29/06/04

Abençoado Embargo, por ChegáVara

O Embargo Americano a Cuba é simplesmente: Abençoado! Não fosse o Embargo - o estúpido e inteligente Embargo - e se calhar o amigo Fidel já era história, em vez de a andar a fazer.

Este criminoso começou mal, muito mal, uma vez que uma das primeiras coisas que fez com a Revolução foi nacionalizar a centena e meia de fábricas e marcas de Puros, fechar a maioria e – esta é de génio – fundir tudo numa única marca. Obviamente o mercado, aficionado e cultor das marcas e do estilo intrínseco de cada uma, mandou-o apanhar bananas e as exportações caíram e os dólares deixaram de chegar. Às pressas, o bom do Fidel, que abomina a américa, mas adora os dólares, chama o Zino Davidoff, que reorganiza indústria e relança algumas dezenas das marcas mais lendárias. Marcas míticas e antigas como a Montecristo, Sancho Panza, Romeo e Julietta, Cuaba, Vegas Robaina e H. Upman fizeram assim o seu renascimento das cinzas, qual Fénix redentora.

Os nomes dos clássicos de Alexandre Dumas, Cervantes, Shakespear e outros, como marcas de puros, não surgem por acaso. Reunidas numa sala ampla, as virgens cubanas enrolavam – e enrolam, que o mito permanece - nas suas coxas de canela e açafrão, os puros que nos vêm prás beiças, afastando a monotonia da coisa com a audição da leitura do Contador colocado num estrado no meio da sala e que repetidamente lê as histórias clássicas preferidas das enroladoras. Conforme estas tinham preferência por ouvir uma história ou outra, assim nascia a marca da fábrica..

Os novos mitos que o Fidel tão bem soube criar, como os excelsos Cohiba e Trinidad, são marcas pós revolução, de criação do próprio Fidel. Aliás, é o Fidel que relança o mito dos puros enrolados nas coxas de cubanas virgens, com a marca Cohiba, embora se conte pela calada, que o quando o gajo criou a Cohiba não havia enroladoras experientes disponíveis e o gajo então, pura e simplesmente, arrebanhou as putas do Malecón e meteu-as a enrolar as melhores folhas de Vuelta Abajo. Arranjou enroladoras e limpou o Malecón, pelo menos momentaneamente. Mas isso são calúnias reaccionárias, que não molestam a pureza quente e húmida de um Cohiba que, quer seja enrolado por virgens ou por putas, é marca de maior prestígio dos puros havanos.

Mas Cuba não é toda de tabaco, as zonas são demarcadas e severamente controladas e daí que a produção é escassa para o vasto mercado mundial, com os sequiosos espanhóis à frente. Mas os nuestros hermanos só estão à frente porque o mercado americano se fechou, embargado de emoção. E emocionados ficamos nós, porque no dia em que o poder de compra americano se soltar sobre Cuba, não há puros de virgens ou putas, que cá chegue. Daí a benção ao Embargo.

E enquanto o Embargo não chega cá, há que esfumaçar. O grande mito do Puro Havano é o mito do Segundo Terço. Um charuto divide-se em três terços. O último terço não se fuma e o primeiro terço, sendo em regra o mais oloroso e perfumado, é também e quase sempre, o mais suave e ligeiro. Daí que, é no Segundo Terço que um bom charuto se revela. É aí que o charuto atinge a perfeição sob a forma da máxima intensidade de aromas e sabores. Contudo, para que o Segundo Terço seja melhor que o Primeiro Terço é preciso estarmos na presença de um grande charuto, em perfeitas condições de humidade e temperatura, e mais raro ainda, é preciso que aquele seja precisamente o predestinado a saber melhor no Segundo Terço. Porque a maioria sabe melhor no primeiro terço. Das centenas de charutos que fumei até hoje, senti a perfeição e o Olimpo do Segundo Terço apenas em 5 ou 6 puros de boa memória. É quase tão raro como encontrar uma cubana virgem para enrolar um puro. É um mito que só raramente se cumpre.

Na Sexta-Feira passada, depois de almoço, lá ia eu a 40 à hora na Estrada do Mondego para Penacova (a estrada mais bonita do mundo) a fumar uma Pirâmide Montecristo e a pensar nas cubanas virgens que a tinham enrolado. O Primeiro Terço no Ranhoso com Vice a marrar não fora mau. Mas ali, por alturas do Casal da Misarela, estava a chegar ao Segundo Terço e a intensidade aromática do cacau, canela e pimenta começava a perfumar-me o cérebro. Ali, à mão, ou à beiça, como quiserem, estava e começava o meu êxtase em forma de puro. E, quando precisamente começava a abençoar as coxas das virgens cubanas, levei com um Filho da Puta de um condutor português que me espatifou a lateral traseira do carro, com uma curva mal dada. Fodeu-me o carro, fodeu-me a Pirâmide e um dos Segundos Terços mais prometedores da história. Puta de merda. Não há virgem cubana que resista a uma puta portuguesa ao volante.

27/06/04

Vertigo, de Alfred Hitchcock, por Mangas

Vertigo é dedicado ao sonho de ressuscitar os mortos. Este sonho ou desejo é alimentado através da possibilidade sobrenatural de reencarnação de uma mulher, Carlota Valdes que se sublima pela possessão de outra e mesma mulher, Madeleine, sendo posteriormente exposto como o mero plano de um crime elaborado. O preservar desse efeito apaixonado e febril, hipnótico e obsessivo carece do poder absoluto dos sonhos, das palavras, histórias e imagens retidas na memória. É o ultimo e mais poderoso recurso para trazer de volta a mulher amada. Scottie Ferguson (James Stewart), é vítima do seu fascínio por Madeleine Elster (Kim Novak), uma mulher assombrada por um fantasma, e que pode ela mesma ser um também um fantasma. Este amor/obsessão agudiza-se com a acumulação de episódios traumatizantes pelos quais Scottie não consegue deixar de se sentir culpado. Inevitavelmente empurrado a reencontrar o objecto da sua devoção compulsiva, Scottie procura, a todo o custo, fabricar a partir de Judy Barton (Novak outra vez), a sua alma gémea/imagem dupla perdida para sempre. A divinal sequência deste momento é carregada do mais simbólico erotismo, definida por Hitchcock como "striptease invertido", já que Scottie se aproxima da consumação dos seus desejos à medida que a veste e maquilha.

Vertigo é a história de amor gótico entre um detective e a morte. Cada vez que revejo Vertigo, há sempre algo novo que descubro e algo latente que me escapa, mas a sua força vital gira, do princípio ao fim do filme, no simbolismo sempre presente, na atmosfera surreal do que é mostrado e do que é escondido, na estrutura do enredo reforçada por referências constantes ao passado misterioso de uma mulher ou à sua imagem omnipresente. Nunca a obsessão foi tão poderosa. A fobia/vertigem que atormenta Scottie e todos as representações visuais de queda/abismo são, não apenas, elementos fundamentais na compreensão dos medos paralisantes, mas também e como que em simultâneo, uma terrível atracção pelo desejo de falhar/cair, de forma a libertar-se para sempre dos demónios que o possuem e da luta interior que com eles trava. À estrutura inovadora para a época, Hitchcock adiciona uma concepção técnica brilhante que permite ao espectador sentir na pele de Scottie a sensação de vertigem: planos elevados em pontos chave, “zoom in” e “zoom out” contrariando essa direcção com o movimento da câmara, a forma das escadas da torre, as veredas do cemitério ou os anéis das sequoias. Outro aspecto que não deve ser esquecido é a típica tradição Hitchcockiana de dar a conhecer ao espectador a estrutura do crime, porém, em Vertigo, ela é-nos revelada a meio do filme. O conceito é tão simples quanto brilhante e foi explicado pelo próprio Hitchcock: longe de destruir o suspense final, este recurso explora o choque e reforça a atenção do espectador para os futuros comportamentos e reacções de Scottie e Judy. O suspense cresce e a revelação definitiva virá no final. É a cereja no cimo do bolo.

Vertigo é um filme em que as cores são muito mais do que meros elementos de cena. Talvez porque as sequoias significam “sempre verde, perene”. Hitchcock nas célebres entrevistas a Truffaut, disse que pôs Judy a viver no Hotel Empire porque este tinha um enorme letreiro verde em néon. Desde o interior do quarto de Judy, todo o espaço sufoca com aquela luz verde, filtrada por finas cortinas. Quando Judy sai da casa de banho, completando a sua transformação visual em Madeleine, surge banhada num verde suave, quase surreal. A realidade e a fantasia fundem-se uma vez mais. Na prodigiosa cena do beijo a Judy/Madeleine, a câmara descreve 360º, um círculo estonteante – vertiginoso – à volta de ambos e o mundo em redor explode de verde, a cor do renascimento, da vida e do crescimento. O perturbante regresso à Missão é carregado de azul e o vermelho celebra o primeiro encontro entre ambos.

Vertigo transborda de paixão e erotismo pela soberba interpretação de Kim Novak. Seria pecado não referir o desempenho de James Stewart, um dos maiores actores de sempre. Camaleão de muitos rostos, o que sempre me fascinou nele foi a facilidade com que compunha cow-boys teimosos com registo grave, determinado e colérico ou heróis de Capra dóceis ou amargos, afável ou irascíveis, espirituoso ou despontados. Em Vertigo, oferece-nos o rosto de uma mente profundamente perturbada. Um tipo dilacerado pela angústia e pelo remorso que paga um preço demasiado caro por uma sanidade incompleta. Mas, de Vertigo, fica-me sobretudo a marca passional e animal de Kim Novak. Muitas poucas actrizes americanas foram tão carnais no ecrã. Com Madeleine e Judy, inventou seguramente, uma boa dezena de olhares ora penetrantes, ora distantes, expressões de rosto que alternaram entre o puro classicismo e a atracção sexual da working girl, poses de fragilidade, abandono e aceitação subserviente ao poder do macho como quando Scottie insiste para que mude a cor do cabelo e ela responde: "If I let you change me, will that do it? If I do what you say… will you love me?". Os lábios carmim de Judy, o andar compassado na rua, o cabelo trigueiro e os seios sem soutien estruturados como duas celestiais luas-de-mel em transgressão, transmitem em definitivo, uma carga erótica e uma inebriante sensualidade como eu nunca mais vi no cinema.

É complicado escolher uma cena ou sequência de Vertigo. São tantas e tão belas. A minha favorita é um sequência curta onde Scottie vê Madeleine pela primeira vez. A câmara atenta e a música revelam o que qualquer diálogo poderia arruinar. Num restaurante de fundo vermelho sanguíneo (o local ideal para fazer nascer uma obsessão romântica, rodeada de letreiros de aviso, vermelhos e luminosos), Scottie sentado ao balcão, observa pelo canto do olho a mesa do fundo. A câmara abandona-o e lentamente, sobrevoa a sala de jantar, a música sobe de tom, até se deter na mesa do canto, onde está Madeleine sentada com o seu marido, as costas descobertas, o loiro do cabelo contrastando com o fundo garrido do cenário. Madeleine levanta-se, vira-se na nossa direcção, a música cresce, e faz a sua entrada por uma porta, vestindo uma estola verde carregado. Scottie disfarça a perturbação quando Madeleine se detém ao seu lado, de perfil, como um estátua viva, misteriosa, bela, frágil e intocável. A música explode numa expressão perfeita das emoções à flor da pele que qualquer palavra jamais poderia descrever. Antes de partir, Madeleine ainda nos oferece, a todos nós os Scotties que por um instante sustivemos a respiração na sua presença, um olhar de soslaio, tímido, a rasar o chão. Depois volta-se e desaparece. É uma sequência prodigiosa de voyeurismo próximo, encantamento, requinte, e charme feminino. Uma obra de arte em três dimensões: musical, visual e sensorial.

Vertigo é uma obra prima profundamente rica de significado, análises e contemplações, onde o caos e a eternidade, a realidade e os sonhos são aspectos naturais da vida. Cada fotograma, cada diálogo, cada cena ou sequência de cenas. Desde a fabulosa sequência do título de Saul Bass (que faz um trabalho igualmente brilhante em Anatomia de um Crime de Otto Preminger), passando pela inquietante e esmagadora orquestração de Bernard Hermann. Não resisto a citar o grande mestre destas coisas João Benárd da Costa que a propósito de Vertigo escreveu: «Que pode o mundo das Sequoias Semprevivas, das raízes, da duração e do tempo, contra o mundo das aparições, do mar do primeiro beijo, das imagens, do que sempre escapa, escorre e flui? Que pode Judy contra Madeleine, ou Madeleine contra Carlota Valdes? Que pode o real contra o cinema? Vertigo, apenas.»

25/06/04

ENTREVISTA AO MOURINHO, por Tripeirinho

Li hoje as declarações do Mourinho proferidas a um media do Chelsea. Perguntaram-lhe, antes do jogo de ontem, quem queria que ganhasse: Portugal ou a Inglaterra?
A resposta do gajo é uma verdadeira demonstração do carácter do personagem. O Grande Timoneiro disse mais coisa menos coisa: «Não posso responder a isso porque se digo que quero que Portugal ganhe, os ingleses podem levar a mal porque trabalho no país deles. E se digo que quero que ganhe a Inglaterra, os portugueses vão achar que ainda só estou há um mês a trabalhar aqui e já os estou a trair.» Em vez de assumir com frontalidade a sua preferência por um ou por outro, escolheu a terceira opção, a pior possível e a mais irrefutável demonstração da sua, já sabida, falta de carácter. Não era preciso e eu só pergunto: mas este indivíduo ainda acha mesmo que estamos preocupados com as suas preferências?

Entrevista ao Senhor Administrador do Porco, por Tinoni

Continuando na senda das entrevistas, é agora a vez de transcrevermos a entrevista que fez Durão Barroso ao Senhor Administrador do Tapornumporco, para o próximo Magazine de Domingo do Diário da República. Ao Senhor Adérito, revisor e nosso delegado na Imprensa Nacional Casa da Moeda, os nossos agradecimentos.


- Bom dia, antes de mais, Senhor Administrador. Gostava que começasse por explicar aos leitores o que é o tapornumporco.

- Ora bem, o tapor é, acima de tudo, um projecto de tomada de poder universal. Neste momento já é nossa uma mesa do Ranhoso. Contamos ocupar no prazo de um ano duas mesas do Ranhoso. É um projecto a médio prazo.

- O que é que diria para convencer as pessoas a visitarem o tapor?

- Eu, se me permite, diria que muito pior que visitar o tapor, é levar com um bloco de mármore de Estremoz com duas toneladas na cabeça. E quem é que quer isso, não é verdade? Por isso, é de toda a conveniência que as pessoas comecem urgentemente a visitar o tapor.

- E o que é que os porcos fazem quando não estão no blog? Como é o dia a dia, em suma, de um porco?

- Quando não estão no blog, os porcos jogam golfe. O senhor sabia que jogar golfe é melhor que copular?

- Não, Senhor Administrador.

- Pois é o que eu lhe digo. É melhor que copular e dá uma forte e prolongada erecção. Aliás, vamos lançar uma revista só para adultos chamada Playgolf e uma rede de golfshops com cabines individuais com curtas metragens das melhores jogadas de golf, com privacidade garantida e toalhas de papel.

- Quantos visitantes já teve o tapornumporco?

- Já vamos em cerca de dez mil visitantes. Mas desconfio que a contagem está errada, porque cada um de nós, porcos, visita o tapor vinte mil vezes por dia. Eu próprio inventei uma máquina de visitar o tapor. Quando estou a dormir deixo-a ligada e só ela é capaz de fazer numa noite duzentas mil visitas ao tapor.

- Mas isso não é falsear os resultados?

- Não.

- Eu peço desculpa, mas parece-me que sim.

- Pois se insiste nisso, vou buscar um porco com formação em semiótica e retórica pós-moderna, que lhe pode explicar por a mais b que isso não é verdade. Também lhe podemos bater na cabeça com um pau com bicos até o convencer, se preferir. Aconselho esta última versão.

- E projectos para o futuro?

- No futuro pretendemos descobrir quem é a Joana.

- Mas que Joana, Senhor Administrador?

- Acabei de lhe dizer que não sabemos.

- Quer deixar aqui alguma mensagem para os leitores?

- Não. Eu queria é mandar o vice e o grão para o caralho. E o mangas e o nini e o tinó e o cão e espero não me ter esquecido de ninguém.

- Mas porquê, Senhor Administrador?

- Não sei, já não me lembro. Enfim, acho que é uma coisa que dá nos porcos, como a febre aftosa. E você também pode ir. E o Adérito, já me esquecia. E o Julinho, não se esqueça de apontar.

- E pronto, terminamos aqui a nossa entrevista. Muito obrigado, senhor Administrador.

- De quê? Tafoder! Tapornumporco! O que um gajo tem de aturar!

- Então boa tarde.

- Boa tarde e obrigado

23/06/04

Entrevista ao Nosso Primeiro (exclusivo mundial do Porco)

O Grande Chefe confessa: «Eu acho que sim»

Por Jocta Silva das Neves i Mendez Arrazabal Supino i Joselito Antunes (com ajudantes)

Numa altura de conjuntura internacional, o Nosso Primeiro Ministro de Portugal acedeu a conversar connosco, três anos depois de solicitada a entrevista. Tivemos sorte com o timing porque calha em cima do Campeonato Europeu da Bola que, como todos alegadamente sabemos, se realiza no nosso País. Sem papas na língua, cárie nos dentes ou escorbuto nos lábios, o governante falou connosco e para o gravador no seu gabinete de trabalho, com cortinas beje debruadas a folhos azul celeste. E foi assim que aconteceu:

Pergunta: Bem, estamos aqui com o Nosso Primeiro numa entrevista exclusiva, em termos mundiais, para o Tapornumporco. Bom dia, Senhor Primeiro, o que é que acha?
Resposta: Eu acho que sim. Estou perfeitamente convicto que sim.
P: Sim senhor, estamos a gostar da sua frontalidade. Então e sobre o Europeu da Bola? O que é que pensa?
R: Bem, sobre essa matéria, já pedi aos meus assessores que estudassem aprofundadamente o dossier e estou à espera das conclusões. Sabe que estas coisas são muito demoradas.
P: Pois muito bem. E qual é a sua opinião pessoal?
R: Sobre essa matéria penso que temos possibilidades de lá chegar, e a minha mulher concorda comigo. Mas, lá está, também há possibilidades de não termos, por isso há que ser cauteloso nos prognósticos. E é como digo, quando tiver nas mãos o estudo aprofundado poderei responder com outra profundidade. Sabe que estas coisas requerem muito estudo, mas há que ser optimista, temos de ter fé, não é? Pois, eu também acho que sim. De resto, fui ontem à pastelaria ali ao lado do Governo tomar a bica e um pastelinho, e sai de lá convencidíssimo que sim, reforcei esta convicção.
P: Porquê?
R: Fundamentalmente porque o senhor do balcão, cidadão anónimo e como tal insuspeito, concordou comigo. É o pulsar do povo.
P: Concordou consigo em quê, sôtor Primeiro?
R: Nisso, precisamente, que temos todas as possibilidades de lá chegar se tivermos fé.
P: E força na verga?
R: Sim claro, isso também é fundamental.
P: Sim senhor, muito bem. Então e o que é que achou da eliminação da Bulgária?
R: Pois, lá está, são coisas da vida dos búlgaros. Mas estou a gostar muito, está a ser uma festa bonita e estou convicto que podemos lá chegar.
P: Chegar onde?
R: Lá está, é a esse tipo de questões que o estudo deve responder, mas espere aí um bocadinho… Ó Isabel, mande chamar o Chico, se faz favor…
P: Quem é o Chico?
R: É um dos meus assessores… Ó Chico, desculpe lá, vocês já chegaram à parte do Para Onde Vamos?
Chico (assessor): Já senhor Primeiro, por acaso foi logo das primeiras coisas que analisámos, a seguir ao primeiro capítulo, que tratava do De Onde Viemos. E chegámos a conclusão que devíamos ir até onde pudéssemos.
R: Está a ver? Está tudo previsto. Vamos até onde for possível. Não acha que é um bom objectivo?
P: Quem faz as perguntas sou eu. Então e quanto ao país? O que é que acha?
R: O mesmo. Que sim.
P: Que sim o quê?
R: Então, o que é que havia de ser? O mesmo, fé, força na verga e havemos de lá chegar. Não é assim Chico?
Chico (assessor): Exactamente, é precisamente isso que os nossos estudos indicam.
P: E o défice público?
R: Também há-de lá chegar, também há-de lá chegar, temos de ser pacientes. Como dizia o Custer, um bom défice é um défice morto.
P: Isso não é um bocado radical?
R: Talvez, mas eu também não sou o Custer. Seja como for, gosto mais de pastéis.
P: Ah, isso é interessante. E quais prefere?
R: Os de bacalhau.
P: Isso é bom, sim senhor. Então e filmes? Tem ido ao cinema?
R: Epá, não tenho tido tempo nenhum para essas coisas. Pergunte-me outra coisa.
P: Está bem. Já foi infiel à sua mulher? Já alguma secretária lhe fez um broche no seu gabinete?
R: Sabia que a infidelidade é um estado de espírito? Li anteontem numa revista. Quanto aos broches, não, nem pensar nisso, nego tudo, as minhas secretárias não são pagas para isso. Para tratar dessas matérias tenho assessores extremamente competentes. E quando eles estão muito ocupados com os estudos, a minha mulher faz o favor de vir cá ao gabinete de vez em quando, quando é preciso.
P: Sim senhor. E quanto ao aquecimento global?
R: Isso já acho muito mal.
P: Mas o Governo tem feito alguma coisa?
R: Então não tem?!... Muita coisa… Ó Chico, responda aqui ao senhor jornalista.
Chico (assessor): A última medida nesse sentido foi lançar um concurso público internacional para modernizar os aparelhos de ar condicionado nos gabinetes do Governo.
P: Há quem diga, no entanto, que os ares condicionados ainda estragam mais a camada de ozono. O que é que tem a responder aos críticos?
R: Quem é que diz isso? É uma calúnia infame! Ó Chico, tem de ver quem é que anda a dizer essas coisas, devem ser os sindicatos, de certeza. É só fumaça. Aliás, a prova é que ainda há pouco tempo demos um subsídio, substancial, devo sublinhar, à camada de ozono. Basta ver o PIDDAC, vem lá tudo, tim-tim por tim-tim.
P: Desvaloriza, então, as críticas.
R: Eu acho que sim.
P: Gosta de enchidos?
R: Boa pergunta. Olhe, gosto de alheiras.
P: Só?
R: De momento sim. Mas em solteiro gostava muito de chouriço de sangue.
P: E de azeitonas, gosta?
R: Claro, daquelas amargas, muito curadas, sabem?
P: Sabemos. E o que acha das dez mil visitas ao porco?
R: Ah, uma maravilha! Ainda ontem à noite comentei isso com a minha mulher e ela até comentou: "Ó Zé, mas isso é maravilhoso!". Nós concordamos em muita coisa. Eu acho que sim, definitivamente.
P: Obrigado, senhor Nosso Primeiro pela entrevista que nos concedeu. E parabéns pelas cortinas.
R: Obrigado eu.
P: De nada.
R: Ora essa.
P: Por quem sois.
R: Ó Chico, acompanhe estes senhores à porta.
P: Está então optimista?
R: Então mas isto já não acabou?
P: Sim, mas está-se aqui tão bem que pensámos que podíamos ficar mais um bocadinho a conversar consigo. Assim tipo off the record, conversa fiada e tal.
R: Ah, está bem. Ó Chico traga uns tintos aqui para estes senhores, se faz favor, daquele maduro que trouxemos do congresso.
P: Um leitãozito também marchava, se não fosse pedir muito.
R: Ora essa.
P: Por quem sois… A sua secretária é que é boa como o milho. Trata-se bem, o Nosso Primeiro! AhAhAh!
R: Foi a minha mulher que escolheu, se quiserem sirvam-se. Só não faz é broches, que a minha mulher é ciumenta.
P: Vidaço!
R: Tem que ser, é assim a vida. Então mas essa merda ainda está a gravar?
P: Não!!!
P: Então que luzinha é essa?
R: É das pilhas.
P: Ah, é que eu queria contar umas anedotas e com isso ligado não posso, não é? Ficava mal. O que é que tu achas ó Chico?
Chico (assessor): Eu acho que sim Nosso Senhor Primeiro.

22/06/04

www.tapornoporco - 10 000 visitas.

No meio desta alternância demencial entre a euforia e a depressão patrioteira do euro, não sei se alguém reparou que, aqui no tapor, ultrapassámos hoje os 10000 visitantes. Pra quem começou em Janeiro, não foi mau. Nestas alturas devíamos comemorar, oferecendo a todos os amigos do tapor uma ganda festança. Deveria ser uma coisa em grande, com ementa escolhida pelo Mangas – especialista em jambalaias -, vinhos e cubanos rigorosamente seleccionados pelo Grunfo e guitarradas stonianas e outras da discografia do Jacinto, talvez, até, com o Caetano Veloso em pessoa a cantar o Paloma para nós (já agora, sonhar não custa). Imagino a coisa na casa de praia isolada, mesmo em cima das dunas, que um de nós deveria ter e não tem – cabrões! -, com as gaivotas na areia e o sol vermelho no horizonte. Era giro e o tempo está perfeito!
Mas como somos modestos e tímidos ficamo-nos por aqui, por um post no tapor a assinalar a data, e se a malta que nos lê quiser e se achar que vale a pena, alarguem-se aí nos Gróinks. Afinal, digam lá, porque é que vocês ainda visitam o tapor? São todos masoquistas? O que é gostam no Porco? E o que é que não suportam mesmo?
Japinho, Gotika, Porca, Leoa, Carol, Vizinho, Tiger, Diana, Joana, Didas, Dinha, JPC – um porco honorário, mais porco que alguns Porcos oficiais -, e toda a multidão de anónimos e de outros de que agora não me recorda o pseudónimo, a palavra é vossa. Não se limitem aos smiles, não poupem na verborreia. Façam textos. Enormes, se for possível… Mas digam qualquer coisa. Mandem bacorada. O Porco agradece.

20/06/04

O melhor desporto do Mundo, por Triger Woods

Aqui há uns anos, o Mau, vindo lá das Espanhas, pôs-nos a jogar golf. A malta olhou para o gajo desconfiada. Aqui neste fim de Mundo, andávamos mais habituados à malha e à bola no adro da igreja, no recreio da escola e no meio da rua. Essa merda do golf era coisa de ingleses velhos, ricos e barrigudos. Quando, pela primeira vez pegámos num taco, segurávamos como se fosse uma enxada, denunciando na rudeza do gesto séculos e séculos de apego à terra. O Mau, persistente, lá nos foi ensinando, com a paciência com que os enciclopedistas franceses do século XVIII tentavam ilustrar estes rudes campónios e com a abnegação com que S. Francisco Xavier evangelizava os gentios do Oriente. Ensinou-nos a pegar no taco, a posicionar os pés, a rodar a anca, o swing, o ombro, o punho, o back-swing, o cotovelo, o polegar, puta que pariu! Mas o Mau não desistia:
- Non pongas forza, coño, swinga soft, pasa los brazos....
E a malta lá foi, recalcando os modos da enxada e iniciando-se nos segredos do swing. A pouco e pouco, estes brutos foram-se civilizando. O Mau ensinou-nos a etiqueta, que não devíamos mandar o parceiro pó caralho, que não se chama filha da puta à bola, que não se grita golo, não se diz ao adversário para nos chupar nos colhões quando lhe ganhamos um buraco, etc. Fomo-nos civilizando. Agora, não é que sejamos uns sires britânicos, mas já estamos mais parecidos com aqueles Bijagós das missões a posar prà fotografia com a carapinha domesticada de risco ao meio, fato e gravata e olhar espantado. Estamos mais perto da civilização. E este desporto - o golf - já não é coisa de barrigudos ingleses. É o melhor desporto do Mundo. Não há árbitros, não há desculpas, evolui-se sempre, pode-se jogar com qualquer pessoa que o objectivo nunca é humilhar o parceiro. Uma vez que se entra no espírito do jogo, a coisa entranha-se. Tem qualquer coisa de opiácio, não se consegue abandonar e quanto melhor se joga em pior conta nos temos, a mais nos exigimos, mais tempo a ele dedicamos e entramos numa espiral ascensional da qual não se pode sair. Há gajos que sofrem dores horríveis com hérnias discais e, apesar de todas as contraindicações, não só não abandonam o golf como inventam argumentos espantosos para se convencerem que o swing faz bem à hérnia!
Hoje tive o meu momento de glória. Fui bater umas bolas para o range. Depois, fui dar uma volta ao pitch & put. A coisa corria bem. O campo tem 9 buracos e eu comecei do buraco 3. Chegado ao 8, já levava 2 abaixo do par. No buraco 8, à beira de um muro alto que separa o campo da estrada, eu ensaio o swing e disparo a bola. Atrás de mim, no buraco 4, dois ingleses hospedados no hotel empenhavam-se em confirmar aquela ideia antiga de que isto é um desporto de velhos barrigudos. A minha bola sobe, sobe bem, sobe muito bem. Não me espanto muito, pois sentira o swing solto e largara bem os braços. Aquele barulho quando o taco bate na bola confirmava que havia sido um bom shot. O tempo estava calmo, sem vento, e a bola desce bem. Desce mesmo muito bem. A direcção é perfeita. Eu levanto o pescoço. Começo a sentir um formigueiro no cimo da alma. A bola bate no green levemente, como uma folha seca apoiada pela brisa outonal. O formigueiro da alma alastra ao estômago e a bola rebola devagarinho. Aproxima-se do buraco e o formigueiro desce do estômago até aos colhões. Quando eu tenho formigueiro nos colhões é sinal de que alguma coisa de grandioso está para acontecer. Há gajos que lhes dói o dedo grande do pé quando está para chover. Eu é formigueiro nos colhões. A bola encontra uma linha perfeita na direcção do buraco e desliza como uma top model na passarelle. Aí vai ela. Devagarinho, rola, rola e...... ploc! Ploc? Hole-in-one! Eu lanço o taco ao chão, e meto-me de joelhos na relva com os dois punhos cerrados em movimentos oscilatórios para cima e para baixo e a berrar «golo»! Nestes momentos, estala o verniz e vêm ao de cima os nossos modos rudes e primitivos que, afinal, não desapareceram. Foram apenas enclausurados. Mas agora, soltam as amarras e libertam-se. E lá continuo eu aos pulos:
- Mambó, caralho! Foda-se! Chupa-mos! Pimba!
Lá atrás, no buraco 4, os ingleses, sem entenderem as minhas imprecações, assistiam a tudo e batiam palmas. Eu ouço-os. Começo a descer à realidade e apercebo-me então que, do outro lado do muro, aquele autocarro que a Câmara Municipal arranjou para passear os turistas, descapotável e de dois andares, passava na estrada. No andar de cima do autocarro, uma dúzia de turistas assistira a tudo e aplaudia de pé. Foi o meu momento de glória. É como um golo no estádio da Luz cheio. Vos garanto: um hole-in-one é melhor que foder. Quem acha que não, nunca fez nenhum!

19/06/04

O Terceiro Homem, por Mangas

Esta é a história não apenas de um filme, mas de todo um momento incontornável da História do séc. XX. Capturando com uma precisão documental o aspecto e o sentimento de uma Viena flagelada pela Guerra, O Terceiro Homem (1949) de Carol Reed, pode ser considerado pela sua inteligência narrativa, o primeiro filme característico da ideologia da “guerra fria”, servindo de forma hábil, a atitude ocidental face ao ex-aliado, nesses anos já mais do que potencial inimigo. Filmado em grande parte nas ruas bombardeadas de Viena no pós-guerra, The Third Man é um filme que começa e acaba num cemitério e tem uma sequência decisiva nos esgotos. Mas nada disto acontece por acaso: na cidade cercada, são os mortos que reinam, sejam eles verdadeiros ou falsos, e a merda substitui as valsas, num Danúbio que já foi azul. Esteticamente complexo, Reed raramente filma uma cena em que existam apenas ângulos lineares. O recurso a grandes angulares e perspectivas distorcidas, os enquadramentos oblíquos, o uso repetido de grandes planos insólitos sobre Orson Welles, a par da luz minimalista, das sombras fantasmagóricas nas calçadas de pedra com arcos suspensos, definem por excelência o film-noir e, na sua insólita desproporção formal, erguem um monumento à glória de um cenário: jamais Viena foi mais onírica e letal do que neste filme. Tal não será completamente alheio ao facto de terem sido reunidas no projecto várias escolas e sensibilidades artísticas. Na cidade de 4 zonas, é um filme de 4 zonas: Carol Reed e Graham Greene que escreveu o argumento são ingleses; Vincent Korda, é austro-hungaro e empresta uma portentosa direcção artística própria de um homem dependente da cultura centro-europeia e que conhece Viena como ninguém; Robert Krasker o director de fotografia é um digno herdeiro da escola alemã dos anos 20; Joseph Cotten e Orson Welles são americanos. No conjunto, o poderoso argumento de Graham Greene, a fotografia de Robert Krasker, a prestação dos actores e a realização de Reed, compõem uma magistral observação à tensão entre a lealdade, o amor e a amizade por um lado, e a verdade e justiça por outro. Os vienenses sufocam com o cinismo de um continente destruído e de uma cultura gravemente danificada; os ingleses apenas conhecem o lado da verdade / justiça da equação; o escritor americano de ficção pulp e westerns é suficiente ingénuo para acreditar apenas na amizade e na verdade. Completamente perdido no mundo daquela cultura, segue ambas para qualquer lado e nada entende dos valores que estão em causa. Humano, sinistro, solitário, mas sobretudo ambíguo e capaz de matar o amante da mulher por quem, de forma impotente, se apaixonou e que um dia lhe dedicou uma lágrima. É “Mr. Martins from the other side”, o percursor do Americano Tranquilo do mesmo Graham Greene. A música da cítara de Anton Karas completa o quadro. Karas, um cigano que não sabia uma nota de música e que depois do filme se tornou famoso e ganhou imenso dinheiro, foi descoberto num pouco recomendável bar nocturno de Viena e contratado em cima da hora a fim de compor e executar o fundo musical do filme. O resultado é uma fusão perfeita entre as imagens a preto e branco e a cítara de Karas, realçando o belo perturbador no seu todo.

Orson Welles. Para além dos rumores que correram segundo o qual teria sido ele a dar uma mão na realização de Reed e na composição do seu personagem, (nem confirmados, nem desmentidos oficialmente pelo vaidoso Orson Welles), este tem uma curta aparição de apenas alguns minutos no filme, porém poucos actores fizeram melhor uso de tão escasso tempo de ecrã como nesse instante. Genial, shakespeareano, presença enorme e absoluta, interpreta o infame, individualista e psicopático Harry Lime. Num cena única, - filmada no interior de uma roda gigante – Lime, que até então tinha encenado a sua própria morte para iludir polícia, tenta convencer o seu velho amigo, e muito possivelmente o seu novo inimigo, Holly Martins (Joseph Cotton), a trabalhar consigo no mercado negro da cidade militarmente dividida. O seu adeus, - improvisado por Welles – é um dos mais memoráveis momentos conseguidos em cinema.

Harry Lime: É bom ver-te, Holly.
Holly Martins: Estive no teu funeral
Lime: Foi uma jogada esperta, não foi? Ah, a velha indigestão, Holly. Estas são as únicas coisas que ajudam, estes comprimidos. São os últimos. Não os consegues encontrar em mais nenhuma parte na Europa.
Martins: Sabes o que aconteceu à Anna? Foi presa.
Lime: Duro, muito duro, mas não te preocupes. Eles não lhe vão fazer mal.
Martins: Eles vão entregá-la aos Russos.
Lime: Mas que posso eu fazer, velho amigo? Estou morto, não estou!?
(...)
Martins: Por acaso já viste alguma das tuas vitimas?
Lime: (Olhando para a roda gigante) - Sabes, nunca me senti confortável com esse tipo de coisas. Vitimas? Não sejas melodramático. (Acenando para as pessoas lá em baixo.) Olha lá para baixo. Serias realmente capaz de sentir alguma pena se algum daquele pontos negros parasse de se mover para sempre? Se te oferecesse 20.000 libras por cada ponto imobilizado, serias capaz, meu velho, de me dizer para ficar com o meu dinheiro, ou irias calcular quantos pontos te poderias dar ao luxo de dispensar? Livre de impostos, meu velho. Livre de impostos. É a única maneira de se fazer dinheiro hoje em dia.
(...)
Lime: Eu tenho uma arma. Não penses que eles iriam procurar o buraco de uma bala depois de bateres contra o chão lá em baixo.
Martins: Mas eles iriam desenterrar o teu caixão.
Lime: Pra encontrar o Harbin? Hum-hum. (Batendo paternalmente no ombro de Martins.) Que pena... Holly, que loucos nós somos, a falarmos um com o outro desta forma, como se eu fosse capaz de te fazer alguma coisa, ou tu a mim. Tu estás apenas um pouco confuso com as algumas coisas em geral. Ninguém pensa em termos de seres humanos. Se os governos não pensam, porque haveríamos nós de o fazer? Falam sobre o povo e o proletariado, eu falo sobre os que mamam e os trouxas! É precisamente a mesma coisa. Ele têm os seus planos de 5 anos, e eu tenho o meu!
Martins: Tu costumavas acreditar em Deus.
Lime: Oh, eu ainda acredito em Deus, meu velho. Acredito em Deus, na misericórdia e em tudo o resto. Mas os mortos são mais felizes mortos. Não perdem grande coisa aqui, os pobres diabos. Em que é que tu acreditas? (A roda gigante pára no solo e ambos saem.) Oh, se alguma vez conseguires sacar a Anna desta trapalhada, sê bom para ela. Vais perceber que ela merece. Eu gostava de te ter pedido para me trazeres alguns destes comprimidos lá de casa. E gostaria também de te meter dentro do negócio, meu velho. Não resta ninguém em Viena em quem possa confiar e sempre fizemos tudo juntos. Quando te decidires manda-me uma mensagem. Encontrar-me-ei contigo em qualquer lugar, a qualquer hora, e quando nos encontrarmos, meu velho, é a ti que eu quero ver, não a polícia. Vais lembrar-te disso, não vais? (Sorrindo) E não estejas tão deprimido. Apesar de tudo, não é assim tão mau. Lembra-te o que aquele tipo disse: em Itália, durante 30 anos sob o jugo dos Borgias, tiveram um estado de guerra, terror, assassínio, sangue derramado, mas produziram Leonardo da Vinci e o Renascimento. E na Suiça tiveram amor fraterno em 500 anos de democracia e paz, mas o que é que eles produziram? O relógio de cuco! Até sempre, Holly.

