30/07/04

«Maeeeestro!», by Gabriel García Marquez, por Mangas

“(...) “Reconheci-o subitamente, passeando com a esposa, Mary Welsh, pelo Boulevard Saint Michel, em Paris, num dia da chuvosa primavera de 1957. Caminhava pelo passeio oposto em direcção ao jardim de Luxemburgo, e vestia uns jeans muito usados e uma camisa de xadrez, levando na cabeça uma boina de jogador de pelota. A única coisa que não parecia sua eram as lentes, redondas e minúsculas, montadas sobre uma armação metálica, que lhe davam um ar de avô prematuro. Tinha feito 59 anos, e era enorme e demasiado visível, mas não dava a impressão de força brutal que sem dúvida desejava, porque tinha as ancas estreitas e as pernas um tanto esquálidas sobre o suporte dos pés. Parecia tão vivo entre os mostradores de livros em segunda mão e a torrente juvenil de Sorbonne que era impossível imaginar que faltavam só quatro anos para morrer. Por uma fracção de segundo – como sempre me aconteceu – vi-me dividido entre os meus dois ofícios rivais. Não sabia se devia fazer-lhe uma entrevista, se limitar-me a atravessar a avenida para lhe exprimir a minha admiração sem reservas. Para qualquer destes objectivos havia, porém, o mesmo grosso inconveniente: eu falava por então o mesmo inglês rudimentar que continuei a falar sempre e não estava muito seguro do seu espanhol de toureiro. De maneira que não fiz nenhuma das duas coisas que podiam ter estragado aquele instante, e em vez disso pus as mãos em concha diante da boca, como Tarzan na selva, e gritei de um passeio para o outro: «Maeeeeestro!» Ernest Hemingway percebeu que não podia haver outro mestre entre a multidão de estudantes e voltou-se com a mão no ar e gritou-me em castelhano com uma voz um bocado pueril: «Adiooós, amigo.» Foi a única vez que o vi.

Eu era nessa altura um jornalista de 28 anos, com um romance publicado e um prémio literário na Colômbia, mas estava encalhado e sem rumo em Paris. Os meus dois mestres maiores eram os dois romancistas norte-americanos que pareciam ter menos coisas em comum. (...) Um deles era William Faulkner. (...) O outro era aquele homem efémero que acabava de dizer-me adeus do passeio oposto e me tinha deixado a impressão de que alguma coisa sucedera na minha vida, e sucedera para sempre. (...)

Quando se consegue desmontar uma página de Faulkner tem-se a impressão de que sobram molas e parafusos, e que será impossível repô-la no estado original Hemingway, pelo contrário, com menos inspiração, com menos paixão e menos loucura, mas com um rigor lúcido, deixava parafusos à vista, como nos caminhos de ferro. Talvez por isso Faulkner é um escritor que teve muito a ver com a minha alma, mas Hemingway é o que mais teve a ver com o meu ofício. (...) Toda a obra de Hemingway demonstra que o seu fôlego era genial, embora de curta duração. (...)”

Sem comentários: