09/05/04

Max Ernst, A Virgem Santa castigando o Menino Jesus perante Três Testemunhas – André Breton, Paul Éluard e O Artista, por Zebu Júnior

O quadro do post anterior do Balthus trouxe-me à memória estoutro de Marx Ernst, ilustre representante do surrealismo. Nos dois quadros está presente o tema da relação entre a criança e o adulto. Segundo o Mangas em Balthus trata-se de um abuso da mulher poderosa sobre a menina - apara-se, assim, a leitura choque de um prazer perverso, partilhado a dois, mulher e criança.
Em Ernst ainda está presente a sexualidade: a nudez do menino é completamente humilhante para o próprio, talvez mais que o açoite, incidência mais ou menos corriqueira na educação de menores. Assim, o quadro ganha um cunho vagamente sexual…
A nudez da criança angelical contrasta com o facto da mulher se apresentar vestida, o que agudiza o sentimento de humilhação que pressentimos na vítima do castigo. Como que para se protegerem desta humilhação os rostos dos personagens permanecem escondidos – o menino está de costas a virgem não tem expressão, cuidadosamente tapada pela sombra. A perversidade latente do quadro perturba perigosamente uma série de sacralidades culturais e civilizacionais: mãe/filho, Virgem Maria/Jesus…

Mas Ernst tece aqui alguns paradoxos interessantes, como, desde logo: que legitimidade terá a virgem-mulher para castigar o Filho de Deus? Não será este castigo uma revolta na própria ordem divina?
Mais: que poderá ter feito Jesus de tão grave, para merecer um castigo tão veemente da Virgem? Se Ele é puro, divino e isento de pecado, não há razão para receber um tal castigo. Porque misteriosa razão o açoitaria a Virgem Mãe? Regressamos assim ao universo ambíguo e sinuoso de Balthus, não por acaso influenciado pelo surrealismo. Restam-nos as três testemunhas deste acto – atente-se na correspondência entre a Trindade e estes três papas do surrealismo, Breton (o Pai), Éluard e Ernst – que espreitam, por detrás de uma janela aberta, com olhares prescrutantes – mas, mais uma vez, cuidadosamente escondidos - este aparente desvario da Virgem. Este quadro é quase um enredo policial. E só a mente aguçada dos três surrealistas parece saber a sua verdade oculta.

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