17/06/04

Deco, por Trigue da Malásia

Há quem pense que o racismo se manifesta quando se define uma discriminação com base na cor da pele. É errado. O preconceito com base na cor é recente, remonta ao tempo em que foi necessário justificar a escravatura dos negros. Antes, o factor discriminador era a fé. O modelo era a hegemonização com base na fé. Cristianizar. Os cristianizadores julgavam-se portadores da verdade. Este é o equívoco sobre o qual assentam todas as atitudes discriminatórias. Cristianizou-se à força, pois a força, sendo verdadeira, era libertadora do forçado. Os judeus foram as principais vítimas. Eram deicidas. Muitos fugiram, outros converteram-se, com sinceridade ou não. Ainda assim, estabeleceu-se uma distinção infame entre cristãos-novos e cristãos velhos. A Inquisição definia as regras para considerar o sangue limpo de judaísmo. A ideia de Igualdade ainda não triunfara. Com o advento da contemporaneidade e o triunfo do conceito de cidadania, iniciou-se um longo caminho para abolir as diferenciações com base na religião, no sexo ou na raça. Não é mais admissível distinguirem-se os cidadãos com critérios que não dependam do mérito e das qualidades individuais. Não há privilégios de nascimento, nem se aceita qualquer predeterminação legitimada em verdades reveladas. No entanto, levantava-se um problema: o que une então os portugueses? O que faz de nós um povo? Esta é a grande questão do nacionalismo romântico em toda a Europa. Estuda-se a alma nacional, os costumes, crenças, tradições, com o objectivo de definir o que é ser português. O curioso é que esta nova sociedade, dessacralizada e racionalizada, não aboliu o critério da Verdade para fundamentar o sentido da pertença do indivíduo na comunidade. Pelo contrário, no lugar da verdade religiosa colocou uma verdade científica. Para falar apenas no caso português, houve quem valorizasse um eventual substrato étnico. Fosse céltico, latino, germânico ou até moçárabe, na teoria estapafúrdia de Teófilo Braga que mereceu o escárnio imediato de Oliveira Martins e que foi logo enjeitada. Outros, buscaram na geografia o elemento definidor da nacionalidade. Haveria uma pretensa individualidade geográfica que exerceria uma influência irrecusável sobre as gentes que ocupam o território, moldando-lhes o carácter e definindo os contornos da identidade nacional. Teve os seus arautos, esta tese. Hoje é por todos considerada risível! O que define então a cidadania é a vontade de pertencer a uma determinada comunidade que partilha um território, uma memória, uma cultura, um conjunto de valores. A comunhão total é impossível e indesejável, mas admitamos que há-de haver um conjunto mínimo de valores essenciais, sem o que não se admite a existência de uma identidade supraindividual. Esses valores partilhados não são específicos, nem exclusivos, nem inacessíveis a quem os quiser partilhar. Esse estatuto não está subordinado a factores naturais ou sobrenaturais, indiscutíveis. Agora, é a lei civil, já não o ditame religioso ou a antropologia física, que regulamenta o modo de aceder à cidadania e à nacionalidade. A lei é aprovada por órgãos soberanos com legitimidade democrática. Uma vez adquirida a cidadania, ela não pode ser diminuída sob nenhuma forma. O novo conceito já não é homogeneizador. Admite a pluralidade, o convívio da diferença, a multiculturalidade, o ecumenismo, a diversidade. Esta é a primeira e mais importante característica da pós-modernidade. Encerra um risco, aquilo a que estudiosos anglo-saxónicos, como John Solomos ou Les Black, já chamam «o novo racismo cultural». Nesta nova concepção, que supera a diferenciação com base na fé e na pigmentação da pele, processa-a agora a partir de um certo particularismo cultural inconcretizável e indefinível. Dispensa-se qualquer necessidade de argumentação, pois se afirma a cultura como adquirida naturalmente através de um longo processo cujos contornos são impossíveis de circunscrever, mas que uma vez concluído, faz com que seja impossível escapar ou aceder a esse particularismo cultural que se define pseudobiologicamente. Ou seja, uma vez português, português para sempre. Não sendo português quando atingida a maturação, jamais se poderá aceder ao verdaeiro sentido da portucalidade a não ser formalmente. Diz-se então coisas como »não sentem o hino como nós», «não vibram como nós», não sofrem, etc. Isso permite aos arautos desta nova mutação da ideologia racista, prosseguir numa estratégia discriminatória que, segundo os autores já citados, lhes confere a base teórica para circunscrever o conceito de nação a partir desse particularismo cultural, definindo os excluídos como sendo aqueles que não podem comungar deste estatuto.
Ora, neste contexto, as afirmações de Figo acerca da naturalização de Deco assumem uma particular gravidade que merece ser severamente contestada. Afirmou o jogador do Real Madrid, reiterada e reflectidamente, que discordava que jogadores naturalizados pudessem jogar na selecção. Ao arrepio do que se faz noutras selecções europeias, e mesmo nas selecções portuguesas de todas as modalidades incluindo o futebol. Sem nunca o citar, Figo tinha um alvo: Deco. Esta opinião do Figo supõe um preconceito racista na medida em que coloca como condição para representar a selecção algo que não depende do mérito, nem da vontade de um cidadão português. E o homem que anda a vender bandeiras pelos hipermercados, em poses patrioteiras deveria ao menos justificar a sua disparatada opinião. Mas não o faz. Porque essa opinião não é defensável! Pede que respeitem a sua tola opinião. Justamente o que, em nome dos direitos de cidadania não se pode fazer. Dado o estatuto, o impacte e o alcance das afirmações de Figo, ele mereceria repreensão pronta e ríspida. Poucos o fizeram e foram mais os que concordaram, mostrando uma impunidade consentida pelos idólatras de um país que não consegue separar a admiração devida ao desportista da repreensão que merecem as suas afirmações. O Deco adquiriu a nacionalidade portuguesa, nos termos da lei e da constituição. Ponto final! Os direitos de cidadania, uma vez adquiridos, não podem ser ofendidos ou sequer levemente beliscados por opiniões subjectivas que ferem, nem que seja muito levemente, o pleno usufruto da cidadania! O Deco é cidadão de pleno direito e ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de colocar em causa os seus direitos de cidadania,seja sob que forma for, incluindo a opinião pessoal. Quando é o Figo a proferir essa opinião, dada a sua popularidade e o cargo que desempenha como membro oficial de uma selecção nacional, deveria estar consciente das implicações da sua opinião e não se refugiar nesta desculpa: é a minha opinião, tenho direito a a vê-la respeitada. Não, não tem, porque é uma opinião idiota, que coloca em causa o estatuto de um seu companheiro que foi obtido nos termos da lei e da Constituição e que está exactamente ao mesmo nível de direitos e deveres que ele próprio. O que a opinião disparatada do Figo supõe é que ele se considera mais cidadão do que o Deco. E não é. Como se houvesse uma categoria para cidadãos-novos e outra para cidadãos-velhos!

16/06/04

Um milagre simples, por Cão

A realidade é uma coisa inventada pela televisão, paginada pelos jornais e repetida pelos parolos que se abstêm ao domingo para dizer mal dela à segunda-feira. “Basicamente é assim”, concordaria comigo um parolo qualquer como eu.
Acontece que descobri a solução para os males da realidade: basta não deixar que Junho acabe. Dois jogos de bola por dia, um morto ilustre por semana e milhares de bandeiras nacionais flamejando varanda sim popó também. E está feito. É um milagre simples.
Se Junho não acabar, Victoria Beckham fica entre nós e põe os filhos a estudar no ensino público. Se Julho não entrar, Marco de Canavezes, a Madeira, Felgueiras, Pombal e Matosinhos passarão também a fazer parte da realidade, já que da normalidade não é possível.
Se conseguirmos ficar em Junho para sempre, os incêndios de Agosto nem começam. Também fica resolvida a questão da limitação dos mandatos com a mandatação dos limites. O crédito bonificado não subirá a partir de 1 de Julho porque não vai haver 1 de Julho algum. E ainda há tempo para antecipar outra vez o Bodo.
Só vejo vantagens. Não envelheceremos mais que isto. Tony Carreira pode dar-nos um concerto eterno. Guterres, esse outro Tony, não vai ter tempo para voltar. Álvaro Cunhal permanecerá firme na luta contra o grande capital em defesa das conquistas de Junho, perdão, de Abril. As multas da Pombal Viva poderão ser pagas no mês que vem. O Portas não chega a receber os submarinos de brinquedo. O défice fica como está. A abstenção nunca mais vai subir. Melhor que tudo, temos tudo para ainda dar a volta ao 1-2 contra a Grécia. Com a realidade suspensa, podemos tomar a nuvem por Junho, além de uma cerveja geladamente estúpida. As três empresas que ainda pagam o subsídio de férias podem sempre declarar falência retroactiva a 1143, ano em que a realidade se começou a estragar.

15/06/04

Ingleses pra inglaterra, já! por Zidane

Como se esperava os ingleses atacaram de novo. Desta vez em Albufeira, de uma forma mais selvática, mais british, depois da tímida investida com gás em Lisboa sobre os marchantes e de uns abanõezitos nos franceses para aquecer. Como se sabe, esta espécie de animais, tem este comportamento em todo e qualquer grande evento futebolístico fora de inglaterra. Começa como está a começar no Euro português – primeiro timidamente, depois em força, até proporções drásticas, com feridos e mortos.

O Hooliganismo inglês começou a desenvolver-se nos anos 70-80, primeiro ao nível de clubes como o Manchester, o Chelsea ou o Liverpool, depois na selecção. A UEFA assistiu complacentemente à onda de barbárie, até que se deu o inevitável: Heysel Park. Remediou-se depois, o que deveria ter sido prevenido antes. A UEFA viu-se obrigada a agir e decretou uma suspensão de todo o futebol inglês durante três anos. Duas décadas depois, os ingleses estão na mesma ou pior.

Sob pena de voltarem a ser cúmplices de uma tragédia que se avizinha mais cedo ou mais tarde, em Portugal ou noutro sítio qualquer, é necessário que os senhores da UEFA tomem a única medida que é sensato tomar. E já. Dando sequência à promessa já feita, a UEFA deve decretar já a EXCLUSÃO IMEDIATA DA SELECÇÃO INGLESA DO EURO.

Não creio que haja outra forma de lidar com estes energúmenos. Os hooligans exercem uma violência ideológica. O hooliganismo é uma ideologia que faz a apologia da violência, do racismo e do territorialismo. Uma das formas típicas do modus operandi desta cambada é o isolamento das zonas centrais das cidades, o seu controlo (cortar o trânsito, enxovalhar os incautos automobilistas que se aventuram pela «zona ocupada», etc). o hooliganismo implica promoções de guerra dentro da horda – medalhas por participação nas «batalhas» - e uma estética identitária que tem a ver com hinos, cânticos, fardas, pinturas e outros códigos.

