29/04/04

Porcos ao serviço de Espanha, por Mangas

Anarquia controlada
A coisa foi assim: partimos de Coimbra sábado bem cedinho direitos ao sul de Espanha, apenas com a certeza que haveríamos de voltar. Poucas mais certezas se poderiam ter naquele momento. Experimentem compartilhar o espaço de um carro, durante dez horas, com três insaciáveis operários de provocações, bandas sonoras, excertos de viagens, livros, capelas de devoção gastronómica, artes variadas e geografias mil, sendo vocês o quarto e o mais faminto de todos, e perceberão onde quero chegar. O universo inteiro resume-se a isso; quer dizer, naquelas horas, tudo o que um tipo diz ou faz resulta numa gargalhada em uníssono ou numa saraivada de retaliações violentas cujo propósito último é ouvir outra para continuar a malhar ou a rir. Vulgares pombos grasnam, rouxinóis cantam, mas um porco caminha sobre as águas ainda que elas ardam, porque o inferno é um belo lugar para queimar os chispes; bebe do cálice ainda que ele arranhe, e quando metade dele se tiver ido, deverá dizer com contagiante espanto e indisfarcável alegria: "E ainda só vou a meio!" Foi nisto que nos metemos.

O presunto de Jabugo e Cela Tendo resumidamente explicado os votos e chicotadas que presidiram ao passeio, e sem mais delongas, passo à navegação propriamente dita. Almoçamos em Jabugo, na serra de Aracena, onde as palavras do grande Camilo J. Cela não deixaram contas por saldar às queixadas esganadas porque aí ?se criam uns presuntos e uns paios de lombo dignos de um rei?. Ficou-se a saber que lagarto, são pequenas e suculentas tiras de carne retiradas do espinhaço do porco, servem-se fritas com finas rodelas de batatas levemente alouradas e acompanhadas de um frugal refogado de cebolas, pimentos e tomate. Que cocido é uma sopa de grão e feijão verde toscamente cortado que dá cor a um poderoso caldo de porco. Que Veja Real 2000, de Rioja, é um vinho aromático e guloso, bendita foi a hora que àquele tinto trouxe a sede e o sabor do presunto. Perdoa-nos Cela porque as fatias eram ?fatiazinhas muito finas e transparentes?. Heresia maior seria contrariar os costumes da boa gente que no-las serviu. Já bem basta a coca-cola que por lá se bebeu, nojo de nomeada e inenarrável, teimoso como o pagão que o pratica continuamente. Adiante. Dali até Conil foi uma estirada a ar condicionado, Ben Harper, Tom Jobim, As Bodas de Figaro e Stones, sempre os Stones! A imensidão da planície andaluza. Coisas do género: não haja dúvida que estes cabrões dos espanhóis sabem marcar as estradas!; se a Monica Lewinsky tem feito um broche ao Kennedy, não ficava com nenhuma mancha de certeza, lê aí esse parágrafo da Mancha Humana do Philip Roth; os ingleses andavam há séculos a lixar os campos de Rio Tinto perto de Huelva com as minas de ferro e pirite etc... Entre os quatro, metemos 123 filmes nos 10 melhores de sempre, três mandaram pastar um Derviche Rodopiante, dois mamaram os caramelos todos, mas só um deles contou fábricas de celulose. Por essa altura, os Jardins Genoveses de Cádiz eram uma promessa a cumprir no dia seguinte.

Conil Conil é ensolarada e ventosa. Trato-a por fêmea porque a sua marginal parece ter sido tomada por uma população de machos-Jorges, dentro de carros vulgares mas com aparelhagens de som estrondosas, audíveis a léguas, baixos ensurdecedores, autênticas discotecas ambulantes e insuportáveis que nem bardos gauleses! Jorges, por cá são aqueles que têm uma Famel Zundap XF-17 Super com jantes de duro alumínio e radiador a óleo e usam porta-chaves Ferrai à tira colo. Por Conil, também os há pelos vistos, só que requintaram a escolha, meteram ailerons nos Ibizas, cromados e escapes duplos de recuperação. Fazem uma procissão de vaidades sonoras estrada-acima-estrada-abaixo, devem meter tampões nas orelhas, ou então, são surdos como a puta que os pariu!

A tomada de Cádiz e o quase motim em Puerto de Sta Maria Cádiz pela noite dentro recebeu-nos de portas abertas. Só no-las fechou quando, por erro estratégico, mandámos o Sofista e o Milu à frente, arranjar quarto no hotel. Qualquer recepcionista sensível ao perigos de um atentado terrorista, olhando o perfil de um espécime de beduíno, cabelo rapado, olhar gazeado e tez morena, a tartamelar um castelhano à crioulo colonizado, hesita. Lógico. Evidente. Faz um esforço para tentar perceber aquela amálgama de sons sem descodificação possível ou aparente. Porém, eis que desvia o olhar para o parceiro que o acompanha, mãos nos bolsos dos jeans azul lixívia, bodyguard à civil, mortinho para dar a marrada e, tá tudo lixado: os dois quartos disponíveis há quinze minutos atrás...? já no los tiengo! Mas pronto. Lá se arranjou guarida a preço de ouro, estacionamento pago à parte e sem direito a pequeno almoço, o que não impediu um papa croissants de encher a mula às 11h. da manhã, bem convencido que estava tudo incluído no preço, pagou e nem verificou e só quando foi impiedosamente humilhado pela conta que lá deixou, é que percebeu de onde vinham os extras, o cavalgadura...! Contrariando a lógica enciclopédica do Grunfo que pensava estar o Romerijo de pernas abertas e com marisco aos saltos, à nossa espera, às 0.30h dessa noite, o que lhe ia valendo um motim a bordo seguido de empalação sumária, só no dia seguinte pudemos devorar umas quantidades generosas de marisco variado regado com umas cervejas bem geladas. Os viajantes, que não tinham pressa nos pés, nem impaciências nos espíritos, saborearam tranquilamente a luz solar daquela tarde numa esplanada rodeada por árvores seculares, entre a mansidão das sombras e o deleite de um Montecristo Nº2 oferecido pelo animal, que assim arrematou o banquete e se redimiu de um erro colossal.

