27/06/04

Vertigo, de Alfred Hitchcock, por Mangas

Vertigo é dedicado ao sonho de ressuscitar os mortos. Este sonho ou desejo é alimentado através da possibilidade sobrenatural de reencarnação de uma mulher, Carlota Valdes que se sublima pela possessão de outra e mesma mulher, Madeleine, sendo posteriormente exposto como o mero plano de um crime elaborado. O preservar desse efeito apaixonado e febril, hipnótico e obsessivo carece do poder absoluto dos sonhos, das palavras, histórias e imagens retidas na memória. É o ultimo e mais poderoso recurso para trazer de volta a mulher amada. Scottie Ferguson (James Stewart), é vítima do seu fascínio por Madeleine Elster (Kim Novak), uma mulher assombrada por um fantasma, e que pode ela mesma ser um também um fantasma. Este amor/obsessão agudiza-se com a acumulação de episódios traumatizantes pelos quais Scottie não consegue deixar de se sentir culpado. Inevitavelmente empurrado a reencontrar o objecto da sua devoção compulsiva, Scottie procura, a todo o custo, fabricar a partir de Judy Barton (Novak outra vez), a sua alma gémea/imagem dupla perdida para sempre. A divinal sequência deste momento é carregada do mais simbólico erotismo, definida por Hitchcock como "striptease invertido", já que Scottie se aproxima da consumação dos seus desejos à medida que a veste e maquilha.

Vertigo é a história de amor gótico entre um detective e a morte. Cada vez que revejo Vertigo, há sempre algo novo que descubro e algo latente que me escapa, mas a sua força vital gira, do princípio ao fim do filme, no simbolismo sempre presente, na atmosfera surreal do que é mostrado e do que é escondido, na estrutura do enredo reforçada por referências constantes ao passado misterioso de uma mulher ou à sua imagem omnipresente. Nunca a obsessão foi tão poderosa. A fobia/vertigem que atormenta Scottie e todos as representações visuais de queda/abismo são, não apenas, elementos fundamentais na compreensão dos medos paralisantes, mas também e como que em simultâneo, uma terrível atracção pelo desejo de falhar/cair, de forma a libertar-se para sempre dos demónios que o possuem e da luta interior que com eles trava. À estrutura inovadora para a época, Hitchcock adiciona uma concepção técnica brilhante que permite ao espectador sentir na pele de Scottie a sensação de vertigem: planos elevados em pontos chave, “zoom in” e “zoom out” contrariando essa direcção com o movimento da câmara, a forma das escadas da torre, as veredas do cemitério ou os anéis das sequoias. Outro aspecto que não deve ser esquecido é a típica tradição Hitchcockiana de dar a conhecer ao espectador a estrutura do crime, porém, em Vertigo, ela é-nos revelada a meio do filme. O conceito é tão simples quanto brilhante e foi explicado pelo próprio Hitchcock: longe de destruir o suspense final, este recurso explora o choque e reforça a atenção do espectador para os futuros comportamentos e reacções de Scottie e Judy. O suspense cresce e a revelação definitiva virá no final. É a cereja no cimo do bolo.

Vertigo é um filme em que as cores são muito mais do que meros elementos de cena. Talvez porque as sequoias significam “sempre verde, perene”. Hitchcock nas célebres entrevistas a Truffaut, disse que pôs Judy a viver no Hotel Empire porque este tinha um enorme letreiro verde em néon. Desde o interior do quarto de Judy, todo o espaço sufoca com aquela luz verde, filtrada por finas cortinas. Quando Judy sai da casa de banho, completando a sua transformação visual em Madeleine, surge banhada num verde suave, quase surreal. A realidade e a fantasia fundem-se uma vez mais. Na prodigiosa cena do beijo a Judy/Madeleine, a câmara descreve 360º, um círculo estonteante – vertiginoso – à volta de ambos e o mundo em redor explode de verde, a cor do renascimento, da vida e do crescimento. O perturbante regresso à Missão é carregado de azul e o vermelho celebra o primeiro encontro entre ambos.

