30/07/04

As férias do Porco, por Top Tours

“(...) Ao contrário do que se verifica nalguns blogs, o Porco não vai de férias. O Porco nunca dorme. Vai uma parte do Porco, sim, mas fica cá, para tarefas de manutenção, pelo menos um funcionário. Os Porcos que vão de férias elegeram, este ano, os seguintes destinos turísticos para descansarem uns dos outros:

Grunfo – O Rei do Porco vai para a Dinamarca em missão de investigação sobre a indústria porno para escrever «aquele» post sobre o tema que prometeu e nunca fez.

Mau– Vai pra Buñol no seu país natal, tentar participar na Tomatina, uma vez que, ao contrário do Grunfo e do Viçoso que já lá andaram no meio da molhada, nunca passou de um observador longínquo da coisa.

Golfista Prateado– Vai à jordânia visitar uma daquelas cidades perdidas da grande nação árabe. Como não viaja de avião, já está a caminho…

Viçoso – Vai pra Cuba. Fica de molho numa praia a norte da ilha e vai conhecer de perto a revolução para se inspirar nos debates do Ranhoso acerca do General Lopez.

Milu – Vai para a Serra da Estrela para oxigenar os pulmões e o cérebro da agitada vida urbana de Coimbra. Tem lá agora uma ovelhinha nova que não vos digo nada…

Mangas – Vai fazer a Route 66 à boleia e fica uns tempos em Hollywood. Já organizou uma grande compilação de sucessos de Disco Sound para aguentar a jornada que inclui Village People, Bee Gees, Donna Summer, Patrick Hernandez  e a fabulosa série Stars on 45.

Tinó – Grécia. Desde a vitória dos Zagorakis que não fala noutra coisa que não seja em visitar os amigos que lá deixou e em jogar umas suecadas à sombra, enquanto discute as virtudes do Neo-Pitagorismo. Tá farto do Sócrates, fónix…

JPC – Fica em Lisboa. É o maior fã do Porco e diz que enquanto houver Porco não vai para férias.

Cão – Tá farto do Paião. Vai para Capri para ver outros ambientes e beber vermutes e brancos chianti nas ravinas italianas. Está resolvido a deixar para trás a vida anterior e comprou uns sapatos de verniz em bico, um fatito colorido e fez um bigodinho à Prince. Diz que se safa…

Nemo – Não vai a lado nenhum. Vai continuar a viver nas alturas do Nepal.

Mister – Vai pró Bali estudar as inovações tácticas da selecção local, a 98958ª do ranking mundial. Diz que o futebol moderno tá a evoluir e tamos sempre a aprender…

Repórter Alves – ainda pensou em acompanhar o mister, mas as suas opções futebolísticas vão para outras latitudes. Este ano aposta na calamaria da estância alpina de Verbier, na Suíça. Não há neve nesta altura mas é sossegado.

Boas férias para todo o chiqueiro e seus clientes….