A Catedral de Sevilha antes do regresso Em Sevilha, ficou-nos a admiração repetida pela Catedral, primeira vez para mim que nunca tinha medido de perto a distância colossal do solo às cúpulas, onde cabem 117 anos de construção e labor, talvez a inspiração fosse divina, mas o génio foi humano, de certeza. Bebeu-se orchata no Parque Maria Luísa, contemplou-se o encanto e a formosura tão peculiares das sevilhanas, tendo-se até e a propósito, teorizado sobre tão feliz refinamento genético e encontrado razões de origem na secularidade do império, no clima temperado e na paixão moura pelas coisas da beleza, e do prazer pelo requinte. Os viajantes entraram em Portugal no dia 25 de Abril pela tarde, por uma estrada de construção recente sem marcação alguma que não fosse um gigantesco placard que dizia ?Welcome to Stadium of Europe?, para os que chegavam e ?See You Soon?, para os que partiam. Os viajantes pensaram estar a desembarcar no porto de Dover ou nas docas de Jacksonville, depressa se recompuseram, mandaram algumas caralhadas, é certo, e outras considerações que não são para aqui chamadas. Mas talvez e porque acham que a liberdade não se celebra, vive-se, recusaram-se a ter sede ou direcção, destino ou sossego, e foram jantar e beber um copo, prometendo partir em expedição sempre e em toda a parte, navegando por terra e por onde lhes cheire.


Posted by Mangas Fernandes to at 4/28/2004 11:16:49 PM

21/04/04

Os Teletubbies, por Sofista Prateado


Tal como muitas séries de animação feitas para crianças muito jovens, os Tubbies são dotados de um poder hipnótico: impossível parar/deixar de ver. No entanto estes bonecos parecem a antítese perfeita de séries televisivas e bds, como por exemplo, Dragon Ball ou Pokémons (nos japoneses), Super Homem ou Power Rangers ou ainda Transformers ou mesmo Asterix e Obelix (que não têm normas de conduta mas andam à pancada, não são democratas, zurzem nos romanos, embebedam-se e não são politicamente correctos).


Nada disto se passa no universo esterilizado dos Teletubbies. Estes bonecos têm formas redondas e ternas, riem constantemente e exprimem-se por risinhos e gritos “abebezados”. São completamente desprovidos de maldade (inocentes como bébés), as suas acções são inconsequentes e habitam um mundo de felicidade. Em suma, são perfeitamente inócuos. Onde poderá residir, então, o seu poder de atracção?

TELE-TRANSE
Há algumas mensagens subliminares na série, a qual revela uma elaboração que não se adivinha à primeira vista. Lala, Tinky Winky, Dipsy e Po exprimem-se por balbucios delicodoces – ahh, uhh, ohh -, exclamações a propósito de tudo e de nada. O espectador não tem que reflectir: assiste. As situações repetem-se, episódio após episódio e várias vezes durante o mesmo. Mas o que se repete? Nada. Não se passa nada: uma volta de lá para cá, um passeio ao sol, uma exclamação (ohhh), uma gargalhada. Os Teletubbies foram feitos para serem repetitivos, de modo a captarem a atenção da criança pelo transe hipnótico, reforçado pelos efeitos sonoros específicos.

Não se pretende a criança acordada, mas mantê-la numa espécie de transe que prolonga o sono. Assim, ela fica embalada, em letargia, pronta a levar… A série é pensada para as seis, sete da manhã (há até testemunhos credíveis que juram ter visto episódios dos Tubbies às 5.30), enquanto a mãe prepara o pequeno-almoço e se apressa para levar os petizes ao jardim de infância, na primeira escala antes do emprego. Os episódios são curtos, minimalistas, de argumento zero. Podem interromper-se a qualquer momento e não suscitam tantos protestos da criança como aconteceria se estivesse a dar os Pokemons (longos, pesados, são próprios de fins de tarde ou de compactos fins de semana).

CYBORGUES INFANTIS
Não se sabe em que tempo decorre a acção, mas o universo Hi-fi da série faz-nos pensar num futuro Mad Max em versão cor-de-rosa. O mundo dos Tubbies aproxima-se dos cenários pós-apocalípticos da ficção científica. São montes e vales de alcatifas verdejantes, campos de golf artificiais, como todos os campos de golf. Po e os seus três amigos, vivem em bunkers em forma de iglos sem janelas e com respiradouros. Há flores de plástico que suscitam a ideia de que a flora é quase inexistente. A fauna está reduzida aos coelhos (os únicos elementos aparentemente biológicos, que provavelmente se alimentam de cenouras de plástico, e que seriam uma mutação dos coelhos originais).

Os Tubbies têm formas redondas que inspiram ternura. São cyborgs com caras de Etês e transportam TVês nos corpos, o que nos remete para uma época ficcional, cibernética, onde os seres existentes estariam a meio caminho entre o homem (ou o animal) e a máquina (Robocop, Transformers, Blade Runner, etc).
São acordados bem cedinho em cada episódio por Ed, o sol-bébé. Ed é muito expressivo, ri e espanta-se com as peripécias de Lala e companhia. É ele que inaugura a vida, a qual, é exclusivamente diurna e solar. Os Tubbies não vivem de noite e deitam-se quando Ed se retira. Eles são o oposto de um herói nocturno como Batman, por exemplo.

MACHOS E FÊMEAS
Não entrando em consideração com aspectos relativos à personalidade de cada boneco, é de assinalar o simbolismo dos objectos de Tinky Winky: um triângulo (símbolo feminino ou gay) e uma mala vermelha, o que valeu à série acusações de passar uma mensagem homossexual subliminar. Quais são os machos e as fêmeas? Que tipo de símbolos usam Lala e Poo, masculinos ou femininos?
Os nossos amiguinhos são deliberadamente ambíguos e misturam as suas personalidades masculina e feminina. A imensa hermenêutica que se tem produzido sobre a série, divide-se, relativamente às vantagens ou desvantagens desta ambiguidade sexual. Para os conservadores, eles são uma perigosa ameaça, ao misturarem os estereótipos masculino/feminino nas cabeças dos seus jovens apreciadores; para os liberais, são verdadeiros heróis pós modernos, já que propõem à criança um universo sem fronteiras – sociais, sexuais e outras -, de respeito pelo outro e de acolhimento da diversidade. Para a criança Nova Yorquina que frequenta o jardim de infância com um colega de cor, um outro árabe e um terceiro que tem duas mães em vez de um pai e uma mãe, os Tubbies dão uma certa segurança. Eles são urbanos, globais, multiculturais. Não é por acaso que Tinky-Winky se transformou num poderoso ícone gay.

