14/10/04

O Tapor em N.Y., por Mangas

O que ia a conduzir falava pouco, ao contrário dos outros quatro que usavam todos bigode para parecerem mais velhos, e emborcavam champanhe com sabor a pina-colada por uma garrafa camuflada num saco de papel pardo a passar de mão em mão. Eu mantinha-me como o que ia a conduzir e ia topando o sotaque gang-mafioso-italo-americano deles todos. Vestiram-se para entrar no LimeLight, camisas escuras, golas abertas debaixo dos casacos lustrosos, fios de ouro ao peito, cabelos empastados com Brylecream, fechavam os dois dedos médios e o polegar e apontam o mindinho e o indicador quando falavam com alguém, para intimidar. Eram capazes de impressionar naquele revivalismo póstumo dos setenta com estilo. Tinham todos alcunhas de gangsters a seguir ao primeiro nome: Paulie "The Fat", Vinnie Clemenza, Joe Cicero e Gino T. (que eu nunca cheguei a descobrir se era de Tattaglia). O que ia a conduzir era apenas "C". Um dia, enquanto cozinhava, explicou-me que começou por ser Cool Hand porque era um príncipe do volante, depois Cool Hand Look e daí a "C", foi um instantinho! Se eu tinha visto o filme, respondi-lhe que sim, cortava ele o alho, os tomates e a cebola para o molho e explicava-me que o segredo estava na mistura das carnes de vitela e porco alouradas em azeite bem quente com alho cortado em rodelas finas. Muito finas. Naquela noite, em cima da Brooklyn Bridge, pensei que afinal podíamos todos ser os personagens do Goodfellas do Scorcese, depois de um deles me ter contado como correram atrás de um negro que vendia crack a quem chamaram our bitch!, só pelo gozo da situação. Por vezes falavam como se eu não estivesse ali e só passado algum tempo, quando a terceira garrafa meia vazia chegava às minhas mãos, é que me explicavam quem era a tal tipa que se tivesse os miolos do pai e o corpo da mãe dava uma puta genial. No início, talvez o fizessem para contrariar a minha condição de outsider. Para me indicarem que podia entrar nas conversas mesmo sem ser convidado. Lá para o meio da noite, já me viam como um deles e apresentavam-me aos amigos como ma man D.!, mas ainda sem direito a sobrenome siciliano.

Jantámos em Litlle Italy para completar o cenário, discutiu-se quem era o maior, se Frank Sinatra ou Tony Bennet, ficou-se por um empate técnico para que não corresse sangue, porque o senhor Antonio di Bennedetto ganhou por um voto mas o coro em algazarra cantava I`ve got you under my skin. Vinie saiu para vender tabaco de enrolar açoriano, comprado no quiosque de um português em Jersey, como sendo erva pura da Jamaica e logo a seguir passámos pelo detector de metais à porta do LimeLight onde a Madonna costumava chegar de limousine para beber um copo e que, noutros tempos de igual veneração, fora uma igreja católica.

Lá dentro, numa gaiola suspensa num tecto gótico, contorcia-se uma strip chinesa. Despia um fato imaculado de bailarina clássica que contrastava com os púrpuras e os sanguíneos dos vitrais preservados de S. Pedro. A toda a largura de um púlpito em granito, três imaculadas Virgens Playboy com as mamas a servirem de pontos cardeais, apontavam a shampoo room à esquerda, e a gay room à direita. Primeiro impacto. O som da batida funky entranhava-se na atmosfera esmagada pelo fumo, cheirava a hormonas por todo o lado, nas casas de banho cheirava a tudo que era perfumes da moda a troco de um dólar por esguichadela, um festim intenso e orgiástico de aromas e espelhos, havia gays com calções de ganga colados pela boca, aos pares, como peixes a presos pelo anzol, segundo piso, negras entesoadas, verdadeiros coirões MTV, com longas unhas postiças em forma de meia lua e o cú em forma de coração, gajas hip-hop, mini-saias convite, bocas-broche, lábios-batôn, rostos à espera de Deus, som, muito som!, terceiro piso, mais som, batida infernal!, impossível ficar quieto, olhos bem abertos, sorrisos fechados, uma grande sala chill out com poltronas velhas em veludo vermelho e um DJ novo de óculos Ray-Ban aviador que flutuavam numa densa combinação de marijuana e reggae. Os óculos e o DJ. Saímos dali quando a madrugada se esgotara de nós e corremos à chuva até à esquina da Broadway Street com a 8ª Avenida onde costumava estar um emigrante polaco a vender cachorros quentes, mesmo ao lado de uma abertura no asfalto por onde saía o vapor do metro.

Lembro-me que um deles cantava desafinado Papa Was a Rolling Stone, dos Temptations, e aquilo soou-me como um peça de violinos e harpas que se escuta ao pôr-do-sol, depois de uma descida ao techno-Dante.

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