17/07/04

ELES COMEM TUDO..., por LanternaDeAristóteles

Aqui há uns anos tinha por costume passar férias em Aljezur. Mais precisamente na monstruosidade sousa cintrense do Vale da Telha. Uma urbanização turístico ventosa, a meio caminho entre um cenário mad max e jacques tati. Mas a coisa era, e é, servida por três das melhores praias portuguesas. Enevoadas pró bronze e horríveis para tomar banho, só possível a adeptos de emoções e braços fortes, estas praias contudo,  regurgitam de bicharada. A braveza marítima  e o crescimento da miúda tornou a coisa incompatível e fomos obrigados a sotaventar por alturas monte gordas.
Mas sempre tive pena da Bicharada.
 
E que Bicharada. Na praia da Amoreira e nos rochedos sobranceiros à ribeira que vem da serra de Monchique era um fartar vilanagem de Caranguejos, apanhados à sartela. Madrugando pela noite dentro, até uma Sapateira às vezes se enganava. Azar. Prá panela!
 
Na praia da Arrifana eram mexilhões aos milhões. Eram sacadas diárias para complementar a chupança sôfrega do Caranguejo. E que tamanho meu deus, e o bem que ficavam regadinhos em vinho branco num guisado de forte cebolada.
 
Mas era na praia de Monte Clérigo que criação se esmerava. Na baixa mar e no seu lado sul, esta praia revela um mundo fantástico de quilómetros de rocha esburacada e batida, com uma fauna e uma vida impressionante. A cada passo da sandália há um imediato espadanar da água e uma fuga veloz de algum tipo de criatura. Lapas, burriés, caranguejos, camarão da costa, e milhões de outras coisas que mexem e fogem mas que infelizmente não sei cozinhar. E Percebes meus caros, Percebas lindas, grandes, geladas de tão batidas pelas ondas. E aos milhões. Ali pratiquei selváticamente a minha religião preferida: a Mariscagem. Em dias de especial madrugação e sorte até Polvos consegui arrancar àqueles buracos agrestes e plenos de vida comestível.
 
Mais do que sol ou mar, passei horas infindas a apanhar, limpar e cozinhar Percebes. Arrancados a ferros à rocha negra, são o meu marisco preferido, o único que verdadeiramente sabe a Mar. Frescos da apanha recente e gelados pouco após a cozedura, são uma autêntica explosão de mar na boca. Rebentam-nos na boca como poderosas ondas, e invadem-nos as narinas com a mais sublime maresia. Uma trinca naquelas unhas negras, basálticas e carnudas e o céu da boca transborda de marés vivas.
 
Mas no meio da abundância alambazante, também trago dali uma frustração que me persegue há anos. Nas longas caminhadas pelas rochas de Monte Clérigo em chineleta batida pela onda, sempre marrei e espetei os calcantes nos inúmeros Ouriços-do-Mar. São aos biliões por ali. Nunca os soube comer e apenas tinha uma vaga referência de que a coisa se podia saborear. E só no último ano em que lá estive é que dei com um velho mariscador, com profissionais sacadas de percebas, que diligentemente apanhava Ouriços-do-Mar. Apanhava-os com cuidado para um saco tipo belmiro e lia-se-lhe gulosice na cara.
 
Impus-me ao pé dele, procurei ajudar e como quem não quer a coisa, fui perguntando:
- Ó Mestre, desculpe lá a curiosidade, mas o que é que o senhor faz isto, comé que os cozinha?
O velho olhou de lado, recusou os ouriços que lhe oferecia e resmungou com aspereza:
- Vêm prá aqui aos magotes foder isto tudo...
- Ó migo, diga lá, o que é que come disto?
Como eu fingia não ouvir os resmungos ofensivos e não o largava da interrogação, o velho levantou a cabeçorra e com uma raiva incontida, increspou o vozeirão:
- Bocês bêm prá aqui todos aos magotes, fodem isto tudo, e agora até os mes ouriços querem, ponha-se na alheta antes queu lhe dê uma ganchada, home dum cabreu!
 
Eu bem que chegava pró velho, apesar do gancho da mariscagem, mas a ouriçaria não me luzia ainda no olho e até compreendia o velho no ódio aos magotes que lhe invadiam a vidinha. Virei costas e fui de percebes. Mas a tenacidade e a fúria do velho, ficou-me a roer o miolo e depois dessas férias não descansei na procura do Santo Graal.
 
Hoje, sei que a verdadeira explosão de mar na boca, o tsunami bucal, não se dá com os Percebes, mas sim com os Ouriços-do-Mar. Os Alzejurenses apanham-nos às sacadas de Outubro a Março, e exportam tudo a preço de ourivesaria pró Japão e pra França. Cá não se servem, nem se encontram. Descobri que se podem consumir ao natural ou após cozedura directa e sem qualquer lavagem ou tratamento, durante dois ou três minutos.
 
Investiguei, li e encontrei: “...há que arrancar-lhes das entranhas os órgãos reprodutores, é aí que está a sua excelência. Para alcançar o âmago do animal, é preciso ajeitar uma das mãos em forma de concha de modo a acomodá-lo pela parte espinhosa e com a outra mão segurar uma faca e enfiá-la pela chamada “lanterna de Aristóteles”, a boca. Sem nunca esquecer que a força é, neste caso, o pior dos inimigos, roda-se a faca até partir a carapaça do ouriço em duas partes. No interior, muito bem guardadas, estão uma espécie de línguas de um cor-de-laranja intenso, que não são mais do que as gónadas, as suas glândulas sexuais. Para um devoto dos frutos do mar, o ouriço constitui a síntese de todos os sabores. É mar em estado puro quando se mete à boca e doce à medida que se vai entranhando...”

Tudo isto li, mas jamais os comi. Hoje, acho que tinha ido ao focinho ao velho. Cabrão. Egoísta de merda. E eu que podia tê-los comido aos magotes...

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