PÓS-APOCALÍPTICOS E PRÉ-MANIQUEÍSTAS
Um outro aspecto subliminar da série é a sua apologia da não-violência. O mal não existe, nem a guerra, nem as catástrofes naturais, nem a doença... Os Tubbies dão à criança a sugestão de um universo light, sem maus nem perigos. Eles são pré-maniqueístas, já que só existem bons sem maus. Em Favourite Things, um dos episódios da série, desaparecem os brinquedos dos Tubbies: primeiro a bola de Lala (personagem feminina e brinquedo masculino…), depois a mala de Tinky-Winky (again…), depois os dos outros, para reaparecerem, invariavelmente, em cima da mesma árvore. Há aqui um provável vilão oculto que perturba a ordem do mundo, mas os tubbies nunca se perguntam quem é que anda a esconder-lhes os brinquedos. Procuram-nos, simplesmente, e encontram-nos sempre na mesma árvore. Não que sejam estúpidos – eles são, sobretudo, inocentes. Não se preocupam em saber quem os lá pôs nem como. O que importa é repor a harmonia inicial e, uma vez conseguida, tudo está bem.

Compare-se com as séries em que só importa castigar os super-vilões… Compare-se com o universo Manga, Dc Comics (Super Man, Batman, etc) ou Marvel Comics (Hulk, Spider Man, X Man…), em que os vilões são poderosíssimos e ameaçam todo o planeta, quando não a galáxia ou mesmo o universo… Em Favourite Things, pelo contrário, foram simplesmente os brinquedos que desapareceram e, uma vez encontrados, volta o reino da felicidade. Este é um mundo sem maldade nem maus, sem vinganças nem guerras, que admite, quando muito, brincalhões ocultos que brincam às escondidas com as personagens da série. É o mundo maravilhoso da brincadeira. Às vezes eu também gostava de viver num mundo assim. Ou talvez não, que sei eu?

19/04/04

EU E OS GALÁCTICOS, por Le Vice

INTRÓITO
Eu tinha feito uma promessa a mim mesmo que era a de não puxar o tema da bola (quer dizer, do ponto de vista da discussão tifósica) para o tapor. Achei que era um tema adequado aos mails, mas que debatê-lo nas páginas do tapor ia inundar o Porco de literatura de cordel acerca da bola. Ora para isso basta-nos o Ranhoso ao sábado à tarde.
Infelizmente o meu amigo xiita não foi da mesma opinião, pelo que ao abrir as hostilidades num post sobre o Grande Real Madrid (ou sobre o Vice?), deixa-me à vontade para encher o Porco com páginas sem fim acerca de futebol. Prevejo a perda drástica de alguns leitores ou pelo menos a mudança do seu perfil. Falo por mim, que quando ando na blogosfera e me deparo com comentários sobre bola, a primeira coisa que faço é zarpar. Não é que não seja um tema do meu agrado, mas porra!, o que não falta neste país é discussão sobre futebol: na rádio, na tv, na imprensa escrita... E agora na blogosfera? E até no tapor? Ná.

Mas também é verdade que o Tapor não tem temas tabu e por isso, iniciadas as hostilidades pelo xiita, vai de amandar uns palpites sobre bola. Se bem que o dito post do xiita me deixe um pouco baralhado. Não sei se o tema daquilo é o Real Madrid ou eu próprio. Não sei se o título não devia ser «O Meu Amigo Vice». Pareceu-me mais um texto sobre a minha pessoa que outra coisa, mas enfim… De qualquer modo aproveito para agradecer as referências elogiosas, embora discorde totalmente do que foi afirmado: eu não vejo um boi de filosofia, nem de música, muito menos de cinema. Eu percebo é de bola porque, como diz o Mangas, foram muitos anos de cheiro a balneário, ao contrário do autor do referido texto que jogou basket quando era pequenino e se revela actualmente – justiça lhe seja feita – um exímio praticante de golf.

BOLA
Feito este curto intróito, vamos então ao que interessa: bola. O Real Madrid é ou não é a melhor equipa que já vi jogar? Figo está ou não a fazer a melhor época de sempre em Espanha?
Se alguém ainda me está a ler nesta altura – eu já tinha vazado – quero dizer que, de facto, eu respondi afirmativamente às duas questões anteriores. Mas as minhas afirmações foram ditas no contexto de guerra de café e obviamente devem ser lidas, nesse contexto, como naturalmente hiperbolizadas. O que o xiita faz é retirá-las do seu contexto real e atribuir-lhes um valor literal que não têm. Para ser rigoroso eu devia ter dito «O Real Madrid de 2003/04 é uma das melhores equipas que já vi jogar futebol» e «O Figo está a fazer a melhor época desde que está no Real e talvez a segunda melhor desde que está em Espanha». Agora pegar em frases de efeito bombástico que se dizem no meio de berros e provocações e caralhadas no Ranhoso e metê-las aqui com o valor facial literal não me parece correcto. É como se eu agora viesse para aqui fazer um post porque um de nós em pleno devaneio tarado-sexualista comentou em voz alta que «aquela gaja é melhor que a jennifer lopez» ou «comi-a toda» ou «gosto mais daquela gaja que da malta do tapor». O que eu pretendi foi lançar um slogan, ser provocador…