Esta violência ideológica é dificil de travar porque quando a polícia carrega sobre estes cavalos, entra na lógica deles. É para isso que eles cá estão: para lutarem, para destruírem e defrontarem os «exércitos inimigos». Cada carga policial só reforça ainda mais a lógica de guerra do hooliganismo. Não que não lhes devamos partir os costados – claro que sim, eles merecem. Mas não tenhamos ilusões: não resolvemos o problema desta maneira, pelo contrário. Só há uma forma eficaz: é cortar o mal pela raiz e isso significa manter estas bestas na terra deles. E aí, a única solução é excluir a selecção inglesa das grandes competições. É altura da UEFA deixar de fazer contas e assumir uma posição decente, para que não seja no futuro acusada de conivência tácita com estes selvagens. A próxima paragem é Coimbra e nesse dia eu vou ficar em casa com a pistola carregada.

13/06/04

Jambalaya, por Mangas

A cultura Creole nas áreas rurais do sudoeste no estado do Louisiana, é originária de outras culturas ancestrais e mescladas entre escravos africanos, gente livre de cor, colonos franceses e espanhóis, cajuns, afro-americanos e nativos americanos. Cajun, é a pronunciação em dialecto de Acadian, de Acadia, antiga colónia francesa presentemente conhecida por Canadian Maritimes, uma vasta região entre o Quebec e o oceano Atlântico que inclui as províncias de New Brunswick, Nova Scotia, Prince Edward Island e as Newfoundland. Os colonos franceses, obrigados a dispersar ou a um exílio forçado pelos ingleses, desceram a sul e fixaram-se em New Orleans no período compreendido entre 1764-1788. A comida cajun é, por excelência, quente, espessa e vigorosa. Jambalaya, gumbo, etouffee são pratos tradicionalmente ricos de sabores e temperos que evoluíram através dos séculos à medida que cada um destes grupos étnicos adicionavam os toques especiais da sua cozinha à comida local.
Jambalaya, francês do Louisiana, proveniente do provençal “jambalaia”, é por definição um prato de herança creole, cuja base é o arroz cozinhado com camarão, lagostins, ostras, salsichas, frango, e/ou porco e temperado com variadas ervas e especiarias. Segundo o "Chef Paul Prudhomme's Louisiana Kitchen," livro que em 1984 fez explodir a culinária Acadiana em todo o mundo pelo mão do grande mestre da cozinha cajun Paul Prudhomme, a palavra é originária da fusão entre "jambon a la ya," ligando o francês para presunto ou pernil de porco, "jambon", com o africano para arroz, "ya". Começou por ser, como a maior parte dos mais populares e carismáticos pratos de cozinha tradicional, uma receita caseira e barata na qual se usavam quaisquer que fossem os ingredientes disponíveis ou à mão de semear.
Celebração de uma cultura, a jambalaya, evoluiu ao longo dos tempos a partir da paella espanhola e admite uma lista infinita de ingredientes, com ou sem tomate, mas sempre hot and spicy, bem ao gosto das gentes do Louisiana, plena de temperos e ervas numa mistura de paladares que vai muito além do simples ensopado de carnes, marisco ou peixe. Tal como o gumbo, (sopa espessa feita à base de vagens de quiabos), e outros pratos cajun, as variações são tão numerosas que muitos são os chefes que já se contentam em não cozinhar duas versões iguais. Pondo as coisas desta forma, deve acrescentar-se que as receitas de jambalaya mais comuns jamais prescindem de galinha e enchidos frescos como ingredientes básicos, ficando o acrescento dos mariscos ao critério das bolsas de cada um, ou da vastíssima oferta dos restaurantes.
Independentemente da maior ou menor variedade de ingredientes ou dos gostos pessoais na escolha dos mesmos, qualquer receita de jambalaya começa por refogar quantidades generosas de cebolas, aipo e pimentos vermelhos (aquilo a que na cozinha cajun é conhecida pela Holy Trinity), acrescentado de seguida o alho. À parte deve-se refogar tomates pelados com cebolinhos cortados. Num tacho, em ferro fundido de preferência, alourar entre 5-10 min., em manteiga derretida, as salsichas frescas, a galinha ou frango, pedaços de pernil de porco e os mariscos. Adicionar a este potentado a Santíssima Trindade, e deixar cozinhar mais 5 a 10 min. até que os vegetais fiquem ligeiramente castanhos e estaladiços, mas nunca demasiado passados. Acrescentar o arroz e permitir uma breve cozedura, 1-2 min. no máximo. Finalmente, adicionar o refogado de tomates e uma porção a olhómetro de caldo de peixe ou carne, consoante a preferência. Deixar cozer em lume baixo durante 20 min. Se necessário acrescentar no final um pouco de água ou caldo. Sal, pimenta, cominhos, ou outros temperos são adicionados durante o processo e a gosto.
Em alguns sítios acrescentam-lhe carne de jacaré dos pântanos do Mississipi, a que chamam bayou alligator - basicamente é tenra e sabe a frango. O produto final é uma poderosíssima combinação cujo elemento central é o arroz, e à volta do qual as carnes e os mariscos se misturam num frugal festim de paladares, aromas e cor. "Cajun food is poor people's food. If it moves, we'll eat it!". Jambalaya é comida de Porco também.

11/06/04

THE 39 KILLER, by Lewis Monster Dick

Dedico esta merda desta história porno a todos os que elogiam o Tapor, considerando-o uma mistura de sexo e merda. Agradecemos e retribuímos com esta cagada em tempos divulgada via e-mail entre os membros do Tapor e agora resgatada ao fundo do baú da memória.



THE 39 KILLER
A SHORT TALE FROM THE DEPRESSION DAYS
by Lewis Monster Dick


A puta da grande depressão tinha dado cabo do meu negócio. Eu tinha uma loja de flores na avenida 45, mas agora já ninguém oferecia flores antes de foder e eu estava a ir à falência. Quando se fode sem antes oferecer flores, isso é sinal de depressão económica. Não é que a malta tenha deixado de foder, deixaram foi de oferecer flores antes e eu é que me fodi. Tive que fechar a loja e despedir a Harriet que era uma ruiva boa como o caralho com uma peida de enlouquecer e um clítoris grande e muito sensível. De cada vez que lhe dava uma lambidela ficava a baloiçar durante 3 segundos, parecia o badalo do sino da igreja de St. Andrews. E gemia que parecia uma ambulância engasgada. Ela era a única gaja que se aguentava comigo, já vão perceber porquê, e por isso eu tinha que conservá-la. Se querem que vos diga eu até me estava a cagar para o negócio, isso era um pretexto para foder a Harriet. Tenho saudades do tempo em que chegava à loja de manhãzinha cedo, a miúda já estava atrás do balcão e eu estalava os dedos. Ela já sabia como é que era: amochava e fazia ali logo uma mamada enquanto eu atendia os clientes. Depois, quando eu ouvia aquele «slurp» já sabia que o serviço estava pronto. Naquele tempo eu só acordava depois do «slurp», era o meu despertador. Ela levantava-se, limpava a beiça com um lencinho branco rendado e perfumado e eu ia tomar o pequeno almoço ao bar do Joe na esquina com a 46. Isto sim, isto era vida. Eu até me estava a cagar para o negócio. A vida corria-me bem, até que, com a puta da depressão, tive que fechar a loja e despedir a Harriet que foi mamar para um escritório de advogados especializados em falências. Tive pena de a perder. Os ricos andavam-se todos a matar e as viúvas dos suicidários tinham vontade de morrer mas não sabiam como. Eu também não me atrapalhei e segui o meu lema: «fode quando estás por cima e foge quando 'tás por baixo». Fechei a loja e pensei instalar-me num novo negócio. Comprei uma Magnum 38 e instalei-me como detective. Eu usava a Magnum no lado direito das calças porque, desde pequenino me habituara a virar o 39 para o lado esquerdo. Assim, as coisas ficavam equilibradas. Não fui eu que lhe chamei 39, foram elas. Eu só descobri a razão da alcunha no dia em que vi pela primeira vez uma fita métrica. Foi então que descobri que não era como os outros. Fiquei um bocadinho preocupado e fui ao consultório do Dr. Goldberg. Quando o gajo me viu exclamou:
- Foda-se! 39!!!
O doutor ficou tão espantado que a enfermeira do gajo se assustou e entrou de rompante pela sala de observação. Bem, a moça ficou tão passada que se atirou logo ali. Agarrou uma bola em cada mão de forma tão delicada e embevecida que parecia que se aprontava para me embalsamar os colhões. O cabrão do Goldberg fugiu e eu fiquei ali com ela. Aproveitei para lhe arrancar as cuecas à dentada. A moça ficou extasiada. Estava tão húmida que até me pingou o dedo grande do pé. Depois foi uma fartura. A moça ficou com os olhos revirados, entrou em coma e morreu com uma hemorragia interna e um sorriso nos lábios. Foi a minha primeira vítima. Aquela merda afinal era perigosa. Fiquei a saber que tinha uma arma letal. Quando comprei a 38 fiquei com duas armas letais. Abri um escritório de detective. Aluguei um dos muitos que vagaram numa perpendicular de Wall Street. Os homens de negócios, correctores, contabilistas e o caralho andavam a suicidar-se em série, por isso as rendas estavam baratas e eu aproveitei. Mandei gravar uma placa: «Monster Dick. Private Detective» A merda é que ninguém aparecia. Nem uma puta duma cliente. Ali estava eu às moscas com o dinheiro a acabar. Estava deprimido e por isso saí para a rua. Recordo-me perfeitamente. Naquela noite chovia a potes. Estava um vento frio comó caralho. Peguei no meu velho Chevy e andei às voltas. Andei tanto que já não sabia onde estava, até que vi ao longe o letreiro de um motel e fui para lá. Toquei à campaínha enquanto desapertava os botões da gabardine e me sacudia da água gelada da chuva. Nisto, apareceu a recepcionista: uma velha para aí de 70 anos a fumar um cigarro sem filtro. A mulher fixou os olhos no 39, eu esqueci-me que não devo desapertar os botões da gabardine porque ando sempre com tusa. E ficou maluca. Bom a velha estava um bocado enferrujada, mas levou uma enrabadela como já não levava desde o tempo da guerra hispano-americana. A gaja gania que parecia doidinha. Os hóspedes dos quartos próximos apareceram a pensar que a estavam a assaltar. Entraram na recepção e quando viram aquilo primeiro indignaram-se, depois espantaram-se, depois despiram-se e juntaram-se à festa. Tive que mandar um maricas embora. Mas as outras gajas marcharam. Fizémos um bacanal interessante. Eram cinco gajas, sem contar com a velha que ficou com falta de ar e morreu asfixiada (foi a minha segunda vítima). Aquilo foi à canzana, à dentada, à dedada e à punhada. No fim, o balanço deu:
- Uma gaja ficou histérica e nunca mais disse coisa com coisa. Os médicos diagnosticaram-lhe esquizofrenia e internaram-na.
- Outra ficou com o nervo ciático rebentado e passou a andar de cadeira de rodas. Especializou-se em sexo oral e foi fazer filmes para Miami.
- Duas ficaram gagas.
- A última ficou incontinente urinária porque lhe rebentei com a bexiga. Passou a mijar com uma algália, foi para um convento e abalou prás missões na Tanzânia. Nunca mais cedeu à tentação da carne.
Isto sem contar com a velha. Enfim, um massacre. Fui-me deitar e no dia seguinte comprei o Wall Street Journal. Lá estava em letras enormes a dizer que a vaga de suicídios continuava. Os contabilistas mandavam-se dos arranha-céus abaixo e as mulheres ficavam viúvas. Os gajos até entrevistaram uma viúva fina que dizia que só tinha vontade de morrer. Faltava-lhe era coragem e não sabia como se matar. Foi então que tive uma ideia brilhante. Pus-me no Chevy e acelerei até ao escritório. Arranquei a placa e, onde estava «Private Detective» risquei e a coisa ficou assim: «Monster Dick. Die with a smile on your face» O negócio prosperou, eu recuperei a Harriet. Quando a vi disse-lhe:
- Here we are, babe, back to our slurppy days!


