21/12/04

O JPC lançou Diálogos com a Cidade e o Porco foi ao lançamento, por Coelho Caga no Prado

Aqui há uns tempos, o membro honorário do Porco, Sua Eminência JPC (Palavrar, link aqui no Tapor) lançou o seu primeiro livro. O lançamento não foi mau, apesar de terem faltado os acepipes (nem uns caraças duns amendoins, fónix!). O Porco, como não podia deixar de ser, esteve lá em peso com o seu núcleo duro logo na primeira fila pra atemorizar e impor o respeito devido. Eu já li o livro e venho aqui fazer-lhe uma referência – o Jota pediu clemência, logo na altura, ele sabe como o Porco pode ser cruel. Eu li o livro e acho que ele não tinha razão para tal pavor. Acontece, JPC mafrende, que o livro é bom.

«Diálogos de Coimbra» é um livro que me faz lembrar um LP ou um CD. Como um LP ele é constituído por monólogos de vários personagens que têm em comum, apenas, a cidade de fundo, a Lusa Atenas. Por isso cada monólogo é como se fosse uma faixa de um disco. Conhecendo o Jota como conheço, eu diria que está aqui presente a sua eterna costela musical. O livro tem pois a vantagem de poder ser lido como se ouve um CD, escolhendo aleatoriamente uma faixa/monólogo lendo/ouvindo de trás prá frente ou de frente para trás.

E as faixas são boas? São. Está cá o humor corrosivo do autor que já nos habituámos a apreciar por aqui mesmo, as personagens estão bem construídas não são estereótipos, são humanas, fracas algumas, como fracos somos nós, imorais ou amorais, aqui e ali. É interessante como o Jota nos pôs na cabeça de indivíduos aparentemente banais e desinteressantes, mas que nos comovem com os seus dramas tão ínfimos e pessoais. Gostei do Norberto, funcionário público, do Miguel Ramos que me pareceu auto-biográfico, do senhor Dias imenso na sua pequenez, como gostei do jovem advogado (parece que estou a vê-lo no café Santa Cruz). Não gostei da puta que achei mais artificial, nem do Dimitri que achei viver de clichés acerca da cidade ( a cidade do fado e da tradição, o olhar romântico para a cidade dos doutores). Até a sua colocação no final do livro me parece chocar com a lógica LP do livro. É como se no fim o Jota não tivesse resistido à tentação de unificar o livro de lhe dar uma coerência final através de um meta-olhar estrangeiro que redimisse a cidade vista pelos olhares dispersos dos seus habitantes banais mas comoventes. Teria gostado mais que o olhar permanecesse disperso como em todo o livro. Que fosse uma lógica LP até ao fim.

Finalmente quanto às fotografias da Susana Paiva creio que não se conciliam de um modo muito pacífico com a escrita e o olhar do JPC. Acho o olhar do Jota mais BD, mais verrinoso, mais Série B. As fotos conotam outro universo estético, mais estilizado e depurado. E num livro que fala de pessoas, teria gostado de ver fotos de pessoas. São boas fotos, mas não creio que se harmonizem com o clima estético literário do livro.

E finalmente, Jota, nunca mais escrevas nem permitas que se diga que o que fazes é light. O que fizeste é tudo menos light – revelas domínio de escrita num género tão difícil como o monólogo, argúcia e sensibilidade no olhar sem caíres na lamechice, o que é uma fronteira muito ténue e quase sempre mortal. E no próximo lançamento, vê lá se encomendas ao menos uns tremoços.

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