15/07/04

A Bola de Beckham, por Bibbó Pito

A história começou quando a imprensa identificou o felizardo espectador que guardou a bola atirada por Beckham para as bancadas na sequência do penaltie disparatado que este acabara de apontar no jogo dos quartos de final contra a selecção portuguesa. Foi só mais um penaltie falhado por Beckham, mas neste a bola foi guardada (indevidamente?, pode perguntar-se…) por um espectador devidamente identificado.
Alguns dias depois, o novo proprietário da bola chutada por David, um galego queixoso que se lamenta de nunca lhe ter saído a lotaria, recebe um proposta de 18.000 euros para a compra da bola fatídica. O vivaço recusou e colocou a bola autenticada à venda num site da Internet. Ontem a última oferta estava em 2 milhões de euros e eu pensei que o mundo está louco! Hoje a oferta mais alta chegou aos 10 milhões de euros («mais despesas de envio»!!!!) e eu penso que eu é que enlouqueci de vez!

Como é que ainda nos admiramos quando um quadro de Vermeer bate recordes na Sothebys? Ainda há quem se espante com os preços astronómicos de uns rabiscos de Picasso desenhados num guardanapo de um restaurante? Tudo aquilo que me parecia absurdo no estapafúrdio mercado da arte, parece-me agora, afinal, um pouco menos absurdo. Ao pé da bola do Beckham – que nem sequer é um jogador de futebol de excelência, mas, essencialmente, um gajo pintarolas -, as famosas caixas de merda do Manzoni parecem valer o que os leiloeiros pedem por elas.

Este caso é um sinal dos tempos. Uma marca do vazio. Com este episódio, inauguramos uma nova era em que o culto da irrelevância e da futilidade atinge o seu apogeu. Já temos apresentadores de TV – modelos, jogadores-vedetas de paserelles, actores-manequins, até primeiros ministros-cromos de revistas sociais. Entretanto, as personalidades verdadeiramente importantes dos nossos tempos, são pura e simplesmente ignoradas e atropeladas pelo império dos simulacros que nos vendem.
Se continuarmos assim, um destes dias eu abandono a minha profissão e dedico o resto da minha vida a angariar objectos tocados («o toque» tem, de resto,uma ressonância vagamente mítica) por personagens importantes do nosso tempo. Com um bocado de sorte pode ser que eu consiga apanhar um resto de baton da Lili Caneças, uma pirisca fumada pelo Paulo Pires ou, com um bocado de sorte, um bronzeador vazio largado na praia da Figueira pelo nosso novo primeiro-ministro. Talvez então, eu arranje uns trocados para fazer aquela operação plástica com que sempre sonhei e me torne, enfim, uma pessoa verdadeiramente importante.

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