05/12/04

Venham a Nós os Animaizinhos..., por Zé Critério

Não é fácil encontrar uma matriz comum ao conjunto dos Porcos, digo, Confrades - Deus os Abençoe -, que por aqui erram tal é a diversidade de alimárias. Contudo, existe um Elo de ligação primordial e primário, que nos une e nos liga à Criação. Esse Elo é o nosso Amor aos Animais. Mais do que os Ecologistas ou os Verdes e quejandos, nós amamos os outros seres vivos deste planeta com quanta força temos. É um amor sincero, frontal e honesto. Cultivamos essa paixão há décadas e com o patine do tempo temos refinado a relação amorosa. Mas ela continua pujante e crescente. Uma autêntica Religião, com Sacerdotes, Sábios, Salmos, Dogmas, Sangue e Catedrais. Ajoelhemo-nos pois, uma vez que vamos pisar Solo Sagrado.

Não é fácil praticar a nossa Religião na cidade de Coimbra. Dos templos iniciais de noviçado já há muito que deixámos de lado: o “Pratas”, o “Mijagato”, o “Quim dos Ossos” ou o “Casino da Urca”. Capelas menores como a “Batina”, a “Tasquinha do Queiroz”, o “Aviz” ou a “Adega Adêmea”, foram sendo relegadas para segundo plano por não respeitarem os animais como deveriam.
Contudo, continuamos fiéis adeptos do “Zé Manel dos Ossos” pelo castiço do ambiente e dos serviçais, e cultivamos a ausência do saudoso e verdadeiro Zé Manel e dos seus Cogumelos Aporcalhados, da sua Feijoada de Javali com Ervas, e obviamente dos Ossos. Para além do Zé, podem e devem afiambrar a Açorda de Coentros com Jaquinzinhos do “Zé Neto”. No mais encontram uma boa cozinha alentejana no “Chaparro”, uma cozinha variada e familiar no “Dom Duarte 2” e no “Adega da Portela”, assim como uma mariscada honesta na “Munich 2”.

Em Viseu, a coisa melhora e ainda é isso que nos safa. Quando a horda bárbara da Confraria se espoja nos relvados de Montebelo, a facção civilizada vai castigar os pecadores no “Cortiço” com o seu Bacalhau Apodrecido na Adega, o Arroz de Carqueja e o sápido Coelho Bêbado Três Dias em Vida. Na estrada para Abraveses não perdoamos também ao “Santa Luzia” com o seu Cozido de Morcela da Beira com Grelos e no seu tempo uma Caça de grande nível. E ficamos só pela cidade, senão teríamos que afiambrar em Nelas no “Bem-Haja” e em Tondela no “Três Pipos”.

Em Aveiro o pessoal espraia-se e refocila. Aqui sim, embora a preços de sulipampa, respeitam-se os animais. Começamos pelo “Salpoente” e a sua Sopa do Mar, com passagem pela Caldeirada à Fragateiro e a Caldeirada de Enguias. Continua-se pelo “Praia do Tubarão” com o seu Ensopado de Rodovalho e vamos na senda piscícola à “Barca” com a Chora de Peixe à Capitão Vidal, Amêijoas à Bulhão Pato e o Pregado Grelhado. Para carnes abanca-se na “Tasca do Confrade” ou sai-se para sul para Bustos onde se come a excelente Sopa da Avó e o Sarrabulho Bairradino no “Rafael”.

Se este intróito foi para apascentar em cidades, aqui se proclama que o Porco é antes de mais animal de Campo e é em Peregrinação Campestre que erigimos alguns altares em honra de certos bichinhos. Só para abrir o apetite, que a prosa vai longa, aqui ficam os três principais:

Bicho Primeiro: O Leitãozinho. O bísaro bairradino é e sempre foi o nosso mais fiel amigo, com direito a peregrinação anual à Catedral do Bolho, solo sagrado, mas reservado aos entronizados. Como isto se destina ao povinho não eleito, aqui vai outro templo de adoração. Por natureza o Leitão Assado à Bairrada é um bicho irrequieto cuja qualidade é difícil de recomendar em templo certo. Na Confraria o templo que reúne maior consenso é “O Painel” na Cúria. Tem por vezes um excelente “Leitão” e sempre ou quase sempre umas excelsas “Iscas de Leitão Grelhadas Com Alho”. Quem já está a marrar, dizendo que não gosta de iscas, esqueça o que comeu antes, estas de iscas de leitão nada têm a ver. O Porco nem sequer devia estar a ensinar isto, mas enfim, aqui fica.

Bicho Segundo: A Lampreia. Este ciclóstomo é a perdição da Sponto. Pelo preço e pelo sabor. Para ele temos também uma Catedral Sagrada, que é o Bernardes. Não é privada nossa como o Bolho, mas só funciona na época (Janeiro/Fevereiro) e por encomenda. Não dizemos onde é. Quantos mais vêm, mais caro fica para nós. Podem comê-la boa, pouca e cara, no “Panorama” de Penacova com a melhores vistas do mundo para um restaurante, ou logo a seguir no “Boa Viagem” do Porto da Raiva, algo mais barata.

Bicho Terceiro: O Robalo. Digam isto a poucos, mas se lá forem encomendem antes e digam à Dª Licínia (Gata, prós amigos) que vêm da parte do grupo de doidos de Coimbra que faz provas cegas e empesta tudo com charutos. Na Praia da Tocha, no “Cova do Finfas” não percam o “Robalo no Forno Ao Sal A Arder”, mas exijam os grelos e a Sopa de Peixe. Nós, meia volta estamos por lá. E estamos bem. Catedral.

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