07/12/04

Tratado Taurino, Volume 3, A Restauração, por RicardoChibanga


Depois do Volume Primeiro dedicado às Repartições Públicas e do Volume Segundo dedicado aos Tribunais, eis o Volume Terceiro do Tratado Taurino, sobre a lide na Arena Restaurativa.

O mastigante típico Português - tipo Didas na Barca - está habituado a “comer e calar”. Tem medo de devolver a sopa, tem pânico de fazer ondas, tem terror de que olhem para ele no tasco e sobretudo fica com pavor de que a sopa reclamada venha com uma escarreta de brinde.

Ora isto está mal e tem que mudar. Há que reclamar. Há que tourear. Se a coisa não está aceitável vai para trás e sem hipótese de remissão. No limite é preferível devolver, não comer e pagar, do que engolir a zurrapa nefanda com que por vezes nos brindam nos tascos.

No Porco, à excepção do Xiita que marra com tudo e todos menos com os estalajadeiros e que come toda a palha que lhe metem na manjedoura, é ponto de honra a lide restaurativa. Tal lide, é uma arte refinada e apurada em muitos anos de arena, e rege-se por alguns princípios universais e sagrados, uma vez que os toiros marram sempre da mesma maneira seja qual for o nível do tasco.

Antes de mais há uma regra base que o Porco segue sempre que é o “AVISO À NAVEGAÇÃO”. – São canónicas as amêijoas?, As queijadas foram feitas com que percentagem de leite de ovelha? – O Arroz é Carolino ou Agulha? – E se é Carolino é do Vale do Mondego ou do Sorraia?, etc e tal. Deve haver sempre um aviso prévio. Este aviso alerta o garção, quase sempre recém vindo da guarda de vacas pró serviço de mesas, que o mastigante em presença é um animal de respeito. Por outro lado o “Aviso Prévio à Navegação” faz com que o comensal ganhe legitimidade moral para depois reclamar. Permite ganhar ascendente e terreno na faena.

Nos tascos bairradinos de leitão por exemplo, pergunta-se sempre e previamente, à mocinha: “olhe lá têm leitão assado de agora e podem-nos trazer só desse, ou não?”. Em regra nem ouvem a pergunta e automaticamente respondem que Sim. A seguir trazem uma dose com um bocadinho de leitão quentinho a estalar de frescura e dois bocadelhos de mau aspecto com a pele engelhada do reaquecimento, por ser leitão do almoço ou do dia anterior. Azar. Há sangue na arena a seguir.

Aqui chegados, com ou sem “Aviso à Navegação”, impõe-se o respeito do segundo princípio básica da reclamação, a que chamamos: “O PADRINHO”, e que se pode traduzir por “Quando um burro reclama os outros Baixam as orelhas”. Seja em grupo avantajado, seja em casal ou em família, só um e apenas um, previamente combinado, é que reclama. Il Capo di Tutti Capo. O Padrinho. De preferência, é o mesmo que fez os pedidos e que, se for profissional, já se sentou pensadamente de frente pró curro de onde sai o toiro, isto é, de frente para os serviçais e a sua saída da cozinha. Na Confraria temos um cargo que é o de “O Rapaz”. Cabe ao Rapaz organizar e tratar de tudo com o estalajadeiro e os serviçais. Um simples copo de água é pedido ao Rapaz organizador que pede aos garçãos. Qualquer reclamação passa obrigatoriamente por essa única pessoa e por mais ninguém. Só ele fala, só ele gere a situação, porque a lide só pode ser feita por um toureiro. Dois toureiros distraem o toiro e levam marrada mais cedo ou mais tarde.

A regra Terceira é a “CORNADURA BAIXA”, isto é, havendo que reclamar e definido que esteja o toureiro, todos os restantes toureiros saem da arena. O toureio é um acto solitário, que exige concentração. E, mais importante que a concentração do toureiro, é a concentração do toiro. O toiro não pode ser distraído. Assim, todos os restantes comensais baixam a cabeça – bolinha baixa – fecham a boca e baixam os olhos. Jamais podem sequer trocar um simples olhar com o toiro enquanto ele está a ser lidado. Qualquer olhar da parte de qualquer outro comensal que não o reclamador toureiro, leva a que o toiro procure automaticamente por simpatia, compreensão ou benevolência nesse olhar que lhe foi concedido, nessa porta que se lhe abriu. E é por ali que ele foge. Jamais. Boca calada e bola baixa. A comiseração a ser concedida, sê-lo-á pelo lidador e nunca pela público do sol ou sombra. Desta forma toda restante mesa se cala e baixa a cabeça e os olhos. E jamais levanta a cornadura até terminar a lide.

A quarta regra relativa à calma e temperança, é por nós apelidada de “O POVO É SERENO”. A calma e a Serenidade, são o sal e o pão da terra que nos pode faltar na arena. O toureiro reclamante jamais pode perder a calma, exaltar-se ou enervar-se. Perde logo a razão e a lide. O toureiro tem que estar mais gelado que uma pescada do pólo norte, mais sereno e contido que um cágado alentejano. Serenidade, calma e cortesia são armas do toureio. Permitem a lide, não invertem a razão e deixam sempre margem para uma qualquer retirada estratégica. Só se reclama do que se sabe, se não se sabe pergunta-se mas sempre com calma e educação. Sem isso, o toiro marra a esmo, não se mete onde a gente o quer e não se deixa lidar. No limite há mortos e feridos e uma berraria desgraçada que pode só terminar na esquadra da zona.

A regra quinta e última é a de mais difícil aplicação. Constitui a estocada final. É ela que define o bom toureiro e é ela que faz desembestar o toiro. É a regra sublime e carinhosamente chama-se: “O SILÊNCIO É DE OIRO”. Pode parecer esquisito, mas numa lide destas, um bom toureiro distingue-se pela gestão do silêncio. Do seu silêncio. O lidador está de frente pró toiro, capta-lhe e concentra-lhe a atenção. Espeta com calma a primeira farpa. Silêncio. Sereno, espera-se a investida. Se o toiro fica quedo, leva com a segunda farpa. Contida, fria, gélida mesmo, mas que se enterra pela carne adentro. Silêncio. A besta investe, em regra sem norte e sem razão. Leva a estocada final e das duas uma ou cai de joelhos na arena ou destrambelha por completo. Toiro nenhum aguenta o silêncio. Não lhe entra no cérebro. A gente agarra-lhe a atenção, foca-o na Verónica, isto é na reclamação, não lhe permitimos a menor distracção e gerimos o silêncio. Lindo. “ – Tá a ver, este leitão geme água, vê…? (silêncio – uns segundos, só os necessários para o silêncio se evidenciar e incomodar, depois interrompe-se) – É que isto não aceitável para um restaurante deste nível, não acha…? (silêncio até incomodar de novo). Se a seguir lhe pedirem a patroa grelhada o gajo traz. Tá de joelhos aniquilado, encadeado, não tem por onde marrar, não tem por onde fugir.

Se o toiro, digo, o garção cai de joelhos, o toureiro é magnânimo, até porque isto é arte e não pura crueldade. Se marra desenfreado ou pior destrambelha por completo, dá-se uma estocada final no animal e apela-se pró director da corrida, mandando-se retirar o toiro da arena, coisa que um Director de Corrida jamais recusará. A estocada é sempre a mesma: “Vá-me chamar quem mande em si!, que o Sr. está um pouco enervado!”

Vindo o Director da Corrida, digo, o gerente, volta-se ao início da faena e começa a lide de novo, respeitando os mesmos princípios. Com o toiro de gerência, a lide só pode terminar de duas formas, ou com o animal ajoelhado a nossos pés pela arte e força da lide, ou pelo ferro da estocada final. Solene e à Matador: “Faça-me o favor de me ir buscar o livrinho de reclamações!”
Até espumam quando levam com este ferro. Já o fiz dezenas de vezes e nunca, mas nunca, me deixam lá escrever alguma coisa. Ajoelham e deixam-se lidar. A sangrar, mas ajoelham.

1 comentário:

Anónimo disse...

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