25/08/04

Haja Fé, por Francisco AlbiCoelho


As religiões que pregam o Despojamento de bens, a Abnegação e a Submissão à Vontade Superior, sempre estiveram condenadas ao sucesso, pela simples razão de que a mensagem que alardeiam é a que convém aos governantes, que obviamente se convertem e fazem converter os seus súbditos.

Foi assim com o Cristianismo e o Imperador Constantino e assim foi com o Budismo e os poderosos da Índia do seu tempo. Até com o Confucionismo, no Catai dos Chin, a coisa se passou de forma semelhante. A mensagem só passa se não molestar os graúdos. Quando, ao longo da história, a mensagem teve nuances de confrontação ao poder, este insurgiu-se e a mensagem foi aligeirada, colocada de lado, posta nos eixos, desviada.

Qualquer religião que propusesse o ataque aos ricos e poderosos, ou o seu despojamento, seria automaticamente combatida e condenada ao fracasso. Assim e ao invés, todas elas, incluindo o Islão e o Judaísmo, pregam o Paraíso na outra vida, uma vez que nesta não há nem pode haver, benesses para todos. As religiões instam os seus crentes à submissão e à realização dos seus propósitos contra a promessa do Céu, do Paraíso, da Terra do Leite e do Mel, das 72 Virgens ou do Nirvana.

Neste particular, todas as religiões estão irmanadas. Os poderosos e ricos são aliados e não inimigos. Os pobres e remediados são massas a arrebatar e a controlar, com as promessas do Além e/ou do Absoluto. Mesmo o Islão incita a odedecer aos líderes religiosos e temporais (deles claro) chefes de clã, califas e sheiks incluídos. O confronto e o ataque faz-se para fora da crença.

A premissa budista do alcance do conhecimento pleno e do absoluto pelo despojamento das posses, do corpo e da alma, mais não é do isso - prometer outra coisa para além do aqui e agora - e os Reis indianos do seu tempo agradeceram a pregação. De igual modo, o Hinduísmo, os Hara Krishnas, os Jainistas ou lá o que é, e quejandos, com a segregação de castas e as promessas de reincarnação em animais mais nobres que os humanos despejadores de fossas e intocáveis, garantem aos poderosos indianos e asiáticos em geral, a paciência das massas. Nesse aspecto, o Comunismo é de igual modo uma religião, ao integrar o indivíduo no todo e pregar-lhe o seu sacrifício concreto e absoluto, em função do bem comum geral e abstracto. E os Amanhãs que cantam, são mesmo amanhã e nunca hoje. Que o digam os crentes da religião Benfica, que andam há anos a praticar a Abnegação, o Despojamento, a Paciência e a Humildade em troca de promessas prá proxima época, próxima vida, próxima esquina. Aqui e agora é que não.

A Religião como fenómeno mitológico humano, é neste aspecto, (redutor, mas essencial) igual em todo o lado, quer a ocidente quer a oriente. Ontem como Hoje.

Por essa e por outras é que desanco cada Jeová que me aparece com promessas de fartura, paz e amor na outra esquina da vida, mas sempre na outra esquina, nunca aqui e agora. Aqui e agora há que rezar, ser paciente e pagar o dízimo. Mas era aqui e agora que me apeteciam as 72 virgens à desfilada comigo pela Terra do Leite do Mel. E por isso, como religião e prenhe de fé, creio no Dragão, no FCP e no Pintinho. Haja Fé.

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