20/10/04

Bestiário, por Cão

-Vi um desenho do Egipto ressuscitar num perfil de café. Corpo de mulher com cabeça de pássaro, tudo num perfeito perfil de manual de história.
Vi um homem igual a um Cão, coçando-se, comendo e dormindo como um cão num passeio de Lisboa.
Vi um rapaz-porco a refocilar pastéis de nata numa pastelaria de província. Grunhia de beiço húmido e olhinhos cor de canela fria.
Tive por amante uma cobra verde, com quem cortei relações (às postas) depois de quase me ter sufocado com o hábito de dormir enrolada no meu pescoço.
Conheci um homem-homem que, por sê-lo, era tão pobre como uma pedra do monte.
Assisti no mesmo café ao voo de uma criança-libelinha, que em todas as mesas deixou um lastro de doçura irisada.
Fui à praia assistir às nadadoras. Escaladas ao sol como carapaus da Nazaré, eram ebúrneas e lentas à maneira de visões no deserto. Gostei muito.
Gostei sempre muito, aliás, de animais. Em toda a parte os reconheço, a começar pelo espelho da manhã, quando raspo a barba que no segredo da noite me foi tornando sósia de um chimpanzé estremunhado.

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