27/08/04

RESPOSTA DE ANTÓNIO M. À «Carta do Grão Mestre de Monte Verga para António M.» (ver post anteiror), por António M.

Santo e Ilustríssimo Grão Mestre de Monte Verga

Foi para mim um grato prazer a recepção da ilustre missiva com que decidistes honrar este pobre pecador, indigno, sem dúvida, de tal consideração. Receio, afinal, ter entendido mal a minha estadia no Santo Mosteiro que Vossa Santidade tão supremamente dirige. Julgava que Monte Verga era um mosteiro budista e vejo agora, estupefacto, que se trata de um centro de recolhimento cristão. Não é grave, porque à luz dos sagrados ensinamentos de Buda, samsaia é o nirvana e o nirvana samsaia. O tempo é pura ilusão e tudo está ligado. Cristo é Buda e Buda é Cristo. O caminho a subir e a descer é um e o mesmo e tudo é Uno.

Foi por pensar deste modo que não me parecem assim tão graves os erros que Vossa Altitude Magnífica me aponta e que supostamente cometi na celebração da Eucaristia Experimental de 8 de Agosto. Fiz mal, é certo, em ter usado o confessionário como WC… Mas não aguentava mais. Preferia Vossa Santidade Celestial que fizesse na pia da água benta?
Marylin Manson na Eucaristia pareceu-me adequado, se tivermos em conta que na noite anterior, na rave inesquecível com uma delegação oficial das Irmãs Carmelitas Descalças, os monges já se tinham queixado da insistência do Disc Jockey nos Napalm Death. E bem me recordo dos saltos entusiasmados no meio do moche de Vossa Supremíssima e Elevadíssima Santidade quando, excepcionalmente, se ouviu Beatiful People nos claustros do templo…
Os apóstolos eram 12 e não 7, diz-me Vossa Eminência, e eu agradeço a correcção. Mas então, São Zangado não é desta história? Realmente achei a Branca de Neve um bocado entradota, mas enfim, eu já estava em reclusão à 8 longos dias e outras tantas noites e estas coisas turvam-nos os sentidos, se é que me faço entender...

De resto, registo que a Santa Madre Igreja ainda não está pronta para os tempos de modernidade que aí virão. O formato 60 minutos para a celebração eucarística, por exemplo, é incompatível com as exigências mediáticas do mundo contemporâneo. Desse modo, corremos o risco de aborrecer os fiéis que não aguentam tanto tempo sentados. Pelo contrário, no modelo 45X45 minutos, permitimos uma pausa a meio para as pessoas se poderem aliviar e adaptamo-nos aos tempos televisivos, possibilitando um intervalo para publicidade. Só assim podemos disputar o prime time com a nossa religião inimiga a da Bola, já rendida, à muito ao formato mais eficaz que agora preconizo.

Termino, Santo e Venerável Sábio, ousando pedir-vos que dedique alguns minutos da vossa preciosa vida à reflexão sobre os temas que aqui lhe deixo. Continuo a pensar, perdoe-se-me a imodéstia, que, um dia, também eu saberei ser digno do manto amarelo, do barrete estremenho e da nuca rapada da vossa ordem.

Vosso devoto

António M.

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