11/09/04

A Igreja da Geografia, por Tinó *

No outro dia o Grunfo contou-nos o caso que se passou, à porta do seu escritório, entre ele e uma senhora Jeová. A pobre ter-se-á enganado na geografia (terá dito que a capital do Sri Lanka é Cartum, ou coisa que a valha). O Grunfo – para quem o conhece, o maior erudito vivo em geografia - pregou-lhe de volta uma seca bestial.

Eu tenho outra táctica, quando em casa me aparecem as senhoras Jeovás. No outro dia estabeleci mais ou menos a seguinte conversa pelo intercomunicador do prédio:
- Boa tarde. Eu e a minha companheira gostaríamos de lhe falar do reino de deus. Não demora muito, tem um tempito?
- Tenho sim, diga lá, se faz favor.
- O senhor conhece o Reino de Deus?
- Não, não. Por acaso não.
- Tem uma Bíblia?
- Tenho sim.
- Então leia Mateus, 25
- Com licença, deixe-me apontar. Vou agora buscar um lápis e um papelito... Pronto, pode repetir, por favor?
- Mateus, 25
- Mateus...25... Certo. Apontei e vou mesmo agora ler. Muito obrigado. Mais alguma coisa?
- Não, muito obrigado pela atenção.
- Ora essa, obrigado eu. Muito boa tarde.


E assim se foram as minhas evangelizadoras convencidas que me deixaram na boa companhia do Mateus 25 e com a alma conquistada para a causa. Estou livre por uns tempos. Está claro que esta táctica só dá resultado se a conversa se estabelecer através de intercomunicador. Não dá com confrades rurais, sem aparelhos de intercomunicação, que mal abrem a porta de casa, estão logo na rua à mercê dos apóstolos e não podem fingir que vão buscar papelitos. Já agora, não vale a pena irem a correr ler o Mateus 25, porque tanto pode ser este como outro qualquer.

Agora, o Grunfo que esteja caladinho, que eu bem sei o que ele faz aos fins de semana…

- Bom dia, senhora. Eu e o meu companheiro andamos a espalhar a Geografia e gostaríamos de conversar consigo.
- Ai, ai... Tem de ser rápido que tenho a cafeteira ao lume!
- A senhora conhece a Geografia?
- Ó senhor, eu e o meu marido não ligamos muito a essas coisas; não leve a mal.
- Pois olhe, minha senhora, eu sou muito mais feliz desde que aderi à Geografia. Dantes bebia muito e fazia má vida em casa e depois um amigo puxou-me para a Geografia e agora sou outro homem.
- Mas ó senhor, a gente é gente simples, a gente já está habituada à missinha do senhor padre Carlos. Mas pronto, diga lá, antes que chegue o meu marido.
- Então hoje andamos a divulgar o reino do Tuvalu. Conhece?
- Não estou bem certa de conhecer, não.
- Não tem mal. Depois deixo o nosso Almanaque para a senhora ler. Ora, o reino do Tuvalu tem 20 mil metros quadrados, um pib per capita de vinte dólares e produz, sobretudo, soja e água de coco. Não é assim Irmão?
- Palavra do Senhor!
- Ora, a capital do reino do Tuvalu é Porto dos Macacos e o seu ponto mais alto é o Pico dos Macacos com cinco mil metros de altura. Produz três barris de petróleo por ano. Há Almanaques que dizem que são quatro barris, mas esta é que é a Verdade. Não é assim, Irmão?
- Palavra do Senhor!
- E Tuvalu é atravessado por três rios onde se pesca o barbo e a boga e tornou-se independente em 1920, após um golpe de estado e é uma monarquia absolutista...
- Olhe, muito obrigado, mas já tenho o café a levantar fervura e daqui a nada está a deitar por fora. Olhe, deixe cá o livrinho, que depois leio.
- Aqui tem. Muito obrigado e desculpe a maçada; passamos cá para a semana para falarmos mais um pouco.
- Mas olhe que eu para a semana não estou! Ai a minha vida...
- Então fica a senhora convidada, mais o seu marido e filhinhos, para ir assistir às nossas Sessões de Geografia na Capela da Igreja da Geografia, aos domingos de manhã. Começamos por cantar os Hinos dos Países, e depois recitamos textos escolhidos do Almanaque. Esta semana o tema é “Topografia e Curvas de Nível”. E uma contribuiçãozinha, por pouco que seja, também é bem vinda. Então, muito boa tarde.
- Palavra do Senhor!
* Texto retirado dos velhinhos mails do período a.t., que é como quem diz «antes do tapor».

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