«Maeeeestro!», by Gabriel García Marquez, por Mangas

“(...) “Reconheci-o subitamente, passeando com a esposa, Mary Welsh, pelo Boulevard Saint Michel, em Paris, num dia da chuvosa primavera de 1957. Caminhava pelo passeio oposto em direcção ao jardim de Luxemburgo, e vestia uns jeans muito usados e uma camisa de xadrez, levando na cabeça uma boina de jogador de pelota. A única coisa que não parecia sua eram as lentes, redondas e minúsculas, montadas sobre uma armação metálica, que lhe davam um ar de avô prematuro. Tinha feito 59 anos, e era enorme e demasiado visível, mas não dava a impressão de força brutal que sem dúvida desejava, porque tinha as ancas estreitas e as pernas um tanto esquálidas sobre o suporte dos pés. Parecia tão vivo entre os mostradores de livros em segunda mão e a torrente juvenil de Sorbonne que era impossível imaginar que faltavam só quatro anos para morrer. Por uma fracção de segundo – como sempre me aconteceu – vi-me dividido entre os meus dois ofícios rivais. Não sabia se devia fazer-lhe uma entrevista, se limitar-me a atravessar a avenida para lhe exprimir a minha admiração sem reservas. Para qualquer destes objectivos havia, porém, o mesmo grosso inconveniente: eu falava por então o mesmo inglês rudimentar que continuei a falar sempre e não estava muito seguro do seu espanhol de toureiro. De maneira que não fiz nenhuma das duas coisas que podiam ter estragado aquele instante, e em vez disso pus as mãos em concha diante da boca, como Tarzan na selva, e gritei de um passeio para o outro: «Maeeeeestro!» Ernest Hemingway percebeu que não podia haver outro mestre entre a multidão de estudantes e voltou-se com a mão no ar e gritou-me em castelhano com uma voz um bocado pueril: «Adiooós, amigo.» Foi a única vez que o vi.

Eu era nessa altura um jornalista de 28 anos, com um romance publicado e um prémio literário na Colômbia, mas estava encalhado e sem rumo em Paris. Os meus dois mestres maiores eram os dois romancistas norte-americanos que pareciam ter menos coisas em comum. (...) Um deles era William Faulkner. (...) O outro era aquele homem efémero que acabava de dizer-me adeus do passeio oposto e me tinha deixado a impressão de que alguma coisa sucedera na minha vida, e sucedera para sempre. (...)

Quando se consegue desmontar uma página de Faulkner tem-se a impressão de que sobram molas e parafusos, e que será impossível repô-la no estado original Hemingway, pelo contrário, com menos inspiração, com menos paixão e menos loucura, mas com um rigor lúcido, deixava parafusos à vista, como nos caminhos de ferro. Talvez por isso Faulkner é um escritor que teve muito a ver com a minha alma, mas Hemingway é o que mais teve a ver com o meu ofício. (...) Toda a obra de Hemingway demonstra que o seu fôlego era genial, embora de curta duração. (...)”

29/07/04

E No Entanto, Ela Move-se ?, por VacaDeFundo

“(...) suspenso todo o tempo sobre um nada sem solução, esta vez e outra vez ainda, sempre para nada, entretanto, ah! não poder renascer outra vez para nada e entretanto, para além de tudo o que se pode suportar, mais alto, mais alto, mais alto e para nada. De súbito, deslumbramento, beatitude, tudo o que era sombrio e negativo desapareceu, o tempo absolutamente imóvel; estavam os dois juntos, o tempo suspenso e sentia a terra estremecer e esvair-se sobre os seus corpos.
(...)
- Oh! – exclamou Maria. –Eu morro de cada vez. Tu não morres também?
- Não. Mas quase. Sentes a terra mover-se?
- Sim, quando morro. Põe o braço à minha volta, por favor.
(...)
- Era um prazer, mas não era nada que se comparasse.
- Então a terra não se movia? A terra moveu-se alguma vez com as outras?
- Não. É verdade, nunca.”


Como já perceberam este casalinho sentiu a terra a mover-se e isso nada teve a ver com o Galileu. Estes pequenos extractos pertencem ao livro POR QUEM OS SINOS DOBRAM do Ernest Hemingway que acabei de reler, sendo que o Hemingway engendra um capítulo inteiro à volta desta movedura romântica da terra.

Acontece que esta expressão romântica do “sentir a terra a mover-se” é uma coisa quase corriqueira em muitos filmes, livros e até telenovelas. Entrou mesmo no nosso paleio comum e internacional. Tal expressão e suas similares, tornaram-se sinónimo de grande intensidade amorosa e símbolo do expoente romântico. E fiquei curioso sobre a origem da coisa.