No entanto, assumo: é para mim evidente que o Real é uma das melhores equipas que já vi jogar a bola. Até podem perder os jogos todos daqui em diante, mas isso já não invalida as belíssimas exibições que os Galácticos já nos deram a ver, inalcançáveis para o comum dos futebolistas. Acontece que o futebol para mim é arte, geometria criativa, arquitectura, ballet, dança, tudo à mistura… Algumas das melhores equipas que vi jogar perderam as competições em que se envolveram. Mas nem por isso deixaram de ser as melhores, as que perduraram na memória, as que fizeram o futebol avançar 10 anos, mesmo perdendo. Quem é que ainda hoje recordamos: o Brasil que perdeu o Mundial de Espanha ou o escrete burocrático que o ganhou no mundial dos EUA? Quem é que fez avançar o futebol uma década, a Alemanha caceteira e militarizada que ganhou o mundial de Itália ou a Argentina do Maradona que ganhou o do México?
Pois é, o critério do xiita para julgar o Real Madrid é um bocado primário; resume-se a isto: ganham são bons; perdem são um grupo de starlettes… Logo o Real perdeu a final da taça e os quartos da Liga, é mau. E quem é que é bom? Quem ganhou, o Mónaco, essa grande equipa e, acima de tudo e de todos, o porto, claro… Atão não se vê logo que o Beckham é uma vedeta que de futebol não percebe nada e bom, bom é o Manique? Que o Zidane é uma vergonha e que o deco é muito melhor? Que o Figo tá velho e o Sérgio Conceição e o Maciel tão novos? Que o Ronaldo tá gordo é o macarteney tá magro? Que o casilhas tá demasiado novo e o baía no ponto? Que o Raul é franzino e o jancaúscas é que tem cabedal? Que o roberto Carlos é tosco e o Nuno valente um tecnicista do caralho? Que o guti não sabe acertar numa bola e o costinha é que tem técnica e por aí fora? É que «como toda a gente sabe» (excelente argumento do post do xiita!!!) os galácticos do real são vedetas de cinema e não jogadores de futebol. Possivelmente as excelentes exibições que já fizeram este ano - por exemplo com o Barça em Nou Camp (por acaso venceram, 20 anos depois…), com o Valladolid (7-2, classe pura, empolgante…), com o Bayern, com o Múrcia (em que viram um 2-0), com o Bilbao, com o Atlético Madrid (no Bernabéu), com o Maiorca, com o Sevilha em Madrid (a vingança), com o Mónaco na primeira mão, etc, etc, etc - foram filmes de Hollywood protagonizados pelos tais bons actores. E. obviamente, o Figo passou ao lado disto tudo e só joga porque é português e o treinador é amigo dele… Também é claro que para perceber o que afirmo era preciso, pelo menos, ter visto os jogos, senão é como a anedota do gajo que censura Deus porque não lhe sai a lotaria, ao que Deus responde, aparecendo-lhe num estádio de futebol com a cara do zidane «mas faz ao menos uma cautela, pá»…

Mas sejamos, então rigorosos: a melhor equipa que vi jogar – se é que isto se pode dizer – talvez tenha sido o Brasil do Mundial de Espanha, com Zico, Sócrates, Júnior, Éder, Falcão, Leandro… Perdeu nos quartos de final com a Itália de Rossi, boa, mas muito inferior. De quem é que nos lembramos? Da Itália? Não. Do Brasil.
No mesmo mundial – o melhor de todos os que vi – a França de Platini, Giresse, Tigana e Battiston foi eliminada nas meias pela Alemanha de Stielicke com uma patada de Schumacher em Batistton (perna partida) decisiva no resultado final. Garanto-vos que preferia os passes do Platini às patadas do schumacher. Mas os alemães venceram.
No mundial de 74 a melhor equipa – isto é, a que praticava o futebol-arte de que eu gosto - era a Laranja Mecânica de Cruijjf, Rep, Neeskens e Kroll. Mas perdeu a final com a Alemanha, também uma excelente equipa, mas não tão boa.
No Mundial da argentina a Holanda de Haan, dos irmãos Kerkof, de Neeskens e Rensenbrink perdeu a final com uma argentina que comprou o Peru.
E, diz a história já oficial, que uma das melhores equipas que já pisou o planeta, a Hungria de Puskas e Czybor, perdeu com um grupo de caceteiros alemães a final do mundial de cinquenta e qualquer coisa. Aos 10 minutos o Puskas já estava lesionado…
Podia multiplicar os exemplos de grandes equipas que perderam com equipas inferiores – o Barcelona de Cruijjf treinador, de Romário e de Stoichkov perdeu 4-0 (quatro) com o Milão de Capello guiado por um Massaro que não tinha lugar na equipa B do Barça.
O fantástico Barça de Figo, Ronaldo, Cocu e Luís Henrique, perdeu o campeonato para o Atlético Madrid de um tal Panic, quem sabe a que é que o homem se dedica agora… E quem não se lembra da Dinamarca de Elkajer Larsen e Marten Olsen que levou 4 da quinta del buitre, mesmo sendo a melhor equipa? E o Dínamo de kiev de Yaramthchuk, de Belanov, de Dassaev, de Rats, de Demianenko que só ganhou uma taça das taças frente a um modesto Atlético de Madrid? Quem não se lembra que este mesmo Dínamo, anos mais tarde e já com alguns destes jogadores na sua fase final mas ainda excelentes, perde a meia final da taça dos campeões para um porto inferior que deixa no banco Madjer (o génio só joga a final com o bayern porque Gomes se lesiona entretanto)? Como esquecer a União Soviética de Blokine que também morreu no mundial aos pés de uma Bélgica menor? E as grandes equipas da Jugoslávia de Stoykovic que nunca ganharam nada? Ou, mais recentemente, a Espanha do último mundial, ou mesmo Portugal, eliminados pela modesta Coreia do sul?

PERDER E GANHAR
Quando o Zico e o Sócrates e o Falcão perderam aquele mundial, a compra e a circulação de mega cracks disparou em flecha e o futebol atingiu o estatuto de manicómio económico. Essa equipa contribuiu, como nenhuma outra para a explosão da paixão-futebol e para a nova era do futebol-business. A procura e o interesse dispararam em flecha em todo o mundo e praticamente todos os cracks brasileiros acabaram a jogar em Itália.
Ao contrário da ideia que geralmente passa na populaça, no futebol, o mais importante não é ganhar. É no imediato, no queimar das paixões volúveis. Mas as equipas que fazem com que o futebol seja o melhor jogo da história, que lhe dão uma durabilidade de mais de um século, que nos ficam na cabeça como ficam os saltos macacos do Mick Jagger quando tinha menos vinte anos, essas foram muitas das que citei: o Brasil do mundial de Espanha e não o do Mundial dos states; a laranja mecânica e não a Alemanha dos foerster e stielikes; a França de platini e não a Bélgica de pfaff; a argentina de maradona (aliás a equipa era só maradona, o melhor futebolista que já vi) e não a Alemanha de briguel; a Itália do mundial da argentina e não essa mesma argentina; o Barcelona de romário e não o milan de massaro; os Camarões de Milla e não a Inglaterra de Hateley; e, enfim, last but least, o Real Madrid dos galácticos e não o Mónaco honesto dos giulys e o fcporto foleiro dos costinhas e maniques…
E eu aposto que, daqui a uns anos, quando se falar na presente edição da Champions League (que já perdeu toda a piadinha sem as melhores equipas), vamo-nos todos lembrar não de uma banal final entre duas equipas medianas, mas do jogo dos quartos de final em que os galácticos do Real Madrid se deixaram perder com uma equipa voluntariosa de quem não recordamos o nome de mais do que um jogador.

