13/11/04

"Teria sido uma boa mulher", disse O Inadaptado, "se estivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela", por DervicheRodopiante

Descobri uma coisa portentosa. Passeava calmamente por um dos ensaios de Harold Bloom, quando os títulos de alguns dos contos da americana que ele recomendava, me fizeram arrepiar na sanita. “Os Coxos hão-de entrar Primeiro?”. Eh lá, isto é um conto do Cão!. “Não se pode ser mais Pobre que os Mortos?”. Chiça, isto é Tinó puro, talvez Xiita mesmo. E logo outro. “Os Homens bons não são fáceis de encontrar.”. Caramba, mais Mangas que isto, não se pode ser, e com um cheirinho de Vice.

Estes títulos negros, ligeiros e profundos ao mesmo tempo, cómicos e sérios, tudo na mesma frase, transportaram-me de imediato para um universo fora do habitual. Um universo negro, impiedoso, iconoclasta, porco mesmo. A leitura da coisa fazia-me adivinhar um gozo que até arrepiava a espinha..

Depois de meses de investidas pela Almedina, Bertrand e Fnac, lá consegui finalmente o “Antologia Indispensável”, edição Dom Quixote de 1996. O meu primeiro livro de contos da Flannery O`Connor, uma católica sulista de Savannah na Geórgia que cresceu e viveu numa Quinta de criação de Pavões, chamada “Andalusia”.

A frase do título deste Post é a frase com que termina um dos contos da O`Connor e situando alguma coisa, termino com as palavras do prefácio do livro “…por detrás de um cenário aparentemente insuportável de banalidade começam já a insinuar-se os primeiros sinais de alarme relativos à demência indomável da natureza humana.(…) Incrível. Hipnótico. Estranho. Mas não é a história. Somos nós. Nós os humanos, somos estranhos. Flannery era muito nova mas sabia isso melhor que ninguém.”

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