19/06/04

O Terceiro Homem, por Mangas

Esta é a história não apenas de um filme, mas de todo um momento incontornável da História do séc. XX. Capturando com uma precisão documental o aspecto e o sentimento de uma Viena flagelada pela Guerra, O Terceiro Homem (1949) de Carol Reed, pode ser considerado pela sua inteligência narrativa, o primeiro filme característico da ideologia da “guerra fria”, servindo de forma hábil, a atitude ocidental face ao ex-aliado, nesses anos já mais do que potencial inimigo. Filmado em grande parte nas ruas bombardeadas de Viena no pós-guerra, The Third Man é um filme que começa e acaba num cemitério e tem uma sequência decisiva nos esgotos. Mas nada disto acontece por acaso: na cidade cercada, são os mortos que reinam, sejam eles verdadeiros ou falsos, e a merda substitui as valsas, num Danúbio que já foi azul. Esteticamente complexo, Reed raramente filma uma cena em que existam apenas ângulos lineares. O recurso a grandes angulares e perspectivas distorcidas, os enquadramentos oblíquos, o uso repetido de grandes planos insólitos sobre Orson Welles, a par da luz minimalista, das sombras fantasmagóricas nas calçadas de pedra com arcos suspensos, definem por excelência o film-noir e, na sua insólita desproporção formal, erguem um monumento à glória de um cenário: jamais Viena foi mais onírica e letal do que neste filme. Tal não será completamente alheio ao facto de terem sido reunidas no projecto várias escolas e sensibilidades artísticas. Na cidade de 4 zonas, é um filme de 4 zonas: Carol Reed e Graham Greene que escreveu o argumento são ingleses; Vincent Korda, é austro-hungaro e empresta uma portentosa direcção artística própria de um homem dependente da cultura centro-europeia e que conhece Viena como ninguém; Robert Krasker o director de fotografia é um digno herdeiro da escola alemã dos anos 20; Joseph Cotten e Orson Welles são americanos. No conjunto, o poderoso argumento de Graham Greene, a fotografia de Robert Krasker, a prestação dos actores e a realização de Reed, compõem uma magistral observação à tensão entre a lealdade, o amor e a amizade por um lado, e a verdade e justiça por outro. Os vienenses sufocam com o cinismo de um continente destruído e de uma cultura gravemente danificada; os ingleses apenas conhecem o lado da verdade / justiça da equação; o escritor americano de ficção pulp e westerns é suficiente ingénuo para acreditar apenas na amizade e na verdade. Completamente perdido no mundo daquela cultura, segue ambas para qualquer lado e nada entende dos valores que estão em causa. Humano, sinistro, solitário, mas sobretudo ambíguo e capaz de matar o amante da mulher por quem, de forma impotente, se apaixonou e que um dia lhe dedicou uma lágrima. É “Mr. Martins from the other side”, o percursor do Americano Tranquilo do mesmo Graham Greene. A música da cítara de Anton Karas completa o quadro. Karas, um cigano que não sabia uma nota de música e que depois do filme se tornou famoso e ganhou imenso dinheiro, foi descoberto num pouco recomendável bar nocturno de Viena e contratado em cima da hora a fim de compor e executar o fundo musical do filme. O resultado é uma fusão perfeita entre as imagens a preto e branco e a cítara de Karas, realçando o belo perturbador no seu todo.

Orson Welles. Para além dos rumores que correram segundo o qual teria sido ele a dar uma mão na realização de Reed e na composição do seu personagem, (nem confirmados, nem desmentidos oficialmente pelo vaidoso Orson Welles), este tem uma curta aparição de apenas alguns minutos no filme, porém poucos actores fizeram melhor uso de tão escasso tempo de ecrã como nesse instante. Genial, shakespeareano, presença enorme e absoluta, interpreta o infame, individualista e psicopático Harry Lime. Num cena única, - filmada no interior de uma roda gigante – Lime, que até então tinha encenado a sua própria morte para iludir polícia, tenta convencer o seu velho amigo, e muito possivelmente o seu novo inimigo, Holly Martins (Joseph Cotton), a trabalhar consigo no mercado negro da cidade militarmente dividida. O seu adeus, - improvisado por Welles – é um dos mais memoráveis momentos conseguidos em cinema.