PS – por acaso, quem pôde ver o atlético – real do último sábado, lá teve que gramar com mais uma lição de carácter daquele grupo de «estrelas de cinema». Viraram o jogo só com dez, pormenorzito de chacha…. O Figo esteve nos dois golos, levou a equipa literalmente às costas com arrancadas coast to coast, levou porrada e, como sempre, não se acobardou. Mas parece que «toda a gente sabe» que ele tá velho e que já foi declarado incapaz para a prática do futebol por quem percebe verdadeiramente da modalidade. No próximo jogo só não fica no banco porque o Queirós é português e nacionalista ferrenho.

16/04/04

Opus Pistorum Pornográfico? Avalie você mesmo

Andam por aí a afirmar que o «Opus Pistorum» do Henry Miller é literatura. E com L grande. Outros haverá que acham que é pornografia. Com p pequenino, eventualmente. Ora, a malta aqui no Tapor acha que deve ser cada um a avaliar por si. Seleccionámos pois um excertozito do dito livro, um soft, sem anões, cães, bacanais, crianças, mijadelas, cenas com mãe e filha, etc. Deixamos essas cenas para os curiosos. São necessárias algumas cautelas, pois basta lembrar que já houve quem, aqui na confraria, tenha emprestado o livro a uma mãe de família! A senhora devolveu-o passados dois dias, dizendo que era um bocadito forte. A besta do confrade em causa, quando chamado a justificar tamanha audácia, limitou-se a responder:
- Eu avisei, ela é que pediu!
'Tá mal! Para um livro destes não bastam os avisos. Não se deve ligar às insitências e aos pedidos veementes. Nunca! Quem quiser que pegue nele e o leia por sua conta e risco. Por isso, escolhi uma cena soft. Se acha, caro leitor, que tem estômago para as partes hardcore, faça o seguinte:
1- Compre uns óculos escuros, cabeleira postiça, bigode postiço e gabardine comprida,
2- Mascare-se,
3- Dirija-se a um hipermercado às 8h00 da manhã e compre o livro. Misture-o no meio de 50 kg de batatas, tomates, cebolas, 3 pacotes de fraldas Dodot, guardanapos de papel, cleenex e o que mais lhe der jeito até encher o carrinho,
4- Pague em dinheiro e não olhe de frente para a moça da caixa,
5- Durante 15 dias não volte ao local,
6- Leia o livro em local ermo.
7- Guarde-o em local inacessível. Fora do alcance de tudo e de todos. De preferência destrua-o. Ou então, encape-o com um papel discreto.
Vamos ao excertozito:
«Entre as nádegas Snuggles é quase totalmente desprovida de cabelos. Tem o ânus róseo e apertado, o que o torna uma tentação irresistível. Percorro-o com um dedo e meto-lhe a ponta lá dentro. Snuggles meneia-se um pouco mais, mas parece não se importar. Finalmente meto o dedo todo, só para ver a sua reacção...e então não é que a putazita começa a mexer-se para trás e para a frente, empalando-se a si própria...
De súbito páro de lhe fazer minete e, em troca, começo a chupar-lhe o ânus. Não me perguntem porquê.... está ali e tem um aspecto que desperta desejos de o chupar... Lambo-o um pouco, beijo-o... e enfio a língua lá dentro.
Snuggles quase me arranca o caralho com a violência com que me chupa.
Não preciso que me diga que se está a vir... Eu sei-o... e eu também estou. Ponho-me em cima dela para a agarrar melhor, de modo que, mesmo que ela mude subitamente de ideias, não me deixa a golfar esporra sobre os lençóis e enfio-lhe tudo na boca, excepção feita aos tomates.
"Engole-me isso, minha puta doida!" grito-lhe, quando John T. [é assim que o narrador chama o seu membro] dispara. "Engole-me isso, ou juro por Deus que to faço marchar pela boca abaixo com uma mijadela!»
Fim de citação. Então? Que tal? Que acha: literatura com L grande ou porno com p pequeno? Comente, s.f.f.
PS- Ainda bem que aqui vigora o anonimato.
PS2- Se achou pesadote, por favor diga que a gente começa a escrever sobre S. Tomás de Aquino. Mas volte, não fique zangado(a) connosco.

15/04/04

A pornografia na História, por Zé Manel Piroca

A pornografia na História. Um pudibundo contributo (onde não se explica qual foi e como foi a melhor foda da história do cinema pornográfico): A arte de foder para entreter
A arte de foder para os outros verem é tão antiga, ou quase, como o homo sapiens. Ou seja, tão antiga como foder por prazer e quando apetece. E na medida em que as criaturas irracionais praticam cópula sem arte ou sentido lúdico. De facto, inúmeros indícios têm surgido, revelando o carácter lúbrico, por exemplo, das célebres vénus, estatuetas pré-históricas de gajas gordas com volumosas mamas e largas ancas. Para além do seu carácter proto-religioso e místico, símbolos de fecundidade primordial, as figuras seriam objectos eróticos, equiparados, noutra ordem de grandeza, aos fálicos menires, monumentais na sua erecta masculinidade. Não quer isto significar que os nossos antepassados se masturbassem à sombra do menir, mas não deixam de constituir representações de natureza sexual. Uns milhares de anos mais tarde, o surgimento da escrita (e estou a limitar a prosa ao mundo ocidental/europeu, porque o Oriente tem pano para muitas mangas, e alguém, outro, que se ofereça para contar a história condensada da pornografia japonesa ou indiana) proporcionou-nos, a nós contemporâneos, uma compreensão mais detalhada dos impulsos pornográficos da espécie ao longo dos tempos. Um dos primeiros e mais celebrados exemplos será O Banquete, do amigo Platão, ao tempo dos filósofos pedófilos, onde surge, pela voz do narrador Aristófanes, a complexa figura sexual do andrógeno, criatura de dois sexos e muita lubricidade. Isto num contexto histórico local de grande paneleiragem e devassidão, sobretudo nas escolas de filosofia. Em termos de representações pictóricas (pinturas ou gravuras, mas representações pictóricas é muito melhor), lembramo-nos, por exemplo, das luxuriosas representações orgíacas pintadas nas paredes romanas, tão a gosto e de moda ao tempo de cavalheiros recomendáveis como Nero ou Calígula.
Arriscaremos, no entanto, que o ofício de fornicar ou mostrar fornicação a fim de entreter/satisfazer terceiros só começou a arrepiar um caminho sério e coerente, no sentido da sua industrialização actual, após a longa noite de casta e evangélica repressão medieval da sexualidade. E arrancou logo no século XIV com um verdadeiro marco literário: O Decameron, do italiano Bocaccio, onde nobres e fidalgos dados à promiscuidade e à corneação expunham as suas peripécias sexuais. Esta obra, de resto, foi séculos mais tarde transposta para o cinema pelo não menos depravado, italiano e paneleiro Pier Paolo Pasolini, que realizou outras fitas também muito engraçadas.
Desde aí até à actual banalização hedonista dos costumes, e à completa desintelectualização (se esta palavra não existir avisem) e ausência de subtileza do erotismo foi um fartar vilanagem, particularmente a partir da abertura cultural providenciada pelos Descobrimentos e pela Renascença. Alguns casos cimeiros: os contos eróticos de Aretino ou os mediáticos Marques de Sade (séc. XVIII), na França, e Leopold Sacher-Masoch (séc. XIX), na Áustria, com o seu seminal e auto-biográfico Venus das Peles, onde se lançam as bases do sadomasoquismo moderno.
Um pouco mais tarde surge outra bíblia do erotismo literário, na Inglaterra: Fanny Hill, de John Cleland e já em finais do século XIX, Oscar Wilde apresenta o seu Retrato de Dorian Gray, que causou grande furor na moralidade vigente. Estas breves referências constituem passos firmes e hirtos em direcção ao processo de massificação da pornografia hoje em vigor. O cinema, a imagem em movimento, veio revolucionar também esta realidade, principalmente a partir da liberalização cultural, social e económica dos pós-guerra, nos anos 50 e 60 do século XX, começando a impor-se, designada e principalmente nos Estados Unidos, onde na literatura pontuavam gajos como o Henry Miller, e onde surgem maravilhas como as casas de strip-tease, as sex-shops, as revistas Playboy, Penthouse ou Hustler. Na Europa surgem fenómenos literários como as novelas do filósofo perverso George Battaille, e as suas histórias do olho (que curiosamente só viram a luz do dia porque o autor foi convencido a isso pelo psicanalista) ou as caralhadas poéticas de esgalhados como Mário Cesariny ou Luiz Pacheco.
Quanto à pornografia, pura e dura, sem alguém a pensar pelo meio, só a partir dos anos sessenta se pode começar a historiar. No contexto europeu, a partir de finais dessa década, é fundamental o papel dos países escandinavos no desenvolvimento desta indústria, onde pontuaram nomes como o realizador de origem italiana Lasse Braunto (pseudónimo de Albert Ferro), na Dinamarca, que aprofundou temas como a vida sexual dos Vikings e a penetração anal («Deep Arse»), ou um ex-vendedor de carros, Berth Milton, na Suécia, que em 1965 lançou a «Private Magazine», a primeira revista do mundo que publicou, legalmente, uma penetração explicita. Depois a rapaziada não precisa de desenhos, e conhece bem a carreira de mulheres como Traci Lords, que ainda antes de fazer 18 anos já cobrava um milhão por fita, produzia, escrevia e financiava os seus projectos ou, na Europa, Cicciolina que popularizoo fungagá da bicharada. Os filmes caseiros, a indústria e as produções manhosas mas arrojadas, a revolução do vídeo, a internet, o cabo e o satélite, a tecnologia de pirataria, conferiram outra dimensão ao universo da pornografia e hoje O Banquete é uma história da carochinha. Mas o menir continua a ser um calhau em forma de caralho.