THE END

09/06/04

As Músicas do Porco. Jumpin Jack Flash, por Jacinto *

Eu sei que já é a segunda música dos Stones que indico aqui, mas esta é mesmo incontornável. Se eu tivesse que escolher a música que melhor simboliza uma estética – a do Rock – , era esta. Jumpin Jack Flash, e não Satisfaction, por exemplo. JJ Flash é a música mais enérgica da história, uma explosão atómica em pleno paleolítico inferior. Quando a ouvi pela primeira vez, na versão do Love You Live , num deckzito oferecido pelos meus pais, eu vi uma luz e transformei-me no Jacinto para o resto da vida.

A música marca o fim de um equívoco na carreira dos Stones. Sucede-se ao álbum psicadélico, Their Satanic Majesties Request (1977), uma resposta bastarda ao conceptualismo de Sgt. Peppers, dos Beatles. Their Satanic é um álbum muito marcado pelo funesto Brian Jones: de inspiração orientalista, conteúdos de ficção científica (2000 Light Yearts From Home, In Another Land…) e uma profusão de instrumentos musicais pouco típicos nos Stones, como cítaras, tímbalos, e teclas em excesso… Na fase Their Satanic, os Stones vestiam-se às cores, como hippies apalhaçados acabados de chegar de S. Francisco. Não é um mau álbum, mas não é este O Caminho da banda.

Jumpin sai em single em 1968 e não num álbum de originais (o álbum desse ano é o seminal Beggars Banquet que tem, contudo, uma música que bebe da mesma fonte, Street Fighting Man). É uma canção básica («The most basic thing we have done this time», dirá sir Mick Jagger), uma cascata de riffs e de electricidade em catadupa. O som é caótico, freack, maravilhosamente desengonçado e primitivo – a referência aos Velvet Underground é notória.

O vídeo promocional, feito na altura, também rompe com a imagem pop e psicadélica das fases anteriores. A banda aparece diluída num fundo escuro, com pinturas de guerra, pose agressiva e atitude andrógina. Jagger salta como um desalmado na sua melhor forma de sempre. Os Stones assumem definitivamente a sua marginalidade intrínseca. O vídeo é a perfeita ilustração da nova energia da banda. Richards define esta fúria como ninguém:

«When i play that first riff in jjflash something happens on my stomach – an amazing superhuman feeling. You just jump on that riff. And IT PLAYS YOU».

E foi isso que eu senti no Monte do Gozo em Santiago de Compostela quando soaram os primeiros acordes de jjflash, a abrir o concerto. Alguma coisa me tocava de novo, muitos anos depois da luz que me transformara no Jacinto. Geralmente a canção é deixada para a parte final dos concertos ou para os encores. Em Santiago foi a abertura e eu senti a tal explosão, um verdadeiro murro no estômago que me atingiu durante duas horas. O Guaraná estava comigo e pode testemunhar que eu não consegui parar mais.

Há dezenas de versões da música – incluindo as bootlegs - e, poucos são os álbuns ao vivo, vídeos ou dvds em que ela não aparece. Curiosamente, uma das versões mais populares, haveria de surgir no primeiro álbum ao vivo oficial dos Stones, Get Year Ya Ya`s Out de 1969. Por mim ainda prefiro a velhinha primeira versão de estúdio e não me toca especialmente a versão mais acelerada, que aparece sobretudo nos álbuns ao vivo dos anos 80. JJFlash não retira a sua força da velocidade. Pelo contrário, a versão mais lenta, a original, torna os riffs mais poderosos e a tensão mais nervosa.

No mítico concerto de Coimbra, jjFlash fechou o espectáculo. A abertura foi Brown Sugar, outros dos grandes clássicos que se lhe aproxima em energia. Eu nunca mais me esqueço da cara de espanto do Mangas, pouco depois de soarem os primeiros acordes, a olhar fixamente para o ar furioso de Richards e o jingar felino de jagger: «São animais de palco, mene, olha-me isto» - dizia ele. E são: Jumpin Jack Flash, it`s a gas, gas, gas….

* Pastor. Recentemente canonizado.

07/06/04

Champ !, por Porco Fascista

O professor Mário Pinto, no «Público» de hoje, traz um artigo de opinião muito interessante sobre a fundação Champallimaud. O falecido foi um capitalista frio, inteligente, calculista, reservado, polémico. Chamaram-lhe de tudo. Acusaram-no de tudo. Defendeu-se de tudo. Ganhou a todos, incluindo aos familiares mais próximos, e morreu sozinho. Não o admiro particularmente. Os meus modelos são de outras latitudes. O que me traz aqui, porém, é o que Mário Pinto insinua diplomaticamente. A Fundação que Champallimaud deixou em testamento não leva o seu nome pessoal, destina-se à investigação médica e ao benefício de todos e será realizada integralmente com capitais ganhos pelo próprio. O colunista estabelece a comparação com outras fundações privadas realizadas com capitais públicos e que perseguem fins laudatórios dos próprios patronos, beneficiam de favores políticos e de decisões de familiares que desempenham funções públicas e que deveriam defender os interesses da República mas visam o engrandecimento de uma memória pessoal e familiar. O colunista é diplomático e não refere o nome da Fundação Mário Soares. No entanto, nós aqui no «Tapor» não somos diplomáticos e eu afirmo-o com todas as letras: vai sendo tempo de abandonar o politicamente correcto e afirmar categoricamente que o país deve muito a Champallimaud. O capitalista podia ter mau feitio, mas deu ao país uma siderurgia que nunca tinha tido, uma indústria de cimentos, bancos, companhias seguradoras, um grupo financeiro que gerou uma das maiores fortunas mundiais. No fim da vida, sem alardes, discretamente, sem espírito de vingança nem vaidades, legou grande parte dos seus milhões para a constituição de uma fundação de utilidade pública. O Mário Soares pode querer escrever a história da maneira mais conveniente, convocando para tanto os escribas da Nação agregados em torno da sua fundação. Não discutimos, naturalmente, o papel que teve na fundação da democracia, mas também não sonegamos as responsabilidades que teve na maior tragédia da história portuguesa: a descolonização! A Fundação que criou está, antes do mais, a concretizar um impulso burguês, já tardio e herdeiro do liberalismo individualista, que vê na realização do indivíduo o fim supremo do Estado. Aquela Fundação é o corolário desta orientação. A Liberdade, para esta gente, é uma coisa sagrada e exprime-se pelos feitos individuais. Por isso, os burgueses esforçam-se por legarem o seu exemplo aos vindouros, agindo sobre a memória colectiva. Fazem-se pintar, fotografar e esculpir. São amigos de pintores e fotógrafos, arrogam-se amantes das artes, têm os seus escribas oficiais, organizam arquivos pessoais, dão o nome a ruas, publicam as memórias em que publicitam o seu quotidiano, os seus gostos pessoais e a sua intimidade, convencidos que tal se reveste de uma importância enorme. São regiamente magnânimos, mostram-nos a mulher, os filhos, os netos, os amigos e partilham connosco a sala de estar. O futuro conservá-los-á na memória, essa é a imortalidade que eles ambicionam e para isso se empenham no presente. Champallimaud nunca foi nada disto. Ele pertence àquela casta de homens saídos do Antigo Regime anterior à afirmação dos ideias burgueses e individualistas que, em Portugal, teve em Pombal o seu melhor exemplo e em Salazar a sua versão anacrónica , provinciana e beata. Estes buscam o bem comum dos povos e encaram o Estado como uma realização suprema que despreza os interesses particulares. Propõem uma ética do sacrifício e da austeridade. Erguem uma barreira intransponível entre o privado e o público. Desprezam a crítica porque se acham convictos do seu rumo e da validade das suas opções, como se estivessem dotados de uma certeza escatológica. Não temem a morte e acham que os vindouros lhes reconhecerão o valor e a obra. Nunca no imediato, mas num futuro longínquo. Por isso, não valorizam as adversidades do presente que encaram como passageiras. Eu acho, sinceramente, que o futuro não contemplará nenhuma das concepções: nem a superlativização do Estado, nem a canonização do «Eu» burguês. A pós-modernidade decretará a falência do Estado Absoluto, seja fundado na Luz da razão, na vontade da Providência, na soberania popular ou na sacralização dos direitos individuais. Mas, para já, devo dizer que Champallimaud, do fundo do seu corporativismo pré-liberal, lançou uma bofetada póstuma nas bochechas republicanas, laicas, socialistas, burguesas, individualistas e egocêntricas de Mário Soares. Os vindouros poderão lembrar-se de Soares mas, se tudo correr bem, beneficiarão mais com o altruísmo de Champallimaud.

