20/05/04

O QUE É TOUREAR? de Victor Cunha Rego, por RangingBull

“Corrida de Touro”, 22-04-1961, no jornal “O Estado de São Paulo”, Brasil

O que é tourear?
Na modorra do meio da tarde, numa fazenda do interior, um amigo desperta de sua vaga sonolência e pergunta-me o que significa tourear. Sei que a pergunta implica um desafio porque para ele uma corrida de touros se resume à morte de quem não devia morrer e à luta desigual de um homem devidamente preparado contra um animal indefeso.
Meu primeiro impulso é de desânimo: há coisas que não se pode e nem devem explicar a quem não compreende logo de entrada. Uma corrida de touro não se explica, sentimo-la ou não. Explicá-la é cometer uma heresia.
Além disso como será possível condensar numa frase, toda a psicologia do povo mais difícil do Ocidente, o povo espanhol? Como será possível explicar a necessidade que atrai o homem para a gratuidade da aventura? (...)
Ao procurar falar muito e claro, dei por mim balbuciando timidamente e perguntando a mim mesmo: O que é tourear?
O que é tourear?
Pepe Hillo escreveu, ou mandou que escrevessem, a primeira “Tauromaquia ou Arte de Tourear” em que expunha todos os seus pensamentos fundados na “sábia experiência que é a mãe legítima dos conhecimentos”. Um touro matou-o.
Joselito não escreveu nada mas toureava sem esquecer uma única das regras tauromáquicas: sabia não só o que ia fazer mas como iriam reagir os touros. Joselito teve como talvez nenhum outro toureiro a noção do seu terreno e a noção do terreno do inimigo. Um touro matou-o.
Pepe Hillo, o da sábia experiência, e Joselito “O Sábio”, que toureavam sem enganos, ambos mortos nas hastes de touros! E o Manolete, “O Monstro de Cordoba”, o sábio do post-guerra, não diziam que jamais morreria tal o seu conhecimento das regras e das reses?
E Juan Belmonte? Quando apareceu diziam os sevilhanos: “Você viu o Belmonte? Não? Pois apresse-se que, da forma como toureia, não vai viver muito”. Juan Belmonte ainda vive nos dias que correm.(...)
Mas o que é tourear?
O toureio tem a sua explicação matemática no movimento geométrico de uma linha vertical, que é o homem, e de uma linha horizontal, que é o touro. Enquanto a linha vertical usufrui da vantagem de girar sobre si mesma, sobre o mesmo ponto de apoio, a horizontal é obrigada a deslocar-se com maior ou menos amplidão. A possibilidade de tourear reside exatamente na forma como for aproveitando esse tempo que o touro leva a investir contra o homem, e depois, a voltar-se para carregar todo de novo. Todas as outras regras falharão se esta não for levada em conta.
(...) olhar para um touro e saber qual a sua bravura, qual o seu poder, qual a sua rapidez, para que lado investe melhor e como investe; depois saber o que fazer com ele. Muito simples. (...)
O que é tourear?
A lide de um touro começa no momento em que ele entra na arena; a sorte de matar principia no primeiro lanço de capote. Ver como um toureiro, que é um homem, se comporta em face destes dois postulados. Pode dar ao espectador momentos de altíssima alegria ou de raivoso desapontamento, mas nunca deixará de comovê-lo.
O toureiro a pisar uma praça de touros tem de dominar dois inimigos: o medo e o touro. O primeiro é bem mais importante que o segundo. (...)
Por que Bombila no ocaso de sua carreira nunca recusou o risco de competir com Joselito, jovem naquela época? Por que Guerrita nunca voltou a cara a Espartero ou a Reverte? Por que Manolete, naquela tarde em Liñares, foi morrer na cabeça de um touro? Não o havia avisado o seu peão de confiança que o inimigo investia mal daquele lado? E quem respondeu: “Yo lo sé, pero hay que matarlo”? (...)
Gregorio Corrochano, um dos mayores críticos de touros vivos, escreveu um livro admirável em cujo último capítulo se podem ler as seguintes palavras: “O que é tourear? Eu não sei. Acreditava que Joselito soubesse e vi como foi morto por um touro”.(...)
O que é tourear?

1 comentário:

Anónimo disse...

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