18/12/04

Lua Apache, por Mangas

Sento-me à lareira numa noite fria, se fosse uma sexta-feira ou sábado, daria o mesmo, bem sei, não é o dia da semana que conta mas o calendário lunar. Isto porque sei sempre quando é noite de lua cheia pelo ladrar dos cães presos nas traseiras da quinta cujo muro separa a minha casa. Fazem um cagaçal medonho, ladram para ali toda a noite, latidos estridentes e ganidos prolongados, arranham a vedação de arame como se estivessem possuídos. Gosto de cães, entenda-se. Mas estes são cães amaldiçoados; verdadeiros demónios disfarçados de quatro patas que não demonstram um pingo de afecto ou submissão. Quando a matilha anda à solta, cagam à entrada dos portões, mijam nos pneus dos carros, ladram aos putos da própria quinta, atacam as velhas ao domingo quando saem com véus negros e naftalina para a missa, morderam o carteiro já por duas vezes, há umas semanas atrás atacaram um miúdo mongolóide que andava aos grilos, no hospital tiveram que lhe dar dez pontos na perna e, para o vacinar contra a raiva, espetaram-lhe uma agulha na barriga que o pôs a berrar pela mãe que nunca está em casa porque é puta de estrada. Tudo por causa dos cães.

Mas noites como esta não têm queda para mártir, não há remédio que as salve. Contudo, têm várias possibilidades de redenção: fazer uma grande fogueira no quintal, juntar pinhas, caixotes velhos de papelão, uns bons troncos de oliveira e um pneu velho, pôr a arder aquilo tudo para acalmar os cabrões dos cães, tendo o cuidado de não criar um filtro em forma de clarão de fogo entre mim e o brilho da lua - que é lua cheia, não me posso esquecer, e desperta nas criaturas instintos sanguinários. Dessa forma estaríamos em pé de igualdade. Penso também noutras possibilidades alternativas. Penso em carne com veneno, numa carabina de repetição calibre 22/longo ou numa caçadeira de canos sobrepostos com cartuchos de sal. Ou conceber uma estratégia de aproximação para os injectar com água destilada. O sal atravessa o pelo, penetra na carne e arde enquanto se dissolve. Alguns colonos usavam este truque em Angola para castigar os negros que iam roubar mangas e goiabas para matar a fome. Ficavam com feridas profundas no rabo que levavam meses a cicatrizar. A carne apodrecia e era cortada, ou era cauterizada com nitrato de prata, ou brasas de carvão quando o nitrato se acabava, porque a cinza desinfectava, diziam. A água destilada, quando injectada numa área muscular densa, é descrita como uma sensação de queimadura profunda e insuportável. Simples e eficaz. Mais ideias que me ocorrem para os amansar: um ferro de marcar bezerros em brasa com a forma de um crucifixo; um chicote longo com pontas aguçadas de latão nas extremidades; um chicote electrizado; um dispositivo qualquer associado ao cabo grosso do chicote que quando accionado largasse uma descarga de 220 volts em pleno lombo; um taco de baseball em madeira maciça ou em liga de alumínio. Luvas, capacete e cole à prova de bala, aproximar-me deles o suficiente para manter uma distância de segurança, esperar a investida das feras e depois, um a um, de cima para baixo e com as duas mãos bem firmes no taco, assentar-lhes uma porrada seca no centro da cabeça, um som oco de ossos a quebrarem-se, um gemido surdo, o sangue a escorrer pelo focinho misturado na baba, seguido de um arfar cada vez menos perceptível, cada vez menos audível até se extinguir completamente; um bidão de gasolina ligado a uma mangueira de aspersão, dar-lhes um belo banho à distância e aproveitar o fósforo para acender um cigarro. Esta solução apresenta algumas possíveis variantes: começar por lhes regar apenas o rabo com gasolina, deixá-lo arder e depois passar ao resto do corpo. Ou começar primeiro pelas orelhas, ou pelo focinho ou pelas patas. Nesta última escolha, lembrar-me-ia de despejar uma quantidade considerável de gasolina na área circundante de forma a que eles incendiassem a terra à sua frente, quando tentassem fugir. No entanto, e para qualquer uma das opções, convinha ter à mão uma mangueira de água com o jacto direccionado e regulável em intensidade, para ir apagando os estragos parciais em cada um dos bocados a arder. Assim, a coisa prolongava-se no tempo e por secções até à combustão final. Por exemplo, primeiro as patas, controlar o incêndio; depois as orelhas, controlar o incêndio; depois o dorso, controlar o incêndio; e finalmente uma geral de gasolina para toda superfície restante que ainda não estivesse esturrada. Ou acelerar a coisa e passar directamente das patas para o resto do corpo, se eu não estiver com paciência para estar ali muito tempo a apanhar frio.

Depois, sem pressas, irei comer uma chouriça assada lá em cima, junto à janela da minha sala com vista para as traseiras da quinta cujo muro separa a minha casa. A lareira aos meus pé, o silêncio profundo vindo do bosque adormecido, um cheiro perfumado a churrasco de cão a entrar-me pelas narinas, trazido pela mansidão de uma noite de lua cheia, vindo cá de baixo, onde as bestas costumavam ladrar.

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