13/09/04

El Motel, por Mangas

O conceito foi inventado pelos americanos, motel = motor + motel. Nos primeiros anos, alguns motéis ostentavam um letreiro a néon que alternadamente piscava as palavras "Hotel" e "Mo-tel", de forma que os motoristas soubessem que ali havia um lugar onde poderiam estacionar os carros e os corpos. Em 1925, o arquitecto Arthur Heineman construiu o primeiro motel em San Luis Obispo, o Motel Inn, a meio caminho entre San Francisco e Los Angeles. Por $1.25/noite, os hóspedes tinham direito a um bangalow de 2 quartos, com cozinha, casa de banho, telefone e garagem privativa. Todas as unidades se situavam de frente para um pátio central que incluía piscina e mesas de pic-nic para reuniões familiares.

Embora não tenhamos essa percepção na Europa, os primórdios da história dos motéis remete-nos para o tempo em que apenas aqueles com um alto rendimento poderiam pernoitar a troco de uma taxa fixa. A maioria dos viajantes americanos, a classe-média baixa, acampava em caravanas ou ficava em casa a ouvir o Orson Welles na telefonia, borradinhos de cagaço com a Guerra dos Mundos. Naqueles anos, o automóvel era um símbolo de status social, de poder económico. Viajar até à Califórnia, seria como partir ao encontro da terra prometida de céus azuis, oceanos pacíficos, uvas e laranjas a cair das árvores, tal como apareciam nas revistas com anúncios-Norman-Rockwell, com fotografias e tudo! O carro era a estrela nesta jornada de liberdade. Como tal, não é de espantar que uma das mais drásticas transformações no modo de vida dos americanos, surge precisamente com a mudança de combóio/hotel para carro/motel. A nação que começou por evoluir de forma pré-ordenada na rota do progresso, era agora uma colecção vasta e ansiosa de tipos isolados, freneticamente livres para encetarem jornadas em quaisquer direcções. O conceito de hospedagem, mais familiar do que individual, depressa se diluiu e os motéis transformaram-se em verdadeiros cais do deserto, lugares para encontros e compromissos, para sexo ilícito, planear crimes e dividir os lucros, para tipos com pressa e fugitivos da justiça. (O Tom Cruze passou por eles todos e ainda não foi apanhado!) Há sempre a chance de se acordar sozinho, ou com uma bimba ao lado depois de uma noite a malhar nela. Há sempre a possibilidade que o motel seja cercado pelos chúis como em Bonnie and Clyde (1967). Há sempre a hipótese de ripostar à bala ou sair dali com um par de algemas nos punhos ou, no pior dos cenários, dentro de um caixão, como Martin Luther King, Jr., assassinado por James Earl Ray na varanda do Lorraine Motel em Memphis, Tennessee. Hoje, o Lorraine Motel está transformado num Museu de Direitos Civis, para comemorar a influência do Reverendo neste movimento de luta na década de 50 e 60.

Um hotel é uma sociedade em miniatura; uma casa, um símbolo de família e continuidade; o motel tornou-se uma metáfora para a angústia e a alienação. Não é por acaso que fugitivos como Thelma e Louise, ou o duo sanguinário de Oliver Stone em Natural Born Killers (1994), passem metade do tempo em motéis. Para além de lhes ocultar o rasto, a oferta de cable-tv (canais de sexo também os há, mas só a pagar), permite-lhes no silêncio resguardado da noite apreciar em directo as suas façanhas transformadas em lenda, à medida que vão desenhando o rasto inconfundível da sua deslocação coast-to-coast.

Os motéis são geralmente localizados nos extremos geográficos das cidades, identificando padrões geográficos e sociais de marginalidade. Ou situam-se no cenário a perder de vista do Midwest selvagem. Reduzidos a pontos miniaturas à beira do asfalto pelo céu imenso e pela paisagem majestosa e esmagadora das grandes planícies do Missouri, Kansas, Nebraska, mais para oeste, do Arizona, Utah, Colorado, New Mexico. Promessas de uma cama com lençóis lavados, de uma abrigo razoavelmente seguro antes de prosseguir a fuga. De um tecto com visibilidade restrita e onde não façam perguntas. De uma noite de sexo e farra - John Belushi morreu no Chateau Marmont Motel com uma mistura marada de coca e heroína. Promessas-miragens de tudo e de nada.

«Peolpe never run away from anything», diria Anthony Perkins (Psycho, 1960), o proprietário do Bates Motel, cuja construção horizontal e linear contrastava com a fachada gótica da casa dimensionada ao alto, no topo da pequena colina, uma verticalidade sinistra onde habitava a morte e a mente retorcida de um psicopata. O mal e o bem. O visível e o submerso. Norman Bates, a casa onde apodrecia a mãe e o motel, são três personagens indissociáveis. Em 1971, Frank Zappa realizou em parceria com Tony Palmer 200 Motels, um esboço de filme com músicas complexas e letras sacanas, baseado nas suas vivências em digressão com os Mothers of Invention. Era em motéis de conveniência (342 num ano!), que Humbert Humbert o pedófilo de Nabakov se embrulhava com a ninfeta Lolita. Ainda que, como o próprio Humbert admite, Lolita preferisse «hotéis verdadeiros». Sam Shepard, um dos maiores dramaturgos americanos e produto da contra cultura dos 60`s, escreve sobre a obscura profundeza das sensibilidades da América rural, e dos velhos mitos do Oeste. Motel Chronicles, de cujos textos foi retirada inspiração para Paris, Texas (1984), de Wim Wenders, fala sobre as vastas planícies desertas, as bombas de gasolina, as pastagens, os camiões, os carros, mas também a solidão, a distância e o medo.

A estética dos motéis e o seu mau gosto, em geral, é uma anedota de arquitectura. Pessoalmente, é esse mau gosto, essa simplicidade anónima e rectilínea das formas, que me encanta nos motéis americanos. Quartos esquálidos, com cheiro a fumo de cigarro entranhado na atmosfera do ar-condicionado que pinga gotas de água no lado de fora e faz um barulho estilo som-abafado-hélice-de-avião-de-grande-porte, decoração kitch, paredes em madeira fina e papel gasto, piscinas de água esverdeada em forma de rim. À noite, num quarto frontal, os flashes vermelhos-azuis-amarelos do letreiro a néon iluminam a penumbra do quarto. Por vezes, não se sabe bem se estamos num sonho vigilante ou se tudo aquilo funciona como um farol de aviso na imensidão do deserto, não vá o resto da humanidade esquecer-se daquele lugar e de nós.

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