09/06/04

As Músicas do Porco. Jumpin Jack Flash, por Jacinto *

Eu sei que já é a segunda música dos Stones que indico aqui, mas esta é mesmo incontornável. Se eu tivesse que escolher a música que melhor simboliza uma estética – a do Rock – , era esta. Jumpin Jack Flash, e não Satisfaction, por exemplo. JJ Flash é a música mais enérgica da história, uma explosão atómica em pleno paleolítico inferior. Quando a ouvi pela primeira vez, na versão do Love You Live , num deckzito oferecido pelos meus pais, eu vi uma luz e transformei-me no Jacinto para o resto da vida.

A música marca o fim de um equívoco na carreira dos Stones. Sucede-se ao álbum psicadélico, Their Satanic Majesties Request (1977), uma resposta bastarda ao conceptualismo de Sgt. Peppers, dos Beatles. Their Satanic é um álbum muito marcado pelo funesto Brian Jones: de inspiração orientalista, conteúdos de ficção científica (2000 Light Yearts From Home, In Another Land…) e uma profusão de instrumentos musicais pouco típicos nos Stones, como cítaras, tímbalos, e teclas em excesso… Na fase Their Satanic, os Stones vestiam-se às cores, como hippies apalhaçados acabados de chegar de S. Francisco. Não é um mau álbum, mas não é este O Caminho da banda.

Jumpin sai em single em 1968 e não num álbum de originais (o álbum desse ano é o seminal Beggars Banquet que tem, contudo, uma música que bebe da mesma fonte, Street Fighting Man). É uma canção básica («The most basic thing we have done this time», dirá sir Mick Jagger), uma cascata de riffs e de electricidade em catadupa. O som é caótico, freack, maravilhosamente desengonçado e primitivo – a referência aos Velvet Underground é notória.

O vídeo promocional, feito na altura, também rompe com a imagem pop e psicadélica das fases anteriores. A banda aparece diluída num fundo escuro, com pinturas de guerra, pose agressiva e atitude andrógina. Jagger salta como um desalmado na sua melhor forma de sempre. Os Stones assumem definitivamente a sua marginalidade intrínseca. O vídeo é a perfeita ilustração da nova energia da banda. Richards define esta fúria como ninguém:

«When i play that first riff in jjflash something happens on my stomach – an amazing superhuman feeling. You just jump on that riff. And IT PLAYS YOU».

E foi isso que eu senti no Monte do Gozo em Santiago de Compostela quando soaram os primeiros acordes de jjflash, a abrir o concerto. Alguma coisa me tocava de novo, muitos anos depois da luz que me transformara no Jacinto. Geralmente a canção é deixada para a parte final dos concertos ou para os encores. Em Santiago foi a abertura e eu senti a tal explosão, um verdadeiro murro no estômago que me atingiu durante duas horas. O Guaraná estava comigo e pode testemunhar que eu não consegui parar mais.

Há dezenas de versões da música – incluindo as bootlegs - e, poucos são os álbuns ao vivo, vídeos ou dvds em que ela não aparece. Curiosamente, uma das versões mais populares, haveria de surgir no primeiro álbum ao vivo oficial dos Stones, Get Year Ya Ya`s Out de 1969. Por mim ainda prefiro a velhinha primeira versão de estúdio e não me toca especialmente a versão mais acelerada, que aparece sobretudo nos álbuns ao vivo dos anos 80. JJFlash não retira a sua força da velocidade. Pelo contrário, a versão mais lenta, a original, torna os riffs mais poderosos e a tensão mais nervosa.

No mítico concerto de Coimbra, jjFlash fechou o espectáculo. A abertura foi Brown Sugar, outros dos grandes clássicos que se lhe aproxima em energia. Eu nunca mais me esqueço da cara de espanto do Mangas, pouco depois de soarem os primeiros acordes, a olhar fixamente para o ar furioso de Richards e o jingar felino de jagger: «São animais de palco, mene, olha-me isto» - dizia ele. E são: Jumpin Jack Flash, it`s a gas, gas, gas….

* Pastor. Recentemente canonizado.

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