02/05/04

As músicas do Porco Simpathy for the Devil, The Rolling Stones, por Bonga

Simpathy for the Devil é uma das músicas do Porco e da minha vida. Reza a lenda que começou como um exercício nos estúdios ABKCO em Londres e que a coisa não saía, até que a dupla discreta Wyman/Wats propõe a brincadeira do samba. O resultado é fantástico e o ritmo arrebatador. Jean Luc Godard filmou a gravação da música em estúdio.
Simpathy sai em single em 1968 (com outro clássico no lado B, Honky Tonk Women) e abre um dos álbuns seminais dos Stones, Beggars Banquet, do mesmo ano. O tal cuja capa é uma retrete e que a Deca rejeita por questões de pudor (isto foi à trinta e tal anos, vejam lá…). A contra proposta dos Stones é a capa minimalista completamente branca que segue a tendência do Álbum Branco dos Beatles. Beggars Banquet marca uma inflexão na discografia dos Stones, um regresso aos Blues e ao Rock e um afastamento do pop e do psicadelismo defendido por Brian Jones, já em estado de pré-overdose…

A letra é uma auto apresentação de Lúcifer, himself , (Pleased to meet you/Hope you guess my name), metáfora do lado negro da alma humana. É inspirada em Margariada e o Mestre de Bulgakov, um clássico que aqui à uns tempos atrás estava a passar pelo crivo crítico dessa máquina devoradora de calhamaços que é o Sarda. Na altura os Stones davam largas à sua veia satânica – no ano anterior tinham editado Their Satanic Majesty`s Request, cujo título diz tudo…

A música começa em ritmo samba, coisa pouco habitual nos Stones. Os solos de guitarra de Richards são marcos históricos sonoros. Os coros, o contraste entre o ritmo tropical e a electricidade rocker causam um efeito tribal- é uma música de possessão, obsessiva, própria de rituais - agudizado pela própria imagem dos Stones… Os desta fase, claro, com vinte aninhos, pinturas de guerra e aparência junkie. Eles foram a primeira banda da história a provar que se podia ganhar milhões usando jeans, cabelos compridos e t-shirts desbotadas e rasgadas.

Em Setembro último, nós os afortunados cidadãos de Coimbra, tivemos a oportunidade de ver os Stones em pleno estádio municipal. O Porco esteve lá em peso, na primeira fila do concerto. Eu revi-os pela quarta vez (duas antes em Alvalade e uma em Santiago de Compostela). O concerto de Coimbra foi o melhor dos quatro. Para desespero da provinciana imprensa lisboeta que declarou a Licks Tour uma digressão sem interesse – foi a maior de toda a história –, mas que embandeirou em arco com uns Doors em Lisboa, em que o único gajo parecido com os Portas originais era o vocalista que por acaso era dos The Cult… O que não se passa em Lisboa, não existe, já estamos habituados, mas adiante… Dizia eu, que o concerto foi fabuloso e foi. A música mais espectacular de todo o concerto foi, adivinhem, Simpathy for the Devil, com efeitos pirotécnicos fantásticos a transportarem-nos directamente para uma espécie de inferno vermelho. Há uns meses a música levou uns arranjos do Fat Boy Slim e entrou no top americano. Trinta e cinco anos depois Lúcifer está vivo. E está para durar.

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