31/08/04

Os Profs, por Topo Gigio

Passamos anos e anos, uma vida inteira a bem dizer, a conviver com profs e chega um dia em que fazemos um balanço. Das centenas de profs com quem partilhei uma boa parte do meu tempo, que retive deles e dos seus ensinamentos?
Bom, da maior parte, não me recordo sequer do rosto, quanto mais do nome… Passaram anónimos, como o vento e o ar, veja-se só a influência que tiveram em mim... Alguém se lembra do professor de ciências do 7º ano? Experimentem nomear ao acaso uma disciplina de um ano qualquer e vão ver que não têm nem memória do mestre. É assim, um vazio, a maior parte da minha memória dos profs e creio não ser excepção. A maior parte dos profs da nossa vida, pura e simplesmente, não tinha nenhuma vocação especial para a profissão a que se dedicava. Eram profs como podiam ser engenheiros, advogados, carpinteiros ou domésticas. Cinzentos, por natureza, seriam cinzentos, noutra coisa qualquer a que, por infortúnio, se tivessem dedicado.

Depois vem a categoria dos mini-mussolinis. Uma grande diversidade cabe neste rótulo, desde gajos frustrados por estarem a lidar com putos em vez de gerirem multinacionais até tias mal fodidas que descarregavam em nós. A variedade é grande nesta categoria dos mimi-musolinis, mas têm todos uma coisa em comum que os distingue dos cinzentos: é que destes nunca mais nos esquecemos, embora pela negativa.
Lembro-me de um ansião que foi meu professor de matemática no ciclo. O senhor entrava na sala, dava-nos dois berros – e uma palmada de vez em quando – e quando nos calávamos, aterrorizados, sentava-se a ler A Bola, pedia/exigia-nos «bolachas!» com voz de nazi, metia as patoilas em cima da secretária e assim se quedava o resto da aula, até tocar a campainha libertadora.
Também me recordo de uma senhora cusca que estava sempre a meter-se na nossa vida privada. Tinha um apelido mais ou menos sonante em Coimbra – do qual já não me recordo – e, pronto, quem ela considerasse de nível social idêntico ao seu estava safo. Ela julgava que ia a Grimaldi ou a Bourbón, claro.
Um dos piores mini-mussolinis da história da minha vida foi um professor de ginástica que apanhei no 9º ano e que tinha um ego do tamanho do recorde do mundo dirigido por um cérebro de minhoca. Claro que as miúdas da turma e a malta hard tinha a vida resolvida. Era um tipo tenebroso sem qualquer sentido de justiça. E, na mesma onda, não posso deixar de citar o prof de desenho do 5º, em cujas aulas fazíamos verdadeiros motins, armados de giz e de zarabatanas feitas dos esqueletos das bics. Aquilo era péssimo, mas ríamos muito e era giro fazer apostas para acertar em quantos é que se aguentavam até ao fim da aula sem ir para a rua.
E como poderia esquecer o «Barbudo de nap» - o núcleo duro do Tapor sabe a quem me refiro porque fomos todos vítimas deste Fidel Castro pra consumo interno? Este espécime queria-nos ensinar Administração Pública e Direito a ler uma sebenta (nunca vi um nome tão apropriado) em voz alta na sala de aulas, enquanto era suposto que nós escrevêssemos o que ouvíamos, feitos rebanho. Claro que teve azar connosco e o ano correu mal. Lembro-me do Xiita e do Galgo inventarem , um sistema revolucionário para tirar os apontamentos: ligaram duas canetas uma à outra, formando assim o primeiro sistema de escrita dupla da história. Desse modo, só um precisava de tirar apontamentos já que a fantástica bic-dupla escrevia a dobrar. A coisa resultou até o Galgo se aborrecer de não fazer nada na aula e se pôr a tocar bateria. Um dia, o Barbudo interrompeu a aula e perguntou-lhe porque é que não tirava apontamentos e ele explicou-lhe que naquela aula era a vez do Xiita e que ia aproveitando para treinar bateria. Foi prá rua, mas se a memória não me falha, essa foi uma das muitas aulas em que nos viemos todos embora por solidariedade com as vítimas do Fidel de barbas. Ficou lá uma Leopoldina, acho eu.
É pá, eu queria mesmo acabar o post, senão vêm dizer que é muito comprido, mas se me aguentaram até aqui, também tenho que ser justo e deixar aqui uma palavra de apreço para uns dos piores profs da minha vida: chamávamos-lhe O Evidente. Era o protótipo do político frustrado que possivelmente é hoje presidente de alguma autarquia. Tinha uns óculos com lentes de fundo de garrafa espetados no nariz e falava de dedo em riste como o manel monteiro avant la lettre. Achava-se uma sumidade em Direito e eu não só não aprendi nada com ele, como apanhei uma aversão tal, às ciências jurídicas que resolvi nesse ano não ir para Direito. Estou-lhe, hoje, muito grato por isso! Mas tinha um ponto fraco, terrível ponto fraco: dizia «é evidente» em cada duas palavras. Mal nos apercebemos do tique resolvemos logo o problema do tédio das aulas de Direito porque decidimos organizar um concurso: ver em que aula é que o gajo debitava mais evidentes. Chegámos a comprar cadernos quadriculados para contar os evidentes, tínhamos gráficos, rankings das aulas com mais evidentes, tudo contabilizado conferido e organizado pela mão certeira do Spock (já então, um prodígio de organização). O Evidente estranhou que tivéssemos deixado de faltaras aulas dele, bem como o nosso inusitado entusiasmo e, durante uns tempos, andou contente connosco e as coisas correram bem. Até que o Armando resolveu, um dia, partir-lhe o coração e confessou que nós gostávamos era do concurso da Aula Com Mais Evidentes. Foi um choque para o pobre homem! E, no final do ano o número de reprovações da nossa turma também foi chocante para nós.
No próximo post, se conseguir livrar-me das inúmeras memórias de mini-musolinis que, pelos vistos, ainda me atormentam, pode ser que vos fale dos melhores professores da minha vida. Foram tão bosn como estes forma maus e estes foram mesmo muito maus.

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