12/07/04

A ironia de Velásquez, por DDT

De entre todas as obras de Vélasquez, aquela que podemos apresentar como símbolo da autoridade e da ortodoxia é o retrato do Papa Inocêncio X. O pintor copia o modelo com que Rafael pintou Júlio II, e que será depois retomado e corrompido por Bacon, cujos retratos de Papas e estudos em torno desta tela de Vélasquez são, mais uma vez, um olhar pós-moderno de desencantamento que coloca um ponto final simbólico nas concepções antigas do poder e do Estado, teorizadas na Renascença por Nicolau Maquiavel.

Vélasquez senta o Papa num trono dourado, dando-lhe a expressão de um poder máximo que se diria totalmente anti-giocondesco. É, em tudo, a antítese da Mona Lisa de Leonardo. O olhar é o de um homem imensamente poderoso, convicto da sua autoridade, portador da verdade, arrogante, autoritário e desconfiado. E se o génio de Leonardo se revela no sorriso de Mona Lisa, a ironia, quase cínica de Vélasquez expressa-se, igulamente de forma contida e discreta, mas genial, neste quadro. Sabe-se como o Sumo Pontíficie, peão da política espanhola que o alcandorou à cadeira de S. Pedro como elemento de uma estratégia contra a França de Mazzarino, era um nepotista, fraco de carácter, amancebado e dominado pela cunhada, Olimpia Maidalchini que se reclamaria viúva aquando da sua morte. O que Vélasquez ali pintou é de uma ironia extrema. Juan Bautista Pamfili, tal era o nome de baptismo de Inocêncio, é o contrário do que parece. Ali, naquela tela, está o elogio indirecto dos reis de Espanha, tão grandes que se poderiam ufanar de influenciar as decisões do papado. É de uma ironia extrema o olhar de Inocêncio X que, diz-se, não gostou da obra quando a contemplou acabada em 1650. «Demasiado real», terá afirmado! Pobre Papa, absolutamente irónica foi o resultado das pinceladas de Diego.

A verdade, porém, é que o génio hispânico, submetido à ortodoxia tridentina e ao poder esmagador de Madrid e do Paço do Escurial, dominado pelo culto do dogma e submetido aos valores da autoridade, está condenado ao culto da ironia que Vélasquez já aqui exibe e que atingirá o seu esplendor nas Meninas. Aqui, temos uma cena cortesã, onde a infanta Margarida se torna grande em face de cães amestrados, anões, bajuladores, aias e o pintor. Não é a grandeza da personagem principal que passa à posteridade. Margarida é uma criança, ainda que dada a ares de pequena mulher, arrogante e sabedora do seu estatuto imperial. A grandeza de Margarida é irónica e feita à custa da pequenez e do servilismo dos que a rodeiam. O pintor lá está também. Numa pose ambígua que deriva da sua dupla função de pintor oficial e de crítico. Exibe-se portanto, não como um bajulador oficial, o que seria de esperar de um pintor régio, nem tampouco como um crítico, o que seria inaceitável num pintor régio. A ironia que perpassa de toda a tela é pois a única solução possível. Os bajulados verão grandeza onde está pequenez e ficarão satisfeitos. Vélasquez pinta-se com os ares que farão a pose de Dalí.

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