30/08/04

Volta Aspamitres, que estás perdoado!, por Ataxerxes

Vindo recentemente do Reino Inglês dos Algarves e regurgitar dos bons serviços prestados à pérfida Albion pelos excelsos garçãos de tal terra, aqui fica em jeito de homenage um excerto da “Criação” de Gore Vidal:

“Por altura do terceiro prato, Mardónio e eu estávamos razoavelmente bêbados. Lembro-me de que a travessa que estava à nossa frente era caça, preparada precisamente da maneira que eu gosto – regada com vinagre e servida com cristas de galo. Tinha comido uma peça. Então de boca cheia, voltei-me para Mardónio, que estava mais bêbado que eu. Ele falava de guerra como sempre. (…)
Nesse momento estendi a mão para tirar outra peça de caça e vi que a travessa ainda lá estava mas a caça tinha desaparecido. Soltei uma praga sonora.
Mardónio olhou para mim sem entender. Depois riu-se: - Não devemos disputar aos escravos o que fica na travessa.
- Mas eu disputo! -. E protestei.
De repente Aspamitres estava ao nosso lado. Era jovem, pálido, de olhar acerado; não tinha barba, o que queria dizer que fora castrado antes da puberdade, como acontecia com os melhores eunucos. Tinha observado tudo do seu lugar logo por baixo do leito dourado de Xerxes.
- Ainda não tinhas acabado, Senhor?
- Não, não tinha. Nem o Senhor Almirante.
- Puniremos os prevaricadores.
Aspamitres, se alguma coisa era, era uma pessoa séria. Num instante o assado reapareceu. Nessa mesma noite seis criados foram executados.”

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