Este livro do Hemingway é de 1940, sendo que em nenhum dos outros livros dele, que tenha lido, aparece tal coisa ou sequer semelhante. Nada no Adeus às Armas, nem no Fiesta ou sequer no Paris é Uma Festa. Mas já tropecei em milhentas destas expressões em filmes e livros de produção posterior a 1940.

Fiquei admirado e fiquei na dúvida, se esta expressão romântica, é criação original do Hemingway, ou se o homem além dos Daiquiris do Floridita, foi beber isto a algum lado. Quem souber, que ponha os Sinos a Dobrar.

 
“E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por TI.”

Onde se Tropeçou no Tapor? por GusanoLetrado

 
(...)
-         Levo a caixa completa! Quanto custa?
-         Trezentos dólares.
Um dos capacetes-azuis, da companhia de Transmissões, explodiu de indignação com o mestre.
-         Trezentos dólares a “pice”! Com este dinheiro comprava a merda do carro todo!
Ele que se monte num porco e acelere.
(...)


Há dias ao ler um livro, tropecei neste diálogo curioso. Tapornumporco! E acelera !
Nem de propósito.

Como tenho por cá uma edição repetida do "Opus Pistorum", do Henry Miller, ofereço-a ao primeiro que adivinhar nos Groinks, de que obra foi isto tirado.

27/07/04

Keith Haring e a Casa do Alentejo, por Apocalypse

Na semana passada uma representação oficial do Porco deslocou-se à capital. Missão: visitar a exposição do Keith Haring na Culturgest. A coisa prometia – a mesma exposição já tinha estado no Porto e agora apresenta-se em Lisboa numa versão mais completa. Apesar desta ser a versão longa da coisa, ficou um travo amargo no fim. Todo o Porco foi unânime em considerar a mesma muito incompleta. Da última fase de Haring, então, nada mais que um único quadro. O que será a short version desta exposição, é caso para perguntar?

Pessoalmente tenho algum interesse pela obra de Haring, mas nesta exposição estão  retratadas uma fase inicial mais minimalista (do princípio dos anos 80) e a série Apocalipse (1988), que não me toca especialmente. A primeira fase terá um valor mais documental – ilustra o germinar do alfabeto de Haring e da sua iconografia que depois se repetirá com variações mais ou menos ligeiras ao longo da sua obra. A série Apocalipse, parece-me datada e depressiva.
Mas é comum a toda a exposição, e a todo o Haring, o sarcasmo, o humor ácido e corrosivo e isso está lá sempre. O jogo labiríntico em que este pintor americano envolve as suas personagens também me interessou, bem como as relações perversas que ligam as personagens-ícones do seu mundo. Está lá, também, o neo-primitivismo, as referências à arte pré-histórica e pré-colombiana que o nosso guru para as questões estéticas, Sua Majestade Golfista, foi assinalando ao longo da exposição.

No fim, enquanto cascávamos ferozmente, na imensidão terceiro-mundista do edifício da Caixa Geral de Depósitos – um monstro à Ceausescu -, notámos que estávamos cuma fome do caraças! Decidimos abancar na Casa Alentejana, na baixa, mesmo ao pé da sede do Glorioso, pelos seus pátios andaluzes, pelos motivos árabes, pelos azulejos, enfim, pareceu-nos que a estética do sítio valia o risco de podermos comer mal. Enganámo-nos! Aquilo é lindo mas a comida… Comé possível? Eu já não comia tão mal desde o tempo em que ainda almoçava na cantina da universidade… O vinho era uma mistela inenarrável de Montemor-o-Novo, o ensopado de borrego não servia nem pró gato do meu vizinho e foi pra trás inteiro, é pá, foi uma tragédia, prontos, e o empregado não levou no maço porque impedimos o Grunfo, que delirava sentado, de lhe saltar pra cima. E o ambiente? «Francamente!», como dizem os cravas aprumados da capital quando o Xiita não lhes dá esmola… Porra, que mal é que fizemos aos Deuses? Entre velhinhos com Parkinson e otários ingleses, nem sabíamos pra onde olhar… Uma merda, prontos! Mas onde é que se come bem em Lisboa, alguém me ajuda? É que quanto mais ando para Sul, mais gosto do Norte…

