31/01/04

ESTONTEANTE ADMIRAÇÃO E ESPANTO, por Sardanápalo

O cronista de Lisboa que habitualmente escreve no Público ao Domingo, anda há anos a propagandear as beogneaceas mimosifolias, que para os ignorantes que por aqui abundam, se informa de que se trata de uma árvore tropical que por volta de Abril/ Maio dá umas flores magníficas. Flores de um Azul Estonteante, como diz o António Barreto, o dito cujo Amigo dos Jacarandás.
Num país de Benfiquistas é natural a ignorância e a má-vontade contra os Jacarandás. O Azul Estonteante sempre provocou enjoo nos Lampiões. Mas Lisboa está cheia deles e Coimbra tam alguns magnificos também. Na altura eu mostro.
Mas isto, para ir dar a outro lado e para contentar a lampionice com a vermelhidão. É que logo a seguir à floração dos Jacarandás, começa uma outra árvore tropical a florir que dá uma fantástica flor avermelhada, com tons diversos de uma intensidade espantosa e admirável. Temos um corrimão delas ao início da Avª Fernando Namora, do lado esquerdo, que por volta de junho entram em floração. Toda a gente ali passa e ninguém liga. Ando há anos a tentar descobrir o nome do arvoredo fabulástico, sem qualquer resultado.
Ora, há dias descobri um especialista. E aqui dentro. Ora, sim senhor, aqui dentro desta Real Satânica do Tinto, entre especialistas de capitais, rios, rolling stones, doors, bossa nova, carne viva, semiótica, reis, batalhas, cinema, etc, etc, temos um gajo que é especialista em Botânica e Jardinagem. Pus o gajo em campo e em três tempos, aqui está, a árvorezinha em questão é a ALBIZZIA JULIBRISSIN, albizzia prós amigos, também conhecida pelo nome comum de Acácia de Constantinopla.
Terminei assim a minha busca do Graal, ou gradal como diz o Eco, e aqui reivindico desde já e registo o cognome de O AMIGO DAS ALBIZZIAS (não Nestum, isto não são gajas, são mesmo árvores, botânica meu amigo!).
Muito obrigado meu caro Jardineiro e agora já podes lá ir então treinar os alongamentos do membro inferior, digo, dos membros inferiores, que o espanhol é uma língua mucho traiçoera.
PS1: só espero é o expert das verduras não me fique com pó de o não acompanhar, é que o gajo agora só me chateia para o acompanhar nas suas visitas à Horto-Mondego. Fónix, à Bertrand ou à Fnac ainda o acompanho, agora à Horto-Mondego? Pelo amor de Deus, albizzias mas nem tanto, daqui a pouco ainda me convida prá Iberplanta. Arre!
PS2: Próximos episódios: as bouganvilias.

30/01/04

27/01/04

Panos Quentes & Tátapolos

Caro Panos:

A coisa esteve negra pro meu lado porque o caralho do Vice julgou ser eu o autor dos teus comentários. Não k ele não chegasse a essa errónea conclusão sozinho, pois é bem homem pra isso, mas com uma ajudinha do Groucho Marx, sagaz intérprete na arte do engano, foi trigo limpo farinha amparo! Ou seja: tu mamaste os figos, a mim rebentou-me a boca! Chegou-se mesmo a gerar um equívoco por sms e eu acabei a chamar-lhe "boi negro", "bárbaro insensível" e outras coisas injustas pró rapaz mas k me souberam bem dizê-las...! Adiante: esclarece de uma vez por todas o nosso Vice, (não sei como...), k tu não és eu. Manda-lhe uma foto tua com um chapéu de trevos verdes ao lado do Larry Bird, ou cita-lhe de cor um diálogo extenso do Anthony Quinn no Zorba the Greek! Até lá, fica sabendo k lhe encheste o ego e aviso-te k se tu não fores tu e fores outro eu qualquer k não eu próprio, o Vice vai-te moer a tola durante muitos meses.

Mangas.

tradução pra simplificar:
caralho = dick head
trigo limpo farinha amparo = piece of cake
mamaste os figos, a mim rebentou-me a boca = same as, you fucked the bitch and I got gonorrhoea!
boi negro = George W. Bush
moer a tola = fuck your brains, or, beat a shit out of you!

Repertório de factos extraordinários

O que a seguir se lerá é a mera transcrição de uma carta que recebi na minha caixa do correio. Omito apenas o nome do remetente, cumprindo o seu desejo expresso na missiva.

Lisboa, 20 de Novembro de 2003

Excelentíssimo Senhor,

Começo por lhe dar uma satisfação relativamente ao motivo que me levou a escrever-lhe esta carta, tanto mais que não tenho o prazer de o conhecer pessoalmente, nem V. Ex.ª me conhece. Sucede que soube do interesse que V. Ex.ª alimenta por factos verdadeiramente extraordinários, dedicando-se ao seu estudo e divulgação. Por tal razão, tomei a iniciativa de me dirigir por escrito a V. Ex.ª, pedindo desculpa se o venho incomodar.
Na verdade, algo de verdadeiramente excepcional me sucedeu recentemente. Muito tenho pensado no episódio que a seguir relatarei, não encontrando explicação plausível para o ocorrido, pelo que deixo ao encargo de V. Ex.ª qualquer explicação sobre o assunto, bem como liberdade plena para fazer o uso que bem entender do que aqui lhe conto.
Vivo e trabalho em Lisboa, ainda que tenha uma costela inglesa por via materna. A minha esposa é natural da Beira-Baixa, mais precisamente de Proença-A-Velha, pelo que no mês passado, a pretexto do casamento da minha cunhada, me desloquei a essa localidade. Desprezo todos os pormenores dispensáveis, menos um: possuo um automóvel desportivo de colecção, um MG Midget conversível de 1965, que raramente conduzo por razões óbvias e que herdei do meu saudoso pai. Aproveitei o bom tempo e a ocasião especial para rumar à Beira ao volante deste automóvel, coisa que faço com muito prazer, como facilmente deve calcular. Chegámos bem, pernoitámos em casa de minha sogra e, na manhã seguinte entregámo-nos aos preparos exigidos pela cerimónia. Dirigimo-nos, por volta das dez horas, à capela onde decorreria a celebração do casamento, pequena capela românica que dista pouco menos de seis quilómetros da vila. Aí chegados, a minha mulher reparou que se esquecera do brinco esquerdo. Lembrou-se que o tirara para fazer um telefonema e que o deixara esquecido sobre uma mesinha. Como ainda era cedo e a noiva estava atrasada, como é sempre um prazer para mim guiar o meu MG, e também porque eu próprio reparei ter colocado os botões de punho desaparelhados, aproveitei o lamento da minha mulher para ir a casa rapidamente buscar o brinco solitário e trocar os botões. Assim fiz. Ao chegar à vila, ao cimo de uma ruela estreita que entronca em ângulo recto numa outra artéria principal, tive que parar o carro, dado o sinal de trânsito que indica perda de prioridade. Como a visibilidade é nula e o local é palco frequente de acidentes, foi há pouco aí instalado um espelho convexo para que os automobilistas tenham visão dos veículos que se aproximam do cruzamento, fornecendo-se assim maior segurança aos passantes. Parei, olhei para o espelho e não vi ninguém. Ou melhor, ninguém para além do meu reflexo deformado pela convexidade do espelho. Lá estava o meu MG descapotável, estofos acastanhados contrastando com o verde seco da carroçaria. Como a estrada estava livre, avancei e, no exacto momento em que acelerei, embati frontalmente, com enorme estrondo e violência, causando graves danos no meu carro, com um outro automóvel que curvava na minha direcção, vindo de um outro beco paralelo à ruela por onde eu circulava. Fiquei, como imagina, atordoado. Primeiramente, não consegui recompor-me do susto. Depois, lamentei os prejuízos provocados no meu veículo e, ao mesmo tempo que sentia a pressão de não poder chegar atrasado à cerimónia, delineava um qualquer argumento desculpabilizador que me inocentasse e devolvesse ao outro acidentado a responsabilidade do embate. Só depois, lembrando-me como mirara tão atentamente o espelho reflector e nada vira, é que, intrigado, me virei para o veículo em que embatera e tive a noção exacta da extraordinária singularidade da situação: é que o outro veículo no qual eu embatera, era um MG em tudo igual ao meu. Na cor, nos estofos, nas jantes, nos acessórios! Espantoso! O outro condutor lá estava de porta aberta, vestido a rigor e estarrecido ao lado do veículo, olhando embasbacado, certamente com o espírito também dominado pela surpresa.
Faça V. Ex.ª o melhor uso que entender desta carta e deste episódio, pedindo-lhe somente que não divulgue a identidade deste que se despede
Atenciosamente,

XXXXXXXX

Achei extraordinária a coincidência. Respeito o desejo do anonimato e porque me pareceu que o episódio aqui relatado merecia qualquer forma de aproveitamento, cumprindo o desejo manifesto do seu autor, decidi inventar esta carta, bem como todos os factos nela contidos, bem assim, e ainda, o próprio remetente.

26/01/04

And Death Shall Have no Domain, por Dylan Thomas

E a morte perderá o seu domínio.

Nus, os homens mortos irão confundir-se

com o homem no vento e na lua do poente;

quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos

hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.

Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;

mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;

mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;

e a morte perderá o seu domínio.



E a morte perderá o seu domínio.

Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar

não morrerão com a chegada do vento;

ainda que, na roda da tortura, comecem

os tendões a ceder, jamais se partirão;

entre as suas mãos será destruída a fé

e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;

embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;

e a morte perderá o seu domínio.



E a morte perderá o seu domínio.

Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos

nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;

onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor

erguer a sua corda em direcção à força das chuvas;

ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer

como pregos as suas cabeças pelas margaridas;

é no sol que irrompem até que o sol se extinga,

e a morte perderá o seu domínio.


Até sempre, Miki Fehér!

Feher: a morte em directo

Ponto de ordem: a morte do futebolista húngaro é obviamente uma tragédia e um choque profundo a que ninguém fica indiferente. Como foi a morte de Vivien Foe ou de Pavão em 1973… De resto, faz hoje, precisamente um mês, que um terrível terramoto matou 40 000 pessoas na cidade iraniana de Bam. Nenhum destes eventos me/nos abalou tanto como a trágico fim do futebolista do Benfica…

Então o que faz parecer a tragédia de Feher ainda mais colossal que qualquer outra (se é que podemos medir o tamanho da tragédia pelo número de vítimas)? Porque é que eu hoje não dormi? Porque é que acordei com o nome de Feher a matraquear-me os sonhos e uma lágrima no canto do olho a querer explodir?

A tragédia de Feher tornou-se, de certo modo, a minha, na medida em que a vi a directo. A morte dele, entrou-me pela casa dentro, em tempo real, perturbou-me a calma segurança do sofá. Eu e todos aqueles que assistíamos ao Guimarães/Benfica fomos testemunhas de uma morte real. Não era ficção! Por isso a tragédia do jogador húngaro tornou-se a minha e dos meus filhos que comigo viam o jogo. Eu – e eles! – nunca mais vamos esquecer aquelas imagens.

São os riscos da «sociedade em directo» em que vivemos. Pavão é para mim um nome abstracto na medida em que dele só soube a sua morte em diferido em notícias e artigos de jornal. A sua tragédia foi uma tragédia privada, mais privada pelo menos, apenas para as 20 000 pessoas que nesse dia foram às Antas. Bam são imagens de um sítio longínquo. Em todos esses casos houve mediação – no tempo e no modo - entre mim e os factos. Agora faltou essa mediação; o que houve foi mediatização. E eu e todos os que assistíamos ao jogo fomos apanhados de surpresa, atingidos por uma enorme bomba nuclear em cheio na cabeça e na alma desprotegidas.

A imagem de Feher é ainda impressionante, para mim, porque representa a fragilidade incrível da nossa vida. Feher era um guerreiro, um herói de uma espécie determinada nos campos de futebol, um Gladiador – não era um jogador técnico nem um malabarista; era a imagem da força, da potência, da raça e da juventude. Feher era um Guerreiro. Camacho lança-o naquele jogo – depois de não sair do banco nas três ou quatro jornadas anteriores – por saber isso: que num jogo que decorre num lamaçal, sob as bátegas de um temporal, só um gladiador poderoso poderia levar a tarefa a bom termo. Feher está na jogada do golo do Benfica – cumpriu a sua missão e gozava o estatuto merecido do Herói. Nota-se a sua felicidade em campo…
No cartão amarelo que antecede a sua morte, Feher, sorri para o árbitro. E num segundo, o herói, o Gladiador Indestrutível – ainda por cima aureolado com a camisola mística do Benfica – cai por terra. Num ápice. Passa de um sorriso eterno de Vencedor à condição finita e mortal. Somos assim tão frágeis? Até os heróis acabam num repente? Podemos morrer desta maneira, num segundo, numa ridícula fracção de segundo, sem motivo, no auge da glória?

Ao contrário das primeiras páginas de choque da maioria dos nossos jornais- mesmo da imprensa «séria» - e das imagens techno das nossas televisões que nos matraqueiam com o horror da repetição e do pormenor insuportáveis, o jornal A Bola, fez uma das poucas primeiras páginas ainda possíveis de fazer para nos devolver a ilusória imagem da imortalidade e indestrutibilidade do Guerreiro: a foto do último sorriso de Miklos Feher. Hoje, como sempre, eu comprei A Bola. E, por breves instantes, o sorriso de Feher, no segundo anterior à sua morte deu-me um pouco – muito pouco! – de alento. Para ele não deve ter sido assim tão terrível!

Le Vice

24/01/04

SIM, EU GRAMO BOÉ A AMÁLIA E ORGULHO-ME DISSOpor Fat Boy Slim

Amália-postal turístico

Certa vez, em França, dizia-me uma senhora da geração da cantora, que gostava muito de Portugal. Com um ar de turista nostálgica do tempo em que correu o mundo, falou-me das mulheres dos pescadores na Nazaré. Descalças e vestidas de negro ajudavam os homens e esperavam, como Penélopes, enquanto eles iam para o mar... Comparou as saias compridas dessas mulheres com as das mulheres árabes e recordou-se dos carros de bois e do porte humilde e digno dos trabalhadores nas lides agrícolas (esses mesmos que depois haveriam de emigrar para os “bidonvilles” de Paris e que os franceses acham sempre que são excelentes pessoas e “óptimos trabalhadores”).
Perguntei-me que Portugal era esse que eu só conhecia dos filmes antigos.... Tão antigos que aquele país que me descreviam já nem sequer era o mesmo que eu conheci quando era criança. E muito menos o Portugal actual, orgulhosamente europeu com os seu Shopping Centers imponentes e as netas das mulheres dos pescadores vestidas na Mango e na Zara e a cheirarem a Boticário. Para concluir, dizia-me a senhora francesa, havia um rosto e uma voz, que para ela resumia todo aquele universo: o rosto e a voz de Amália.

Amália, tradição e modernidade
Aquele era, afinal, o retrato do velho Portugal salazarista reproduzido muitos anos depois, a centenas de quilómetros de distância por uma mulher saudosa: a imagem de Amália-postal-turístico, ícone de um Portugal rural que já não existe. Imagem agradável a um ditador rural como era o Beirão, António de Oliveira Salazar, nado e criado no culto da terra e das virtudes tradicionais: Deus, Pátria e Família. Facilmente encontraríamos nas músicas cantadas por Amália a exaltação destes valores: lembremo-nos de Foi Deus, de Que Deus me Perdoe, da exaltação de Ai Mouraria ou de Fado Alfacinha e de tantos outros motivos nacionais ou desse autêntico documento sociológico que é Uma Casa Portuguesa.

Comparemos este universo com os novos ícones do Portugal contemporâneo: à devoção religiosa de Avé Maria Fadista, por exemplo, opõem os Xutos e Pontapés o seu herético Avé Maria, panfleto minimalista que ridiculariza Fátima ou o psicanalítico e Morrisiano Mãe. Pense-se no sexismo de um Pedro Abrunhosa (Talvez F.., Não Dá), o qual contrasta claramente com um certo puritanismo próprio da época de Amália. Pense-se ainda no universo humilde e pobrezinho descrito em Uma casa Portuguesa e no seu negativo contemporâneo dos Ena Pá 2000, o já célebre Báum (“Eu quero ir ao Frágil Sexta Feira/Eu quero ser amigo da porteira/ quero andar nos copos com os artistas/ e aparecer nas capas das revistas/ não quero mais viver em Chelas e ir à Costa no Verão/ Quero um andar no Bairro Alto e uma quinta em Azeitão/ o que me vale é um padrinho que tenho na Fundação”).

Fatalidade e Saudosismo

Fado e destino são tópicos que remetem para uma certa ideologia de cunho oriental (e muito justamente, se compara, não só a ideologia, mas sobretudo a estética do fado e do canto de Amália, aos cânticos árabes e mediterrânicos). O nosso destino já está escrito e há que aceitá-lo com resignação. A suprema sabedoria, como preconizam algumas filosofias orientais, consiste em sabermos adaptarmo-nos a esse fatum, traçado desde logo.

Embora esta ideologia da resignação implícita no fado, conviesse perfeitamente ao regime salazarista, é notória a sua contradição com as ideologias do sucesso, actualmente reinantes em Portugal. O cavaquismo e o guterrismo não são mais que duas versões desta mesma ideologia. De facto, nada há de mais antitético relativamente ao espirito fadista/fatalista cantado por Amália, do que a apologia do homem novo português, capaz de grandes empreendimentos como a recente Expo 98 ou o Euro 2004, de rasgar estradas ou de erguer pontes por todo o país. Enquanto Cavaco – mais claramente – e Guterres – de um modo mais velado e implícito – exaltam este novo homo faber português, Amália exaltava os sentimentos que agora são considerados depressivos: a saudade, o conformismo, a resignação e a tristeza....
Clássicos
O facto de Amália ser “uma cantora antiga” – como dizia um dos poucos representantes das novas gerações no seu funeral – não significa que a sua obra e o seu rasto tenham ficado presos ao passado. Há uma “eternidade” em Amália que nos toca e que ultrapassa a marca do tempo. Ela é um clássico que, como tal, se ergue na ruína do tempo. Como muito bem lembrou Caetano Veloso, ela é um símbolo de um certo sentir português, como o foram Edith Piaf para a França, Ella Fitzgerald ou Billie Holliday para os EUA, Maria Callas para a Grécia ou Elis Regina para o Brasil.
Mas como todas estas grandes artistas, ela é muito mais que isso. Elis é tanto de um brasileiro como minha; Callas é tanto de um grego como de um francês, como Amália é tanto minha como de um inglês. E nesse sentido Amália ainda está viva em cada um de nós, num português como num alemão, num brasileiro, como num chinês ou num marroquino. Todos nós, e não só os portugueses, temos, pois, Amália na voz, como cantava Variações...

Talvez porque os sentimentos que expressou se foram tornando nos últimos tempos politicamente incorrectos – lembremo-nos dos problemas de Amália no 25 de Abril e da contradição flagrante dos seus fados com a ideologia do sucesso actual -, a cantora entrou em rota de colisão com uma certa modernidade. No ruído das banalidades, a alma da “cantora antiga” é genuína e pura. Por isso Amália é mais que actual: é clássica, como o são Homero ou Mozart. Porque a actualidade não depende de se ter escrito ou cantado ontem, mas da novidade, da pureza e da verdade que se possui independentemente do tempo em que se cantou ou escreveu.

