17/09/04

Os Amantes de Maria, por Grunfo e Tinó

Regista-se no Tapor a seguinte correspondência trocada entre o Grunfo e o Tinó, via mails, no mês de Dezembro de 2003 a.t. Primeiro escreveu o Grunfo:

Tinó, passa cá pela Rosa Falcão, para levares os livros que me emprestaste.
Está aqui o Feitiço da Ilha do Pavão, do João Ubaldo Ribeiro, O Burro de Ouro, do Apuleio, A Grande Arte, do Ruben Fonseca e a História da Coluna Infame, do Alessandro Manzoni. Fico na dúvida se não me tinhas emprestado um segundo Ruben Fonseca, que não encontro lá em casa, mas que é inconfundível com os meus pois não tenho nenhum dele.
Agora, digo-te que não li nenhum, porque não consigo ler os teus livros. São puros, imaculados, branquinhos e, pior que tudo, têm a espinha intacta, intacta meu Deus! Comé que tu consegues ler um livro sem lhe partir a espinha? Partir-lhes a espinha e abrir-lhes a goela é a primeira coisa que faço.
Ora tu, que não usas nem queres orelhas de marcação nas páginas dos teus livros, como queres que os leia? A mim, que a primeira coisa que faço é marcá-los a ferros, partir-lhes a espinha por completo, abri-lhes a goela até infinito e criar-lhes memórias futuras com marcação fluorescente. A mim, que os leio na casa de banho, a comer bacalhau dos brutos e nas bichas de trânsito, como queres que conspurque os teus livros? Não posso e não consigo ler de outra maneira, logo...
A Coluna Infame do Manzoni é genial, mas impossível de ler. Como pudeste tu ler aquele livro sem o abrir? Eu arranjei um torcicolo no pescoço a tentar ler aquilo na cama sem lhe partir a espinha. Não parti, está intacta. Mas desisti de o ler e fui comprá-lo. Agora tenho-o lá para ler e marcar a ferros a meu gosto.
O Burro de Ouro é caso igual. Não posso afiambrar naquela espinha. O Ruben Fonseca é autor de referência para comprar de futuro e ler de rajada, assim comó Ubaldo que já ando a comprar.
Passa cá e leva.

ass: grunfo

E o tinó respondeu:

Ora essa! Então tens o desplante de me devolveres os livros sem os teres lido? Salta-lhes pra cima, enraba-os à tua vontade, quebra-lhes a espinha, mas lê-os, ó grunfo dos infernos! Eu cá tenho os meus métodos para os desvirginar com jeitinho, em foda lenta, carinhosa. Mas eu sei lá se eles depois não preferem um pouco dessa tua brutidade? E se quiseres pôr-lhes pinturas, se isso te dá gozo, pois pinta-os! pinta esses ingratos! traça-os a fluorescente, põe-lhes rímel, sombras, tatuagens, o que quiseres! Um gajo deixa-os sair de casa, deixa-os estar a desoras fora do lar, e é claro que depois se tem de sujeitar a estas coisas! Eu cá os receberei como filhos pródigos, não te preocupes. E digo-te mais: na próxima vez que nos encontrarmos, faço-te um interrogatório cerrado sobre cada um dos meus livros! Se não responderes, não os aceito em casa. Inúteis, e ainda por cima choninhas, não os quero em casa! Antes pintados e enrabados! Fónix! Tenho dito! Isto é a sério!

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