05/08/04

Marilyn, por Mangas

“(...) Deixaste-me pendurado outra vez. Começo a habituar-me a esperar por ti. Não que me desagrade, mas sinceramente acho que desta vez foste longe demais. Já lá vão 42 anos, (faz hoje precisamente!) e tu, nada! O tempo é relativo, bem sei, mas fica sabendo que quando revejo um filme teu e tu sorris para mim, é como se o teu sorriso fosse um soldado que regressa da guerra. Eu sou a casa, os olhos e o corpo que o acolhe. Tentas-me também. Imagino-nos a pintar a manta na procura desenfreada do paraíso tantas vezes prometido nas tuas coxas. Calculo que um dia destes, quando eu menos esperar, me batas à porta sem aviso prévio. Abres as janelas dos quartos para entrar luz - tu que sempre foste uma mulher iluminada pelo pó das estrelas. Esticas uma toalha bordada à mão sobre a mesa da sala, regas os velhos canteiros que já não existem, enches de rosas vermelhas cada esquina da sala, enrolas-te nas minhas pernas e fazes aquelas perguntas que nunca fizeste a nenhum outro homem. Do género: «o que é que vem primeiro: o desejo ou a saudade? O partida ou o regresso?» E eu vou atrás como um patinho. Toco violino para ti, explico-te todas as coisas da forma como as entendo, tu escutas-me, lânguida e paciente. E tudo volta ao início.
(Mas há intranquilidade no ar, devo avisar-te! A tua partida foi pouco convencional e eu ainda te guardo alguma raiva, mas isto passa.)
Escreveram tanto sobre ti, tantas tretas e meias verdades, biógrafos e jornalistas que nunca te perceberam, que nunca perceberam coisa nenhuma da ilusão que criaste para te manteres verdadeira. Querias talento, mas tiveste apenas homens, dinheiro e fama. É imenso, bem sei, mas para ti, foi sempre demasiadamente pouco.

(Mas eu amei-te sempre. Desde aquele dia em que te conheci. Decidimos fugir daqui para fora no dia do meu aniversário, lembras-te? Roubei um Chevy vermelho modelo de 69, mão rápida no volante a toda a brida, olhos postos na estrada, o coração preso ao teu amor colegial. Tu serias a minha good bad girl, eu fazia o meu número paternal do protector apaixonado pelo prazer absoluto de te ver absolutamente feliz e cúmplice.)

O teu pecado maior foi essa imagem vacilante da fragilidade fêmea misturada com o harmonioso tesão das formas que, o teu corpo escandalosamente mais carnal do que mortal, branco e opulento, nunca reclamou cobrança. Porque se os teus olhos de cria-animal-acossada tivessem alguma vez percebido quem na realidade eram, talvez não comprasses tão caro o amor, talvez a santidade de puta angelical te fosse mais fácil de suportar e ainda estivesses comigo, admitindo, por exclusão de partes, que o tal pecado não mora ao lado.
Nunca devias ter entrado no The Misfits. E eu devia ter-te proibido! Era bom de ver: reunir três almas encalhadas, três corpos destroçados carregando o passado em ferida, em confronto com a fatalidade do destino moribundo, ainda para mais sob as ordens de um jogador inveterado, só podia dar no que deu. A morte foi a personagem principal e andou sempre por lá, escondida pelas dunas de areia, estudando as vossas dores e preparando com antecedência o golpe para, pouco tempo mais tarde, vos levar aos três de enfiada. E nenhum de vocês a pressentiu. O Gable porque era naqueles dias a agonia lenta de um condenado, um mortiço hepático; o Monty porque acordava todas as manhãs com Ela marcada nas cicatrizes do rosto.
( O John Houston não conta porque lhe ganhava ao póker se fosse necessário, já ele próprio tinha morrido várias vezes e como era irlandês, autor, e negro por dentro, estava-se a marimbar para todos.) E tu foste igual a ti própria. Esqueceste-te dela como te esqueceste dos diálogos e fizeste-os a todos suar em longas esperas no deserto do Nevada, mas no final, quando o filme ficou concluído, mostraste que a vocação irreprimível do cinema é o culto dos seres simultaneamente deuses e humanos - nem a religião do éter, nem a Asphalt Jungle, nem o teu seio a dar de mamar ao Menino onde quer que te encontres, foram capazes de revogar o sacrifício e adiar o fim.

(Jantámos nas calmas, fomos àquele bar com a banda sonora do diamonds are a girls best friends, gelo nas mãos para dar sorte, logo depois de tu teres entornado o copo de licor sobre o decote transparente do teu vestido azul metálico e me teres puxado pela mão para o quarto de banho das gajas, ali me teres pedido para ajudar a limpar, com quê? perguntei-te eu, com a língua!, respondeste-me tu!)

Percebo agora que não foram os comprimidos que te mataram. Foi a América. A América mascarada de branco que te olhou como a obscenidade mulata. Que devotou um falso amor à tua estrutura e esqueceu a tua fundação. Foram os homens que nunca esperaram de ti o que realmente possuíste para lhes oferecer. Foram os cabrões sangrentos dos Kennedy que só te queriam na cama e esconder-te do mundo com medo do escândalo. Com eles foste mais tramp do que lady. Foi o Sam Giancana que mandou a Mafia apagar-te do mapa para se vingar do Bob Kennedy que, na altura, andava a dar forte e feio no crime organizado. Foram os comunistas. Foi o panasca do Hoover e o seu FBI porque sabias demais sem suspeitar e tinhas ligações. Já tinha limpado o sebo ao Luther King porque começava a ser incómodo, porque haveria de hesitar contigo? Foram as tropas estacionadas na Coreia para as quais cantaste. Foi o Di Maggio que te amou até ao fim. Foi o Arthur Miller porque nunca foste uma das suas personagens. Foram as mentiras inventadas depois da tua morte e durante a tua autópsia. Cá para mim, acredito que quem te matou realmente, foi a Norma Jean que nunca deixou de te perseguir. A Norma Jean que viu a mãe internada num hospício aos sete anos e nunca conheceu o pai. A Norma Jean que saltou de casa de adopção em casa de adopção, que foi violada quando era ainda uma miúda, que cresceu com a auto-estima pelas ruas da amargura e que, na realidade, sempre foi mais inteligente e profundamente mais infeliz do que os teus personagens algumas vez nos mostraram.

(E continuamos noite pela fora, como se não existisse mais nada nem ninguém para além do desejo a lamber-nos por dentro como se fosse a primeira vez, da cor da tua pele fragmentada ao luar, que me ensinava a prosseguir e, do vestido adocicado que era urgente despir, já numa altura em que eu guiava sob o efeito de alucinações hard-core e tentava, em desespero de causa, arranjar um lugar para estacionar e fodermos como loucos, apagar as velas nas tuas mamas, cortar o bolo nas tuas coxas, enquanto tu abanavas freneticamente as ancas, com a cabeça fora do vidro, cabelos ao vento, cantando só para mim “Happy birthday to youuuuuuuuuu”...)

Sempre teu,
Albert.

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