CHAPELADA, por Sardanápalo

Há musicais e musicais. O Chapéus de Chuva de Cherbourg, pode ser tudo, obra prima, prima da obra, essêncial, marco histórico, indispensável, tudo, tudo, mas que aquilo é invisível, lá isso é, e garanto eu que o tentei ver duas vezes.

Na segunda tentativa ainda consegui chegar à terceira canção quando a tia recebe em casa o enteado, mecânico, que acabou de se despedir do dia de trabalho do patrão, obviamente a cantar e que cumprimenta as pessoas na rua a cantar. Não estou a gozar. Não há uma única palavra falada em todo o filme. só cantam e dançam. Nem na ópera, caramba!

Ora, eu tenho lá em casa este marco histórico, em boa gravação de vhs. aos gajos comó Satan, Xanatos e quejandos, só posso dizer: combinem a hora e o dia, que eu arranjo o sofá e o filme, e enquanto se lá aguentarem a ver o filme, sem dormir, sem deixar cair a cabeça, dem desmorecer e sem vacilar, eu garanto que vou continuamente servindo iguarias para dar alento ao pessoal. Obviamente, que a qualquer cochilada ou gravação de pestana fechada, reservo-me o direito de dar uma ou outra cachaçada, bem aplicada! Conversa de futebolada ou outro tema fora do filme, vale um carolo, idas à casa de banho não valem e óculos escuros são proibidos. Desvios de atenção em geral serão severamente punidos. E depois de começarem a ver, não podem desistir, aguentam até ao fim, ou então, perdem um jantarinho!

THE BLUES BROTHERS, por Xanatos

Musicais é Serenata à Chuva (k tenho e posso-te emprestar Satan), Saturday Night Fever (vá, aproveitem pra mandar uns mails a marrar, mas eu tinha um poster dos Bee Gees naquela altura e ensaiava o How Deep is Your Love no espelho!), e The Blues Brothers com a Sra. Aretha Franklin, o Ray Charles com uma mão no piano e outro num colt 45 a disparar às cegas contra uma parede, o James Brown possesso dos cornos a incendiar a congregação baptista e o mítico Minnie the Moocher do velhinho Cab Calloway (k começou no Cotton Club há uns anitos atrás quando só lá podiam entrar brancos de smoking e metralhadoras Thompson pra acompanhar o sapateado dos negros). Acaba com o grande John Belushi a fazer esquecer o Elvis no Jailhouse Rock, (lembram-se?), e pelo meio há a frase lendária:
- Are you the policemen...?
- No `Mam... We are the musicians!

Há um filme notável, não me lembro o título em português, "Qualquer coisa A Liberdade", "For Love or Country - The Arturo Sandoval Story", em inglês, com o Andy Garcia. Um gajo k enfeitiçava o trompete, chegou a tocar com o Dizzy Gillespie, fundou a Irakere (uma espécie de Trovante da música cubana) e acabou a pedir asilo político aos EUA onde permanece até hoje. Ganhou alguns Grammys pelo meio, tenho a banda sonora e outros discos dele pros interessados, mas recomendo o filme k tá disponível no Amilcar e vale bem a pena, quanto mais não seja só pra ouvir "Canta Trompeta Querida", ou a versão arranjada pelo Arturo Sandoval de "Guantanamera", entre outras pérolas. E é tudo verdade!

CHAPÉUS HÁ MUITOS, Ó PALERMA!, por Satan

Sardanápalo, também gostei muito do teu texto sobre o Triers e o tal filme dele. Sobre o filme não vou dizer nada, porque não vi. Ando numa fase de ver filmes cómicos e policiais, e estou assim muito confortável. À fase Triers desconfio que não me apetece chegar. Vi o Ondas de Paixão e pronto. Mas se o estilo da tua crónica é magistral, o conteúdo já fia mais fino... francamente, sardanápalo, tu dizes aí coisas muito injustas sobre os Chapéus de Chuva de Cherburgo e os musicais por atacado, que tu despachas como se falasses de bonecos de corda a cantar e a bailar! Pois ficas sabendo que esse filme é genial! E idem para outros marcos do cinema dançante e cantante como o Americano em Paris (o zénite da coisa) e o Serenata à Chuva. O Astaire fica fora disto, porque, para mim, aquelas valsinhas dele ficam uma divisão abaixo. E depois, há aquelas preciosidades fabulásticas como o Pennies from Heaven, do Dennis Potter. Queres mais? Eu pensava que isto tinha ficado assente numa conversinha que tivemos uma vez sobre o assunto. Juizinho...


22/01/04

O Tapor no maravilhoso mundo da Internet

22 de Janeiro foi um dia histórico para o TAPOR. Pelo Extreme Tracking, soube que um hermano recorreu ao Google e fez uma busca. O homem queria sexo, o que não é raro no mundo do ciberespaço. O Google deu-lhe sexo. Mas o homem queria sexo antecedido de bojo. O Google não vacilou, e deu-lhe sexo antecedido de bojo, o que quer que isso seja. Porventura, um desses fetiches que não são raros no mundo virtual. Eu desconhecia. Já tinha ouvido coisas esquisitas: gajos que curtem pés, galinhas, enguias, chicote, látex, eu sei lá. Mas Bojo sexo, não, nunca tal ouvira. Mas não é tudo, o homem exigia bojo sexo num site comercial: BOJO SEXO. COM! Exigente o rapaz. O Google, mais uma vez, cumpriu e apresentou, em 0,28 segundos, 98 sites capazes de satisfazer o capricho do nosso amigo. Até aqui, tudo normal, pois não é novidade para ninguém a capacidade deste Google. Agora, o que nos enche de orgulho é que o TAPOR surge em terceiro lugar na lista dos candidatos à satisfação dos fetiches deste rapaz. Podemos pois estar orgulhosos. Estamos a cumprir a nossa missão. O rapaz queria bojo sexo.com, o Google deu-lhe o endereço do TAPOR, o rapaz entrou e, se queria sexo, teve o que queria: fodeu-se! O texto do confrade Mangas reunia as exigências do moço, ao combinar as duas palavras no mesmo texto. Sinto-me orgulhoso, caro Mangas. Fui às lágrimas. Já estamos na era da globalização e cumprimos a nossa missão na Aldeia Global. Bem hajam, meus amigos, bem hajam! E se mais não demos, é porque desconhecemos o que seja bojo sexo. Quando nos esclarecerem, nós ‘tamos cá para satisfazer o freguês.

21/01/04

O caso das mamas de Letizia Ortiz

Escândalo em Espanha! Em 1996, ou por aí, a futura rainha de Espanha trabalhou no México onde conheceu um pintor, até há pouco anónimo: Waldo Saavedra. Tornaram-se amigos e Letizia terá posado seminua para o rapaz. O resultado serviu de capa a um disco: «Sueños Líquidos», editado pela Warner em 97. O título é de mau gosto, é certo, mas não devemos responsabilizar Letizia. Parece até que a única coisa aproveitável do disco é a capa. Importa, em primeiro lugar, discutir uma questão prévia: serão as mamas retratadas de Letizia? E aqui, o debate poderia centrar-se em dois domínios, a saber: a) em sede penal, no caso de haver suspeita de crime; b) no campo estético. O primeiro cenário deve ser afastado, pois que a ninguém ocorre que haja matéria criminal. Caso contrário, teríamos que convocar os peritos de um qualquer Instituto de Medicina Legal que se lançariam, com agradada devoção e minúcia, estou certo, em busca de sinais particulares que permitissem identificar com segurança os peitos de Letizia na tela de Waldo feita capa dos tais…. «Sonhos Líquidos». No domínio da simples apreciação estética, o caso também não merece demora. Basta aceitar uma evidência: a arte não se limita a reproduzir fotográfica e fielmente uma realidade. A tela de Waldo mantém sempre a sua dimensão estética, mesmo que não tenha reproduzido fielmente o peito de Letizia. Apesar da obra ser pindérica e foleira, também não constitui razão para tanto escândalo. Onde está então o problema? Só pode haver problema se se admite que:

a) Quem um dia mostrou as mamas não pode aspirar a usar coroa régia. Letizia mostrou as mamas, logo não pode ser rainha.
Ridículo! Pois que se aceitara anteriormente, e até com naturalidade, que Letizia fora casada. Como é presumível que tenha mostrado as mamas ao marido, deve concluir-se que, por si, o simples acto de exibição das glândulas não é impeditivo de se ascender à realeza.

b) As mamas só se podem mostrar aos maridos, como Letizia não era casada com Waldo, Letizia não pode ser rainha.
Idiotice! Nos tempos que correm, as mamas mostram-se a toda a gente! O anúncio do casamento do Príncipe das Astúrias com uma divorciada foi até saudado como sinal de modernidade e ajustamento da monarquia aos novos tempos. Ora, se a monarquia se quer compatibilizar com a modernidade, tem que aceitar que as mamas reais se podem mostrar a olhos que não estejam previamente vinculados pelo compromisso do casamento. Pelo menos, admito, antes de ascenderem à régia condição. Acresce ainda que não foi o príncipe Felipe que levantou a questão. Foram os súbditos. Os cidadãos da República não cuidam destes assuntos, que a República, ainda que alegórica e sem existência carnal, é mais generosa e liberal nestas delicadas matérias. O que incomoda então os súbditos de Sua Alteza Real? Prossigamos:

c) O facto de Letizia ter exibido as mamas a um pintor?
Não faz sentido! Decididamente, não colhe. Não se descortina por que estranha razão hão-de os olhos de um pintor ser discriminados em relação aos do marido. Até porque, marido e pintor podem coincidir numa só pessoa. Ou então, na possibilidade mais comum de tal se não verificar, teríamos que os pintores, doravante, estariam impedidos de ver mamas plebeias, pelo menos enquanto as portadoras acalentassem a esperança de um dia ascenderem ao estatuto régio. E quem diz pintores, diz fotógrafos, realizadores, etc. Indefensável!

d) Então, o problema deve estar no facto de o pintor, para além de as ter visto, as haver pintado?
Também não. Por um lado, porque o que se espera de um pintor é que pinte. Sem imposições à sua criatividade. Se quer pintar mamas, pois que as pinte. Tanto melhor, quanto mais inspiradoras forem as mamas. Por outro lado, haveria que justificar por que razão a transposição de uma inspiração para um suporte material como a tela é que constitui o elemento gravoso. A haver pecado, ele existiu antes, no facto do pintor ter visto as mamas. Ora, se isso não é grave, logo, o facto de o pintor haver dado forma à sua imagem mental, é apenas a sequência normal que, por ser normal, não deve escandalizar. Nem tão pouco deve escandalizar a utilização dada à pintura, difundindo-a como capa de disco, pois que uma obra de arte existe para ser difundida. Quanto maior for a sua difusão e aceitação, mais relevante se torna.

