24/11/04

Ligação à medusa, por Cão

Devia ter chorado durante o sono, pensou, porque ao acordar os olhos lhe estavam inchados como incham os lábios durante o amor. E também porque, no exacto lugar onde outrora o coração, sentiu que lhe pulsava uma medusa de ácido. Pessoa prática, fingiu não sofrer os destroços de alguém que desperta para a certeza de o mundo ter recomeçado sem ela.
Levantou-se, ferveu água para o café, gargarejou elixir no lavatório, bebeu o café, vestiu a melhor roupa, calçou os sapatos melhores, semeou flocos de comida na água do peixe vermelho e saiu para o patamar, onde o poço do elevador de grades escancarava a dupla possibilidade do inferno ou do rés-do-chão. Foi pelas escadas.
O fecho eléctrico da portaria emitiu um protesto indignado, a que não ligou porque se não deve ligar a tudo. Havia sol.
Caminhou pelo lado do sol, rasando as sucessivas pastelarias de almoços rápidos, as rápidas lojas chinesas onde budas miniaturais incham de plástico ao pé de telemóveis de brincar, as infinitas sucursais bancárias das capitais pobres, os carros abandonados à mercê dos cães urinários. Foi marchando com a pressa de quem não tem aonde ir. Que fazer de tanto domingo?
Num relance de avenida alta, viu, longe, um trecho de rio: pele de luz, mais que de água, tatuada de velas e cargueiros. Dirigiu-se a essa visão hóspita, bastando-lhe descer no sentido das calhas do eléctrico. Até que chegou. Livre de prédios, o rio unia sem tracejado o céu montante ao mar jusante, como certas palavras são capazes de fazer. Gostou de ver o sol dissolver-se na água, açucarando-a da mais benigna das ilusões – a eternidade.
Um cargueiro bramiu como um elefante acorrentado, e a voz do navio rasgou o domingo em dois, como se o domingo fosse um melão. Pescadores à linha erguiam as canas à maneira de exclamações mudas, atentos ao parkinson das bóias. Também gostou dos pescadores, que procuram mais a solidão do que o peixe.
Lembrou-se, então, do seu peixe, o vermelhusco de olhos esbugalhados que por ora mordiscava a tona do aquário com a felicidade indiferente dos que se resignaram. Lamentou não tê-lo trazido consigo, dentro de um saco de plástico tão inchado de água como olhos ou budas, não tê-lo trazido para o dar ao rio, onde teria de aprender a evitar a solidão assassina dos pescadores mas onde se não veria sujeito a rasar pastelarias, chineses, bancos ou carros, nadando, em vez disso, no açúcar solar como se para sempre.
Lamentou mas não ligou, porque não ter nada é a melhor razão para não ligar a tudo, muito menos à medusa.

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