31/08/04

Sócrates, O Pedreiro e Ésquilo, O Careca; ou Duas Reflexões sobre o Destino; por Gore Vidal

“(…)O Jovem pedreiro chamava-se Sócrates. Invulgarmente feio segundo Demócrito, é invulgarmente inteligente. No Verão passado, por deferência com Demócrito, contratei-o para reparar a fachada da nossa casa. Fez uma tal bodega que hoje temos mais de uma dúzia de frinchas por onde assobia o vento gelado. E devido a isso fui obrigado a abandonar completamente a sala da frente. Sócrates ofereceu-se para compor tudo outra vez mas temo que baste ele tocar na parede com a sua colher e a casa toda nos caía em cima. Como artesão é totalmente desconcertante. A meio de deitar a argamassa a uma parede é capaz de ficar parado de repente, de olhos fixos num ponto do espaço, durante vários minutos, a escutar uma qualquer espírito particular. Quando lhe perguntei que coisas lhe contava o espírito, riu-se simplesmente e disse: - O meu daïmon gosta de me fazer perguntas.
O que me pareceu um espírito muitíssimo decepcionante. Mas não nego que o alegre Sócrates não seja muitíssimo decepcionante quer como sofista quer como pedreiro.”


“(…) É uma felicidade para o resto do mundo o facto de os Gregos se detestarem uns aos outros mais do que a nós, estrangeiros.
Um exemplo perfeito: quando o outrora aplaudido dramaturgo Ésquilo perdeu um prémio para o actualmente aplaudido Sófocles, ficou tão furioso que trocou Atenas pela Sicília, onde encontrou um fim muitíssimo consolador. Uma águia, à cata de uma superfície dura onde pudesse quebrar a tartaruga que segurava nas garras, tomou a careca do autor de Os Persas por uma pedra e deixou cair a tartaruga com uma pontaria certeira.(…)
(…) Mas quando se trata do destino, como os Atenienses gostam de nos lembrar naquelas tragédias que passam a vida a pôr em cena, não se pode vencer. Da altura da fama de um homem careca, uma águia deixará cair uma tartaruga na sua cabeça.”

Excertos retirados da “Criação” de Gore Vidal, por Servente de Pedreiro

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