Deve pois concluir-se que não há razões para escândalo. Processo arquivado!

LARES VON TRISTE, por SARDANÁPALO

Xiita, já vi o teu dvd do Lars von Trier do Dancer in the Dark. Não gostei. Reconheço a excelência da música e a qualidade estética da coisa. Mas filmes em que o comboio pára prós gajos cantarem e dançarem, pra moi, nope. Já me chega os Chapéus de chuva de Cherbourg, com que ainda hoje tenho pesadelos. No mais, é o velhinho Lars von Trier que toda a gente conhece, uma desgraça atrás da outra até à nausea. As histórias todas dos filmes do gajo é sempre a anedota do coxo que vai crente ao descampado receber o milagre da cura e leva mais uma marreca. Com o lars, e a seguir, o marreco leva com mais um abc no lóbulo frontal e um cancro nas orelhas, altura em que, enfraquecido, é apanhado por um xérife ao engano, que o enforca. Já era assim no Ondas de Paixão, é ainda pior neste Dancer in the Dark. O Lars que vá apanhar no cú, que não me volta a apanhar noutro dele. E atenção que vi o filme todo, com algumas passagens pelo sexy hot só pra controlar o desenrolar dos acontecimentos, aquando das danças e cantares dos máquinistas, dos trabalhadores da fábrica, dos ajudantes de xérife, dos meirinhos do tribunal, dos guardas prisionais do corredor da morte. Meu deus naquela merda toda a gente canta e dança. Puta que pariu!

19/01/04

Já que ninguém escreve nada, aqui vai uma citaçãozita:
«Muitas vezes o Irmão Otão, quando nos encontrávamos no cimo das falésias de mármore, afirmava que o sentido da vida consistia em repetir a criação no domínio do perecível, tal como a criança, ao brincar, imita o trabalho do pai. O sentido da sementeira e da procriação, da construção e da imposição de uma ordem, da imagem e do poema, era o de, através deles, se revelar a grande obra como que reflectida em espelhos de vidro multicor que não tarda a quebrar-se»
Ernest Junger: Sobre as Falésias de Mármore

16/01/04

Arquivos Satânicos: o dia em que o Grão virou cão

Palavras escritas pelo Grão antes da prova cega de vinhos realizada no «Cantinho dos Reis» no dia 18 de Novembro de 2000 e colocadas no bojo da sua garrafa de «Quinta da Terrugem 96» que foi suplantada pelo «Alabastro», vinho da gama inferior do mesmo produtor, apresentada pelo Vaice, hoje dito Le Vice

O REI DE PORTUGAL, segundo A. OLAIO, por LE VICE

Há uns tempos atrás eu, o Minimal , o Groucho e Artista Anteriormente Conhecido Pelo Nome de Pilas, resolvemos passar um sábado diferente. Para variar decidimos que não íamos ficar a tarde toda a emborcar cafés e fumo no Ranhoso e fomos ver a exposição Coimbra C ao C.A.P.C.

Entre outras coisas, chamou-nos a atenção o trabalho do A. Olaio, When Did The Founder of Portugal Begin to Feel Portuguese?
O artista isola a imagem da estátua jacente de D.Afonso Henriques, cujo túmulo se encontra na Igreja do Mosteiro de Santa Cruz. Somos então convocados para uma reflexão sobre a relação identidade/nacionalidade: qual é a nacionalidade do primeiro rei de um país? O rei é simbolicamente o próprio território, mas como pode o rei ser português, se ainda não existe portugal? Estamos assim perante um curioso paradoxo: é que aquele que funda a nação é simultaneamente - suspeitamos - um apátrida (nem sequer um estrangeiro, que esse tem pátria). A pergunta impõe-se e ela é-vos dirigida (o meui filho também já disse que a vai fazer ao professor de História dele):

«Quando é que terá sido que D. Afonso Henriques se terá sentido português? Assim que o país foi reconhecido como tal, antes, ou nunca?»

E já agora: ganhará um novo sentido o facto/mania do Olaio titular os seus trabalhos em inglês? É que fazer a pergunta da nacionalidade portuguesa do rei em inglês, ganha, de repente, contornos irónicos inesperados... Como entender esta relação, entretanto criada entre dois símbolos contraditórios - a língua inglesa (símbolo da globalização, da contemporaneidade e da uniformidade americanista) e a velha imagem do corpo medievo do rei de portugal (marca de idnetidade, de diferença localista

14/01/04

Sondagem













O Volga é o rio mais comprido do Mundo: 3531 Km. O confrade Tinóni acha que se puser o Vouga a correr por um rego obtém um rio que dá:
2 voltas ao Mundo
3 voltas ao Mundo
4 voltas ao Mundo
5 voltas ao Mundo
Vai à Lua, volta e ainda sobra
De Aveiro até à serra da Malcata












jaquinzinhos y puntillitas, by Sardanápalo

A questão de Olivença é ridicula. Let by gones be by gones. Aquela merda já é espanhol e os gajos que lá estão são todos espanhos. só faltava agora aquela rebanhada de adoradores do deus tortilla vir conspurcar estas puras ovelhinhas tementes ao deus bacalhau. ou pior ainda, desatarem a a importar desenfreadamente o seu serrano pata negra bollotta e a distribuirem aquela merda toda por todo este nosso recanto virgem de jaquinzinhos em escabeche, a metade do preço do nosso rijo e salgado presunto de chaves. era como dar as chaves do galinheiro a esses comedores de puntillitas. ainda acabavam por nos comer as puntas todas tamém!
ass: SardanápaloDeLaCroix

13/01/04

NOSTALGIA, por LE VICE

No mês de Fevereiro de 2003 realizava-se a segunda grande batalha inter confrarias de prova de vinhos entre a Esseponto e os Invinófilos. Como os gajos eram e ainda são mais novos que nós, havia que criar alguma distância e suscitar algum respeito. O Vice da Esseponto ficou encarregado dessa incumbência. E na altura escreveu assim:

Vocês são jovens ainda. Deviam ter uns míseros 16 ou 17 anos quando o Bush pai fez a primeira guerra do golfo, e idades aproximadas, quando os Smashing Pumpkins editaram o Siamese Dream. A Madonna tinha lançado o Hollydays há
pouco tempo e o John Lennon tinha morrido recentemente. Vcs devem ser do tempo em que os Rolling Stones ainda só estavam na 276ª digressão - já então a última!.Quando tinham menos uns 5 anitos ainda havia o muro de Berlim e o joão césar monteiro nem sonhava em fazer a Branca de Neve mais preta da história. Branca de Neve sempre foi, para vocês, um conto de fadas… Em suma, dito de um modo muito cru, vocês eram uns míseros vermes imberbes. Pronto já disse!
Nós não - nós somos do tempo dos telefones fixos, daqueles pretos ainda. Do tempo em que ainda havia paraísos no Algarve e o Sacas era uma tasca de pescadores que apanhavam as moreias e as traziam quase vivas para as mesas.
Nós somos do tempo em que nem se falava de computadores, quanto mais de internet. PC era um partido político e Mackintosh um grande arquitecto escocês. A TV só tinha dois canais e o Público nem sequer existia. Belmiro de Azevedo era nome de merceeiro e dumping uma espécie de camião pesado de competição. Vimos o Live Aid em directo e o Ron Wood a gravar o primeiro disco com os Stones. A Barbara Streisand era a gaja mais gira do mundo. O Sábio - que é o nosso ancião - ainda jogava futebol e na altura o Vítor Baptista era uma vedeta do Benfica e o Borg o melhor jogador de ténis do universo. O nosso Contra Grão ainda era só da académica e nem ligava ao FCP. Nós ainda nos lembramos de ver o primeiro homem na lua a dizer a célebre frase "Good Luck Mr. Grosny!"... Ainda sentimos arrepios quando recordamos a primeira vez que vimos o 2001 Odisseia no Espaço no cinema. E alguns de nós, como o Grão (que é um falso duro), choraram com o ET e foram vê-lo 10 e mais vezes. Ainda nos enganámos com o sistema beta e resmungámos com o VHS.O Sadam Husssein ainda era bom e os iranianos é que eram os maus. O Carter era o presidente da América e o Sá Carneiro ainda namorava aquela linda senhora sueca. O Carlos cruz ainda era apresentador da TV e sabíamos lá mais o quê...