Harry Lime: É bom ver-te, Holly.
Holly Martins: Estive no teu funeral
Lime: Foi uma jogada esperta, não foi? Ah, a velha indigestão, Holly. Estas são as únicas coisas que ajudam, estes comprimidos. São os últimos. Não os consegues encontrar em mais nenhuma parte na Europa.
Martins: Sabes o que aconteceu à Anna? Foi presa.
Lime: Duro, muito duro, mas não te preocupes. Eles não lhe vão fazer mal.
Martins: Eles vão entregá-la aos Russos.
Lime: Mas que posso eu fazer, velho amigo? Estou morto, não estou!?
(...)
Martins: Por acaso já viste alguma das tuas vitimas?
Lime: (Olhando para a roda gigante) - Sabes, nunca me senti confortável com esse tipo de coisas. Vitimas? Não sejas melodramático. (Acenando para as pessoas lá em baixo.) Olha lá para baixo. Serias realmente capaz de sentir alguma pena se algum daquele pontos negros parasse de se mover para sempre? Se te oferecesse 20.000 libras por cada ponto imobilizado, serias capaz, meu velho, de me dizer para ficar com o meu dinheiro, ou irias calcular quantos pontos te poderias dar ao luxo de dispensar? Livre de impostos, meu velho. Livre de impostos. É a única maneira de se fazer dinheiro hoje em dia.
(...)
Lime: Eu tenho uma arma. Não penses que eles iriam procurar o buraco de uma bala depois de bateres contra o chão lá em baixo.
Martins: Mas eles iriam desenterrar o teu caixão.
Lime: Pra encontrar o Harbin? Hum-hum. (Batendo paternalmente no ombro de Martins.) Que pena... Holly, que loucos nós somos, a falarmos um com o outro desta forma, como se eu fosse capaz de te fazer alguma coisa, ou tu a mim. Tu estás apenas um pouco confuso com as algumas coisas em geral. Ninguém pensa em termos de seres humanos. Se os governos não pensam, porque haveríamos nós de o fazer? Falam sobre o povo e o proletariado, eu falo sobre os que mamam e os trouxas! É precisamente a mesma coisa. Ele têm os seus planos de 5 anos, e eu tenho o meu!
Martins: Tu costumavas acreditar em Deus.
Lime: Oh, eu ainda acredito em Deus, meu velho. Acredito em Deus, na misericórdia e em tudo o resto. Mas os mortos são mais felizes mortos. Não perdem grande coisa aqui, os pobres diabos. Em que é que tu acreditas? (A roda gigante pára no solo e ambos saem.) Oh, se alguma vez conseguires sacar a Anna desta trapalhada, sê bom para ela. Vais perceber que ela merece. Eu gostava de te ter pedido para me trazeres alguns destes comprimidos lá de casa. E gostaria também de te meter dentro do negócio, meu velho. Não resta ninguém em Viena em quem possa confiar e sempre fizemos tudo juntos. Quando te decidires manda-me uma mensagem. Encontrar-me-ei contigo em qualquer lugar, a qualquer hora, e quando nos encontrarmos, meu velho, é a ti que eu quero ver, não a polícia. Vais lembrar-te disso, não vais? (Sorrindo) E não estejas tão deprimido. Apesar de tudo, não é assim tão mau. Lembra-te o que aquele tipo disse: em Itália, durante 30 anos sob o jugo dos Borgias, tiveram um estado de guerra, terror, assassínio, sangue derramado, mas produziram Leonardo da Vinci e o Renascimento. E na Suiça tiveram amor fraterno em 500 anos de democracia e paz, mas o que é que eles produziram? O relógio de cuco! Até sempre, Holly.

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