06/07/04

As Capas dos Meus LPs, por Undercover


As capas de discos sempre me fascinaram. Considero a arte do cover uma verdadeira forma de expressão artística, e se tivesse um mínimo de jeito para decoração, forrava o meu escritório com algumas das minhas capas preferidas. Gosto do minimalismo elegante de Beggars Banquet (a versão de resposta à retrete censurada pela Decca), de The White Album (Beatles) ou de Fear of Music (Talking Heads).

Gramo os trabalhos do Andy Warhol para os Velvet ou para os Stones ( Love You Live , por exemplo). Acho incontornável a capa mítica do Sgt Peppers e as pastiches sequentes de Zappa (We're Only in It for the Money) e de outros freaks menores como Jun Fukamachi (Eletronic Version of Sgt Peppers) ou Tijuana in Blue.

Gosto da estética «jornalística» que une bandas aparentemente tão díspares como Jethro Tull (Thick As A Brick), Plastic Ono Band (Sometime In New York City) ou Tom Waits (Tom Waits - Heartattack and Vine).

É verdade que o gosto pelas capas está muito ligado ao gosto pelos músicos e pelas músicas que elas apresentam. No fundo é uma mesma estética que se trata de apreciar, uma espécie de prolongamento gráfico da música. Isso acontece claramente em grupos como os crípticos Pink Floyd , como os místicos Led Zeppelin ou como os violentos The Clash. As capas destes grupos, de um modo geral, têm personalidade, são ícones das bandas e da sua estética musical.

Admito, porém, que haja óptimas capas de bandas completamente irrelevantes ou simplesmente mazinhas. Assim como há capas de discos de grupos geniais que são autênticas bostas – por falar nisso, já repararam na falta de cuidado com que os grandes monstros do Jazz trataram as capas dos seus discos nos primórdios? Quando o Rock produzia excelentes covers, nos anos 60, os discos do Miles, do Coltrane e do Monk tinham as fronhas dos gajos (felizmente a coisa avançou e hoje, para nos mantermos no jazz, o catálogo ECM está na vanguarda do bom gosto).

Mas de um modo geral, creio que o que torna as capas de discos verdadeiras obras de arte é o facto delas reflectirem uma estética personalizada que encontramos na música, na atitude da banda e no contexto mais alargado da cultura de referência dos músicos. Através dos covers, prolongamos o nosso gosto por aquela banda, por aquela música ou por aquele movimento.

No entanto, qualquer coisa se perdeu, nos últimos tempos, devido à evolução tecnológica. Do ponto de vista da arte do «cover», o CD foi um verdadeiro retrocesso. O velho LP exigia um formato que aproximava a capa da pintura clássica, do quadro emoldurado que podemos expor na parede da sala ou do museu. A Gioconda até é mais pequena e é o que se sabe… O CD, pelo contrário retira a «aura» de grande arte à capa de disco, miniaturiza-a, torna impossível a leitura do pormenor… Já viram a capa do Sticky Fingers, concebida em 1970 pelo Andy Warhol para os Stones, em versão CD? No LP original a breguilha era real, com um zip a sério, não era um desenho… Aquilo não resulta em CD e não desperta, como o original, a curiosidade de meninas (e meninos) abelhudas que puxavam o zip pra ver se havia alguma coisa lá dentro!

Noutros casos a redução da escala é simplesmente mortal: a capa de Never mind the bollocks ... dos Pistols, com as suas «letras de sequestro» e aquelas cores inimigas, necessita de escala para se aproximar da força do grupo. Mas é completamente insonsa na escala CD, um ténue vestígio da intenção inicial. Os Cds acabaram com a imponência dos covers, são uma espécie de Lilliput estético. É como se agora algum génio brincalhão decidisse reduzir à escala de brinquedo o Pártenon, a Catedral de Milan ou o Gugenheim…

De resto, com a panóplia do marketing e de todas as novas tecnologias da comunicação, os covers já nem sequer têm um lugar de destaque na estética das bandas. Com a net pirataria até se passa por cima das capas. Eu, por exemplo, só conheci a capa do disco dos Zero Seven, muito depois de os ouvir. E com os N.E.R.D., The Strokes, White Stripes e The Vines passou-se a mesma coisa. Ainda agora, ando a ouvir Franz Ferdinand e nem conheço a capa!

Dá-se mais importância aos vídeos, por exemplo. Os vídeos são um novo caminho e eu não vou dizer que são melhores ou piores que os velhos covers. Mas que sinto algumas saudades das capas genuínas dos LPs, quando uma imagem fixa, era um dos poucos, senão o único indício visual da música que se ouvia, lá isso é verdade. Deve ser por essa razão que ainda guardo religiosamente as minhas capas de LPs. Os discos, já não ouço, jazem lá dentro, definitivamente riscados. Deus os guarde. Mas as capas, essas permanecem intactas, protegidas cuidadosamente por plásticos transparentes que eu comprava na Nova Almedina e que eram verdadeiras capas das capas. Como dizia uma canção dos Buggles, Vídeo Killed the Radio Stars. E as capas, digo eu…

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