24/07/04

A primeira puta da arte ocidental, por Tó Maneta

Em 1863, Édouard Manet escandalizava a burguesia parisiense com a sua Olympia.O tema do nu reclinado era clássico podendo ver-se em Ticiano,ou em Velásquez, ainda que a influência exótica das odaliscas de Ingres seja mais explícita.
No mesmo ano em que Manet escandalizava Paris, Cabanel, pintor académico dos salões oficiais, triunfava com o Nascimento de Vénus, adquirido pelo próprio Napoleão III, e citando explicitamente Boticelli,que, por sua vez, recupera Praxíteles e a Afrodite de Cnidos, o primeiro nu feminino da arte ocidental.
Cabe então perguntar porque razão o puritanismo burguês da segunda metade do século XIX se chocou com Manet e aplaudiu Cabanel? É que este é herdeiro de uma tradição neoclássica, fundada por Johan Joachim Winckelmann no séc. XVIII e depois tornada académica e onde o nu é apreciado numa dimensão meramente estética, dissociado do prazer e do bem. A contemplação do nu é uma experiência estética, sem implicações éticas. Entende-se assim com alguma ironia o título do quadro de Manet, Olympia, que remete para o universo neoclássico e para o purismo do estetismo helénico.Pela referência clássica o nu torna-se asséptico e por isso moralmente aceitável. É esta incongruência que Manet explora. O que chocou o puritanismo burguês é que a tela de Manet retrata uma prostituta, não uma deusa nem uma figura mitológica. É uma puta! Não é uma divindade do Olimpo nem uma figura imaginária. É uma puta! Chama-se Olympia, nome de reminiscência clássica, mas é uma puta moderna! E não tem vergonha, olha-nos de frente, exibindo um corpo real que se pode encontrar nos ambiente da boémia parisiense. Tem preço, tal como as telas dos pintores do Salão, tal como os produtos do industrialismo burguês. Esta Olympia de Manet é a primeira mulher-objecto da arte ocidental, despida de referências mitológicas ou religiosas. Não é um símbolo de fertilidade, não é herdeira das Vénus paleolíticas e das Virgens do Leite da Renascença. Não, é uma puta! Com a Nana de Zola, são as duas putas mais famosas do séc. XIX francês, tão famosas que se tornaram clássicas. Olympia é a primeira mulher-objecto da arte ocidental, uma pré-Marilyn, a primeira puta moderna.

