02/06/04

Baía dos Tigres: Literatura de Verdade, por Fernão

Baía do Tigres foi publicado em 1999 pela D.Quixote. Desde então já lá vão 6 ou 7 edições. O seu autor, Pedro Rosa Mendes, à altura jornalista do Público e viajante por vocação («O viajante é o contrário do turista», escreveu Paul Bowles), resolveu concretizar um projecto mais ou menos louco. Propôs-se fazer de novo o Mapa Cor de Rosa, isto é, o trajecto costa a costa, de Angola a Moçambique, realizado há um século pelos exploradores portugueses Capelo e Ivens. Propôs-se fazer o mesmo e sem batota, ou seja, deslocando-se nas mesmas condições das populações locais. Durante meses, um pequeno Ivens atravessou África, enchendo blocos de notas e arriscando o pêlo em campos de minas do tamanho de países europeus ou em zoológicos humanos dirigidos por generais sanguinários. Quando voltou, vivo!, fechou-se em casa e escreveu o livro. O resultado foi brilhante e surpreendente.

Baía dos Tigres mudou a vida do seu autor – o livro ganhou vários prémios, foi considerado um acontecimento literário, traduzido e publicado em Inglaterra, EUA, França, Espanha, Itália, Alemanha, Brasil, entre outros países… O que é interessante neste neo-clássico da literatura de viagens é que as histórias que nele são contadas - não excluindo a hipótese de serem também ficcionadas - são essencialmente verdadeiras. O leitor é convidado, tacitamente, a partir de um pacto inicial com o autor: ele, o leitor, deve acreditar no autor. Deve acreditar que ele não esteve fechado num Bolama qualquer, rodeado de palmeiras e nativas a ouvir histórias e a passá-las ao papel.

Esta tensão, que a todo o momento se estabelece entre o vivido e o ficcional, – é verdade ou é “mentira”? - é um dos aspectos mais interessantes do livro. É, por assim dizer, o seu condimento. Digo bem: o condimento. Baía dos Tigres poderia ser o mesmo livro se fosse completamente inventado, mas faltar-lhe-ia o sal e a pimenta que a Verdade lhe dá. Foi temperado com doses massiças de Verdade e é essa componente «realista» que lhe dá dimensão. Quem aceita o tal pacto, como eu, não pode deixar de pensar constantemente: “Mas isto acontece(u) mesmo!”, “Como é que ele se safou desta? (dos crocodilos, dos hipopótamos, dos cães da baía, da unita, do mpla...)», “ Que será feito desta gente? Dos militares idiotas, do homem calendário, do velho Norton, do Quim, que inventou uma língua chamada «quinês», dos ciborgues das minas , etc, etc?»…

Imagino que quem lê o livro numa perspectiva meramente formalista – análise estilística, métrica certa, essas coisas – não lhe consiga captar toda a beleza (e crueza). Falta-lhe o tal pacto de verdade que faz de Baía dos Tigres um análogo da literatura religiosa. Neste sentido: é também uma questão de fé. A Bíblia seria o maior best seller da história se não se presumisse – pelo menos da parte dos crentes – que ela revela uma verdade, a Verdade? Obviamente que não. Por maior que seja o seu valor literário, o que faz a sua eternidade é a sua pretensão de Verdade. Baía dos Tigres tem um pequenino lado Bibliófilo, neste aspecto - na verdadeira literatura de viagens, como esta, o elemento religioso está sempre presente..

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