Vertigo transborda de paixão e erotismo pela soberba interpretação de Kim Novak. Seria pecado não referir o desempenho de James Stewart, um dos maiores actores de sempre. Camaleão de muitos rostos, o que sempre me fascinou nele foi a facilidade com que compunha cow-boys teimosos com registo grave, determinado e colérico ou heróis de Capra dóceis ou amargos, afável ou irascíveis, espirituoso ou despontados. Em Vertigo, oferece-nos o rosto de uma mente profundamente perturbada. Um tipo dilacerado pela angústia e pelo remorso que paga um preço demasiado caro por uma sanidade incompleta. Mas, de Vertigo, fica-me sobretudo a marca passional e animal de Kim Novak. Muitas poucas actrizes americanas foram tão carnais no ecrã. Com Madeleine e Judy, inventou seguramente, uma boa dezena de olhares ora penetrantes, ora distantes, expressões de rosto que alternaram entre o puro classicismo e a atracção sexual da working girl, poses de fragilidade, abandono e aceitação subserviente ao poder do macho como quando Scottie insiste para que mude a cor do cabelo e ela responde: "If I let you change me, will that do it? If I do what you say… will you love me?". Os lábios carmim de Judy, o andar compassado na rua, o cabelo trigueiro e os seios sem soutien estruturados como duas celestiais luas-de-mel em transgressão, transmitem em definitivo, uma carga erótica e uma inebriante sensualidade como eu nunca mais vi no cinema.

É complicado escolher uma cena ou sequência de Vertigo. São tantas e tão belas. A minha favorita é um sequência curta onde Scottie vê Madeleine pela primeira vez. A câmara atenta e a música revelam o que qualquer diálogo poderia arruinar. Num restaurante de fundo vermelho sanguíneo (o local ideal para fazer nascer uma obsessão romântica, rodeada de letreiros de aviso, vermelhos e luminosos), Scottie sentado ao balcão, observa pelo canto do olho a mesa do fundo. A câmara abandona-o e lentamente, sobrevoa a sala de jantar, a música sobe de tom, até se deter na mesa do canto, onde está Madeleine sentada com o seu marido, as costas descobertas, o loiro do cabelo contrastando com o fundo garrido do cenário. Madeleine levanta-se, vira-se na nossa direcção, a música cresce, e faz a sua entrada por uma porta, vestindo uma estola verde carregado. Scottie disfarça a perturbação quando Madeleine se detém ao seu lado, de perfil, como um estátua viva, misteriosa, bela, frágil e intocável. A música explode numa expressão perfeita das emoções à flor da pele que qualquer palavra jamais poderia descrever. Antes de partir, Madeleine ainda nos oferece, a todos nós os Scotties que por um instante sustivemos a respiração na sua presença, um olhar de soslaio, tímido, a rasar o chão. Depois volta-se e desaparece. É uma sequência prodigiosa de voyeurismo próximo, encantamento, requinte, e charme feminino. Uma obra de arte em três dimensões: musical, visual e sensorial.

Vertigo é uma obra prima profundamente rica de significado, análises e contemplações, onde o caos e a eternidade, a realidade e os sonhos são aspectos naturais da vida. Cada fotograma, cada diálogo, cada cena ou sequência de cenas. Desde a fabulosa sequência do título de Saul Bass (que faz um trabalho igualmente brilhante em Anatomia de um Crime de Otto Preminger), passando pela inquietante e esmagadora orquestração de Bernard Hermann. Não resisto a citar o grande mestre destas coisas João Benárd da Costa que a propósito de Vertigo escreveu: «Que pode o mundo das Sequoias Semprevivas, das raízes, da duração e do tempo, contra o mundo das aparições, do mar do primeiro beijo, das imagens, do que sempre escapa, escorre e flui? Que pode Judy contra Madeleine, ou Madeleine contra Carlota Valdes? Que pode o real contra o cinema? Vertigo, apenas.»

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