05/07/04

O Jogo Eterno, por Camões Alves

Há duas famílias opostas na história do futebol: a família das equipas que praticam o jogo, querendo ganhar e a das que o praticam para não perder. À primeira família pertencem equipas como o Brasil tri campeão dos décadas de 50, 60 e 70, mas também o Brasil perdedor do mundial do Espanha 82; o Ajax vitorioso de Cruijjf ou o bayern de Bekenbauer, a laranja mecânica de Rinus Michels (que nunca ganhou um mundial) ou a Holanda de Van Basten, etc, etc, etc. A lista dos membros desta família é enorme e é feita, tanto de vencedores como de perdedores. Bem mais vencedores que vencidos, felizmente, para quem já me está acusar de ser lírico…

Depois existe a outra família, a das equipas cínicas, parasitas do jogo alheio, que esperam pacientemente o erro do adversário até o matarem numa oportunidade o jogo. É o caso da Alemanha campeã contra a Hungria de ataque de Puskas numa final violenta donde saem dois jogadores magiares lesionados, logo na primeira parte. É também o caso da Itália de Rossi e Gentile – que não era uma equipa bacteriologicamente pura, mas teve de defrontar o Brasil de Zico e Falcão e foi obrigada a fechar-se -, da Juve da última década, do Steua de Bucareste de Ducadam, da Alemanha do mundial de Itália ou do Brasil do mundial dos EUA…

Estas duas famílias «ideológicas» constituem duas formas de entender o futebol e enfrentam-se no mesmo jogo eterno ao longo da história. Umas vezes ganha uma e outras, outra. Eu sou um adepto incondicional do primeiro estilo. Por razões éticas e estéticas: porque acho que essa família de equipas que jogam para ganhar, e não a outra, é que faz a grandeza do futebol. Mesmo quando a outra família ganha…
Por isso quero que a minha família futebolística ganhe sempre e, mesmo quando Portugal não está em competição, eu sinto-me sempre representado por uma ou por outra equipa que eu reconheço na mesma tradição familiar. E acho que de cada vez que uma equipa de rapina ganha uma competição importante, o futebol regride uns anos.

Ontem virou-se mais um capítulo deste jogo eterno. Portugal, obviamente, representou o estilo de futebol ofensivo que eu aprecio. E os gregos foram os outros. Portugal perdeu e foi pena para o futebol. Eu vi e revi o jogo e, em particular no resumo da sport tv, pude confirmar que os gregos defendem, sistematicamente, com 11 – onze-11 jogadores atrás da linha da bola. Como no jogo com os Checos, deram cerca de 70% de tempo de posse de bola a Portugal. É muito difícil marcar um golo a equipas assim e essa é a sua vantagem: elas partem do princípio que o 0-0 já é um bom resultado e que nos penaltis até podem ganhar. Se fossem a penaltis com Portugal, já era uma grande vitória para eles. Pelo contrário, quem é melhor, parte do princípio de que ir a penaltis é perigoso. Se tivéssemos jogado para os penaltis e os perdêssemos, todos criticariam o scolari porque não atacou, apesar de ter a melhor equipa…

Eu acho que há uma solução para ganhar a equipas destas, mas esse caminho é uma traição – embora realista – ao estilo e à família de futebol que eu prefiro. É o que fez o Brasil do mundial dos EUA que defrontou a Itália na final mais vergonhosa de todos os tempos. Os brasileiros trocaram as voltas aos italianos e, dessa vez, não assumiram as despesas do jogo. Fizeram como a azzurra tinha feito no Espanha 82 e passaram 90 minutos mais a meia hora do prolongamento a trocar a bola no seu meio campo Resultado: zero oportunidades, ausência absoluta de emoção e, possivelmente, oportunidade histórica perdida de lançar o futebol nos States. No fim, ganhou o Brasil na lotaria dos penaltis como poderia ter ganho a Itália. Foi o título mais amargo da história do futebol brasileiro!

No jogo de ontem, Portugal (ou scolari) não quis fazer o mesmo e foi fiel à sua família ideológica. Perdeu o jogo por 1-0. Mas se me perguntarem se preferia ter ganho, fazendo o mesmo que os brasileiros fizeram no mundial dos Estados Unidos com a Itália, eu digo que não. É só uma opinião, mas prefiro ter perdido o jogo e continuar a acreditar que é possível que as equipas mais espectaculares ganhem grandes competições, jogando o jogo pelo jogo. Paradoxalmente é isso que dá brilho às vitórias de equipas como a Grécia. O entusiasmo com que aquela vitória é saudada vive do arrojo e da desenvoltura de selecções como Portugal ou como a República Checa que, jogando ao ataque, contribuíram para lhes dar a noção de que tinham alcançado um feito superior às suas capacidades.
Mas imagine-se uma final entre a Grécia e outra equipa igual: alguma delas teria vontade de festejar? E se a atitude de todas as equipas fosse a da Grécia, alguém acha que continuariam a encher-se os estádios de futebol? Eu acho que não. Mesmo perdendo, a selecção portuguesa merece o meu aplauso por ter permanecido fiel ao futebol e aos valores desportivos e lúdicos que fazem de mim um adepto da modalidade.


PS – Também é claro que, se eu fosse treinador profissional de futebol e me entregassem uma equipa como a dos gregos, não teria outro remédio que não fosse metê-la a jogar como fez o Renhagel, contra o gozo de adeptos como eu. E nisso, é claro que o homem tem mérito. Não me peçam é para dizer bem daquilo. Parabéns pela vitória, é tudo o que lhes posso dizer.

PS 2- Este é o pior campeão europeu da história, pelo menos desde 72 – no euro desse ano o campeão foi a Alemanha de Bekenbauer, Breitner e Netzer. No seguinte ganhou a Checoslováquia de Panenka e Nehoda; em 80 a Alemanha de Kaltz, Schuster e Rummenige; em 84 a França de Platini, Giresse e Tigana, a seguir, a Holanda de Van Basten e Gullit. Em 92 foi a a Dinamarca de Laudrup e Poulsen e em 96 a Alemanha de Sammer e Klinsmann e depois tivemos mais França com o grande Zidane. A semelhança entre esta equipa da Grécia e qualquer uma das que citei é … Bem, eu não vejo nenhuma…

PS 3 – Peço desculpa à malta por fazer um texto de kilómetros sobre bola. Afinal eu tinha dito que não devíamos abusar dos textos bolísticos no tapor. Mas, fónix, o euro é só de 4 em 4 anos e só vamos à final de 100 em 100.

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