22/07/04

Pops, por Lopez

Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa da minha estante, popular é «respeitante ou pertencente ao povo». Já o populismo consiste na «simpatia pelo povo». Donde se conclui que o populista não é necessariamente o popular. O popular pertence ao povo, enquanto o populista pode até viver na Quinta da Marinha. Gosta do povo, tem simpatia por ele, pelas suas coisas. É tudo. O populista pode até demarcar-se do povo, com as suas gravatas de fino gosto, as suas camisas impecáveis e os seus fatos de marca. Mas depois cumprimenta a peixeira e o carpinteiro e aparece no arraial a dançar o vira.
 
A diferença entre o popular e o populista reside na sinceridade. O Nel Monteiro é um gajo popular: quando canta o clássico Mãe (Tu partiste e não voltaste/ mas ainda me deixaste/ o teu retrato tão lindo), de lágrimas nos olhos e mão trémula ao pé do coração, ele é sincero. Ele é aquilo: não há distância entre o cantor e a mensagem que transmite e que julga ser profunda. Nel é popular, é do povo e está no arraial no seu habitat natural.
Mas quando o Menino Toneca (aquele da cretina série televisiva) vai a uma festa de aldeia e pergunta, ainda nos bastidores, o nome do padre da paróquia e quer saber algumas histórias de gosto duvidoso que circulam na povoação, para, depois, fazer umas piadas de última hora durante o show, não está a ser popular, está a ser populista.
 
O que diferencia este mascarado Toneca do genuíno Nel é a consciência que oprimeiro possui do aproveitamento que faz do gosto popular. Podemos imaginar o Nel Monteiro genuinamente feliz depois de se entregar ao «seu» público após mais uma actuação. Pelo contrário, mal desce do palco, imaginamos o Toneca de sorriso subitamente apagado (agora que se apagaram, também, as luzes do ribalta), a olhar para o relógio e a dizer que se quer pôr a andar dali pra fora. Falta-lhe convicção, ao populista. Ele agrada ao povo porque isso corresponde ao seu interesse pessoal – é assim que ganha a vida e que se realiza. As suas convicções não são para ali chamadas. Desde que tenha sucesso, tanto lhe faz atacar como defender o padre da aldeia…
 
Em política também existem actores populares e outros populistas. Eu definiria o populismo em política como uma tentativa (sistemática) de criar um vínculo de ligação unipessoal entre o líder e o povo, com vista à satisfação dos interesses do primeiro. O populista sabe que esse vínculo é a chave do seu sucesso. Para o atingir parte do princípio de que não tem que apresentar convicções, princípios sólidos – que aliás não são necessários para nada, pelo contrário, só prejudicam -, mas simplesmente, corresponder aos anseios populares, dizer ao povo o que a este lhe agrada. O populismo é a política feita com base nas sondagens, nos gostos e nos interesses imediatos do povo. O professor que dá um teste de chacha aos alunos e lhes diz as respostas um dia antes, é populista – o que lhe interessa é o seu sucesso imediato e se os alunos se tramarem mais tarde no exame nacional e na vida, ele já tá noutra, já não é com ele. Por isso o populismo, em política como na vida, é volúvel, fútil, pouco rigoroso e inconsequente. Tanto diz uma coisa, como o seu contrário. O populismo é a ideologia do vazio, a batota do pensamento. Ar e vento. Visco e Sebo.

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