece também no seu coração ao confirmar a fuga do homem que, por amor a si, amputou o punho direito. Se olharmos com atenção, podemos ver os olhos com um brilho diferente e mais cristalinos do que o habitual na agente do FBI.

Antes de cair em desgraça, Vlad, O Empalador, foi um cruzado da igreja, membro da Ordem do Dragão, uma ordem sagrada que jurou proteger a Igreja de todos os inimigos da cruz de Cristo. A abertura do filme de Coppola, integra uma sequência de batalha em que Vlad defende a pátria cristã da invasão dos turcos muçulmanos. No regresso a casa, descobre que a esposa se suicidou ao ser erradamente informada da morte do seu amado. Como consequência deste acto desesperado, a sua alma jamais poderia cruzar os portões do céu tendo sido eternamente amaldiçoada pelas leis da mesma Igreja que o seu Príncipe defendeu com o sangue de milhares de infiéis tombados a golpes de espada. É possuído pela dor irreparável desta perda sem igual que Vlad, o grande guerreiro, jura regressar dos mortos e vingar a morte do seu único e grande amor. Na pele de um anjo negro em guerra com Deus, castigado a percorrer séculos no exílio dos vivos, Vlad alimenta-se de sangue até reencontrar o verdadeiro amor em Mina, 400 anos depois em Londres vitoriano, junto ao Animatógrafo, no ano de estreia de todos os sonhos do celulóide. Bram Stoker`s Dracula de Coppola (1992), é a mais triste e maldita história de amor jamais contada.

A agente Clarice Sterling e Mina Murray são imagens duplas reflectidas num espelho, almas gémeas de dois condenados à solidão sem fim. A carne e o sangue, para Hannibal Lecter e Vlad Drakul, são as razões últimas de viver, consolações absolutas que alimentam a eternidade aprisionada, metáforas de um amor poderoso e até sexual, condenado, mas imortal, porque “love is stronger than death”.

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