13/04/04

Sável, burros, patos, Figo e algo mais

Aqui há uns dias fomos jantar ao «Pátio», no lugar do Cabouco, concelho da Mealhada. O sável com peixinhos da horta estava bom. Vinagre no ponto de desfazer a espinha, bem frito. Comemos ainda raia frita e grelhada, cabrito assado no forno e uns bifes de vaca. Tudo bem regado. Embora não sendo uma prova oficial, concordámos que o melhor vinho foi um Quinta da Dôna 2002. Um excelente Bairrada que não parece Bairrada. Ainda mais este, que eu levei e ao qual o Valdemar da «Dom Vinho» acrescentou um «CC». Explicou que a coisa era oficiosa e servia para identificar um lote que foi submetido a um tratamento especial pelo novo proprietário da marca cujo nome, Carlos Campolargo ou coisa que o valha, ele abreviou no monograma. Recomenda-se o restaurante, o vinho e a loja de vinhos.
Serviu o jantar para que a malta do Benfica - Mangas, JP e Nini - saldasse a dívida contraída à malta portista - Grunfo e eu - e ao Pilas, um academista sem outra preferência mas que não é burro. Estávamos todos felizes e uma das razões era justamente o facto de não haver burros. Mas havia patos. Refiro-me aos confrades que apostaram que o Benfica passaria a eliminatória do Inter de Milão. Foderam-se, claro. Perderam a aposta e pagaram o jantar e, ainda por cima, voltaram a apostar para o final da Taça de Portugal. Lá terá que ser....
Um dos temas discutidos foi o futebol. E aqui, temos que falar do Vaice. O Vaice não é burro. É até brilhante em muitas matérias: filosofia, arte, música, vinho, cinema, literatura. O Vaice fala sobre tudo com cabimento e sabedoria. Quando não sabe ouve. É um regalo lê-lo, ouvi-lo, falar com ele. O Vaice é culto, inteligente, bom conversador, fala bem, escreve bem, enfim, está acima da média. E é excatamente isso que torna as coisas surpreendentes e enigmáticas. Deve ser um sindroma ou qualquer coisa esquisita. Um fenómeno, um enigma, algo de absolutamente intrigante e inexplicável. Eu já pensei se o gajo não terá dado uma queda quando era pequeno. Sei lá, a mãe distraiu-se, o Vaice escorregou da banheira e acertou com a secção inferior do parietal direito na borda da sanita, ficando irremediavelmente afectada a zona cerebral que controla os assuntos futebolísticos. Ou isso ou um mosquito, ou qualquer coisa que comeu. Não sei o quê, mas alguma coisa o gajo tem. Se eu fosse médico de família fazia-lhe um TAC. O caso é o seguinte: como é que um gajo inteligente como o Vaice pode ser tão idiota no que toca às coisas do futebol. É que o gajo não vê um boi de bola. Nada, zero, rien. E o pior é que está convencido que sabe muito. Isto torna-se desesperante. A amizade que nutrimos por ele impede-nos de, simplesmente, o ignorar. Por outro lado, os atributos que lhe reconhecemos não nos consentem que o deixemos sem resposta. Caímos então na pior das experiências: discutir futebol com ele. É que não dá. É como discutir o Orçamento Geral do Estado com a irmã Lúcia, explicar os Direitos Humanos ao Pol Pot ou levar o Santana Lopes a sério.
O Vaice acha que o actual Real Madrid é a melhor equipa de futebol que ele alguma vez viu e que o Figo está a fazer a melhor época de sempre. O leitor estava à espera de um exemplo, não estava? Ora aí está ele. Agora já acredita? Pois é verdade, foi o Vaice que afirmou isto. Nós ouvimos e não resistimos. Eu discordei e o Vaice mandou-me calar com o poderoso argumento:
- Tu 'tá mas é calado porque tu não vês os jogos, tu não tens Sporttv e não podes falar.
Posso não ter Sporttv mas isso não me retira autoridade para comentar o que se passa no Real Madrid. E o que se passa é o que toda a gente pode ver, desde que queira ver: o Real Madrid não é uma equipa de futebol, é antes um conjunto de superstars galácticas, mimadas e com dinheiro a mais. A «Marca», que não a Sporttv, escrevia que no dia em que foram derrotados pelo Mónaco e afastados da Champions League, as estrelas do Real partiram de avião privado para destinos exóticos. Outros, incluindo Figo, ficaram em Monte Carlo por certo a afogar a tristeza da eliminação em taças de champanhe, caviar, roleta e iates. Alguns dias após, levam três secos do Osasuna no Santiago Bernabéu. Eu não vejo a Sporttv, mas vi os resumos e li os jornais: Casillas frangou, Ronaldo, felizmente para ele, lesionou-se sozinho, Raul não jogou um caralho, Figo andou aos papéis e, coisa rara, teve um comportamento incorrecto, e Beckham não jogou um caralho. Aliás, o que por estes dias se discute são as amantes de Beckham. Se é uma, se são duas, se são mais, se a Posh sabe ou se não sabe e até o pai de uma das pretensas amantes veio falar ao Mundo. E vieram os advogados anunciar que vão processar os jornais. É curioso esta merda: por mais voltas que isto dê vai sempre ter aos advogados. Toda a gente se fode, o Beckham, a mulher encornada, as amantes, o pai da amante, os tablóides, o Real Madrid, o Queiroz, tudo! Tudo menos os advogados, claro. Esses facturam!
Voltando à vaca fria para dizer que a situação vivida no Real Madrid mostra bem que o Real não é uma equipa. Pode o Vaice dizer que o Real é a melhor equipa que já viu. Vale-nos de pouco isso, e, de tamanho disparate, só se pode retirar uma de duas: ou viu pouco, ou gosta simplesmente do que vê, seja bom ou seja mau, gosta sempre. Eu por mim fico imensamente satisfeito pelo colapso do Real. Nada me move contra o Real, apenas que o colapso prova que uma equipa não se faz coleccionando superstars. Se assim fosse, fazia-se um campeonato com o Abramovich, o Florentino e os outros capitalistas dos grandes clubes, sentavam-se todos à roda de uma mesa e via-se quem passava o cheque com mais zeros. Tal significaria a aquisição dos melhores jogadores e, automaticamente, a conquista dos títulos. Felizmente não é assim, e é por isso que o futebol é um jogo bonito. Nas meias-finais da Champions temos três equipas modestas, de bairro: os parolos do cabo da morte da Coruña, até há poucos anos desconhecidos e desprezados na Europa e sobretudo na própria Espanha, os do Mónaco e os do Porto. Não há cá Milan, nem Real, nem Arsenal, Marselha, Juventus, Bayern, Manchester, etc. É por isso que eu gosto muito de futebol. E não me venham dizer que esta é uma das melhores épocas de sempre do Figo. Não é, claro que não é. E não é só porque agora foram afastados de todas as competições. Já não era antes. Os adeptos e a imprensa, há já muito que, respeitando embora o Figo e tendo-o em altíssima consideração, faziam notar o seu cansaço, apatia, desinteresse, saturação. Coisa própria de quem já atingiu o cume, não tem mais motivação e espera apenas o momento para sair. Só não percebeu isto quem se agarra à Sporttv e aos comentários dos analistas lusos. Quem percebe de futebol já notara que os anos de ouro do Figo foram em Barcelona e quem, para além de perceber, gosta de futebol, acha bem que o futebol seja um jogo. Pois se o não fosse, seria necessária a intervenção divina para que o David fodesse o Golias. Como é um jogo, substitui-se a intervenção da Divina Providência pela casualidade e, principalmente, acredita-se na vitória dos pequenos pelo uso da determinação contra o ócio e apatia dos poderosos. Um Benfiquista jamais entenderá isto, pois a mentalidade benfiquista é hegemónica e totalitária. Em tese, consumar-se-á plenamente no dia em que não tiver oposição. Tal se supõe na estratégia galáctica do Real Madrid também: dominar imperialmente sobre tudo e sobre todos. Ser do Porto, rejubilar com o colapso do Real, não idolatrar nem Figos nem Beckhams são diferentes facetas daqueles que se realizam não na hegemonia mas na negação da tirania do domínio absoluto.