Mas acima de tudo, e é por isso que vos escrevo, somos do tempo do vinil. O vinil é um ícone da nossa geração. Eu ia para o liceu com a mochila dos livros aos ombros e sacos de plástico cheios de vinil nas mãos, para trocar com o Flanelas que era fanático do Jim Morrison e haveria de visitar o Pére Lachaise uns anos mais tarde. Ficava furioso quando me davam pontapés no vinil! Só muito depois vieram os Cds. Agora temos muito vinil, cheio de pó que nunca mais ouvimos. Temos a nostalgia do vinil, daquele som fanhoso, dos srrkkks da electricidade estática e dos riscos incontornáveis. O vinil somos nós.

Por isso criámos o sagrado ritual de recordar vinil nas noites do Bolho, a nossa catedral, espaço enfeitiçado e à prova de maus fígados. Claro que não é qualquer mão que pode aproximar-se da vitrola do Bolho. A vitrola é uma coisa sagrada, uma espécie de altar de sacríficios dos Aztecas. Só eu, o Sacerdote Magno, o Grande Feiticeiro, o Vice Para os Assuntos Ideológicos, posso meter discos naquela vitrola. Mas se vocês tiverem, por acaso algum vinil - dos vossos pais, claro - que queiram levar, podem fazê-lo. Não prometo que consigam ouvir alguma coisa do que levarem - os meus critérios são apertados. Mas podem tentar. Não custa nada e aumenta o leque de escolha. Vocês têm coisas apresentáveis na área da MPB, por exemplo. E talvez umas coisas antigas dos Smiths. Levem vinil. Pode ser que algum consiga passar o crivo apertado do Controlo Estético e Ideológico. Como vão perder, certamente, na prova dos vinhos, sempre era uma consolação, que uma das vossas músicas se ouvisse...

Vaice

(Este texto foi escrito antes da Guerra do Iraque e, por isso, eu ainda assinava Vaice e não Le Vice, como desde então)

'Bora isolar os gajos

Soube que, aqui há uns dias, uns portugas castiços e zelosos em relação à integridade territorial da nação, ofereceram à noiva de S. A. Príncipe Felipe das Astúrias, um livro sobre a questão de Olivença. Para começar, eu acho que não é coisa que se ofereça a uma noiva. A uma noiva real, mais até do que a uma amante, não se oferecem livros. Ramos de laranjeira sim. Fica sempre bem. Isso sabia Manuel Godoy que de Olivença levou laranjas à sua amante régia, D. María Luisa de Parma, esposa de Carlos IV, que as há-de ter apreciado bem mais do que a pobre Letizia Ortiz apreciou o calhamaço.
Além disso, não será com livros, vos garanto, que os tugas hão-de reaver Olivença. Proponho que se faça como o Príncipe da Paz em 1801: guerra. Para começar, um bloqueiozito. Fecham-se as fronteiras e isolamos os gajos. É certo que esta coisa dos bloqueios não tem dado grandes resultados. Não mata, mas atormenta. Olha o Fidel! 'Bora lá então encerrar Vilar Formoso, o Caia e Vila Real de Santo António. Não passa ninguém! Nem mais uma posta de bacalhau ou uma saqueta de café Delta entrará no reino de Espanha! Eles hão-de quebrar. Quando o isolamento começar a produzir efeitos, teremos então a alegria de ver o Aznar no Terreiro do Paço com as chaves de Olivença numa bandeja de prata!

10/01/04

ôi galera! Gostei de vosso blog! Tou postando para ver se vcs podem me ajudar! É que meu cachorro, um viralata chamado Tampu, fugiu de casa faz um tempão. Vai daí, e como Tampu sabe nadar, me lembrei que podia ter atravessado o Atlântico. Se vcs vir ele aí, por favor manda ele de volta para casa e diz a ele que todo o mundo tá sentindo sua falta. Abração!
Carlão, S. Paulo, Brasil

09/01/04

CARTITA AO LUSITANO, por TINONI

“Ora então, vossa excelência, senhor Lusitano, sentiu vontade de dizer ao meritíssimo que gostaria de agarrar em mim e dar-me uma palmadinha no rabo, entre outras coisas, que não entendi bem, relacionadas com o mercado da ardósia e as economias dos meus pais. Calculo que estes considerandos avulsos servissem para disfarçar o embaraço do pedido. De qualquer maneira, o meu caro amigo não tem que sobre isso pedir opinião ao juiz. As relações entre homens adultos, ainda para mais dessa natureza, não necessitam de autorização judicial. Tudo o que tinha a fazer era escrever-me e perguntar se aceito. Ou colocar um anúncio no jornal, como normalmente se faz. O que me espanta, para ser sincero, é você, que não me conhece pessoalmente, que nunca viu o meu traseiro, presumir que sou o seu género. Andará a seguir-me? Sobre isso, adianto já, correndo o risco de o decepcionar, que levar palmadinhas de homens não me excita particularmente. Mas, enfim, o meu amigo lá sabe com o que se vem, e a mim já nada me espanta. Tenho até defendido gente acusada de estuprar galinhas, veja bem! Mas vamos lá então ver se lhe consigo ser útil em alguma coisa, que o meu amigo, perturbado com anda, é capaz de cometer alguma loucura com o gado da vizinhança. Olhe lá, o senhor é casado? Digo regularmente casado, como manda a Santa Madre Igreja, com alguém do sexo oposto. Arriscaria que não. Mas se tiver mulher, traga-a cá a casa e peça-lhe a ela para me dar palmadinhas no rabo. Não será bem a mesma coisa, eu sei, mas sempre terá alguém que lhe conte como é. Eu depois me entenderei com ela para outras tarefas. E é claro que o meu amigo vai ter de esperar na sala ao lado, que eu nessas coisas sou um bocado preconceituoso. Mas não me oponho a que lá fora vá dizendo, como também já vi que lhe dá prazer, coisas como “o menino é malcriado”, ou “o menino não tem futuro”, ou outras coisas eventualmente do seu agrado, como “o menino é o tarzan”, ou “o menino é o brad pitt”. Tanto se me dá, desde que gema baixinho e não me suje as carpetes. Sobretudo, não se humilhe mais a expor assim os seus desejos, homem. Não vale a pena. Um dia, quem sabe, encontra alguém da sua estatura, a quem possa agarrar e que goste de levar palmadinhas no rabo, e então será feliz.
Com os meus cumprimentos”
DEUS DESAVENHA QUEM NOS MANTENHA, por DR ABRANCHES E MENEZES


fls 46
Cascais, 20 de Dezembro de 2003

Exmo. Senhor
Dr. Juiz Presidente do Tribunal Judicial do Porto
Av. São João
4050-214 PORTO
(entrada na secção central em 30/12/03)

V/Refª. 244854 – Proc. 934/03.3TBPLS


Excelência.

Há momentos na vida em que gostaríamos de ser grandes, quer dizer, ser assim um pouco maiores para poder agarrar nos outros como quem pega numa criança e dar-lhes uma palmadinha no rabo, ou então dizer-lhes: o menino é malcriado, o menino não tem futuro! Pois é sr. Dr. Juiz era precisamente isso que eu gostaria de fazer ao sr. advogado que apresentou queixa nesse tribunal para que eu pagasse algo que nunca adquiri.
Nunca fui a Arouca nem tão pouco conheço a empresa que forneceu a ardósia ao Sr. António Marques Lusitano. Acredito plenamente que este sr. não pagou a ardósia mas o que não me entra na cabeça é que o sr. que andou a gastar o dinheiro dos pais para se formar em direito só se preocupe em encontrar um António Marques Lusitano e não saiba analisar uma factura (2) para ver que o comprador não reside na Rua do Sarmento em Cascais. Será que não lhe passou pela cabeça que podem existir duas ou mais pessoas com o mesmo nome?

Os meus pais não tiveram possibilidades financeiras para me dar um curso superior, mas ensinaram-me a ser honesto e cumpridor das minhas obrigações pelo que se deduz que se tivesse comprado a ardósia tinha-a pago e se não tivesse dinheiro não a comprava.

Junto fotocópia do meu cartão de contribuinte para provar que não corresponde com o que está nas facturas, que era por aí que o sr. Dr. de Coimbra devia ter começado, não acha Sr. Dr.?
Com os respeitosos cumprimentos



