17/05/04

Eterno Feminino, por Zebú Júnior

Leonardo da Vinci. A Virgem dos Rochedos. 1482-1486. Óleo sobre madeira. Louvre, Paris, França.

Há três posts atrás, mandei para aqui uma imagem do Marx Ernst (Virgem Açoitando o Menino Jesus) que me ocorreu a propósito de uma anterior do Balthus, lançada pelo verrinoso Zebú. O dito quadro do Marx Ernst ainda aqui está e quem ainda não o viu, é só retroceder uns posts mais abaixo.

Mas o que é interessante é que a arte parece ter vida. Como escreveu Umberto Eco, «uma vez criada, a obra (o texto) flutua num limbo de interpretações possíveis virtualmente infinitas». E assim é. Ando a ler o livro do Dan Brown, O Código Da Vinci e a partir das referências que dele retirei, o meu olhar do quadro do Ernst já não é o mesmo.

Dan Brown parte de uma tese facilmente documentável: de que o Cristianismo foi/é uma das religiões que mais contribuiu para o apagamento do Culto da Deusa. Os cultos pagãos da mulher, da feminilidade e da fertilidade são uma evidência em qualquer cultura e em qualquer época histórica. Mas poucas religiões contribuíram tanto como o cristianismo – não falo do islamismo, claro, que isso é um caso à parte – para a repressão deste culto. O número de mulheres que foram mortas em séculos de perseguição cristã, foi de 5 milhões, segundo Dan Brown. Feiticeiras, Wiccas, mulheres eruditas, tudo isso foi reprimido com grande ferocidade.

Da Vinci foi homossexual assumido, grão-mestre de uma organização muito pouco ortodoxa chamada Priorado do Sião e estava longe de ser um cristão convencional. Roubava cadáveres e dissecava-os, concebeu planos estranhíssimos de máquinas de guerra e de tortura e mensagens cifradas escritas ao contrário para não poderem ser descodificadas. Nos seus quadros deixou constantes referências heréticas ao Culto Pagão da Deusa e não só. É também por isso, pelo simbolismo oculto, pelas referências cabalísticas da sua arte que os seus quadros suscitam tanto interesse, para lá do visível. O homem foi um brincalhão, um jogador compulsivo, um gozador inveterado. Apesar de ter a Santa igreja como melhor cliente não parava de brincar e deixou referências pagãs nos seus quadros.

Este quadro, Madonna dos Rochedos foi-lhe encomendado por uma ordem religiosa qualquer com instruções precisas. Devia incluir o menino Jesus, João Baptista, a Virgem e o anjo Uriel. Da Vinci pintou o quadro que está reproduzido em cima (mais tarde fez uma outra versão que está no National Gallery), mas quando os seus clientes o viram foi um verdadeiro choque. Pintou Baptista como uma criança. Mas a grande heresia estava no facto de ser o Baptista a dar a bênção a Jesus quando devia ser o contrário. No entanto, a coisa não acaba aqui.

É que acima do Baptista, numa posição de clara hegemonia quem aparece é a Virgem. Até aqui tudo bem. Mas ao mesmo tempo que protege Jesus com a mão direita, a sua mão esquerda eleva-se ameaçadoramente, como uma garra, sobre a cabeça do Baptista. Parece mesmo segurar pelos cabelos uma cabeça invisível. Uriel, por seu turno, faz um gesto que bem pode sugerir a decapitação do Baptista. Ou seja: a Virgem protege a pureza cristã simbolizada pelo menino Jesus e, com o apoio de Uriel, ameaça, Baptista, encarnação da Santa Igreja. Madona dos Rochedos pode, pois, ser lido como uma referência críptica ao Culto da Deusa apagado pelo Cristianismo.

Regresso depois disto a Marx Ernst. Parece-me possível interpretá-lo com estes novos dados. A virgem representa, também aqui, uma vingança do feminino sobre o cristianismo. Daí a queda da auréola do Menino e a semi-auréola diabólica da virgem. A cor vermelha e as formas de matrona sensual escolhidas por Ernst para tal representação… Uma afirmação exuberante da sensualidade feminina. E a parede rosa – cor simbólica: do feminino, do segredo e da orientação – com os três surrealistas à espreita, como quem sabe mais que nós. Depois de Da Vinci e de Dan Brown é inevitável, para mim, ler esta obra como uma espécie de vingança do Feminino sobre o Cristianismo. E é por isto que eu gosto de arte.

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