07/04/04

O desporto mais popular do mundo, por Gabriel

Ontem fui à bola. Há quem diga que o futebol é o desporto do povo, mas não é nada. O ténis, sim, que só pago 75 cêntimos para alugar o campo da AAC. O golf, sim, também é popular – afinal o green da Curia de 9 buracos só custa 17 euros durante a semana. Agora a bola!... Pó caralho…

Ontem fui ver o Beira Mar – AAC e paguei 20 – euros-20 por um bilhete!!! Dava uma ida ao Tromba Rija. Eu pergunto-me a mim mesmo como é que é possível que existam países como a Espanha e a Inglaterra em que se vêem famílias inteiras nos estádios. São todos ricos?

Um bilhete para o Real Madrid- Valladolid, aqui há uns tempos atrás, custava-me 15 euros se não fosse na candonga. O de Aveiro custou-me 20. No primeiro vi o Zidane, o Beckham, o Figo, o Ronaldo e toda a constelação galática. No segundo vi o Tonel, o Marinescu, o Joeano, o Levato e o Marcelinho. Praticamente o mesmo, só por mais 5 euros…

No meio da bicha para os bilhetes estava uma família que recuou a tempo. «Pensam que somos idiotas?» – disse o chefe de família. E voltou para trás para tristeza dos putos.
Já um outro, um pragmático que devia estar a remoer o balúrdio que tinha pago por dois bilhetes, esperou pacientemente pelo desabafo da patroa. E quando esta ousou declarar que «isto é uma roubalheira», o homem levantou a voz e disse: «ai é? Achas caro? Toma lá as chaves e vais pró carro que eu vou vender o teu bilhete». E foi.
No fim do jogo os carros estacionados estavam cheios de patroas que acharam os bilhetes «uma roubalheira». Ah, é verdade, o resultado do jogo foi zero a zero.

01/04/04

LINDA BOREMAN, por MenteContusa

Acedendo ao pedido das várias familias – gótika, semiótika e palavrótika – aqui vai um ensaiozinho porno duro. Às Almas perdidas que por aqui erram, fica o aviso: “perdei toda a esperança, vós que entrais, que para lá destas portas é só perdição e maldição. Arredai e vão ler o Pipi!”.
Não é fácil porno-ensaiar, que a matéria é extensa e difícil de pegar. Como que pegajosa, mas enfim, o serviço é porco, mas alguém tem que o fazer. Dada a extensão da matéria, alguns posts futuros se seguirão concerteza, pelo que seria de uma extrema deselegância desrespeitar a história e os mitos. Assim, este post vai-se debruçar para já sobre a antiguidade clássica.
Ora meter as mãos no porco, digo, no porno, implica começar pela primeira Super Star da história da coisa: A Linda Boreman. Pois já sabia, ninguém conhece! E que tal Linda Lovelace ou Garganta Funda. Pois, já vi que arregalaram os olhos. A linda também. Arregalava tudo. Esta cachopa foi uma pedrada no charco do porno. Um poço sem fundo. O argumento do Deep Throat é uma idiotice completa – dizer isto do porno é uma La Palissada, mas este era especialmente idiota – uma vez que assentava no facto de a estrela não poder gozar normalmente porque tinha o clítoris (o único órgão do corpo humano exclusivamente dedicado ao prazer) no fundo da garganta, daí que tinha de engolir a coisa toda até ao fundo para poder gozar. E a boa da Linda engolia tudo, até o John Holmes e até ao fim. Hoje a habilidade é comum e muitas o fazem, mas naquele tempo era uma lança em áfrica, isto é, uma lança no estômago.
O mais engraçado é que a lindinha até nem fez muito pela vida. Filmou apenas cinco horas de porno, mas dessas cinco, uma era de Deep Throat e esse filme fez dela uma Super Star, a primeira do cine porno, e conseguiu colocar toda a gente, mas literalmente toda a gente a ir ao cinema. Às escondidas, mas iam. Em 1972, ano da estreia, 10.000 milhões de americanos viram o filme. Por cá em 1974, o MFA interrompeu plenários para ir ver uma sessãozinha. Frank Sinatra diz que aprendeu muito e até um Vice Presidente americano confessou que o viu. O Clinton não viu de certeza ou não andava a estragar charutos. O filme foi um fenómeno completo. São 64 minutos, sim 64 e não 69, filmados em seis dias em New York e Miami, com um custo de 23.000 dólares. Rendeu 600 milhões de dólares. Sensivelmente o mesmo em Euros. Para quem não sabe fazer contas e a ver se alguém se entusiasma, qualquer coisa como 120 milhões de contos. Para um custo de 4.000 contos, não está mal. A esforçada da Lovelace é que não viu muito disto, até porque os financiadores era pessoal da Máfia Nova Iorquina. Em 1973, um Juíz de Nova Iorque, Joel Tyler sentenciou o filme como “obsceno” – observador o rapaz - e declarou que “aquela era uma garganta que merecia ser cortada” (um porco imundo este juíz) e multou os exibidores em 3.000 milhões de dólares. Mais rendeu a coisa. Nada como o perfume do escândalo e da proibição para a coisa render. Nisso os americanos nunca aprendem.
Mas em 1980, a Lindinha autobiografou-se e veio rejeitar o filme e renegar a coisa. Diz que aquilo que víamos era uma violação. Se era, estava muito bem feita. Disse que só fez o filme e os outros seguintes, obrigada pelo chulo do marido. Não esclareceu sobre os softs a seguir nem sobre os stags anteriores (bicharada, e fiquemos por aqui).
E a Deep Blue tornou-se então porta-voz do lobby americano anti-pornografia, o terceiro mais poderoso depois da National Riffle Association e dos produtores de Leite da American Milf, digo, American Milk. O arrependimento da Lovelace fez surgir o novel “The Lovelace Syndrom”, doença que depois também atacou com força a Samantha Fox.
Foxe como fosse, certo é que a Linda lhe deu com força, arrependida ou não. Em 2002, bored with all the shit, a Boreman espatifou-se de carro. Foi-se.
Deus lhe dê descanso, a ela e às amígdalas dela, que bem precisam.