24/07/04

A primeira puta da arte ocidental, por Tó Maneta

Em 1863, Édouard Manet escandalizava a burguesia parisiense com a sua Olympia.O tema do nu reclinado era clássico podendo ver-se em Ticiano,ou em Velásquez, ainda que a influência exótica das odaliscas de Ingres seja mais explícita.
No mesmo ano em que Manet escandalizava Paris, Cabanel, pintor académico dos salões oficiais, triunfava com o Nascimento de Vénus, adquirido pelo próprio Napoleão III, e citando explicitamente Boticelli,que, por sua vez, recupera Praxíteles e a Afrodite de Cnidos, o primeiro nu feminino da arte ocidental.
Cabe então perguntar porque razão o puritanismo burguês da segunda metade do século XIX se chocou com Manet e aplaudiu Cabanel? É que este é herdeiro de uma tradição neoclássica, fundada por Johan Joachim Winckelmann no séc. XVIII e depois tornada académica e onde o nu é apreciado numa dimensão meramente estética, dissociado do prazer e do bem. A contemplação do nu é uma experiência estética, sem implicações éticas. Entende-se assim com alguma ironia o título do quadro de Manet, Olympia, que remete para o universo neoclássico e para o purismo do estetismo helénico.Pela referência clássica o nu torna-se asséptico e por isso moralmente aceitável. É esta incongruência que Manet explora. O que chocou o puritanismo burguês é que a tela de Manet retrata uma prostituta, não uma deusa nem uma figura mitológica. É uma puta! Não é uma divindade do Olimpo nem uma figura imaginária. É uma puta! Chama-se Olympia, nome de reminiscência clássica, mas é uma puta moderna! E não tem vergonha, olha-nos de frente, exibindo um corpo real que se pode encontrar nos ambiente da boémia parisiense. Tem preço, tal como as telas dos pintores do Salão, tal como os produtos do industrialismo burguês. Esta Olympia de Manet é a primeira mulher-objecto da arte ocidental, despida de referências mitológicas ou religiosas. Não é um símbolo de fertilidade, não é herdeira das Vénus paleolíticas e das Virgens do Leite da Renascença. Não, é uma puta! Com a Nana de Zola, são as duas putas mais famosas do séc. XIX francês, tão famosas que se tornaram clássicas. Olympia é a primeira mulher-objecto da arte ocidental, uma pré-Marilyn, a primeira puta moderna.

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