01/10/04

Salvador Dali, Crucifixion(Corpus Hypercubus), 1954. Por Margarita

Alguém disse que Picasso é o artista do feio e Dali da beleza. No que toca ao pintor surrealista, este quadro bem pode atestar esta afirmação. Cristo é o elemento central de Corpus Hipercubus. É um Cristo escultural, belo, perfeito, quase pagão … Ao contrário do que é hábito numa certa tradição pictórica, Dali não quis pintar o sofrimento do Messias, os pregos, o sangue, a coroa de espinhos… Mas, segundo diz, por influência de um provérbio espanhol, («A mau Cristo, sangue em demasia»), opta pela pintura da «beleza metafísica de Cristo-Deus». É essa beleza depurada de sofrimento que observamos aqui. O Cristo de Dali é o contrário do Cristo sofredor da tradição (do de Mel Gibson, por exemplo, completamente reaccionário na sua concepção), é um super-herói, um Apolo grego que paira por cima dos homens e das leis da natureza.

O Cristo flutua numa pose magnífica, desafiando as leis da gravidade, apesar do carácter denso e compacto dos cubos que constituem a sua cruz. Ele não está preso com pregos à madeira, o seu corpo está ileso. A sua face está escondida e a pose é ambígua. Será sofrimento? Pelo contrário, pode perfeitamente ser uma pose de prazer, de êxtase místico, tema tão querido ao Dali desta fase… Não está pregado, não está forçado a fazer parte da cruz mas, pelo contrário, parece fazer corpo com ela, como se fossem o mesmo corpo, uma espécie de ser cibernético. É um Cristo da era do átomo, um super-humanóide futurista e não uma visão reprodutiva da narrativa religiosa tradicionalista. Dali não procura reconstituir uma saga passada, mas cria um Cristo moderno, do século do átomo.

Na metade esquerda do quadro está Gala, a musa permanente de Dali. A dedicação do pintor durante toda a vida a esta mulher é de tal ordem que chegará a assinar quadros com o nome de Gala-Dali pois, como explica, sem Gala, Dali não seria o que é. Em Corpus Hypercubus aparece representada como rainha ou santa, olhando devotamente o fantástico Cristo que flutua na noite.
Podemos também recordar o primeiro nome de Dali – Salvador – e identificá-lo com o misterioso Cristo na cruz. Será Cristo, o Salvador (Dali)? Nesse caso, a história pessoal – a adoração de Gala por Dali e vice versa – funde-se com a história cósmica do Cristo religioso. O cenário de de Crucifixion é a paisagem de Port Lligat na Catalunha- outra referência constante da obra do pintor-, lugar inspirador de Dali. Como Gala, contribui para a criação de um clima de fusão entre cósmico e local.

A estranha cruz, por sua vez, parece feita de um material extra-terrestre, asséptico, carbónico… É feita da junção de vários cubos, cada um um micro-universo em si próprio - o cubo, como a esfera, é um símbolo geométrico da perfeição, da regularidade, em que cada face é rigorosamente igual às outras. Isto sublinha a perfeição do Cristo e a identidade entre este e a cruz. A cruz feita de cubos remete para o habitual jogo de referências obsessivas de Dali. Vejam-se os exemplos de Cruz Nuclear (1952) e de A Cruz do Anjo (1960) que misturam a alusão religiosa e científica. A cruz de Corpus Hypercubus remete para este mesmo cruzamento religião/ciência. O pintor surrealista confessa que, depois da influência decisiva de Freud na fase inicial da sua obra, esta nova fase será marcada pela marca do génio da energia atómica, Werner Heisenberg:

«Hoje o meu pai é o dr. Heisenberg. (…) A física apaixona-me. (…) Após ter meditado sobre o que acabava de estudar (a teoria da relatividade e a física atómica) (…) dei conta de que sou tão inteligente como pretendo sê-lo, pois cheguei às mesmas conclusões do sábio. Foi por causa disto que eu, que só admirava Dali, passei a admirar esse Heisenberg, que tanto se me assemelha.»

A modéstia nunca foi a maior qualidade de Salvador Dali…

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