01/09/04

Traumas e Pesadelos, por Boney M.


No meu 5º ano do Liceu, agora 9º ano ou coisa que o valha, partilhava diariamente o autocarro com a Alice. A Alice era um estrondo. E eu fazia-a rir. Era a minha técnica de sedução. E mais piada menos piadinha lá ia levando a água ao meu moinho e as mãos às coxas generosas da boa da Alice. A Alice era mais velha, bem nutrida e má de letras, mas tinha uns olhos azul turquesa de ir ao mar e ficar. Ela ria-se e prometia, o que era meio caminho andado para a boa-aventurança.

Até que um dia..., no velhinho ginásio do Liceu Dª Maria, a Prof. de ginástica nos mandou aos dois buscar colchões de ginástica à arrecadação. Boa. Supimpa. Agora a coisa vai dar. Colchões, Rebolanço, Rebolanço, Apalpanço, Apapalpanço, Coisa e Tal...

A Alice não se fez rogada e também percebeu a oportunidade e o meu sorriso malandro. Mal entrámos na arrecadação, comecei em agarranço de brincadeira e ela a rir-se jogou-se em peso para cima dos colchões, num estardalhaço jingão de carne apetitosa. Preparava-me eu para me lançar, quando me deu a veia humorística :
“ – Ca Ganda`Baleia! “

Traz, Zás, Pás, Cachapum. Crash and Burn! A Alice levantou-se de imediato tipo mola de aço, lançou-me um olhar fulminante de morte súbita e enterrou o estilete até ao fundo da aorta:
“ - Ca Ganda`Estúpido !”
Deixou-me sozinho com os colchões, saiu e nunca mais me falou. Nem na ginástica, nem no autocarro, nem no resto do ano todo.

Aquele maldito “Baleia” estragou tudo. Na altura, fiquei a balbuciar sem perceber e só muitos anos mais tarde lá cheguei. Mas que diabo, aquilo era pra rir. Ela até nem era gorda, a piada estava nisso mesmo! Também não era Palito que eu não sou o Poppeye! Mas, não era gorda, apenas algo alimentada. Daí, o Baleia, percebem? Ela não percebeu, não quis perceber e muito tempo depois lá deu um frio “tás desculpado”, mas a coisa tinha morrido de vez e Kapput! Crash and Burn!

Ainda hoje lamento aquele “Baleia”. Foi um trauma severo e deu origem a uma série de pesadelos. Aprendi que se deve ter o maior cuidado com qualquer leve ou ínfima alusão ao “peso” do Género Segundo. É coisa que Julieta nenhuma computa, por mais cuidadoso que seja o Romeu. Nem como piada. Aliás em piada, ainda é pior.

Mas que diabo se passa com tal género, que não se pode fazer a mais breve alusão à generosidade de carnes? O Rubens hoje em dia dava de certeza em paneleiro. Não se safava. As venusianas nunca lhe perdoariam aquele excesso de rotundidades e carnadura. Antes serem pintadas por Picasso.

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