21/05/04

TRATADO TAURINO, parte 2, por RicardoChibanga

“- Exmª Srª Procuradora tem V. Exª a palavra para Alegações – disse o Meritíssimo Juiz para a Digna Representante do Ministério Público.
- Exmº Sr. Dr. Juíz, em face do exercício do Direito ao Silêncio Absoluto por parte do Arguido e da contradição insanável entre as duas únicas testemunhas da Ofendida, ficamos com algumas dúvidas sobre o ocorrido, pelo que V. Exª fará a devida e habitual Justiça absolvendo o Arguido.
Miséria, pensei eu, Porca Miséria, quando a gaja do Mº Pº pede a absolvição deste gajo já estou perdido, que raio de merda, que estes dois vacões se tenham contradito desta maneira. Asnos do caralho, e que raio de pormenor para perder este processo, saber se a Ofendida trazia ou não, os sacos de compras na mão. E o sacana do velho ali está, todo impante, boca calada, nervoso graúdo, mas um ar de gozo filho da puta. Talvez te fodas, ó cabrão, pensei eu e olhei fixamente pró animal. A besta aguentou o olhar - sem qualquer ponta de remorso pelo biqueiro que dois anos antes, tinha pregado na minha cliente – e voltou a cruzar as pernas. Talvez te fodas...
- Tem o Sr. Dr. Ricardo a palavra para Alegações.
- Excelentíssimo Sr. Dr. Juíz, os meus respeitosos cumprimentos a V: Exª, extensíveis à Digníssima Srª Procuradora, ao meu Ilustre Colega e demais pessoas presentes, sendo que nestas Alegações serei muito curto e breve, cumprindo-me apenas chamar a atenção de V. Exª para a atitude do Arguido, que paralelamente ao pleno exercício do seu Direito ao Silêncio, ali permaneceu sempre naquele banco e neste Julgamento, como agora está e sempre esteve, de perna cruzada demonstrando um profundo desprezo por este Douto Tribunal...
O Arguido, remexe-se no banco e descruza de imediato as pernas, mas azar, de pernas paralelas não sabe o que há-de fazer às mãos e enfia uma no bolso,
- ...numa atitude de grande gozo que tudo isto lhe dá, a pontos de se permitir por inúmeras vezes enfiar as mãos nos bolsos, como o fez agora e de novo, como se estivesse em qualquer tasquelho de copos...
O Arguido retirou de imediato a mãozita do bolso, perdeu o ar de gozo e de olhar furibundo para o autor destas alegações, levanta-se e vocifera, berra mesmo: "Que não é assim, que nada fez..."
No que é interrompido, de imediato por este alegante, que virando-lhe as costas e virando-se para o Juíz, alega...
- Permita-me V. Exª Mº Juíz, que me sente e assim termine estas minhas alegações, uma vez que o Arguido me tomou a palavra e parece querer esclarecer este Tribunal. Muito obriga...
Não terminou a frase o ora alegante. O Arguido picado e picado a ferros, saltava de novo no banco como se sentado sobre brasas e, espumando raiva e suor, vociferou pró Juiz a inocência que não tinha...
- Ó Xotôr Juíz, eu não fiz nada e não sou nada como diz ali aquele advogado...
- Ó Sr. Simões acalme-se lá, que o Sr. aqui não levanta a voz, para quem esteve calado todo o julgamento já está a falar demais, é que o Sr. não pode interromper nem responder às Alegações do Sr. Dr, mas se quer falar sobre os factos e o que se passou fale...
E o animal do Sr. Simões rubro de calor e desespero, nem ligou à gesticulação desesperada do seu advogado de defesa, e contente por lhe ser dada a palavra desatou a falar. A falar e a confessar que de facto deu um pontapé na Srª mas que não foi como ela disse, nem lhe doeu nada, nem lhe ficou marca e os outros são uns mentirosos que nada se passou assim, etc e tal, numa confissão clara e sincera, provando mais uma vez que não há touros mansos e que qualquer um marra e investe desde que devidamente lidado.

Sem comentários: