31/05/04

A Minha Caravela, por Tinónela

E agora vou contar uma história mesmo infantil. Começa assim: Era uma vez era eu pequenino e desenhava caravelas. Tinham por baixo um mar ligeiramente encapelado, por cima gaivotas, facílimas, as gaivotas, com dois riscos curvos se faz uma gaivota canónica, e tinha o barco propriamente dito: um casco em forma de tetraedro (um gajo descobre mais tarde estas coisas horríveis); depois os mastros, três, um maior no meio e os outros em alinhamento mais ou menos perfeito (depois fui ficando intelectual e pus os três mastros cada um com o seu tamanho) e as velas, em forma de mais ou menos. Ah, e tinha mais dois pequeninos mastros, cada um com sua velinha, um à popa e outro à proa. Não sei agora onde fica uma e outra, mas estou certo do que digo. Nunca me arrisquei a desenhar os marinheiros. Iriam sair-me concerteza uns pauzinhos ridículos espetados uns nos outros e eu cá tinha o meu orgulho. Então digamos que estavam os marinheiros todos no porão a fazer qualquer coisa. Em reunião ou a comer, talvez. De qualquer forma o mar estava calmo e eu tinha o cuidado de não desenhar barcos piratas em redor e por isso não era preciso ninguém no convés. Bom, mas o que interessa é que nada do que fiz depois teve tanto êxito como estes barquitos. Ainda hoje é um mistério para mim. Não me lembro já bem, mas imagino que a sequência tenha sido esta: a professora mandou os miúdos fazer um desenho (“façam barcos, meninos, e deixem-me agora descansar um bocadinho que estou com dor de cabeça”) e saiu-me esse. E viu a professora que era bom, gostou e mostrou aos outros meninos. Eu acho que os outros meninos só sabiam fazer aqueles barquitos que também servem de chapéu. Vocês sabem. Bom, do que me recordo é que num certo período da minha vida todos os meninos me pediam para lhes fazer caravelas iguais nos seus caderninhos. E eu, parvo, quando as meninas me pediam a coisa, mal olhava para elas e limitava-me a fazer o que me pediam. É que toda a gente sabe que quando as meninas nos pedem para lhes fazermos barquitos, estão a pedir beijinhos na bochecha. Eu lá punha a língua de fora (é o que os putos fazem, lembro-me lá eu), apertava com força a caneta de feltro e desenhava as caravelas. O seguinte tinha sempre mais cor e mais pormenores que o anterior. Começou por ser só uma vela por cada mastro, depois duas, três, quatro, por aí fora, e punha bandeirinhas em cima dos mastros e postos de vigia e arriscava um homenzito no posto de vigia, de telescópio (eu explico: um bracito curvo a agarrar num pau espetado na cabeça) e janelinhas redondas, muitas, e lá saia uma caravela digna de descobrir o caminho marítimo para as nossas fantasias. E assim durou ainda algum tempo a minha glória. Que o meu desenho era também muito aplaudido na Sociedade, se era, que eu bem ouvia os ooohs espantados das vizinhas. Acho que a minha Mãe as convidava para beber chá só para lhes mostrar o desenho das minhas caravelas, benzadeus. Ainda agora fico espantado quando olho para aqueles barquitos (ainda tenho uma pequena esquadra deles em caderninhos e papelitos avulsos). Mas agora já não faço caravelas. A modos que numa altura da vida surge a maré baixa e um gajo vai encalhando em terra. De vez em quando surge uma onda maior sei lá de onde, um gajo balança e desatina um bocadinho e põe-se a escrever histórias trágico-cómicas sobre viagens passadas em caravelas de papel. Mas é tal o lastro de metáforas e outras figuras de estilo com que enchemos as caravelas que não desencalhamos. E quando um gajo descobre que aquela caravela é afinal um tetraedro, então, é como se lançasse uma âncora. Bom, mas um dia conto de uma história de ficção científica que fiz em papel de linhas com o glorioso título “A Invasão dos Marcianos” e de um projecto fantástico de uma máquina de tradução automática que incluía o chinês para português e volta. Pronto, é isto. Fim.

O caso da moral da porca, por El Perro

O meu vizinho tem uma porca que escapou à morte por causa do cio. Foi ele, não ela, quem mo disse. E eu acreditei e acredito. Acredito mas penso. Várias coisas.
Penso que, afinal, o sexo não é a porcaria que dizem. Pelo menos a partir de sábado passado, dia de matança que não foi de matança.
Reparei há muito no facto português de as quatro letras da palavra “amor” serem as quatro primeiras, também, de “a morte”. Mas isso é ortografia nacional. Este caso da porca ciosa (que se chama Ruça mas é branca e rósea como uma solteirona involuntária) levou-me para outros aléns pensativos. Mesmo. Muito.
Perguntei ao meu vizinho como é que ele sabia. Que ela, enfim, estava “saída”. Ele respondeu: “Anda distraída. E despreza o comer.” Fiquei maravilhado. O povo é deveras o maior sábio. Porque eu quis ver a Ruça. E vi: estava distraída. No olhar, aquela ausência mística de actriz de telenovela. No grunhir, aquela surdina que nasce das trompas do sul do corpo. No mexer, aquela preguiça enérgica de quem iria mas não vai porque só ia se fosse. Na hora, aquele instante de quem, estando ali, estava acolá, perfumando de alma uma essência de corpo, tendo “corpo”, por outra ordem, as mesmas letras de “porco”.
A Ruça não foi abatida no sábado passado. E não o será enquanto estiver como está. O que é bom para os porcos, penso ainda, também há-de ser bom para as pessoas. Sobretudo a moral. Que é esta: se sentirmos a morte por perto, o melhor é comer pouco. Comer pouco e distrairmo-nos muito. O mais possível.

30/05/04

A Mercearia Portugal, por Durex

A vitória do porto na liga dos campeões, deu jeito aos laranjas do governo, para abafar alguns verdadeiros escândalos surgidos na última semana. Entre outros, pense-se na criativa remuneração do novo director geral do fisco nomeado pelo governo. A lei obriga a que os salários destes indivíduos não ultrapassem os 5 mil euros (à volta disto, não sei o número exacto). E o governo vai contratar o tal gajo por 23.000 euros, sendo que os 17 000 euros que sobram são pagos pelo banco Millenium!!!! O novo director geral continua com um vínculo ao banco, que se manifesta muito generoso com ele.

Para mim a situação é claramente insustentável: a nomeação deve cessar imediatamente porque viola a lei ou, pelo menos, manifesta uma interpretação bizarra da mesma. A manter-se configura uma situação de incompatibilidade de interesses: o director geral das finanças – ou um ministro ou um primeiro-ministro - obviamente, não pode acumular a função que detém com a ligação a uma empresa privada que lhe paga – vá-se lá saber porquê – um salário mensal de 17.000 euros.

Isto representa o fim do contrato social, da ideia de estado-nação. É já a ideia do estado-empresa que aqui vemos. Os critério meramente económicos – «o gajo é bom e para o termos nas Finanças temos que lhe pagar bem» - não podem sobrepor-se aos fundamentos éticos do estado, que deve ser imparcial e independente. Até porque se o que vale é apenas a economia, então, nós consumidores, deveríamos ter o mesmo direito da sra ministra e dizer-lhe: «olhe, impostos por impostos, então deixo de descontar para o estado português e passo a descontar para Espanha, Suíça ou França, onde o meu dinheiro rende mais». A empresa Portugal que se desunhasse para concorrer no mercado livre com a empresa Alemanha ou França ou Espanha. Era lindo, não era?

28/05/04

ABENÇOADA TECNOLOGIA!, por Porco&Mundo

Está prestes a ser inaugurado nesta augusta cidade de Coimbra o novo Parque Ribeirinho, construído no âmbito do Programa Polis. Relvados a morrer no rio, passadiços de passeio sobre as águas e uma zona de lazer com bares e esplanadas. Uma espécie de novas Docas de Lisboa. Uma coisa jeitosa, catita, dedo de arquitecto e patoila de designer paisagista, só estragada por um Urso Relvado tamanho gigante, que teima em matar o próprio pêlo relvado e em rebentar com as finanças da secção de jardinage da Câmara.
Ao longe, a coisa parece apelativa e convidativa, até porque se situa rés vés com o nível da água da toalha liquida proporcionada pelo Açude do Mondego.
Contudo, vendo a obra ao longe, uma coisa sempre me intrigou. É que os bares, as esplanadas e demais passadiços de madeira, estão todos muito baixos. Aquilo é leito de cheia do Mondego. E não falo das cheias maradas de 20 em 20 anos. Nope, ainda há dois anos, aquele nível das madeiras tratadas e dos balcões do bares, esteve com mais de um metro de água em cima, que quase galgou a Avenida da Lousã.
Estanhei, e pensei que os sábios de serviço devem ter arranjado algum sistema modernaço, de comportas, de básculas ou até de construção em módulos, simples e fácil de desmontar de uma semana para a outra. Eu sei que a coisa parece abstrusa, mas que diabo, as novas tecnologias nunca param de nos espantar. Tudo é possível, hoje em dia!
Ontem vi a luz. Chegou-me um cliente ao escritório, de Viseu, indicado por outro cliente, e logo foi dizendo que estava a equacionar a candidatura à exploração de um bar do novo parque e que não conhecendo a zona, nem Coimbra, tinha dúvidas sobre algumas das cláusulas que a Câmara propunha prá concessão.
E ali, preto no branco, lá vinha escarrapachada a alta tecnologia aplicada na obra. Entre muito paleio jurídico lá vinha então, que a Câmara declinava qualquer responsabilidade por situações de elevação súbita do nível médio do rio, qualquer que fosse a sua origem ou data de ocorrência sendo da inteira responsabilidade do concessionário a previsão da situação anómala e a superação das suas consequências. Lindo e Belo! Tal comá Tecnologia de Ponta, também a Advocacia de Ponta nunca cessa de me espantar!
Lá expliquei ao homem, que aquilo era a cheia, e que a cheia de 2 em 2 anos, dava-lhe ali forte e feio!

26/05/04

GORA EUSKALERRIA!!, por Butragueño.

O título deste texto é em basco. Não sei o que significa, mas deve ser algum grito de guerra fantástico. Retirei-o de um mail do nosso basco de estimação, o Mau, lui-mêmme.
Por mim, gostaria que ele significasse «obrigado» porque era esta a palavra que eu voltaria a dizer ao Alejandro, ao Gonçalo, ao Álvaro, ao Óscar e a toda a sua família. Não esquecendo o Arturo, claro. Como não sei como se diz «obrigado» em basco, que é uma língua muito, muito complicada, tive que remediar com Gora Euskalerria. Mas soa bem, de qualquer modo.

Este fim de semana, eu, o Mau, o Mangas, o Nestum, o Sábio e o Sarda fomos até Bilbau. Saímos na madrugada de sábado e regressámos na madrugada de Domingo. O Porco ainda mexe.

Bilbau era uma cidade soturna e industrial há uns anos atrás. Essa era, pelo menos, a minha memória da cidade, vista ao longe da auto-estrada para França. Entretanto a indústria pesada foi desmantelada compulsivamente. Hoje, Bilbau é uma cidade arejada, com montes verdes a encimá-la, um mar fantástico e uma zona ribeirinha onde dá gosto passear. É aqui que está o Gugenheim, um edifício (!?) onde não há duas linhas, duas curvas, dois sólidos iguais. O Gugenheim é uma espécie de enorme escultura expressionista, a teoria do caos materializada e, para levar a coerência a um ponto extremo, foi construído debaixo de uma ponte velha. O museu procura superar todas as barreiras, mistura e confunde tudo, deliberadamente: linhas rectas e circulares, horizontalidade e verticalidade, formas geométricas e orgânicas, opacidade e transparência, abstracção e figurativismo , interior e exterior, solidez e liquidez…

É certo que a colecção permanente de arte pop (Warholl, Oldenburg, Liechenstein, J. Dine, Rosenquist, Raushenberg…) é francamente excelente. Mas tudo parece estar ali para prestar homenagem ao próprio edifício, para torná-lo mais brilhante, ainda, do que já é. O Gugenheim deve ser um dos poucos museus do mundo que não precisa de nada lá dentro porque é em si mesmo uma obra de arte.

No domingo fomos à catedral: San Mamés, o estádio mais antigo de Espanha, da mais antiga equipa da Primeira Liga Espanhola, o Atlético de Bilbau. O Atlético apresentou a equipa B e perdeu por 4-3 com o Atlético de Madrid. Mas isso não importou nada aos 40 000 adeptos que encheram completamente a Catedral e que nunca se cansaram de apoiar o seu «Atlethi».

Vi o jogo perto de três veteranos – tios do Mau e do Óscar – que me iam passando um cantil de couro com um Rioja (tinto, claro) lá dentro. Mas aquilo não é fácil de se beber porque tem de se erguer o cantil de couro bem alto, acima da cabeça, e deixar escorrer um fio de vinho para a boca.
- Mas deixam entrar bebidas alcoólicas nos estádios espanhóis?, perguntei eu ao Mau, que estava enfiado num equipamento autografado pelo Etcheverria, o craque da equipa.
- Hombre!, exclamou ele escandalizado. São adeptos antigos, têm as suas regalias.
- E bem, pensei eu. E achei natural.

Mas Bilbau também é, ou é, fundamentalmente, a hospitalidade das pessoas, a sua euforia alegre, o seu bem estar visível, a sua generosidade. Alejandro, o reactor nuclear dos Prieto, Álvaro, um gentleman com um lado Easy Rider e Gonçalo, o benjamim da família, souberam ser Gugenheims. Contamos convosco em Portugal, para provarem, como prometemos, o melhor leitão do mundo. GORA EUSKALERRIA!!, seja lá o que isso for…

25/05/04

Viva o Olhanense, por Le Chien

Aguentei o que pude. Todos estes anos, aguentei o que pude e como pude. E agora não posso mais, por isso vou desabafar. Aqui vai: eu também gosto de futebol. Mais: e até pratiquei futebol, federado e tudo. Eu sei que é uma vergonha. Peço-vos perdão por todos estes anos de disfarce. Perdão por tantas e tão embrulhadas crónicas intelectualóides. Perdão por tanto umbigo. Perdão por tanta fractura exposta. Perdão por tantas e tão estapafúrdias historietas (d)existenciais. Perdão pelo que fiz com a língua. Era tudo a armar ao cuco literário.
Há, no entanto, um problema: um ex-futebólico não existe. Futebólico uma vez, futebólico para sempre. Nunca pode ser “ex” como um marido, um comunista, um travagante, um voto ou um libris. Ou como um alcoólico, verdade seja dita e à saúde.
De facto, O Processo de Kafka nunca me interessou tanto como o do Valentim Loureiro. E que valem os Cem Anos de Solidão ao pé dos cem anos da FIFA? A ligação aberta do Sartre com a Beauvoir teve muito menos piri-piri do que a das autarquias com os clubes.
Mas vós também deveríeis penitenciar-vos. Yes, vós. Eu sozinho porquê? Vós gostais do Santanaláxia Lopes por causa do Sporting Municipal de Lisboa. E do Benfica porque o Benfica livrou o Eusébio da guerra colonial em Moçambique. E do Belenenses por causa do Américo Thomaz, essa abóbora contumaz de nula memória que foi almirante num país naufragado. E admirais o Pinto da Costa porque nunca o apanharam, nem apanharão. Mas quem se lembra do Olhanense? Na época em que foi primodivisionária, a garbosa equipa algarvia deu 1-0 ao Sporting e foi empatar a duas bolas à Luz logo a seguir. Para minha vergonha, lembro-me eu do Olhanense. Ainda desabafo mais: tenho pena de não ter um filho macho. Se tivesse, inscrevê-lo-ia nas camadas jovens. Nem que fossem de caspa.
Bem tento não ser assim. Mas é que também eu estou entre os que aproveitam não ter TV por cabo em casa para irem ao café ver a bola. Abro um livro e finjo que não ligo. Mas ligo. Pelo periscópio periférico, gosto de ver o Saviola a liquefazer os rins ao Naybet com um tornozelo digital. Gosto da heteronímia babélica das equipas. Se me distraio, esqueço o livro e ponho-me a grunhir GOLO como os meus colegas de chávena e bancada. E já me aconteceu sorrir quando o Rui Jorge, que tem três pés esquerdos (cabeça incluída), consegue finalmente centrar uma de jeito para o Pauleta, esse grande açoriano que nunca jogou num dos três ditos grandes porque não é parvo. Mas não é isto o que aqui me traz hoje.
Vai começar o Euro. Quando o Euro acabar, o País vai ficar com um euro, se tanto. O resto foi derretido nos dez estádios novos. Leiria, por exemplo. Ainda há dois anos a cidade esteve dias a fio sem fio de água potável nas torneiras. Agora, empenhou na banca o futuro de vinte anos. Por causa da bola, claro. Por causa de dois jogos da bola. Quando os holofotes se desligarem, quero ver o saneamento, o ambiente, as estradas, as escolas. Quero ver o futuro dos miúdos que não foram seleccionados para os sub-9, ou sub-13, ou sub-21. Ou sub-10 milhões, que é o que somos todos: sub.
Ah, uma coisa: naquele ano, o Olhanense desceu de divisão. E nunca mais subiu.

22/05/04

Maldito Pioné, por Tinoné

Eu juro que o que vou contar é verdade. Não tenho provas, mas é verdade. Estava eu um dia na Biblioteca da Universidade a ler jornais antigos, que eu gosto de ler jornais velhos e leio-os de cabo a rabo, incluindo os anúncios e a necrologia, e descubro uma pequena nota num exemplar do Diário de Notícias de 192equalquercoisa que dizia mais ou menos assim: “chegou ontem de Newcastle, no paquete tantos, o senhor engenheiro naval Álvaro de Campos, a fim de passar uma temporada em Lisboa. Ao ilustre engenheiro os nossos votos de uma boa estadia”. Fiquei siderado! Mas será mesmo o Alvaro de Campos, o tal, o heterónimo, engenheiro naval e tudo, que vivia em Newcastle, de acordo com a sua biografia oficial? Só pode! Ora uma destas, pensei eu. O Pessoa está a gozar com o pagode. Foi decilitrar ao Abel Pereira da Fonseca com um redactorzeco qualquer do DN e convenceu-o a meter o anúncio por galhofa. Foi de certeza isto. Fiquei a sentir-me como se tivesse descoberto o túmulo do Tutankhamon. Será que já alguém tinha descoberto isto? Para confirmar, que fiz eu? Descobri o telefone da Professora Teresa Rita Lopes, especialista no poeta, e liguei-lhe, meio a tremer. Senhora professora, eu peço desculpa de a incomodar, a senhora não me conhece e tal, mas eu só lhe queria dizer que descobri isto e isto. E a senhora ficou espantada! Ficou mesmo! Disse-me assim, a ver se me lembro: mas isso é espantoso. Lá me pediu as referências do jornal, apontou, agradeceu muito e ainda disse que gostava de me conhecer. E eu que seria um prazer e tal, e lá foram passando os anos e nunca mais falei com a senhora. O pior é que entretanto perdi o papelito onde tinha apontado a data do jornal. Como ainda tinha uma ideia do ano, voltei à biblioteca, estive lá horas, acabei por descobrir outra vez o anúncio e voltei a apontar. Que isto são coisas com que se impressiona a malta! E não é que voltei a perder outra vez o apontamento? Dessa vez, foi assim: eu tenho um placard de cortiça em casa onde espeto papelitos com interesse. Lá afixei o meu tesouro e um dia, imagino eu, o pioné despegou-se, foi tudo ao chão, e varreu-se para o lixo. Mas eu juro que isto é tudo verdade!

21/05/04

TRATADO TAURINO, parte 2, por RicardoChibanga

“- Exmª Srª Procuradora tem V. Exª a palavra para Alegações – disse o Meritíssimo Juiz para a Digna Representante do Ministério Público.
- Exmº Sr. Dr. Juíz, em face do exercício do Direito ao Silêncio Absoluto por parte do Arguido e da contradição insanável entre as duas únicas testemunhas da Ofendida, ficamos com algumas dúvidas sobre o ocorrido, pelo que V. Exª fará a devida e habitual Justiça absolvendo o Arguido.
Miséria, pensei eu, Porca Miséria, quando a gaja do Mº Pº pede a absolvição deste gajo já estou perdido, que raio de merda, que estes dois vacões se tenham contradito desta maneira. Asnos do caralho, e que raio de pormenor para perder este processo, saber se a Ofendida trazia ou não, os sacos de compras na mão. E o sacana do velho ali está, todo impante, boca calada, nervoso graúdo, mas um ar de gozo filho da puta. Talvez te fodas, ó cabrão, pensei eu e olhei fixamente pró animal. A besta aguentou o olhar - sem qualquer ponta de remorso pelo biqueiro que dois anos antes, tinha pregado na minha cliente – e voltou a cruzar as pernas. Talvez te fodas...
- Tem o Sr. Dr. Ricardo a palavra para Alegações.
- Excelentíssimo Sr. Dr. Juíz, os meus respeitosos cumprimentos a V: Exª, extensíveis à Digníssima Srª Procuradora, ao meu Ilustre Colega e demais pessoas presentes, sendo que nestas Alegações serei muito curto e breve, cumprindo-me apenas chamar a atenção de V. Exª para a atitude do Arguido, que paralelamente ao pleno exercício do seu Direito ao Silêncio, ali permaneceu sempre naquele banco e neste Julgamento, como agora está e sempre esteve, de perna cruzada demonstrando um profundo desprezo por este Douto Tribunal...
O Arguido, remexe-se no banco e descruza de imediato as pernas, mas azar, de pernas paralelas não sabe o que há-de fazer às mãos e enfia uma no bolso,
- ...numa atitude de grande gozo que tudo isto lhe dá, a pontos de se permitir por inúmeras vezes enfiar as mãos nos bolsos, como o fez agora e de novo, como se estivesse em qualquer tasquelho de copos...
O Arguido retirou de imediato a mãozita do bolso, perdeu o ar de gozo e de olhar furibundo para o autor destas alegações, levanta-se e vocifera, berra mesmo: "Que não é assim, que nada fez..."
No que é interrompido, de imediato por este alegante, que virando-lhe as costas e virando-se para o Juíz, alega...
- Permita-me V. Exª Mº Juíz, que me sente e assim termine estas minhas alegações, uma vez que o Arguido me tomou a palavra e parece querer esclarecer este Tribunal. Muito obriga...
Não terminou a frase o ora alegante. O Arguido picado e picado a ferros, saltava de novo no banco como se sentado sobre brasas e, espumando raiva e suor, vociferou pró Juiz a inocência que não tinha...
- Ó Xotôr Juíz, eu não fiz nada e não sou nada como diz ali aquele advogado...
- Ó Sr. Simões acalme-se lá, que o Sr. aqui não levanta a voz, para quem esteve calado todo o julgamento já está a falar demais, é que o Sr. não pode interromper nem responder às Alegações do Sr. Dr, mas se quer falar sobre os factos e o que se passou fale...
E o animal do Sr. Simões rubro de calor e desespero, nem ligou à gesticulação desesperada do seu advogado de defesa, e contente por lhe ser dada a palavra desatou a falar. A falar e a confessar que de facto deu um pontapé na Srª mas que não foi como ela disse, nem lhe doeu nada, nem lhe ficou marca e os outros são uns mentirosos que nada se passou assim, etc e tal, numa confissão clara e sincera, provando mais uma vez que não há touros mansos e que qualquer um marra e investe desde que devidamente lidado.

20/05/04

O QUE É TOUREAR? de Victor Cunha Rego, por RangingBull

“Corrida de Touro”, 22-04-1961, no jornal “O Estado de São Paulo”, Brasil

O que é tourear?
Na modorra do meio da tarde, numa fazenda do interior, um amigo desperta de sua vaga sonolência e pergunta-me o que significa tourear. Sei que a pergunta implica um desafio porque para ele uma corrida de touros se resume à morte de quem não devia morrer e à luta desigual de um homem devidamente preparado contra um animal indefeso.
Meu primeiro impulso é de desânimo: há coisas que não se pode e nem devem explicar a quem não compreende logo de entrada. Uma corrida de touro não se explica, sentimo-la ou não. Explicá-la é cometer uma heresia.
Além disso como será possível condensar numa frase, toda a psicologia do povo mais difícil do Ocidente, o povo espanhol? Como será possível explicar a necessidade que atrai o homem para a gratuidade da aventura? (...)
Ao procurar falar muito e claro, dei por mim balbuciando timidamente e perguntando a mim mesmo: O que é tourear?
O que é tourear?
Pepe Hillo escreveu, ou mandou que escrevessem, a primeira “Tauromaquia ou Arte de Tourear” em que expunha todos os seus pensamentos fundados na “sábia experiência que é a mãe legítima dos conhecimentos”. Um touro matou-o.
Joselito não escreveu nada mas toureava sem esquecer uma única das regras tauromáquicas: sabia não só o que ia fazer mas como iriam reagir os touros. Joselito teve como talvez nenhum outro toureiro a noção do seu terreno e a noção do terreno do inimigo. Um touro matou-o.
Pepe Hillo, o da sábia experiência, e Joselito “O Sábio”, que toureavam sem enganos, ambos mortos nas hastes de touros! E o Manolete, “O Monstro de Cordoba”, o sábio do post-guerra, não diziam que jamais morreria tal o seu conhecimento das regras e das reses?
E Juan Belmonte? Quando apareceu diziam os sevilhanos: “Você viu o Belmonte? Não? Pois apresse-se que, da forma como toureia, não vai viver muito”. Juan Belmonte ainda vive nos dias que correm.(...)
Mas o que é tourear?
O toureio tem a sua explicação matemática no movimento geométrico de uma linha vertical, que é o homem, e de uma linha horizontal, que é o touro. Enquanto a linha vertical usufrui da vantagem de girar sobre si mesma, sobre o mesmo ponto de apoio, a horizontal é obrigada a deslocar-se com maior ou menos amplidão. A possibilidade de tourear reside exatamente na forma como for aproveitando esse tempo que o touro leva a investir contra o homem, e depois, a voltar-se para carregar todo de novo. Todas as outras regras falharão se esta não for levada em conta.
(...) olhar para um touro e saber qual a sua bravura, qual o seu poder, qual a sua rapidez, para que lado investe melhor e como investe; depois saber o que fazer com ele. Muito simples. (...)
O que é tourear?
A lide de um touro começa no momento em que ele entra na arena; a sorte de matar principia no primeiro lanço de capote. Ver como um toureiro, que é um homem, se comporta em face destes dois postulados. Pode dar ao espectador momentos de altíssima alegria ou de raivoso desapontamento, mas nunca deixará de comovê-lo.
O toureiro a pisar uma praça de touros tem de dominar dois inimigos: o medo e o touro. O primeiro é bem mais importante que o segundo. (...)
Por que Bombila no ocaso de sua carreira nunca recusou o risco de competir com Joselito, jovem naquela época? Por que Guerrita nunca voltou a cara a Espartero ou a Reverte? Por que Manolete, naquela tarde em Liñares, foi morrer na cabeça de um touro? Não o havia avisado o seu peão de confiança que o inimigo investia mal daquele lado? E quem respondeu: “Yo lo sé, pero hay que matarlo”? (...)
Gregorio Corrochano, um dos mayores críticos de touros vivos, escreveu um livro admirável em cujo último capítulo se podem ler as seguintes palavras: “O que é tourear? Eu não sei. Acreditava que Joselito soubesse e vi como foi morto por um touro”.(...)
O que é tourear?

18/05/04

AS MÃOS, por CÃO

Contar e ouvir histórias não são actividades exclusivas da infância. Pertencem igualmente ao mundo do envelhecimento. Porquê? Porque as histórias, próprias e alheias, narradas e ouvidas, servem para melhorar a realidade. A realidade, sim. Porque a realidade nunca é bastante. Porque raramente é bonita, construtiva, adequada. E porque a realidade sai distorcida do velho conflito entre as mãos, que representam a prática, e o coração, que é a despensa sangrenta de tudo o que realmente vale a pena. Por tudo isto, trago hoje outra história.
Era uma vez uma pessoa que tudo deixava cair das mãos. Bebé, compreendia-se que tal lhe acontecesse. Veio a puberdade e, com ela, o ostracismo. “Ostracismo” quer dizer (mais ou menos) que tudo e todos ficam longe de nós, porque todos e tudo assim o querem. Todas as coisas vinham parar ao chão, segundos depois de tentar segurá-las nas mãos. Estas eram, ao menos na aparência, normais: dez dedos e dez unhas, mais as oito linhas que marcam o delta do destino. Garfos, jornais, jarras com suas flores, anéis até: tudo acabava no chão.
Já adulto, não segurava nem empregos nem amores. Das mãos lhe caiu a vida do pai e a de um irmão. E também a do cachorro amarelo, único dos seres que tinha podido conservar, pois, como é sabido, são os animais que nos possuem e seguram.
A história acaba assim: deixou de tentar agarrar com as mãos coisas e pessoas. Descobriu que a única forma de ter está no olhar. E que, vistas as coisas assim, a realidade não é tão má como parece. Sim, mesmo aquela que temos ao alcance das mãos.

17/05/04

Eterno Feminino, por Zebú Júnior

Leonardo da Vinci. A Virgem dos Rochedos. 1482-1486. Óleo sobre madeira. Louvre, Paris, França.

Há três posts atrás, mandei para aqui uma imagem do Marx Ernst (Virgem Açoitando o Menino Jesus) que me ocorreu a propósito de uma anterior do Balthus, lançada pelo verrinoso Zebú. O dito quadro do Marx Ernst ainda aqui está e quem ainda não o viu, é só retroceder uns posts mais abaixo.

Mas o que é interessante é que a arte parece ter vida. Como escreveu Umberto Eco, «uma vez criada, a obra (o texto) flutua num limbo de interpretações possíveis virtualmente infinitas». E assim é. Ando a ler o livro do Dan Brown, O Código Da Vinci e a partir das referências que dele retirei, o meu olhar do quadro do Ernst já não é o mesmo.

Dan Brown parte de uma tese facilmente documentável: de que o Cristianismo foi/é uma das religiões que mais contribuiu para o apagamento do Culto da Deusa. Os cultos pagãos da mulher, da feminilidade e da fertilidade são uma evidência em qualquer cultura e em qualquer época histórica. Mas poucas religiões contribuíram tanto como o cristianismo – não falo do islamismo, claro, que isso é um caso à parte – para a repressão deste culto. O número de mulheres que foram mortas em séculos de perseguição cristã, foi de 5 milhões, segundo Dan Brown. Feiticeiras, Wiccas, mulheres eruditas, tudo isso foi reprimido com grande ferocidade.

Da Vinci foi homossexual assumido, grão-mestre de uma organização muito pouco ortodoxa chamada Priorado do Sião e estava longe de ser um cristão convencional. Roubava cadáveres e dissecava-os, concebeu planos estranhíssimos de máquinas de guerra e de tortura e mensagens cifradas escritas ao contrário para não poderem ser descodificadas. Nos seus quadros deixou constantes referências heréticas ao Culto Pagão da Deusa e não só. É também por isso, pelo simbolismo oculto, pelas referências cabalísticas da sua arte que os seus quadros suscitam tanto interesse, para lá do visível. O homem foi um brincalhão, um jogador compulsivo, um gozador inveterado. Apesar de ter a Santa igreja como melhor cliente não parava de brincar e deixou referências pagãs nos seus quadros.

Este quadro, Madonna dos Rochedos foi-lhe encomendado por uma ordem religiosa qualquer com instruções precisas. Devia incluir o menino Jesus, João Baptista, a Virgem e o anjo Uriel. Da Vinci pintou o quadro que está reproduzido em cima (mais tarde fez uma outra versão que está no National Gallery), mas quando os seus clientes o viram foi um verdadeiro choque. Pintou Baptista como uma criança. Mas a grande heresia estava no facto de ser o Baptista a dar a bênção a Jesus quando devia ser o contrário. No entanto, a coisa não acaba aqui.

É que acima do Baptista, numa posição de clara hegemonia quem aparece é a Virgem. Até aqui tudo bem. Mas ao mesmo tempo que protege Jesus com a mão direita, a sua mão esquerda eleva-se ameaçadoramente, como uma garra, sobre a cabeça do Baptista. Parece mesmo segurar pelos cabelos uma cabeça invisível. Uriel, por seu turno, faz um gesto que bem pode sugerir a decapitação do Baptista. Ou seja: a Virgem protege a pureza cristã simbolizada pelo menino Jesus e, com o apoio de Uriel, ameaça, Baptista, encarnação da Santa Igreja. Madona dos Rochedos pode, pois, ser lido como uma referência críptica ao Culto da Deusa apagado pelo Cristianismo.

Regresso depois disto a Marx Ernst. Parece-me possível interpretá-lo com estes novos dados. A virgem representa, também aqui, uma vingança do feminino sobre o cristianismo. Daí a queda da auréola do Menino e a semi-auréola diabólica da virgem. A cor vermelha e as formas de matrona sensual escolhidas por Ernst para tal representação… Uma afirmação exuberante da sensualidade feminina. E a parede rosa – cor simbólica: do feminino, do segredo e da orientação – com os três surrealistas à espreita, como quem sabe mais que nós. Depois de Da Vinci e de Dan Brown é inevitável, para mim, ler esta obra como uma espécie de vingança do Feminino sobre o Cristianismo. E é por isto que eu gosto de arte.

KILL BILL VOL. 2, de Quentin Tarantino,por CatchUp

15/05/04

Fulham 0 -1 Arsenal (9 Maio 2004), por Repórter Alves

10 minutos para o embate. Os últimos adeptos arrumam-se ordeiramente em assentos modestos, mas devidamente numerados. Enquanto isso a maioria entretem-se há algum tempo a entoar cânticos festivos ou a brincar com grandes bolas insufladas que acabam invariavelmente dentro do relvado: entre este e a arquibancada apenas existe um muro de cerca de 80 cm de altura a separá-los. Os stewards, sempre prestativos, vão devolvendo pacientemente as bolas para a multidão, reforçando a boa disposição geral. É o último jogo da época em casa, mas não é por isso que o estádio está a abarrotar. Foi assim toda a época, apesar do clube jogar em casa emprestada, enquanto aguarda pela conclusão das obras dum novo e novo e moderníssimo complexo. A expectativa essa sim é particularmente elevada: recebe-se o Arsenal, virtual campeão ainda invicto depois de 37 jogos, e está em jogo nada mais nada menos que um lugar nas competições europeias da próxima temporada. Ambas equipas, e a de arbitragem, entram lado a lado num campo transformado num autêntico caldeirão musical. A ovação é unânime e estrondosa. Todos os jogadores acenam, indiferenciadamente, para uma e outra claque, num gesto ostensivo de reconhecimento pelo caloroso acolhimento. O árbitro dialoga animadamente com os capitães. Mais parece um reencontro de velhos amigos. Escolhe-se campo e bola e logo de seguida começa a partida. São neste momento exactamente 16 horas e 5 minutos. Olho para o meu bilhete à procura do time of the match, lá está, em bold: 4,05h pm. Os primeiros lances podem definir-se como uma disputa frenética pela posse de bola. Anfitriões e forasteiros apresentam esquemas tácticos similares, 4-1-4-1, com defesa em linha, um trinco, dois médios centrais pressionantes e alas muito colados às linhas. O modelo de jogo acusa porém diferentes abordagens o jogo; enquanto na equipa da casa os jogadores têm posições mais rígidas e o futebol é mais rectílineo e previsível - insistindo em passes por alto para um desamparado ponta de lança - os supercampeões, por seu turno, parecem confiar mais na técnica individual, com gestos simples, recepção-passe, toque de primeira, triangulações fáceis em situações de dois para um, e apostar na movimentação atacante - um sistema elástico que começa com nove jogadores atrás da linha da bola e se desenvolve através duma imediata reposição ofensiva, circulação de bola a toda a largura do terreno e desdobramento dos alas e laterais ao longo das faixas. Mais ou menos 15 minutos de jogo. O guardião da equipa da casa, internacional de grande prestígio e que estará no EURO 2004 a defender as redes de uma das selecções favoritas, recebe junto à marca do penalti, um atraso, seguro, dum colega da defensiva. O avançado da equipe adversária aproxima-se, cumprindo a obrigação de estorvar. Teria sido mais fácil, definitivamente mais fácil, um chute para a galera. Mas não, o keeper da casa tentou um bonito, ousando a simulação. O avançado, talvez adivinhando-lhe os pensamentos, foi mais lesto e interceptou o drible. Estava consumado o desastre. Feito o corte, limpo, ao feliz atacante bastou empurrar a bola para dentro de uma baliza deserta. Surreal. Ao desastrado keeper, coube depois ir buscar a bola ao fundo das malhas, não suficientemente fundo para esconder a suprema humilhação que deveria estar a sofrer. Um golo patético, um falha ridícula, como lhe chamaria, no day after, um afamado cronista local. Um golo que acabaria por ser o único do jogo ditando assim a enésima vitória da equipe invencível e a derrota da equipa da casa, que viu desmoronar-se, num deslize imperdoável, o sonho europeu de um temporada.
Minuto 40 da primeira parte, já com o Arsenal na frente do marcador Lundberg leva um toque e cai junto ao muro onde está encostada a claque do Fulham; não não foi cuspido, não, não levou nenhum soco ou pontapé e ao que pude observar à distância também não apanhou com nenhum rádio ou telemóvel ou cabeça de leitão na cabeça. Um corpulento adepto da equipe da casa estendeu-lhe o vigoroso braço e ajudou-o a erguer-se para marcar a falta e prosseguir o jogo. O árbitro apita para o final do jogo. A claque local está de consciência tranquila. Tal como os jogadores no campo, haviam dado o seu melhor, pois nem o golo surreal havia impedido que tivessem apoiado os seus ídolos um só instante os 90 minutos. Os jogadores trocam camisolas e cumprimentam-se, entre todos, longamente. A partir daqui torna-se quase impossível distinguir quem são companheiros de equipa e quem são oponentes. Alguns começam a dirigir-se para as bancadas, onde todos os adeptos, de pé, prolongam cerimoniosamente o último aplauso. Já não se ouvem cânticos, nem ovações, apenas palmas. Em uníssono. De forma menos ordenada, os jogadores aproximam-se então ainda mais do público para retribuir com aplausos os aplausos recebidos. O guarda-redes da triste figura é dos mais aplaudidos: havia feito um grande época na qual salvara a equipa em diversas ocasiões, e por isso já estava perdoado antes de ter pecado. Multiplicam-se os sorrisos, cúmmplices, entre jogadores e público. Só o muro, que na verdade tanto faz lá estar como não (uma linha no chão teria o mesmo efeito prático), separa assistência e futebolistas, pois no mais já estão equiparados: ambos foram igualmente protagonistas de mais uma tarde inesquecível. Instala-se, em poucos segundos, uma indesmentível nostalgia, própria de final de época, e que só desaparecerá lá para o final do Verão, quando por fim regressar a Premier League.
Foi assim que vi, ao vivo, Fulham X Arsenal, em Loftus Road, no Qeens Park Stadium, propriedade do Queens Park Rangers, localizado no coração dum bairro residencial londrino. Não esquecerei nunca. Porque foi lindo. Só por isso. E também porque descobri que enquanto houver pessoas que amem verdadeiramente o futebol o futebol é possível. Não referi, porque não ouvi, porque não houve, um assobiadela. Apupos, apenas um ou dois, dirigidos ao árbitro, que foi respeitado por todos os jogadores como se de um colega mais velho de equipa se tratasse. Sem alternativa possível vi o jogo junto aos adeptos do Arsenal, concentrados atrás de uma das balizas. Havia velhos, crianças, ladies, old ladies, gente pintada,fantasiada, travestida e até um orangotango. Tanto a entrada - feita cautelosamente num ponto oposto do estádio - como a saída - feita em conjunto - decorreu sem nenhum tipo de problema. E nem sequer fomos insultados, apesar da euforia dos Gunners, depois de estar mais perto de igualar um recorde histórico de terminar o campeonato sem derrotas. Só aconteceu antes um única vez, em 1889...
Como dizia o saudoso Vítor Santos, assistir ao futebol em Inglaterra é como beber vinho na adega e directamente do pipo.

14/05/04

O Nariz. História Infantil, por Tinóni

Era uma vez, num reino distante, um Príncipe Quase Perfeito. Só tinha um defeito: um nariz enorme, um senhor nariz, uma penca que só parou de crescer meia légua depois de nascer. Os pequeninos que não sabem o que é meia légua, imaginem uma légua e tirem-lhe metade. De qualquer forma, a légua é a medida oficial de comprimento das histórias infantis e vocês já deviam saber isso. Bom, mas aquele nariz era um sério entrave ao casamento do príncipe e consequente descendência, factos que numa história infantil como esta andam necessariamente ligados. Nem sequer servia ao príncipe o facto de um nariz assim grande, como os meninos sabem, ser um poderoso símbolo fálico, motivando a admiração geral da populaça e infindas lendas e anedotas sobre a virilidade do seu propriedade.
Era também dessa vez, no mesmo reino distante, uma filha de um pobre sapateiro que, não lhe bastando ser filha de um pobre sapateiro, tinha uns pés de dois quartos de légua. Mais ou menos, enfim, dependendo da estação do ano, pois é sabido que os pés incham quando no Verão. A única consolação da sapateirinha era ter em casa quem lhe fizesse os sapatos pela medida certa. Em casa é modo de dizer, pois toda a família era obrigada a viver no telhado, por causa do espaço ocupado naquela choupana pelo único par sapatos da rapariga. Todo o tempo? Não propriamente. Quando a moça saia à rua para ir buscar água a fonte, levando com ela os seus sapatos, os seus pobres e envergonhados pais aproveitavam para descer e aquecer-se um pouco à lareira da velha choupana.
Aqui chegando, já os pequenos leitores mais perspicazes terão adivinhado o final da estória. De qualquer forma, saibam que não há meio de manter o enredo em suspense, colocadas as coisas como, necessariamente, aqui foram já colocadas. Tirem proveito do (pouco) estilo da prosa e é um pau. Mas para os menos perspicazes, continuemos então.
Um certo dia, decidiram as côrtes do reino que o príncipe se casava, desse por onde desse, mais nariz menos nariz. Coloca-se o príncipe à janela a perguntar quem com ele se queria casar, como se tinha visto fazer a um certo insecto do reino, e está feito. Mas o resultado não foi famoso: mal aquele real nariz assomava à rua, tropeçavam os aldeões e assustavam-se os animais. Que fazer? A solução foi enviar pregoeiros por todo o reino, na esperança de se encontrar uma moça que não se importasse de partilhar o resto da vida com um nariz a que se encontrava agarrado um príncipe de tamanho médio.
E no dia combinado, lá acorreram muitas raparigas. Enfim, sempre se tratava de um príncipe, uma boa vida castelã, pequeno-almoço certo e instalações sanitárias com saneamento básico. Reuniram-se todas num salão e fez-se o teste da valsa. A que se sentisse menos constrangida dançando com o príncipe, seria a escolhida. A primeira esticou os braços o mais que pôde, contornando o apêndice nasal, fez um sorriso amarelo, deitando olhares de lado aos cortesãos, e foi expulsa. A segunda, terceira e quarta levaram o mesmo caminho. Até que chegou a sapateirinha. Ohhh, que grandes pés, pensou o príncipe, sorrindo. Oh que grande pés, exclamou a multidão. E dançaram a noite toda, braços esticados, narizes e pés numa simetria perfeita, duas almas gémeas. E casaram. Algum tempo depois, nasceu um lindo menino com o nariz da mãe e os pés do pai. E passados vinte anos nasceu uma menina com o nariz do avô e os pés da avó, o príncipe e a princesa da nossa estória. E então tudo recomeçou, para gáudio e felicidade dos habitantes daquele reino, que tão poucos motivos de divertimento tinham. Mas esta é outra história, que depois conto se me apetecer. Gostaram desta, petizes?

13/05/04

A MANCHA HUMANA, de PHILIP ROTH, por ChinêsCulinário

- Se o Clinton lhe tivesse ido ao cu, talvez ela tivesse calado a boca. Bill Clinton não é o homem que dizem ser. Se a tivesse virado de barriga para baixo no Salão Oval e lhe tivesse ido ao cu, nada disto teria acontecido.
- Bem, ele nunca a dominou. Jogou pelo seguro.
- Sabes, depois de chegar à Casa Branca o tipo deixou de dominar. Não podia. (...) Quando se tornou presidente perdeu todo o seu talento arkansiano típico para dominar mulheres. Enquanto foi procurador – geral e governador de um pequeno estado obscuro, dominar era perfeito para ele.
- Sem dúvida. Basta pensar na Gennifer Flowers.
- O que acontece no Arkansas? Se um tipo cai quando ainda se encontra lá, não cai de muito alto.
- Exactamente. E calcula-se que tenha tara pelo cu. É uma tradição.
- Mas quando chega à Casa Branca, não pode dominar. E quando não pode dominar, Miss Monica vira-se contra ele. Teria garantido a lealdade dela se lhe fosse ao cu. O pacto devia ter sido esse. Tê-los-ia ligado. Mas não houve pacto.
- Bem, ela assustou-se. Sabes bem que esteve prestes a não dizer nada. Starr esmagou-a Onze gajos na sala com ela naquele hotel, já imaginaste? A massacrá-la? Foi uma geraldina. Uma violação colectiva encenada por Starr naquele hotel.
- Isso é verdade. Mas ela já andava a falar com a Linda Tripp.
- Ah, sim.
- Andava a falar com toda a gente. Pertence àquela cultura idiota do blá-blá-blá. A esta geração que se orgulha da sua superficialidade. A sinceridade é tudo. Sincera e vazia, totalmente vazia. A sinceridade que dispara em todas as direcções. A sinceridade que é pior do que a pior falsidade e a inocência que é pior do que a corrupção.
(...)
- Mas o que não percebeu foi que tinha de lhe ir ao cu. Porquê? Para a calar. (...) Se lhe tivesse ido ao cu, duvido que ela tivesse falado com Linda Tripp. Porque não quereria falar a esse respeito. (...) É pelo cu que se gera a lealdade.

12/05/04

QUEREM FECHAR O TAPOR!, POR Flynt Eastwood

Ouvi hoje de manhã na rádio que um senhor, cujo nome não fixei, mas que faz parte da Alta Autoridade para a Comunicação Social, propunha o encerramento da blogosfera porque «os blogs são espaços de difamação das pessoas» (sic). Não sei se estou a difamar alguém, mas esta tal Alta Autoridade sempre me pareceu uma coisa anacrónica, a fazer lembrar os Comités de Protecção à Moral Pública do Nixon (os mesmos que estavam sempre a implicar com os Doors quando o Morrison passava das marcas. Deles, claro!).

Há muita coisa a dizer acerca de uma tal pretensão, mas só queria sublinhar que o raciocínio do senhor, para além de perigoso é completamente idiota.
Perigoso, porque eu prefiro correr o risco de me difamarem, a correr o risco de viver numa sociedade policial e securitária. Num estado de direito, uma vez difamado, ainda tenho o recurso de pedir contas em tribunal a quem me caluniou. Não de o silenciar. Se aquele raciocínio pegasse, seria o fim da civilização, tal como a conhecemos. Por isso é que, embora não me lembre do nome do senhor que propôs uma tal enormidade, eu não consigo deixar de pensar que ele deve ser ir a Mohamed qualquer coisa…
Idiota, porque o raciocínio é, em si mesmo, completamente falacioso. Equivale a propor o encerramento da televisão, da rádio ou da imprensa, porque alguns programas de televisão, da rádio ou da imprensa difamam as pessoas; a proibir o cinema porque alguns filmes são maus, a varrer o desporto porque há atletas que são violentos, a queimar os livros porque há alguns que são más línguas, a dinamitar as estradas porque os carros que nelas circulam provocam muitos acidentes, etc, etc. É uma indução completamente abusiva, que equivale a proibir o meio que se usa para comunicar,por causa do conteúdo de uma ou outra mensagem que é difundida nesse meio.
Pela minha parte dedico ao tal senhor Mohamed um filme de culto: The People Versus Larry Flynt de Milos Forman. Ele merece!

10/05/04

As Músicas do Porco. Cucurrucucú Paloma, por Caetano Veloso. Por Manolete

Não sei quem é o autor desta música de título ridículo. A primeira vez que a ouvi foi num jantar de leitão em casa do nosso Mister. Nessa noite, o nosso espanhol de serviço, o Mau, resolveu levar um disco de uns gajos mexicanos chamados Mariachis - com sombreros e tudo! - como resposta de Castela à overdose de Amália que eu pregara à malta na janta anterior.
Inicialmente a minha reacção, e a de todos os presentes, foi de gargalhada sonora. Aquela versão kitsch de Paloma era e é, de facto, um pouquinho ridícula, desculpa lá, ó Mau… Mas depois a música pegou e tornou-se uma espécie de hino burlesco das famigeradas Noites de Leitão em Casa do Mister. Hoje, até já se pede ao Mau para não se esquecer do «disco dos mexicanos».

Mais tarde, voltei a ouvir Paloma num álbum do Caetano Veloso chamado Fina Estampa ao Vivo. O disco, como explicou o autor, é uma espécie de viagem pela hispanidade. Viagem geográfica – pelo Haiti, pela Argentina (vuelvo al sur de Piazzola), pelo México, pela Espanha… - mas também no tempo. Porque aquelas músicas, diz ainda Caetano, estavam-lhe guardadas na memória mais recôndita. Aquelas músicas espanholas eram-lhe cantadas desde menino pela mãe e haviam de ficar-lhe para sempre guardadas, sem que disso ele tivesse consciência. Recorda-as simplesmente, como se tivessem sido sempre parte dele. Reparei na música, mas não era, ainda, a tal. O Mau, com a autoridade que lhe confere a sua nascença basca, achava que faltava alma ao Fina Estampa – a alma espanhola, entenda-se, e não deixa de ter razão.

Ouvi recentemente uma terceira versão de Cucurrucucu Paloma, ainda pelo Grande Caetano Veloso, e foi essa que me fez render incondicionalmente. Aconteceu mais ou menos a meio do filme do Pedro Almodóvar, Hable Com Ella. Quem viu o filme sabe do que falo. Subitamente no meio da trama bem urdida, surge a imagem improvável de Caetano a cantar Paloma com uma delicadeza e uma subtileza que eu não julgava possível (muito mais depois de massacrado pela inenarrável versão dos Mariachis e sus sombreros)… A cena de que falo passa-se numa palácio algures em Espanha, ao ar livre numa fabulosa noite de Verão. Caetano canta, acompanhado por Jacques Morenlembaum no violoncelo, para uma vintena de pessoas, vestidas a rigor, com salero, alegres e sensíveis, como sabem ser os espanhóis. O ambiente é mágico.
Não consigo definir a ternura daquele momento do filme – sei que não é triste, mas alegre, uma alegria contida, suave, delicada que me comoveu. Aquela cena – Caetano ter-se-á deslocado expressamente do Rio para Madrid apenas para gravar aqueles dois minutos perfeitos – é um filme inteiro que sai do próprio filme. É o melhor vídeo musical que já vi, a síntese perfeita entre a sofisticação das imagens e a delicadeza da música. Almodóvar conseguiu fazer ali um quadro barroco de imagens em movimento. Rubens ou Velásquez teriam feito aquilo se tivessem máquinas de filmar em vez de telas e pincéis. E Caetano não foi só um intérprete, mas esteve muito para além disso.
Acho que todos os que viram o filme concordarão que aquela cena é completamente supérflua do ponto de vista da narrativa. E, no entanto, o filme seria muito diferente e muito menos interessante sem ela, ao ponto de já não o podermos imaginar sem ouvirmos a voz espantosa de Caetano a sussurrar Paloma.
E eu confesso: da próxima vez que formos comer leitão a casa do Mister, já não vou tolerar outra vez o disco dos Mariachis. Prometo que o parto na cabeçorra do Mau!

ROMERIJO, RIBERA DEL MARISCO, EL PUERTO DE SANTA MARIA,por AnimalDeEstimação

Se há uma coisa que detesto é o desporto motorizado! Este é um ódio de estimação que me vem de pequeno, dos Rallyes de Portugal, em que me obrigavam a subir a penantes a Serra da Lousã. Duas horas de Automotora nojenta, quatro horas de penantes Serra acima, pra ver a Michelle Mouton a curvar a 100 à hora durante precisamente meio segundo.
Mas há ainda pior que isto, na pessoa dos fanáticos dos carros e motores. Gajos que falam e discutem as bielas, os platinados, os carters, os segmentos e as barras de direcção. Temos por cá dois desses espécimes na Confraria, o que até nem é muito em 17 porcos imundos, mas temos a sorte de se calarem com as bielas e os platinados logo à primeira arrochada.
Mas ainda pior que tudo isto, é a Fórmula 1. Meu Deus! Que coisa atroz. Mas qual é o interesse de ver uma série de carros todos iguais, que fazem no mesmo sitio 100 voltas em redondo. A grande emoção, é que, às vezes, numa das cem voltas, um deles ultrapassa outro. Parece que tal acontece umas duas ou três vezes, por corrida.
Daí que, quando aqui há uns anos dei por mim a parar num artigo sobre Formula 1, quando en passant passava os olhos pelo Público, estranhei! É que, não obstante a tradicional carripana de F1 na foto cimeira, as gordas falavam era de marisco! Bogavantes? Langostinos? Eh lá, destes bólides de F1, já eu gosto!
E vai de ler a coisa em pormenor. Em pormenor e com direito a imediato recorte e religiosa guarda, que com estas coisas não se brinca. Foi a primeira vez que ouvi falar do Romerijo. E a coisa resume-se em três penadas. O artigo era sobre o Grande Prémio de Espanha de F1, que pela primeira vez se disputava no novel Autódromo de Jerez de La Frontera. O Jornalista enviado à última da hora pelo “Público”, além de não conseguir já qualquer acreditação para o tourel, onde não pôs sequer os pés, só veio a conseguir alojamento numa pensão manhosa de Puerto de Santa Maria, cerca de 20 km a sul. E como não pôde falar de F1, a não ser dos resultados que viu na televisão, falou em pormenor do que descobriu na desembocadura do Rio Guadalete: a Ribera del Marisco e o Romerijo.
Aí, no maior porto marisqueiro de Espanha e da Europa, encontra-se o Romerijo. Que é nem mais nem menos que o maior mayorista y minorista de marisco y pescados de España, e que ali na Ribera del Marisco, alimenta diariamente, com frescura, cozedura e fritura inigualáveis, dois estabelecimentos tamanho-gigante, que frente a frente na rua e mano a mano na lide, alimentam a horda insaciável.
De um lado da rua, temos o Cocedero e do outro, a Freiduria, sendo que pelo meio, em esplanadas, arcadas, jardins, pérgolas e salas intermináveis, se abanca na Cervecería.
O mastigante depois de passar pela caça à mesa (a pior critica que fazem ao Romerijo, com sites de discussão na net) vai de Cocedero e dali traz para a mesa a preços catitas em cartuchos de papel, raciones de gramas ou kilos, de tudo quanto seja marisco cozido, inteiro ou partido, grande ou pequeno, raro ou comum, às cores ou às riscas.
Ali me apresentei eu às Galeras de Peníscola, às Nécoras Galegas, aos Percebes Gigantes da Mujía, aos menos gigantes de Marrocos, às Patitas de Santola, às Coñetas, aos Canaíllas, às Patas Rusas e aos Bigaros. Ali travei cerrados duelos florais com Bueys de Mar, Cigalas Gordas, Bocas Chicas, e Quisquillas. Ali prestei honras aos Langostinos, Bogavantes, Langostas e Camarões Tigres como Bengalas. Ali confraternizei com Camarões de toda a áfrica de Madagáscar aos Camarões. Ali se me embaciaram de comoção estes olhos gulosos, perante tantos tamanhos e proveniências de búzios, burriés, ameijoas e ostras, conquilhas e caranguejos, gambas e cabra-cegas. De certeza que metia dó olhar para a beiçaria gulosa deste lambão. E nem digo mais, que a alembradura é dolorosa.
Logo que abastecido de cocidos, o mastigante atravessa a rua e vai à Freiduria. Ah, a Freiduria! Um regalo, de sabor e de preços. Abastecimento completo: Chipirones, Puntillitas, Ovas Adobadas, Huevas de Atún, Acedias, Gambas Rebozadas, Sardinhas tamanho petinga, Cazón, Merluza, Calamares, Pijotas, Rabas, etc, etc, tudo fritinho e quentinho. As Puntillitas que estalam na boca, as Gambas crestantes de sabor adocicado, o Cazón exquisito que corta o adocicado. Tudo à bruta e à fartazana. Fresco que até doi. Bem frito, num polme inigualável como só os nuestros hermanos sabem fazer.
Prá mesa traz-se tudo em cartuchos de papel. De pratiduras, só os copos da cervejola Cruzcampo, que garçãos atenciosos trazem a toda a hora. Como o pessoal que ali vai não facilita e abanca e afinfa como se aquela fosse a última ceia, a garçonage traz também para a mesa um Balde, grande, tamanho-famelga, destinado a servir de caixote de lixo. Talheres não há e Guaranás, por mais que peçam, também não. E convém não insistir, que os garçãos aturam tudo, mas há limites!
No mais, resta avisar a trupe ecologista de que é melhor nem se aproximar da Ribera del Marisco ou do Romerijo. Até a mim, alambazante empedernido, aquilo por vezes dói. E o mais engraçado, é que quanto mais me dói no cérebro, melhor me sabe no estômago. Imagino que ali, um defensor de bichinhos, pura e simplesmente, cai pró lado fulminado. É que muito do que por ali se come é do tamanho com que o espécime saiu da gravidez materna. Ilegal, portantos. Criminoso, mesmo. Em qualquer mesa de Portugal ia logo tudo pá Esquadra. Mas em España, essa coisa dos tamanhos são pormenores, minudências legais de Bruxelas, que não afectam a mastigação e só melhoram o sabor apimentado da bicharada.
Perdoai-lhes Senhor, porque eles sabem o que fazem!

09/05/04

Max Ernst, A Virgem Santa castigando o Menino Jesus perante Três Testemunhas – André Breton, Paul Éluard e O Artista, por Zebu Júnior

O quadro do post anterior do Balthus trouxe-me à memória estoutro de Marx Ernst, ilustre representante do surrealismo. Nos dois quadros está presente o tema da relação entre a criança e o adulto. Segundo o Mangas em Balthus trata-se de um abuso da mulher poderosa sobre a menina - apara-se, assim, a leitura choque de um prazer perverso, partilhado a dois, mulher e criança.
Em Ernst ainda está presente a sexualidade: a nudez do menino é completamente humilhante para o próprio, talvez mais que o açoite, incidência mais ou menos corriqueira na educação de menores. Assim, o quadro ganha um cunho vagamente sexual…
A nudez da criança angelical contrasta com o facto da mulher se apresentar vestida, o que agudiza o sentimento de humilhação que pressentimos na vítima do castigo. Como que para se protegerem desta humilhação os rostos dos personagens permanecem escondidos – o menino está de costas a virgem não tem expressão, cuidadosamente tapada pela sombra. A perversidade latente do quadro perturba perigosamente uma série de sacralidades culturais e civilizacionais: mãe/filho, Virgem Maria/Jesus…

Mas Ernst tece aqui alguns paradoxos interessantes, como, desde logo: que legitimidade terá a virgem-mulher para castigar o Filho de Deus? Não será este castigo uma revolta na própria ordem divina?
Mais: que poderá ter feito Jesus de tão grave, para merecer um castigo tão veemente da Virgem? Se Ele é puro, divino e isento de pecado, não há razão para receber um tal castigo. Porque misteriosa razão o açoitaria a Virgem Mãe? Regressamos assim ao universo ambíguo e sinuoso de Balthus, não por acaso influenciado pelo surrealismo. Restam-nos as três testemunhas deste acto – atente-se na correspondência entre a Trindade e estes três papas do surrealismo, Breton (o Pai), Éluard e Ernst – que espreitam, por detrás de uma janela aberta, com olhares prescrutantes – mas, mais uma vez, cuidadosamente escondidos - este aparente desvario da Virgem. Este quadro é quase um enredo policial. E só a mente aguçada dos três surrealistas parece saber a sua verdade oculta.

07/05/04

A LIÇÃO DE GUITARRA, de BALTHUS, por BeloZebu

[ver quadro em tamanho maior: click aqui]Na senda da discussão sobre a Arte e a Pornografia e o que é uma e outra, eis aqui A LIÇÃO DE GUITARRA, (Óleo sobre Linho, 1,61x1,38cm, Colecção de Thomas Ammann, de Zurich, pintado em 1934, por Balthus - Balthasar Klossowski de Rola; Francês, 1908–2001).
E antes de mais cumpre relembrar aqui o Mefistófeles, que há tempos aqui trouxe um outro Balthus, e admirado ficou de eu ter levantado a questão da sexualidade e da perversidade imanente ao quadro por ele apresentado. E admirado fiquei eu com a admiração dele.
Balthus é também um dos meus pintores modernos preferidos, mas a obra dele, o grosso dela, é hoje quase maldita. A coisa não se encaixa no politicamente correcto reinante e nem as palavras de profunda admiração do Albert Camus o safam da fogueira que à volta dele vão ateando.
O quadro anexo é o mais polémico de Balthus. Nele como em nenhum outro ele se afirma como um pintor de sexualidades e perversidades. Há até um critico que o classificou como “pintor de lolitas com luz”.
Se em muitos dos quadros de Balthus a teens e pré-teens (estas duas palavrinhas vão-nos render 2 milhões de visitantes a partir das pesquisas do Google), são retratadas em posições de equivoco e mistério, a meio caminho entre a inocência e a perversidade, aqui a coisa é clarinha e a perversidade é plena. Este quadro levanta-nos desde logo uma interrogação fundamental: Arte ou Pornografia?

06/05/04

TINÓ, TINÓ, TINÓNINÓNINÓ, TINÓ, TINÓ, TINÓNINÓNINÓ...A música da minha vida, por Derviche Rodopiante

O Apartamento era magnífico. Um quarto andar a 50 metros da praia e a 150 do mar imenso. Carote, como se impõe a um prédio de avenida marginal ao mar em pleno Reino dos Ingleses e dos Algarves. Varandim contínuo e aberto, a lamber directamente da maresia contagiante. Uma delícia, acordar de manhã com o barulho da rebentação e o cheiro da espuma das ondas. O adormecer, era sobre o mais longo e prateado luar de mar de que há memória.
Mas não há rosa sem espinho, nem bela sem senão. E o senão, o zenão, o zangão e o caralho que a foda e a puta que a pariu, era aqui personificado por uma sacana de uma máquina caça níquel, daquelas de abanar o cú a criancinhas, que ao nível do chão e colocada na esplanada de um café, fazia sempre a mesma música simples e irritante: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
A coisa fazia chaminé de som até ao 4º andar e se no primeiro dia era ligeiramente irritante, no segundo dia era infernal. Ao terceiro dia, já lá ia às 4 da matina enfiar-lhe chiclets na goela. Mas não resultou, e logo de manhã, um cabrão dum fedelho saca uma moedinha ao merdas do avô e saca de um pauzito nojento, limpa a chiclet e zás, a maldita a azucrinar: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
Nesse dia – Domingo – a coisa má, não mais parou, acordou-me, irritou-me o pequeno almoço, estragou-me o almoço, a sesta e o jantar. A puta da maquineta, uma espécie de burro do oeste onde os rebentos que me rebentavam as timpaneiras se sentavam, era incansável: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
E de madrugada, pior ainda, quando já me preparava para novos assaltos de chave de fendas, lá vinham das discotecas a corja de jovemzarros que achava muito impressionante para as teenagers fazer a cavalgadela na maquineta infame. As namoradinhas queriam certamente outra coisa, que não a nojice que me abrasava a mioleira, mas qual quê: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
Foram quinze dias de martírio. Para evitar o delírio, já ficava na praia a ler até ser de noite e a mulher telefonar prá janta. Mas à hora da janta a coisa era ainda pior. As putas das criancinhas faziam bicha e zás: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
Fiz de tudo àquele martírio em forma de far-west, chiclets, patadas, chave de fendas na ranhura, água pró dentro e até areia trouxe da praia e cheguei a obrigar a minha filha a andar naquela merda só pra poder judiar daquilo, enquanto supostamente procurava meter a moeda. Népias. A máquina do demo nunca abrandou: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
E o pior de tudo, é que a nojenta, a infame melodia encasquetou-se-me no subsconsciente e ainda hoje, anos depois, meia volta distraio-me e dou por mim a cantarolar: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
Fico fodido e pior do que isso praguejo e dá-me prá asneira o que me torna incompreensível e demente para quem está ao lado.
Não sei se é a puta da máquina a vingar-se das tropelias que lhe fiz, se é o meu subconsciente a avisar-me que não me vai dar descanso enquanto não puser pés ao caminho e não voltar a Monte Gordo de propósito, numa noite fria e escura de inverno, foder o cabrão do: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....

02/05/04

As músicas do Porco Simpathy for the Devil, The Rolling Stones, por Bonga

Simpathy for the Devil é uma das músicas do Porco e da minha vida. Reza a lenda que começou como um exercício nos estúdios ABKCO em Londres e que a coisa não saía, até que a dupla discreta Wyman/Wats propõe a brincadeira do samba. O resultado é fantástico e o ritmo arrebatador. Jean Luc Godard filmou a gravação da música em estúdio.
Simpathy sai em single em 1968 (com outro clássico no lado B, Honky Tonk Women) e abre um dos álbuns seminais dos Stones, Beggars Banquet, do mesmo ano. O tal cuja capa é uma retrete e que a Deca rejeita por questões de pudor (isto foi à trinta e tal anos, vejam lá…). A contra proposta dos Stones é a capa minimalista completamente branca que segue a tendência do Álbum Branco dos Beatles. Beggars Banquet marca uma inflexão na discografia dos Stones, um regresso aos Blues e ao Rock e um afastamento do pop e do psicadelismo defendido por Brian Jones, já em estado de pré-overdose…

A letra é uma auto apresentação de Lúcifer, himself , (Pleased to meet you/Hope you guess my name), metáfora do lado negro da alma humana. É inspirada em Margariada e o Mestre de Bulgakov, um clássico que aqui à uns tempos atrás estava a passar pelo crivo crítico dessa máquina devoradora de calhamaços que é o Sarda. Na altura os Stones davam largas à sua veia satânica – no ano anterior tinham editado Their Satanic Majesty`s Request, cujo título diz tudo…

A música começa em ritmo samba, coisa pouco habitual nos Stones. Os solos de guitarra de Richards são marcos históricos sonoros. Os coros, o contraste entre o ritmo tropical e a electricidade rocker causam um efeito tribal- é uma música de possessão, obsessiva, própria de rituais - agudizado pela própria imagem dos Stones… Os desta fase, claro, com vinte aninhos, pinturas de guerra e aparência junkie. Eles foram a primeira banda da história a provar que se podia ganhar milhões usando jeans, cabelos compridos e t-shirts desbotadas e rasgadas.

Em Setembro último, nós os afortunados cidadãos de Coimbra, tivemos a oportunidade de ver os Stones em pleno estádio municipal. O Porco esteve lá em peso, na primeira fila do concerto. Eu revi-os pela quarta vez (duas antes em Alvalade e uma em Santiago de Compostela). O concerto de Coimbra foi o melhor dos quatro. Para desespero da provinciana imprensa lisboeta que declarou a Licks Tour uma digressão sem interesse – foi a maior de toda a história –, mas que embandeirou em arco com uns Doors em Lisboa, em que o único gajo parecido com os Portas originais era o vocalista que por acaso era dos The Cult… O que não se passa em Lisboa, não existe, já estamos habituados, mas adiante… Dizia eu, que o concerto foi fabuloso e foi. A música mais espectacular de todo o concerto foi, adivinhem, Simpathy for the Devil, com efeitos pirotécnicos fantásticos a transportarem-nos directamente para uma espécie de inferno vermelho. Há uns meses a música levou uns arranjos do Fat Boy Slim e entrou no top americano. Trinta e cinco anos depois Lúcifer está vivo. E está para durar.