06/06/04

TWILIGHT ZONE, por Orlanda

A propósito do post anterior, veio-me à lembrança, ao ler uma reportagem do Público, que as mulheres já não são o bem raro que eram no tempo do saudoso Orlando. Veja-se o caso dos cursos de medicina. Parece que esmagadores 80 por cento dos alunos que frequentam medicina em Portugal são… alunas.

O que levou uns gajos da Ordem dos Médicos a levantar a questão: há que introduzir quotas para homens na entrada dos cursos. Retive três argumentos fundamentais:
1. Em certas especialidades é constrangedor para os homens serem observados por mulheres. E só há médicas nalgumas dessas especialidades, como é o caso de Urologia.
2. A gravidez. É um direito inalienável da mulher. Mas o certo é que quando uma médica que engravida não fica de baixa apenas os três meses seguintes ao parto, como a comum das fêmeas. Durante os 9 meses, nalgumas áreas, a sua intervenção fica reduzida ao mínimo porque não pode correr o risco de ser contaminada. Mas as doenças não querem saber disto e os doentes lixam-se por falta de médicos machos.
3. Finalmente, os médicos consideram certas especialidades pesadas para mulheres, como é o caso de ortopedia. É assim, prontos, elas são mais frágeis.

Donde, a mítica aula do Orlando peca por manifesta inactualidade. E em vez de estarmos aqui a discutir coisas ridículas como quotas para mulheres na política, devíamos era debater este assunto sério da falta que os homens fazem na medicina. Afinal, parece que elas já viraram o mundo de pernas para o ar.

04/06/04

DA ESCASSEZ DOS BENS, por CabraDoida

Primeira aula de Reais - Direitos Reais - cadeira semestral do 4º ano de Direito da Universidade de Coimbra. Ano de 1986. A Cabra acabava de tocar e a Peluda anuncia o Terror. Cuidado, cabeça baixa, ninguém olha directamente pra ele, que leva com pergunta ou patada, ninguém o questiona por pior que seja a ofensa discursiva, que isso dá direito a mais 10 anos de curso. O pessoal quartanista de fita e fato-morcego reconfirma a maioria das histórias e lendas da fera que ouviu até aí. É preciso cuidado, cautelas e camuflagem. As filas corridas dos bancos do fundo da sala, rapidamente esgotam. As fêmeas, descontroladas e fora de cotas, preenchem a maioria do anfiteatro da sala Marnoco e Sousa, repleta de azulejaria, de sol e das mais soberbas vistas sobre o Mondego e a Baixa de que há memória.

Acaba de imediato o ruído de fundo. Do meu canto, ao fundo, largo o Mondego e olho por baixo A FERA. A Fera e o Sábio - uma e a mesma pessoa - que a aula enche por alguma razão!
Por alto, o velho é baixote, grisalho de cabelo, adivinhando-se a peruca cuidada que cola o cientista da lei.

Sem mais, o Sábio volta-se e solta a Fera:
“ - Os Direitos Reais, são os direitos das Coisas. As coisas susceptíveis de direitos reais são aquilo que eu digo e não outra coisa qualquer e ai de quem me venha para qualquer oral sem saber de cor e salteado a minha definição do que é UMA COISA. Os Direitos Reais porque versam sobre as coisas e regulam o acesso do Homem às coisas são o garante da nossa civilização. E o garante porquê? Porque as coisas são escassas. E onde há escassez há conflitos de interesses, que importa regular. Escassez, obviamente, por culpa das fêmeas que não tinham nada que comer a maçã. Por esse acto leviano fomos expulsos do Paraíso e da Abundância.”

O mulherio, maioritário na Marnoco, começa a agitar-se na sala. Os machos começam a esboçar sorrisos, ténues, que todo o cuidado é pouco. E a coisa continua sem interrupção.

“ – Finda a Abundância, ficámos relegados ao trabalho duro e à escassez das coisas. Tudo o que nos é essencial à sobrevivência é Escasso. A natureza é parca e os Homens muitos e as culpadas de tudo isto ainda são mais.”

Uma fêmea levanta-se desafiadoramente e sai. Bate com estrondo. Duas fazem tenção de imitar o gesto, mas sentam-se de novo. Pelo canto do olho vejo um esgar de gozo ao canto da boca da Fera. O Reino Macho começa a relaxar e a apreciar.

“ – A escassez dos bens obriga à definição de regras para o acesso aos mesmos. Sem regras voltávamos à barbárie. Mas atenção, que nem todos os bens são escassos. Há muitos bens que são abundantes na natureza, mas que esta sociedade capitalista, apenas pela vontade do lucro e pela sede de exploração do suor alheio, torna escassos quando o não são.”

A metade direitista da sala começa a resmungar. A fera regozija-se e levanta a voz.

“ – Por outro lado ainda, existem outros bens que apesar de abundantes na natureza são tornados escassos, não pela civilização capitalista, mas sim pela maldita vontade do homem de instintiva e animalesca apropriação, como é o caso da Mulher, um bem precioso e abundante na natureza, que o macho torna escasso pela sua vontade de apropriação, que se manifesta por exemplo no Contrato de Casamento e na ridícula monogamia.”

Boa parte da fauna fêmea levanta-se e sai da sala. Caras de severa ofensa e olhares de raiva assassina fuzilam a Fera, que sabiamente aguenta a estampida em silêncio, mas com um olhar de gozo e desafio afivelado na cara. Saída a manada, o Sábio volta-se prá sala e remata:

“ – Nesta sala, o bem Mulher acabou de se tornar mais escasso ainda. Fica assim demonstrada como a acção do homem é preponderante na definição da escassez dos bens e no seu acesso a eles. Obrigado. Podem sair.”

Todos os anos a primeira aula de Reais era a mesma. Ao ilustre Professor Orlando de Carvalho tudo isto dava um profundo gozo, que se lia na cara severa mas gozona, de comuna e solteirão empedernido.

02/06/04

Baía dos Tigres: Literatura de Verdade, por Fernão

Baía do Tigres foi publicado em 1999 pela D.Quixote. Desde então já lá vão 6 ou 7 edições. O seu autor, Pedro Rosa Mendes, à altura jornalista do Público e viajante por vocação («O viajante é o contrário do turista», escreveu Paul Bowles), resolveu concretizar um projecto mais ou menos louco. Propôs-se fazer de novo o Mapa Cor de Rosa, isto é, o trajecto costa a costa, de Angola a Moçambique, realizado há um século pelos exploradores portugueses Capelo e Ivens. Propôs-se fazer o mesmo e sem batota, ou seja, deslocando-se nas mesmas condições das populações locais. Durante meses, um pequeno Ivens atravessou África, enchendo blocos de notas e arriscando o pêlo em campos de minas do tamanho de países europeus ou em zoológicos humanos dirigidos por generais sanguinários. Quando voltou, vivo!, fechou-se em casa e escreveu o livro. O resultado foi brilhante e surpreendente.

Baía dos Tigres mudou a vida do seu autor – o livro ganhou vários prémios, foi considerado um acontecimento literário, traduzido e publicado em Inglaterra, EUA, França, Espanha, Itália, Alemanha, Brasil, entre outros países… O que é interessante neste neo-clássico da literatura de viagens é que as histórias que nele são contadas - não excluindo a hipótese de serem também ficcionadas - são essencialmente verdadeiras. O leitor é convidado, tacitamente, a partir de um pacto inicial com o autor: ele, o leitor, deve acreditar no autor. Deve acreditar que ele não esteve fechado num Bolama qualquer, rodeado de palmeiras e nativas a ouvir histórias e a passá-las ao papel.

Esta tensão, que a todo o momento se estabelece entre o vivido e o ficcional, – é verdade ou é “mentira”? - é um dos aspectos mais interessantes do livro. É, por assim dizer, o seu condimento. Digo bem: o condimento. Baía dos Tigres poderia ser o mesmo livro se fosse completamente inventado, mas faltar-lhe-ia o sal e a pimenta que a Verdade lhe dá. Foi temperado com doses massiças de Verdade e é essa componente «realista» que lhe dá dimensão. Quem aceita o tal pacto, como eu, não pode deixar de pensar constantemente: “Mas isto acontece(u) mesmo!”, “Como é que ele se safou desta? (dos crocodilos, dos hipopótamos, dos cães da baía, da unita, do mpla...)», “ Que será feito desta gente? Dos militares idiotas, do homem calendário, do velho Norton, do Quim, que inventou uma língua chamada «quinês», dos ciborgues das minas , etc, etc?»…

Imagino que quem lê o livro numa perspectiva meramente formalista – análise estilística, métrica certa, essas coisas – não lhe consiga captar toda a beleza (e crueza). Falta-lhe o tal pacto de verdade que faz de Baía dos Tigres um análogo da literatura religiosa. Neste sentido: é também uma questão de fé. A Bíblia seria o maior best seller da história se não se presumisse – pelo menos da parte dos crentes – que ela revela uma verdade, a Verdade? Obviamente que não. Por maior que seja o seu valor literário, o que faz a sua eternidade é a sua pretensão de Verdade. Baía dos Tigres tem um pequenino lado Bibliófilo, neste aspecto - na verdadeira literatura de viagens, como esta, o elemento religioso está sempre presente..