29/07/04

E No Entanto, Ela Move-se ?, por VacaDeFundo

“(...) suspenso todo o tempo sobre um nada sem solução, esta vez e outra vez ainda, sempre para nada, entretanto, ah! não poder renascer outra vez para nada e entretanto, para além de tudo o que se pode suportar, mais alto, mais alto, mais alto e para nada. De súbito, deslumbramento, beatitude, tudo o que era sombrio e negativo desapareceu, o tempo absolutamente imóvel; estavam os dois juntos, o tempo suspenso e sentia a terra estremecer e esvair-se sobre os seus corpos.
(...)
- Oh! – exclamou Maria. –Eu morro de cada vez. Tu não morres também?
- Não. Mas quase. Sentes a terra mover-se?
- Sim, quando morro. Põe o braço à minha volta, por favor.
(...)
- Era um prazer, mas não era nada que se comparasse.
- Então a terra não se movia? A terra moveu-se alguma vez com as outras?
- Não. É verdade, nunca.”


Como já perceberam este casalinho sentiu a terra a mover-se e isso nada teve a ver com o Galileu. Estes pequenos extractos pertencem ao livro POR QUEM OS SINOS DOBRAM do Ernest Hemingway que acabei de reler, sendo que o Hemingway engendra um capítulo inteiro à volta desta movedura romântica da terra.

Acontece que esta expressão romântica do “sentir a terra a mover-se” é uma coisa quase corriqueira em muitos filmes, livros e até telenovelas. Entrou mesmo no nosso paleio comum e internacional. Tal expressão e suas similares, tornaram-se sinónimo de grande intensidade amorosa e símbolo do expoente romântico. E fiquei curioso sobre a origem da coisa.

Este livro do Hemingway é de 1940, sendo que em nenhum dos outros livros dele, que tenha lido, aparece tal coisa ou sequer semelhante. Nada no Adeus às Armas, nem no Fiesta ou sequer no Paris é Uma Festa. Mas já tropecei em milhentas destas expressões em filmes e livros de produção posterior a 1940.

Fiquei admirado e fiquei na dúvida, se esta expressão romântica, é criação original do Hemingway, ou se o homem além dos Daiquiris do Floridita, foi beber isto a algum lado. Quem souber, que ponha os Sinos a Dobrar.

 
“E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por TI.”

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