23/08/04

REPORTÓRIO DE FACTOS EXTRAORDINÁRIOS III

As Minhas férias no Mosteiro de Monte Verga, por António M.

Regressei das férias que mudaram a minha vida. Eu estava farto daquelas férias algarvias em que se tem a sensação de embarcar com os mesmos milhões de gajos e gajas com que nos cruzamos o ano todo nos shopping, no trabalho nos bares e nos estádios de futebol. Já não podia conduzir mais na auto-estrada para o Algarve entre os milhões de Seats a assapar com jovenzarros ao volante convencidos que estão no Matrix. Já não conseguia suportar a antipatia visceral dos algarvios nem a bajulação dos mesmos aos mecânicos britânicos de Bolton, de Manchester ou de Liverpool. Vomitava só de pensar no cheiro a óleo de coco da maldita praia de Albufeira.

A minha alma estava cansada e, por isso, este mês de Agosto resolvi passar 15 dias de reclusão no mosteiro de Monte Verga. A primeira vez que ouvi falar deste sítio foi por intermédio do Franciso Óbi Coelho, um velho amigo, antigo playboy das noites de Coimbra que passou lá uns tempos antes de desaparecer de vez.
- Os monges são fantásticos, mene – dizia-me ele. Aprendemos a alegria de viver apenas numa cela, com um ou dois livros rigorosamente escolhidos e horas infinitas dedicadas à meditação e às técnicas de respiração. Quando de lá saí, ouve, não era eu… Aqueles gajos mudaram a minha vida, acredita!

O certo é que esta foi a última conversa que tive com o Francisco Coelho. Depois disso ouvi dizer que ele tinha ido viver para Goa, onde, pelos vistos ainda deve andar. E foi assim que este ano, cansado da vida, cansado do trabalho e das férias, da obrigação dos Kadocs e das gajas fúteis que não me largam a breguilha, eu lembrei-me do velho play boy e fui passar uma estadia a Monte Verga, bem no meio do Ribatejo.

Os monges receberam-me bem, com o mínimo de palavras, mas com sorrisos puros e infantis onde não vi maldade. É espantoso como não têm rugas apesar da provecta idade dos mais velhos. São imponentes nas suas túnicas amarelas, com as nucas completamente rapadas e barretes estremenhos. Quando cheguei, o meu Monge-Tutor levou-me à minha cela pessoal que substituiu durante 15 dias os areais de gente das praias do Algarve. A cela era o mais minimalista que imaginar se possa: uma simples cama – dura! – uma mesinha de cabeceira e um candeeiro a petróleo (o mosteiro não tem electricidade). Na parede caiada de branco uma simples gravura do Buda Jejuando. E em cima da mesinha um exemplar de um dos Upanishades em tradução castelhana.

Tinha imensas coisas para contar sobre estes quinze dias mas não é possível. Poderia falar dos dias em que assisti à prática do OM, a palavra das palavras, que os Monges pronunciaram durante um dia inteiro, das 5 da manhã – levantamo-nos sempre mal o sol nascia e deitávamo-nos quando ele se ia – às 5 da tarde, rigorosamente… Dos jejuns e das curas da dependência de carne, dos chás de ervas cultivadas no Mosteiro, da meditação ou das tardes de imobilismo e reclusão nas celas individuais. Infelizmente não vos posso comunicar tanta experiência por palavras.
Mas posso contar-vos a conversa que me marcou para o resto da vida, precisamente com o Grão Mestre de Monte Verga, o Chandogia- Satya (os monges são portugueses na sua maioria mas esqueceram o nome de baptismo e foram rebaptizados com nomes hindus). Eu acabara de lhe confessar estar farto da vida, da dor e do stress que passo durante os doze meses do ano. De nem as férias no Algarve serem já capazes de curar a minha alma ansiosa e desesperada. O Monge sorriu o mais inocente sorriso que eu alguma vez presenciei. Todo ele era calma e segurança. Parecia uma criança de 5 anos mas com a sabedoria de um velho de 80. Na altura deu-me a impressão de ver uma áurea a irradiar do alto da sua nuca calva.

- Maia – disse o Monge. Falas-me de Maia, o Engano, a Grande Ilusão. A vida meu filho é Maia e o desespero é o fim de todos os que por ela se deixam iludir. De que nos vale perseguir o prazer se ele acaba fatalmente na dor? Os horrores da velhice sucedem-se às alegrias da juventude, a doença à saúde, a dor ao prazer. Ninguém de pode furtar a este ciclo da vida e procurar o prazer e a felicidade é procurar a infelicidade que a ela está ligada pela mesma corrente. Tudo é vão. Só há uma certeza, meu filho, a morte e o triunfo da dor.
Há no entanto, uma forma de escaparmos a este ciclo de engano e ilusão: renunciarmos ao desejo, renunciarmos a Maia. Se nada desejarmos nada poderemos recear. Anular o Eu, ascender acima da escravidão dos desejos é o destino do sábio. Dediquemos a nossa vida ao esvaziamento do Eu, dos seus desejos, pensamentos e afecções e seremos salvos. No limite, neutralizaremos a própria consciência e não serão precisas mais palavras para atingirmos a beatitude. Não, não me respondas, não te canses meu filho, não gastes energias enquanto escolhes palavras – o silêncio é a verdadeira expressão da sabedoria e nele seremos salvos. O homem santo sabe partir deste mundo em alegria muito antes da hora final. Meditemos, irmão! Fica em paz.

E foi tudo. O Monge sorriu de novo, retirou-se da minha cela e foi a última vez que o vi. Quando, depois deste encontro, roguei para que me deixassem falar de novo com este Grande Homem, responderam-me que não e sorriram. No dia seguinte percebi que já era 15 de Agosto, o ultimo dia da minha estadia em Monte Verga. Voltei para casa, mas sinto que já não sou o mesmo. Só agora arranjei coragem para escrever este texto. Mas penso seriamente em voltar para Monte Verga e perseverar o que for necessário para um dia me raparem o cabelo e fornecerem uma túnica amarela.

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