António Marques Lusitano

Anexo – Fotocópia cartão de contribuinte

Carta registada com aviso de recepção

08/01/04

MANGAS, por MANGAS

“Vinha passar os fins de semana a casa. Todas os sábados, às três da manhã, ele acordava com a garganta seca, levantava-se, caminhava pelo corredor escuro em direcção à cozinha e descascava uma manga sumarenta. Senti-a escorregar nas mãos, cortava-a às fatias e chupava o caroço. Depois, dirigia-se outra vez para o quarto, deitava-se com o cabeça no colo dela, besuntava-lhe o sexo com o sumo de manga, chupava-o delicadamente e só então, vinte e quatro horas depois de ter chegado, é que lhe enterrava o pénis nos lábios frutuosos. Ela, durante muito tempo, pensou que havia uma relação metafísica entre as mangas e a felicidade de uma boa foda e que, por qualquer motivo, cada homem encontraria, eventualmente, um sabor estimulante no seu fruto de eleição. O do marido, descobrira por mera casualidade, era a manga. Por esse motivo, nunca deixou que faltassem mangas lá em casa durante todo o ano. Havia subtileza naquela cumplicidade. Nunca falhava. Era troca por troca. Lavava a loiça depois do jantar, fazia-lhe companhia em frente à televisão, duas ou três perguntas triviais e outros gestos de rotina a que se habituaram à falta de melhor, apercebia-se bem que tão depressa podiam pisar a mesma terra que os separava como levantar voo um dia destes em direcções opostas, quando menos se podia supor. Retirava-se para o quarto com um beijo, despia a roupa, enfiava-se dentro do robe transparente, esperava por ele acordada, esperava o fecho da emissão, esperava o tempo que fosse necessário, adivinhava-lhe os passos na escuridão a caminho do frigorífico, pressentia o gume afiado da faca a deslizar na manga, e sentia-se a escorrer enquanto pensava naquelas coisas que iriam fazer quando ele se enfiasse na cama. Uma transacção de sabores com consentimento mútuo de ambas as partes. Ela dispunha-se a encher o frigorífico de mangas frescas e ele retribuía-lhe com estocadas sumarentas em cima e fora da cama, até ela se fartar. A fixação dele, pelos frutos, era recíproca nela pela vontade em se desarticular todos os sábados de madrugada numa espargata insaciável, deixar-se atropelar contra o soalho do chão e acordar no dia seguinte com nódoas negras por todo o corpo.
Algum meses mais tarde, fazia precisamente nesse sábado duas semanas que ela começara a ter lições de piano lá em casa, com um professor italiano, para ocupar o tempo, (incentivara-a o marido no sofá da sala sem desviar o olhar da Big Show Sic), ela foi deitar-se mais cedo do que o costume sem se despedir com o beijo habitual. Ele estranhou esta quebra no protocolo, foi espreitá-la e estranhou outra vez quando a viu adormecida. Profundamente adormecida e sossegada como não se lembrava de a ver desde que casaram. Sem perceber muito bem o que se estava a passar, dirigiu-se à cozinha, tacteou a porta do frigorífico, a luz acendeu-se e na prateleira onde habitualmente encontrava as mangas com a pele verde sarapintada de pontinhos castanhos, encontrou uma boa meia dúzia de maçãs avermelhas e carnudas.”

07/01/04

SELVA
o Zé reles prefere tapornumhipópotamo

ass: zé reles
TAPORNUMTATU, por Tinoni

dog, porque é que não pôes essa tua cena dos provérbios no blog? alimenta lá o bicho, ó pá! e isso é picanha da boa! Tou a gostar do blog, a sério! é a coisa mais caótica que já vi, nihilista é pouco. Lá diferente é, não há dúvida! assim tá fixe. Melhor, só se mudasse de nome todas as semanas, assim do género: tapornumboi; tapornumagalinha; tapornumtatu; tapornumpardal. E de vez em quando pode pôr-se lá uma coisa mais séria. Olha, porque é que não pôes lá os mails da co-incineração, ó grão? hehehe. E já agora, a coisa da Waterloo é jantar ou é almoço? ainda não percebi!
tinoni
Este é o Tapornumporco! O único blog do mundo em que ninguém sabe quem escreve o quê! (eu seja porco se não descobrir quem é o Presépio...) Também queres escrever aqui, rapaz? Aluga-se o código de acesso a trinta euros por mês!
Rapaz,
És casado? Tens filhos para sustentar? Queres uma profissão de futuro? Que tal fazeres comentários aos nossos posts? Trinta cêntimos e um pão da mealhada por comentário. Enquanto não tivermos caixa de comentários, podes mandá-los para o Apartado 45663 Seycheles. Deves usar um nome diferente em cada comentário, género Silva ou Marques, nomes respeitáveis para dar credibilidade. Tudo menos Pilas! E de vez em quando o Silva deve chamar nomes ao Marques e vice versa, para garantir algum debate. Ok. Este post vai auto-destruir-se dentro de cinco dias
O TAPOR, por Le VICE

Fui sensível à missiva do sr. Nascimento de Jesus Presépio. Acho que ele dá óptimas sugestões para novos blogs e gostei particularmente daquele EnrabaOCoelho queEleChia. Mal sabe ele que um de nós se chama Coelho. Era bem visto, sim sr.
Mas convém responder ao sr. Presépio que o nome do nosso blogue encerra uma crítica dadaísta à blogosfera com pretensões intelectuais. Com um nome destes colocamo-nos desde logo num registo niilista que nos permite uma espécie de liberdade acima de qualquer critério de bom gosto, moral ou outro. Aquele nome absolve-nos desde logo, cria latitude, abre à baboseira e não fecha à poesia. É por isso que, apesar de não ser um nome entusiasnmante o Tapor é muito melhor que merdas do estilo o Blog dos escritores , e dos artistas e dos anarquistas sindicais e dos socialistas e dos de direita e dos de esquerda. Afinal quem é que não gosta de se pôr num belo reco (num leitão entenda-se e não no suío animal que o sr. Presépio pensou logo em sodomizar)?

Le Vice

06/01/04

É só pra dizer que acho mal a desconfiança e a carga pejorativa que o Presépio colou no pessoal todo. Quem o ler, até julga que o pessoal anda aqui a desencaminhar os leitõezinhos, quando o pessoal tem o máximo de respeito por todos os animaizinhos. Os animaizinhos são todos nossos amigos e a gente gosta muito deles.
Já parece o Mau e o seu amigo o Nazi das Aves a desconfiar do que a gente queria fazer mal às coitadas das avezinhas.
Nada de nada, só carinho e aconchego. Aconchegá-las com umas batatinhas aloiradas que ficam sempre ao lado de qualquer animal. Já os leitõezinhos gostam é de laranja às rodelas.

ass: o amigo dos animais
Ao ponto a que isto chegou...! TAPORNUMPORCO! Amanhã aparece um CagaNaGaivota e pelos jeitos que a coisa toma, havemos de ver um dia os nossos filhos a trocarem impressões no ChupaOTexugoEnquantoPodes ou a namoriscarem no EnrabaOCoelhoQueEleChia...! Que nojo!!! Mas, cá estarei a controlar o que por aqui se escreve e a zelar pelos valores morais que a Vossas Excelências escapam nas subtis sugestões de coito anal com o porco, esse animal sagrado de onde provém o leitão assado que, Vossas Excelências, um dia se lembrarão também de sodomizar a quente! Lembrem-se: todos os cogumelos são comestíveis. Alguns, só uma vez! O pior é que Newton morreu, Einstein morreu e eu, depois de dar de caras com este inqualificável blogue, não me estou a sentir muito bem...
Por isso vos aviso: tenham medo...! Tenham muito medo...!

Ass.: Armando Nascimento de Jesus, vulgo Presépio.
já descobri comé que o presidente da junta do nabo do administrador bloqueou esta porcaria. Afinal é preciso fazer post&publish e não só post.
gandas abstuntas.
ass: grão
PS: Mangas, posso meter aqui o conto das mangas, ou também paga direitos?

JUSTINO DA MAIA, por TomCRUZE

“Vê lá tu, que ia no outro dia com o Justino da Maia, passeando na Baixa, e que vejo eu? o grão. Não me contive, é claro, e logo lhe digo assim, como quem entabula a conversa mais natural do mundo:
-Vês ali aquele homem, justino?
-Homessa, pois se não vejo outra coisa!
-São 126 quilos, Justino. É meu amigo. E faz bordas. São os bordas mais perfeitos que já viste.
-Pois vê-se logo que é um homem distinto. E que são bordas, ó António?
-Bordas, Justino, são listas de vinhos; centenas e centenas de páginas de listas de vinhos, catálogos infindos. Anda sempre com um papelinho e vai apontando, aqui e ali, os nomes das garrafas, os preços, os anos... tudo o que possas imaginar sobre vinhos. Voilá.
-E para que serve?
-Não se sabe. Mas é o único que faz aquilo. Tem gavetas cheias, armários imensos.
-É o poder de Deus, ó António. É de homens assim que o Mundo precisa.
-Tens razão. E agora vem daí beber um capilé.”

Esta merda tá mal!
Não sei porquê, mas tá.
Quando souber eu explico.
Estou conf(t)usa, perdão confuso. Blogueei.
NiNi
que porcaria de bicho meteu a sucata do administrador nesta porra que não se consegue meter lá nada? abaixo os presidentes da junta!
praga do caralho.
ass: grão

05/01/04

Pedimos imensa desculpa pelos pequenos lapsos, petits faux pas, inevitáveis em quem se inicia nesta função. A intenção deste blog é séria. A partir de hoje vão postar-se aqui exclusivamente textos que espelhem a actividade mental colectiva, extremamente variada, da nossa associação recreativa. Entretanto, e uma vez sem exemplo, para captar leitores mais renitentes, vamos deixar aqui a descrição de uma mulher nua: lábios vermelhos carnudos, entreabertos, seios redondos e firmes e uma pelugem fina no baixo ventre. Pronto. Aos que fizerem mais comentários aos nossos posts, no mínimo de cinquenta, e deixarem contacto de correio electrónico, sortearemos a oferta de mais uma descrição de mulher nua, deste vez sem pelugem de qualquer espécie no baixo ventre. O facto de oferecermos somente descrições de mulheres, facilmente se compreende se explicar que, sendo este um blog de homens que quando se encontram vão vestidos e que nem sequer frequentam saunas, ainda ninguém aqui viu um homem nu com a atenção devida. No entanto, em atenção às mulheres que tiverem a delicadeza de concorrer, poderemos ir ver como é. Vou-me agora chegar um pouco para o lado, e esperar que na nossa associação se decida se é para manter ou não o actual nome do nosso blog, discussão que está em curso. É coisa que deverá levar o seu tempo, pois esta é uma confraria reflexiva. Uma coisa é certa: A partir de agora, nunca mais a blogosfera vai ser a mesma.
Nomes propostos pelo Grunfo e Vaice:
Santinho
Jesus Cristo Também Bebia o Seu Copito
Os 3 pastorinhos também bebiam o seu copito

Resposta do administrador [eu é que sou o administrador desta merda]:
Ai sim ? Já agora prponho para título:

asarmaseosbarõesassinaladosquedaocidentalpraialusitanaforamaindaalemdatrapobana.blogspot.com

não te lembras assim de nenhum título mais comprido e fácil de memorizar? irra q são burros!

