07/11/04

Steve McQueen, por Mangas

Ocorreu-me dizer-te algumas coisas. Todos estes anos depois de ter visto Nevada Smith pela primeira vez, ocorreu-me falar-te daqueles dias de cinema e inocência perdida que tiveram também a ver contigo. Que perceberias o que quero dizer se ainda por cá andasses. Sabes, é que agora, nestes tempos de filmes com prazos de consumo e vocação para produzir mitos rascas, recordo-me com frequência dos teus personagens e dou comigo a pensar se, na realidade, cada um deles não te personificou de algum modo. Se todos eles fragmentados não era tu por inteiro. Ainda que não fizesses grandes esforços para que reparassem na tua presença. Porém, como era possível não reparar em ti? Talvez não te preocupasses muito em domesticar lá por dentro o selvagem intratável em fúria contida. Talvez nem quisesses ser esse ícone vagabundo de pés descalços caminhando sobre um vulcão sem rede. Quem anda à chuva molha-se, e a ti nunca te vi de guarda-chuva aberto. Procuravas, se calhar, mostrar nos filmes como te sentias fora deles e porque razão te saltava cá para fora aquela essência de duro nostálgico, a expressão irrequieta e o os olhos em agressão sem tréguas ao azul, tentando perceber se, afinal de contas, representar é coisa para um homem crescido fazer.

Disseram-me que em certas alturas tinhas de forrar com algodão o assento de uma Harley para poder continuar em cima, correndo 24 horas off-screen, ainda que não houvessem mais homens-estrelas à tua volta, para além da tua sombra empoeirada determinada a prosseguir. Sei pouco de carisma se queres saber, mas naquele tempo tinha poucas alternativas a deixar-me ir atrás, tentar cobrir-te pela costas e ver-te arrasá-los a todos sem pestanejar, ver-te chegar ao fim em primeiro, ou sentir-te as dores nas costelas ao ergueres-te outra vez depois da centésima queda. «I live for myself and I answer to nobody», resumiste um dia. Contigo, aconteceu-me muitas vezes perceber que estavas lá, mas na realidade não estavas. Quer dizer, os teus aviadores, os teus detectives ou prisioneiros, os teus personagens condenados, emergiam de um natural sentido de ausência e indiferença ao banal quotidiano que passava para o lado de cá. Para mim, simbolizavam em privado a tua liberdade incorruptível e a ânsia indomável de contrariar a inércia da resignação. Tu eras o Papillon de todos nós. O outsider que fabricava as fugas, fazia as despesas da liderança e aceitava sem hesitar as emoções incondicionais da aventura. Todos nós, de uma geração, éramos apenas figurantes em papéis secundários, destinados a cumprir e minimizar os percalços da sobrevivência e a sentir o incómodo de um nariz amassado nos coices da vida real. Como tal, não te surpreendas se alguma vez desejei que fosses o tal irmão mais velho que nunca chegou a descer da tela para me vir buscar numa qualquer Grande Evasão. Em sentido contrário ao destino. Recusando duplos nas cenas mais perigosas, como tu sempre fizeste. Desafiando o perigo em alta cilindrada. Arriscando, arriscando como loucos, sem pit-stops nem seguro de vida. Ir até ao fim do mundo à procura sei lá de quê autêntico por descobrir. Fazendo de qualquer causa perdida um ideal para defender de peito aberto.

No dia 7 de Novembro de 1980, entre os corredores esventrados pelo branco asséptico da quimioterapia, em Juarez, México, eras ainda o último dos puros. Dizem que te agarraste até ao fim àquele sorriso de ferro em brasa que se recusa a ser temperado. O anjo órfão que te possuiu a alma em vida, cumpriu o seu destino e entregou-te a um lugar no qual só entram os homens que sobrevivem à morte e o fazem à sua maneira. Tanga! Reconheçamos: sempre foste um mestre em fugas. Desconfio bem que nos enganaste a todos, tiraste o teu quinhão de açúcar e fugiste de vez para longe, para não acabares a morrer sentado com um copo de martini na mão.

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