22/07/04

OLÉ !, por Manzanilla

(...) Em geral, a ESPANHA ensina a comer quando apetece – muito ou pouco, muitas ou poucas vezes. Não há TARDE nem CEDO – só A FOME e a SEDE. Respeita-se o SONO e, hão-de desculpar-me a franqueza, o TESÃO (...)
(...) O espanhol, a cada momento do dia FAZ UMA ELIMINATÓRIA MENTAL. É este O SEGREDO da felicidade cultural dele. Pergunta-se QUATRO coisas – se tem fome, se tem sede, se tem sono e se tem tesão.
Dessas QUATRO elimina AS TRÊS que angariam uma resposta que seja CLARAMENTE NÃO. Ou seja:
se NÃO tem fome, nem sono, nem tesão – é PORQUE TEM SEDE, mesmo que o não saiba. E VAI BEBER.
E FAZ BEM e sente-se feliz uma hora depois.
Se, passada essa hora, já NÃO tem sede; continua a NÃO ter tesão, nem sono – é porque tem FOME. E vai comer. Hora a hora, interroga-se. E opta sempre pela MENOS NEGATIVA, partindo do princípio básico que, das QUATRO coisas que uma pessoa pode ter, há sempre uma que NÃO APETECE TÃO POUCO como as outras três. E é sempre ESSA que uma pessoa deve seguir. É esta A LIÇÃO DE ESPANHA a Portugal, mais URGENTE por ser conterrânea e INTEIRAMENTE apropriada à nossa MANEIRA DE SER – muito mais do que o habitual IR CHORAR PARA UM CANTO por não se poder fazer o que se quer – que PRECISA DE SER APRENDIDA tanto mais quanto JÁ ESTAMOS FARTOS DE A SABER.
O “ir petiscando” que nos está na alma, o “agora ia...” e o “sabes o que é que me apetecia?” são SINAIS EVIDENTES de uma irmandade profunda que nos poderia LIBERTAR da nossa regrada TIRANIA de “não porque me estraga o apetite”, ou “parece mal”, ou MAIS CONTUNDENTE do que tudo e mais TRAGICAMENTE português: “é chato...”
Os espanhóis COMEM FARTURAS ao pequeno-almoço COM CHOCOLATE. E porquê? PORQUE LHES APETECE, a todos, e não se importam. Também comem PÃO TORRADO, esfregado com ALHO e TOMATE e encharcado em AZEITE. Atente-se no que diz A NOSSA DEUSA sobre a QUANTIDADE DE AZEITE necessária para fazer uma tortilha decente e, PERANTE OS NOSSOS PRECONCEITOS diante de tal dispêndio AFINAL RACIONAL, compreender-se-á porque NÃO SOMOS, nem de longe, TÃO FELIZES como eles são. (...)
 
Inês Gonçalves e Miguel Esteves Cardoso, in Revista Preguiça, do jornal INDEPENDENTE, de 16/09/00

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