10/05/04

As Músicas do Porco. Cucurrucucú Paloma, por Caetano Veloso. Por Manolete

Não sei quem é o autor desta música de título ridículo. A primeira vez que a ouvi foi num jantar de leitão em casa do nosso Mister. Nessa noite, o nosso espanhol de serviço, o Mau, resolveu levar um disco de uns gajos mexicanos chamados Mariachis - com sombreros e tudo! - como resposta de Castela à overdose de Amália que eu pregara à malta na janta anterior.
Inicialmente a minha reacção, e a de todos os presentes, foi de gargalhada sonora. Aquela versão kitsch de Paloma era e é, de facto, um pouquinho ridícula, desculpa lá, ó Mau… Mas depois a música pegou e tornou-se uma espécie de hino burlesco das famigeradas Noites de Leitão em Casa do Mister. Hoje, até já se pede ao Mau para não se esquecer do «disco dos mexicanos».

Mais tarde, voltei a ouvir Paloma num álbum do Caetano Veloso chamado Fina Estampa ao Vivo. O disco, como explicou o autor, é uma espécie de viagem pela hispanidade. Viagem geográfica – pelo Haiti, pela Argentina (vuelvo al sur de Piazzola), pelo México, pela Espanha… - mas também no tempo. Porque aquelas músicas, diz ainda Caetano, estavam-lhe guardadas na memória mais recôndita. Aquelas músicas espanholas eram-lhe cantadas desde menino pela mãe e haviam de ficar-lhe para sempre guardadas, sem que disso ele tivesse consciência. Recorda-as simplesmente, como se tivessem sido sempre parte dele. Reparei na música, mas não era, ainda, a tal. O Mau, com a autoridade que lhe confere a sua nascença basca, achava que faltava alma ao Fina Estampa – a alma espanhola, entenda-se, e não deixa de ter razão.

Ouvi recentemente uma terceira versão de Cucurrucucu Paloma, ainda pelo Grande Caetano Veloso, e foi essa que me fez render incondicionalmente. Aconteceu mais ou menos a meio do filme do Pedro Almodóvar, Hable Com Ella. Quem viu o filme sabe do que falo. Subitamente no meio da trama bem urdida, surge a imagem improvável de Caetano a cantar Paloma com uma delicadeza e uma subtileza que eu não julgava possível (muito mais depois de massacrado pela inenarrável versão dos Mariachis e sus sombreros)… A cena de que falo passa-se numa palácio algures em Espanha, ao ar livre numa fabulosa noite de Verão. Caetano canta, acompanhado por Jacques Morenlembaum no violoncelo, para uma vintena de pessoas, vestidas a rigor, com salero, alegres e sensíveis, como sabem ser os espanhóis. O ambiente é mágico.
Não consigo definir a ternura daquele momento do filme – sei que não é triste, mas alegre, uma alegria contida, suave, delicada que me comoveu. Aquela cena – Caetano ter-se-á deslocado expressamente do Rio para Madrid apenas para gravar aqueles dois minutos perfeitos – é um filme inteiro que sai do próprio filme. É o melhor vídeo musical que já vi, a síntese perfeita entre a sofisticação das imagens e a delicadeza da música. Almodóvar conseguiu fazer ali um quadro barroco de imagens em movimento. Rubens ou Velásquez teriam feito aquilo se tivessem máquinas de filmar em vez de telas e pincéis. E Caetano não foi só um intérprete, mas esteve muito para além disso.
Acho que todos os que viram o filme concordarão que aquela cena é completamente supérflua do ponto de vista da narrativa. E, no entanto, o filme seria muito diferente e muito menos interessante sem ela, ao ponto de já não o podermos imaginar sem ouvirmos a voz espantosa de Caetano a sussurrar Paloma.
E eu confesso: da próxima vez que formos comer leitão a casa do Mister, já não vou tolerar outra vez o disco dos Mariachis. Prometo que o parto na cabeçorra do Mau!

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