01/12/04

Para acabar de vez com o 1º de Dezembro, por Pata Negra

Se eu mandasse, acabava com o feriado que hoje se comemora. Eu sou iberista! Sou iberista na mesma forma que sou europeísta, federalista, convicto. Para os portugueses, Europa significa Espanha. E ainda bem. A Península Ibérica unida é capaz de se equiparar, sob todos os indicadores, às grandes potências europeias. A União Ibérica é uma vantagem estratégica.
Mas sou iberista também porque reconheço nos traços profundos da portucalidade a profunda e telúrica raíz hispânica. No essencial, nada nos separa, nem a geografia, nem a matriz civilizacional. Separou-nos a história e as razões de Estado. Há pois uma razão de ordem cultural.
Sou iberista, ainda, porque encaro a independência nacional como um instrumento que cumpriu uma estratégia com enorme impacto na História da Europa e da Humanidade. Cumprida essa missão, o instrumento histórico que foi a autonomização da faixa ocidental da Península a que chamamos Portugal, perdeu sentido enquanto realidade política separada totalmente, como o esteve durante séculos, do corpo hispânico. Há que reatar a umbilicalidade com a Península, sem preconceito, pois isso não significa derrota ou prostação. Se o não fizermos assumidamente, teremos que o fazer por via da aceitação dos factos que ditam, já, a Espanha como nosso principal parceiro comercial, quer ao nível das importações quer ao nível das exportações.
Sou iberista também, por razões de análise histórica. Revejo-me na política de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I. Lamento que o malogrado D. Miguel de la Paz, neto dos Reis Católicos e filho de D. Manuel I, jurado herdeiro de todas as coroas ibéricas, tenha falecido prematuramente. A União dos reinos ibéricos foi um objectivo perseguido pela política externa portuguesa pelo menos desde os finais do século XIII até aos finais do século XVI. A revolta de 1640 não é mais do que um golpe protagonizado por uma elite decadente, minoritária, sem qualquer apoio popular. A nobreza parasita e decadente, habituada à inutilidade e aos favores do Estado, incapaz de se adaptar à modernidade, capitaliza o descontentamento popular, meramente conjuntural, para lançar para a ribalta a cabeça de uma das mais poderosas e inúteis famílias da nobreza peninsular: a Casa de Bragança, uma linhagem de parasitas latifundiários, alérgicos ao trabalho e incompatibilizados historicamente com o serviço do bem comum. Ainda no século XIX, numa época em que a Alemanha e a Itália se unificaram, para quase toda a nossa intelectualidade a ideia ibérica parecia aceitável, inevitável, ou desejável. A começar em José Felix Henriques Nogueira e a acabar em Antero de Quental, o melhor da intelectualidade portuguesa de Oitocentos agradava-se com a ideia. Do lado de lá, partiram os convites para que o nosso rei D. Fernando de Saxe Coburgo Gotha, D. Pedro V ou D. Luís, aceitassem o trono de Espanha. As razões eram ditadas pela conjuntura interna, mas também consideravam, naturalmente, uma simpatia para com a ideia de unidade peninsular. Esta tradição do nosso pensamento político e cultural chega ao século XX, merecendo destaque pensadores como Miguel Torga, Natália Correia, Oliveira Marques, ou João Medina.
Sou iberista ainda porque encaro o mosaico das nações peninsulares, e a sua pluralidade, como matizes de uma mesma tradição civilizacional. Não vejo nessa pluralidade uma ameaça à unidade, que a bom dizer nunca existiu ou existiu apenas nominalmente, quer nos tempos romano-góticos, quer nos filipinos; mas vejo-a como sinal de uma diversidade enriquecedora que faz da Península, em todos os aspectos da história da Europa, um dos pilares essenciais da civilização comum, um dos esteios indispensáveis da ocidentalidade que se impôs ao mundo. Outros há, mas o pólo peninsular é um dos mais importantes e o mais desprezado, quando o confrontamos com os restantes: o eixo anglo-saxónico, o germânico, o francês e o itálico. Se nos interrogarmos sobre a razão desta secundarização do vector peninsular no palco europeu, encontraremos, a meu ver, duas razões: por um lado, as tentações homogeneizadoras do centripetismo castelhano, visíveis na política centralista do último dos Filipes, ou no militarismo franquista que esmagou autonomias e visionou uma Hispânia imperial, ou ainda na soberba com que alguns sectores madrilenos ainda hoje falam de Portugal. Por outro lado, o nacionalismo exacerbado das nações ibéricas que, na vez de se encarem como parte de um todo, se presumem capazes de uma secessão viável. Seja o nacionalismo providencialista e quinto-imperial dos portugueses, seja o violento e obstinado secessionismo basco que fundamenta o seu anseio independentista na defesa obstinada e racista dos princípios absurdos de Sabino Arana, seja o complexo de inferioridade do nacionalismo galego que usa a lusofilia como arma de arremesso contra Madrid, seja até alguma arrogância catalã que levou, por exemplo e há bem poucos meses, o sr. Jordi Pujol a afirmar que a miscigenação era um atentado à identidade cultural da Catalunha. Tanto disparate leva-me a concluir: sou iberista em nome da universalidade dos princípios.
Sou iberista, finalmente, porque prezo o futuro mais do que o passado. Nunca tanto como hoje o futuro foi tão importante. Antes, no dealbar da modernidade, o futuro era o espaço de realização da ambição. Hoje, o futuro é o que nos resta. São os novos tempos e os novos problemas que não se compadecem com maneiras velhas de pensar. Questões como a protecção ambiental, a imigração clandestina, a emissão de poluentes, as estratégias comuns de defesa face a ameaças externas como o fundamentalismo islâmico, a política energética, o terrorismo, o combate ao grande tráfico, a lavagem de dinheiro sujo e as novas modalidades criminais, desde o proxenetismo ao turismo sexual e pedófilo, etc. Por outras palavras, face aos novos desafios, as soluções a achar terão que se estruturar sobre um outro conceito de soberania. Da mesma maneira que a soberania edificada sobre a demarcação territorial foi uma resposta para a afirmação de uma individualidade que permitiu encarar desafios e abrir horizontes (Portugal nunca teria iniciado a gesta expansionista amarrado ao todo hispânico). Os novos horizontes exigem não só a reformulação do conceito de soberania, mas a edificação de um outro que terá de ser feito, forçosamente, sobre a abolição do conceito tradicional. É esse o rumo da Europa, derrubar muros, abolir alfândegas, criar espaços mais vastos. E isto é não apenas uma necessidade, mas um salto qualitativo que nos guinda a um estádio superior, em função de um ideal universalista que a Europa sempre professou como mito dinâmico que marcou o rumo ao longo de 2 mil anos de História. Terá que ser um novo conceito, a soberania será agora simbólica, joga-se ao nível da cultura, da especificidade local contra o perigo da uniformização global. Manter a especificidade da língua, da cultura, da gastronomia, da etnografia, será a forma indispensável de alimentar a diversidade como garante de riqueza e vitalidade, evitando o empobrecimento derivado de uma homogeneidade avassaladora e orwelliana. Aqui faz sentido alimentar a soberania, como raíz de uma identidade.

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