O Grunfo ficou tocado:
- ó xxiita do caralho custa muito dizer que há limite de letras. é preciso ofender? Maus fígados do caralho.

Ficou ofendido? Leva mais:- baitapornumporco, eu não ofendi ninguém ó paneleiro do caralho, aliás, nunca ofendo, ó besta da merda!

E fica baitapornumporco e eu é que mando!
Ass: o administrador desta merda!
Perceberam? Ou querem que volte a repetir?!
Nota do Chefe do Editor:
O editor acaba de ser despedido. Como não sei onde ele anda, fica já aqui o aviso. Aquele post que está aí em baixo sobre a caixa de comentários é completamente parvo. Não existe ainda nenhuma caixa de comentários.

Entretanto, tendo o nome do blog sido inventado pelo editor, e como queremos apagar qualquer vestígio da passagem dele por aqui, aceitam-se sugestões de nomes alternativos para este blog. Só uma condição: tem que meter porco, em homenagem, enfim, ao editor, a quem a malta tem de continuar a aturar em jantares e coisas do género. E a malta gosta dele, apesar de tudo. Pronto, está dito. Um abraço.
Exemplo de nome alternativo com alusão ao porco: costeletadocachaço.blogspot.com

Nota do Chefe do Editor:

O editor acaba de ser despedido. Como não sei onde ele anda, fica já aqui o aviso. Aquele post que está aí em baixo sobre a caixa de comentários é completamente parvo. Não existe ainda nenhuma caixa de comentários.

Entretanto, tendo o nome do blog sido inventado pelo editor, e como queremos apagar qualquer vestígio da passagem dele por aqui, aceitam-se sugestões de nomes alternativos para este blog. Só uma condição: tem que meter porco, em homenagem, enfim, ao editor, a quem a malta tem de continuar a aturar em jantares e coisas do género. E a malta gosta dele, apesar de tudo. Pronto, está dito. Um abraço.
Exemplo de nome alternativo com alusão ao porco costeletadocachaço.blogspot.com

Caixa de Comentários
(856365)
(Nota do editor: façam favor, não mandem por enquanto mais comentários. O sistema bloqueou e agora não é possível abrir a caixa respectiva. Obrigado. Estou a tentar corrigir o problema)

TRATADO TAURINO

Hoje precisei de ir à 14ª Repartição de Finanças de Braga, ver um artigo da matriz fiscal em nome de um cliente.
Estacionei, e fui de fisco.

Às 14 horas e 3 minutos, dei entrada nas Finanças e dirigi-me para o balcão da Matriz.
Bicha. Enorme.
À minha frente, era só samarras e flanelas, pelo que os 15 contribuintes, digo, 15 brutos, que se me adiantavam faziam desde logo adivinhar, que me queriam fazer perder a manhã toda.
Linde, pensei logo. Vai haver Tourada.

Pra quem não saiba, o Toiro é sempre o bicho que exerce o seu poder de imperium, atrás do balcão. Toiro de Balcão, portantos.
Por seu lado e ao contrário de outras espécies, que só se divertem nos bares e discotecas, o Advogado é uma espécie que também se diverte nestes sítios onde há Toiros. Uma Repartição de Finanças com bichas, dá mais pica a uma Advogado, do que o supremo gozo de conseguir condenar um inocente ou absolver um culpado. As Conservatórias também são boas, mas esses cabrões levam tanto e todos os dias, que na sua maioria, já estão vacinados e permanecem indiferentes e a ruminar, perante o toureiro. E aí, o aficionado não gosta, e apupa. Mas nas Finanças não, os gajos são em geral Toiros de Balcão Virgens, porque normalmente as pessoas batem a bola baixa nas Finanças, não reclamam, nem marram. Afinal, sempre se trata dp fisco, dos gajos que meteram o Al Capone dentro e se um gajo levanta muita garimpa com o Imposto de Dez, os cabrões armam-se em garimpeiros e descobrem que devemos mais Dois Impostos de Vinte.
Adiante.

Perante a arena e os Toiros, a pessoa ou amocha e aguenta ou lida a toirama. Se opta por lidar os Toiros, tem três tipos de lide à sua escolha.

O primeiro tipo de lide, é a Lide de Aficionado.
Na Lide de Aficionado, este não entra na arena e nem entra na lide própriamente dita, provoca-a, mas não se expõe. À partida, esta posição de Aficionado, é a que dá mais gozo e mais pica. Demora é muito tempo e aí reside a sua desvantagem.

Na Lide de Aficionado, o toureio faz-se da seguinte maneira. A pessoa coloca-se na bicha, aguenta 5 minutos pra ganhar legitimidade e começa a resmungar. Aos 10 minutos, começa a mexer-se, incomodado. O resmungar e o mexer-se, levam a atrair a atenção da bicha pró Aficionado.
Quando capta a atenção da Bicha, o Aficionado passa então para o passo seguinte, que se traduz em desencadear a ira da Bicha contra o Toiro, picando-a. O bichedo contribuinte é manso, mas se for picado, marra, e se for bem picado por uma aficción bem feita, até investe!
Para o picanço, podem-se usar palavras muito diferentes, de caso para caso, mas no Toiro das Finanças, estas são as mais usuais: "Isto é inadmissível, está-se aqui há meia hora e atendem uma pessoa ou duas!", "A gente vem pagar impostos e é isto que apanha", "Pelo andar da carruagem nem de tarde daqui saímos". Isto é dito baixinho e só pró bichedo.
Se repararam, acentuou-se o destino colectivo, mau, e provocou-se a indignação do bichedo, que nesta altura começa também a resmungar e a mexer-se. Se a coisa for bem feita, o Toiro do lado de lá do balcão, nem sequer se apercebe de quem desencadeou a lide.

Acendido o rastilho, o Aficionado deve dar mais um empurrão antes da retirada estratégica e confortável. Assim quando o Bichedo está aceso, deve-se atiçar a fogueira com a segunda fase: "Só um funcionário para atender tanta gente, e os outros todos que estão ali atrás sentados?", "E o chefe não vê isto?", "Só vêm e resolvem quando a bicha chegar à porta ou alguém partir tudo!"

Se bem repararam, nunca houve palavras ofensivas e indicou-se à turba o caminho a seguir na estampida, rematando-se com o incentivo final.

Nesta fase, já dois ou três samarras e quatro ou cinco flanelas, tomaram as rédeas do bichedo e já desataram no tradicional: "malandros", "se eu mandasse é que era", "é tudo uma comunistagem", "não fazem nenhum", "antigamente não faziam isto, ora se faziam", etc, etc.

Perante isto, o Toiro de Balcão investe e marra no bichedo. É a sua primeira e primária reacção e é sempre a sua perdição, porque a um bichedo perdido ninguém acha, e estes, porque nem achados, nem rogados, partem para a fase final de puro delirio niilista e desembestamento, com os consequentes: "era só à metralhadora", "chupam o sangue todo ao povo", "gatunos", "ladrões", "cabrões", "filhos da puta", etc, etc.

Nesta fase, o Toiro de Balcão vê que não aguenta a turba e chama o Toiro Chefe de Repartição.

A toirada está montada e resta ao Aficionado apreciar e gozar a obra feita.


Como já se disse, a Lide de Aficionado, é a que dá mais gozo, mas é muito demorada.
Foi usada por exemplo e com sucesso diga-se, nas bichas da Galp da prós bilhetes dos Stones, pelo Xiita, esse grande cultor da Aficionado, que só peca por não a aplicar nos tascos, onde come tudo o que lhe metem na manjedoura.
Nos meils confradais, tal forma de lide é usada amiúde também, com grande destaque e proveito, para o Manolete


Não tendo tempo para perder, a pessoa não se pode dar ao luxo de fazer uma lide de Aficionado, que por natureza é demorada. Se não se tem tempo, então tem que se descer à Arena, assumindo então a segunda alternativa. Isto é, passa a Toureiro, fazendo a chamada lide directa.

No caso em concreto, de hoje, apesar da abundância de samarras e flanelas, bichedo sempre pronto a ser lidado de aficción, estava com pressa e optei pela lide de Toureiro.

Quando a pessoa assume a alternativa Toureiro, e vai pela lide directa, tem ainda duas hipóteses, como resulta do senso comum, ou faz uma Pega de Caras, ou faz uma Pega de Sernelha.

Na Pega de Caras, o Toureiro aguenta um máximo de Dez minutos de Bicha (pra ganhar legitimidade) e logo após, sai do seu lugar na Bicha e avança pró Toiro de Balcão, enquanto olha de lado e em geral o Bichedo, para que este saiba que vai haver merda e que não se trata de um paspalho a tentar furar a bicha. Atenção que, se não tiver este cuidado, de olhar e controlar o bichedo, fazendo-o ver que vai haver marranço, de molde a provocar a simpatia deste, o Bichedo é bicho para marrar por detrás, o que é de longe, a coisa pior que pode acontecer, porque o Toiro de Balcão aproveita e marra também. Mas fazendo-se esse olhar e controle, o Bichedo adivinha a merda e adivinhando que vai haver merda, o Bichedo deixa sempre passar à frente.
E vai-se directo ao Toiro. Fazemo-nos brutos e em bruto, à marrada. Com força e cagança. O Toureiro levanta a voz, indigna-se, berra e espaventalha. É dono da razão, ou não fosse a força da sua convicção. Ao mesmo tempo que afronta o Toiro, o Toureiro diz o que quer. Ao mesmo tempo que marra, o Toureiro deve sempre lançar olhares de cumplicidade pró Bichedo, de molde a fazê-los ver que está ali a marrar por eles também.
Como em regra, o Toiro de Balcão é um cornupto manso, a lide frontal rouba-lhe o ímpeto e o impérium e isso leva-o a deixar-se pegar e a resolver rápidamente o problema do Toureiro, de imediato e à frente do Bichedo, que depois lá fica a marrar com o Toiro de Balcão.

Esta lide frontal permite resolver o problema com rapidez, embora dê pouco gozo e no caso de se encontrar um Toiro mais duro, ou maduro, tal lide, poderá mesmo conduzir a maus resultados.

Este tipo de lide, costuma ser usada por exemplo, e também com sucesso diga-se, nas perseguições fiscais do Pilas, que ataca de frente e de peito feito todo o Toiro fiscal que lhe aparece à frente.
Nos meils confradais, tal forma de lide frontal e brutal, é sobretudo usada pelo Animal.


Voltando ao caso concreto, e como já conhecia o Toiro em questão e sabia que o Bicho era tudo menos manso, optei pela PEGA DE SERNELHA, que passo a explicar e a relatar.

Ao contrário do que possa parecer a Pega de Sernelha, é das lides mais difíceis de fazer.

O Toureiro além de ser incisivo, tem que obter a cumplicidade do Bichedo e não pode ficar cá atrás, tem que ir prós cornos do Toiro, embora nunca em posição frontal, mas lateral, sempre educadamente, de flanco e sem se expor demasiado.

Este tipo de pega, não sendo tão rápida como a de Caras, dá muito mais gozo que a de Caras, quase tanto como a de Aficionado e permite resolver sempre o assunto de forma mais rápida que a de Aficionado, sendo que por sua vez e como característica própria e sua, tem a vantagem de permitir que o Toiro seja lidado de Sernelha, tantas vezes quanto as que forem precisas, coisa que a de Caras não permite, porque nessa ou o Toiro se parte todo ou fica queimado e jamais voltará à lide. Na de Sernelha não, o Toiro deixa-se lidar sempre e vem sempre à lide. Melhor ainda, se a pega de Sernelha for bem feita, o Toiro nem sequer se apercebe de que foi lidado.

Assim deixei-me estar 10 minutos na bicha, ainda e sempre para ganhar legitimidade e autoridade moral. Aos 10 minutos comecei a resmungar baixinho e a mexer-me incomodado. E isto tudo feito, sem que o Toiro se apercebesse. Só o Bichedo de flanela e de samarra, é que se apercebeu, no que me deu de imediato a sua cumplicidade total.

Aos 15 minutos, obtida a aprovação do Bichedo, saí da fila e dirigi-me ao Toiro. Com jeitinho.
-Isto não pode ser, ó Sr. Silveira, (este é um nome ficticio, que eu não quero problemas com o Sr. Pereira), estou aqui há quinze minutos e o Sr. só pôde atender (reparem no "pôde", neste tipo de pega é essencial não afrontar o Toiro) uma pessoa, o Sr. não pode estar sózinho, tem que chamar outro colega pró ajudar, eu e estas pessoas todas não podemos e estar aqui a tarde toda!"

Apesar de toda a cortesia, o Toiro reagiu mal como tantas vezes acontece, e procurou marrar de frente. É nesta altura que o Toiro se perde. Porque se o lidador está de Sernelha, jamais o Toiro, de per si, pode mudar a coisa pra Pega de Caras. Só muda pra lide de Caras, se o Toureiro deixar.

-Ó SrDr desculpe lá mas não me pode interromper, que estou a atender uma pessoa!
-Ó Sr. Silveira, desculpe lá interromper, mas não tenho outro remédio, como lhe disse, o Sr. sózinho jamais conseguirá atender esta bicha toda em tempo razoável e não é justo que as Finanças nos exijam tempos de bicha sem fim à vista.

O bichedo picado já começava a levantar a voz, e o Silveira, rato, viu que assim não se safava da carraça, e vai daí:

-Ó SrDr pode ter muita razão, mas isso só com o Chefe de Repartição, que eu sózinho não mando nada.
-Então, o Sr Silveira faça-me o favor de chamar o Chefe de Repartição.
-Eu daqui não posso sair, não posso parar o atendimento.
-Ó Sr. Silveira, não lhe custa nada dar um saltinho lá dentro e agradecia-lhe que não me obrigasse a ficar aqui a insistir (em voz alta e virado pró bichedo) ou a pedir o Livrinho de Reclamações (em surdina e só pra ele).

Cá atrás, o Bichedo já berra. "-Isto é uma pouca vergonha", "Não há direito, fazem o que querem", "Só a tiro".

O Silveira adivinhando a fase seguinte, vai chamar o Chefe.
O Silveira desaparece durante 10 minutos e volta com o Chefe.

O Chefe dos Toiros de Balcão, pergunta qual é o problema, com aquele ar afectado de inglês constipado, a pedir meças a quem o obrigou a incomodar-se.

-O Sr. é que é o Chefe de Repartição?
-Sou, e já lhe perguntei qual era o problema.
-Olhe, é o seguinte, eu estou aqui na bicha à meia hora, e muita desta gente (e volto-me para trás e levanto a voz) até está aqui há mais tempo, e há um único funcionário a atender este sector, ora como demorou meia hora a atender a primeira pesoa, teremos que estar aqui todos até ao fim do dia, e no meu caso eu apenas quero ver um artigo da matriz.

O Toiro Chefe, que viu entretanto o cachucho rubi de imitação, no dedo segundo da talocha esquerda, adianta:

-Mas ó Sr Dr, o Dr passa já à frente e é atendido já.
-Mas eu não quero passar à frente de ninguém (em voz alta e voltando-me para trás).
-Mas como advogado, o Sr Dr tem o privilégio de ser atendido em primeiro, ó Silveira...
-Ó Sr Chefe, (voltando-me prós flanelas e samarras e em voz alta) mas eu estou aqui a falar consigo como contribuinte normal e não quero afrontar estas pessoas que esperam há mais tempo do que eu, e eu tendo esse privilégio não o quer exercer.

A turba aplaude. Se lhes pedisse as filhas naquele momento, davam-mas de certeza.

-Mas é que eu não tenho mais ninguém prá aí meter, ó Sr Dr.
-Ó Sr Chefe, o Chefe de Repartição é o Sr, o Sr é que sabe como deve ser. A nós (virado prá bicha) só nos compete ver que a coisa não está bem e tem que ser corrigida.

O Bichedo delira e espoja-se de gozo. Eu tamém, mas só pra dentro que o toureio é uma arte solitária.

O Chefe, contrariado, vira-se pra trás e chama um bigodaças alto e fininho funcionário, que se atafulhava atrás de uma secretária próxima.

-Ó NãoSeiQuê, vem aqui atender a autárquica.
-Eu não posso, estou aqui a fazer o serviço xptoyzx,
e enterra de imediato e ainda mais, as fuças nos maços de papel, num desrespeito incrível pelo Chefe dos Toiros e numa demonstração clara de que a arte da Pega de Caras, também tem cultores do lado de lá do balcão.

Em desespero de causa, o Chefe agarra o braço de uma avantajada gorda de buço à groucho marx que passava ali,

-Ó NãoSeiQuê, atende aqui as pessoas da Autárquica.

Azar. Outra adepta da Pega de Caras. Vira uma cara de tanque de guerra pró Chefe, num misto de desafio e levas-me uma qaté voas, e vai de lhe virar o cú, descomunal por sinal.

Tanta desfaçatez junta e pública da parte dos inferiores, quebrou o Chefe por completo. O Toiro foi vergado e caíu. Baixou os ombros, põe-se ao lado do Sr Pereira a atender ao balcão, e humilde, diz:

-Ó Sr Dr, então diga lá que artigo é, que eu vou buscar.
-Ó Sr Chefe, assim não, tamém não quero isso, se vai abrir a secção de autárquica em separado, tenho que perguntar aqui atrás se há alguém à minha frente para a autárquica.

Dito e feito, sem dar tempo ao Toiro que ficou de boca aberta.
Azar de novo. Definitivamente não era o dia do Chefe dos Toiros.
Havia de facto alguém que se chegou à frente.
E eu dei-lhe passagem. O Chefe abriu a boca pra dizer algo, mas faltou-lhe a voz, enquanto lhe passavam pela cara todos os tons possíveis de vermilhidão humana. Atendeu o flanela. E depois atendeu-me a mim. Fodido de todo. Se o olhar fulminasse eu caía logo ali.

-Ó Sr Dr, então diga lá que artigo é, que eu vou buscar.
-5000, urbano de Santa Eufémia, Sr Chefe.
-Está no seu nome?

Mau, era o cabrão a tentar escoicear, tás bem fodido estás, pensei eu.

-Não, está no nome de outra pessoa.
-Atão não posso ir buscar, que há reserva e segredo fiscal e só os próprios é que podem consultar a matriz.
-E os advogados.
-Sim, mas o Sr Dr está aqui como contribuinte normal, logo não pode ver a matriz.
-Tem toda a razão, só que isso era há bocado, para resolver o problema da bicha, agora que chegou a minha vez, estou aqui como advogado e quero ver a matriz e para que não haja dúvidas exibo já a minha cédula.
-Podia ter exibido há bocado...
-Há bocado era como contribuinte...
-Eu vou buscar...

Manso, mansinho, lá foi o Toiro buscar a matriz. Mal vi aquela merda, saí prá rua de enfiada e andei o resto da tarde com um sorriso à Manuela Moura Guedes.


AVISO: Por favor não tentem isto em casa ou na vossa Repartição. Este tipo de lide fiscal é feito por profissionais treinados e sua feitura por pessoas impreparadas pode conduzir a que se aleije seriamente.

ass: GrãoMaquiavel

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ass: grão

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