23/07/04

Uma Merda Qualquer, por Jota Tózito

(...) Como não tenho assim de repente comezainas dignas de relato e de vinhos não sei teorizar, muito menos polemizar (só se for gratuito, assim tipo o vinho é uma merda e provoca acidentes rodoviários), vou aqui escrever de uma merda qualquer só para cumprir a quota de produção quinquenal do porco. E assim de repente apeteceu-me escrever precisamente sobre uma merda qualquer, que é precisamente a atitude e a natureza da obra que aqui venho comentar. São uns gajos quaisqueres, num escritório qualquer, a dizer umas merdas quaisqueres. Um ambiente “de merda” qualquer. E é hilariante! A coisa chama-se The Office, podia ser vista até há pouco tempo na Britcom da RTP2, e só me admira não ter sido ainda aqui grunhida. Para quem não viu, resumidamente, é um escritório qualquer, numa cidade qualquer na Inglaterra, onde trabalha um jovem bando de gente banal, uma equipa de trabalho, alguns perfeitamente “normais”, mas a maioria deliciosamente ridícula e idiossincrática, onde se realçam os super-cromos, como o chefe, que ele sozinho é uma série humorística. Este contexto é, enfim, o material base desta genial série humorística inglesa, filmada e encenada numa paródia aos reality shows como o Big Brother, a presença das câmaras está lá mas é como se não estivesse e os actores como que “fingem” que as câmaras não estão lá. A intenção é realçar à série a sua natureza de “vida real num escritório”, com um monte de gente que só diz merda. Com um elenco do melhor que há, um mimo, dignos sucessores, os criativos e os actores, do glorioso e terrível gang do Fliyng Circus (E um poste sobre A vida de Brian?). À cabeça, incontornável, o chefe pintas com a mania que tem piada mas sem piada nenhuma mas que acaba por ser o que tem mais piada: David Brent (interpretado por Ricky Gervais, a dançar para o pessoal numa festa de angariação de fundos para caridade na foto afixada neste poste). Um portento de cagar a rir com as suas investidas de charme falhadas, com a sua auto-estima inabalável e a sua ânsia de “animar a malta” e ser popular (ou populista) a contar anedotas de merda e a fazer figuras tristes. Outra figurinha gigante é Gareth Keenan (Mackenzie Crook), empregado do escritório, magricelas e penteado à foda-se dos anos 80 (Limal e assim essa gente), que tem sempre umas saídas fabulosas, principalmente com as mulheres, com a subtileza de um rinoceronte cruzado de Fernando Rocha, e anda sempre rodeado de objectos hilariantes. Na secretária ao lado merece menção ainda o gajo certinho deste filme, o empregado Tim Canterbury (Martin Freeman), talvez o mais afectado pela mediocridade que o rodeia, como adianta o site da série http://www.bbc.co.uk/comedy/theoffice, e que nutre uma irresistível atracção pela loira mamalhuda da recepção, apesar do grunho do namorado desta, que parece passar a vida, de resto, pendurado no escritório da namorada. Esta série, segundo julgo saber, saiu recentemente em DVD, portanto não deve ser muito difícil de encontrar e vale a pena.É um espelho fabuloso. E acho que chega para espicaçar a curiosidade, para ninguém reclamar com o peso e para preencher a Quota do Porco.

22/07/04

OLÉ !, por Manzanilla

(...) Em geral, a ESPANHA ensina a comer quando apetece – muito ou pouco, muitas ou poucas vezes. Não há TARDE nem CEDO – só A FOME e a SEDE. Respeita-se o SONO e, hão-de desculpar-me a franqueza, o TESÃO (...)
(...) O espanhol, a cada momento do dia FAZ UMA ELIMINATÓRIA MENTAL. É este O SEGREDO da felicidade cultural dele. Pergunta-se QUATRO coisas – se tem fome, se tem sede, se tem sono e se tem tesão.
Dessas QUATRO elimina AS TRÊS que angariam uma resposta que seja CLARAMENTE NÃO. Ou seja:
se NÃO tem fome, nem sono, nem tesão – é PORQUE TEM SEDE, mesmo que o não saiba. E VAI BEBER.
E FAZ BEM e sente-se feliz uma hora depois.
Se, passada essa hora, já NÃO tem sede; continua a NÃO ter tesão, nem sono – é porque tem FOME. E vai comer. Hora a hora, interroga-se. E opta sempre pela MENOS NEGATIVA, partindo do princípio básico que, das QUATRO coisas que uma pessoa pode ter, há sempre uma que NÃO APETECE TÃO POUCO como as outras três. E é sempre ESSA que uma pessoa deve seguir. É esta A LIÇÃO DE ESPANHA a Portugal, mais URGENTE por ser conterrânea e INTEIRAMENTE apropriada à nossa MANEIRA DE SER – muito mais do que o habitual IR CHORAR PARA UM CANTO por não se poder fazer o que se quer – que PRECISA DE SER APRENDIDA tanto mais quanto JÁ ESTAMOS FARTOS DE A SABER.
O “ir petiscando” que nos está na alma, o “agora ia...” e o “sabes o que é que me apetecia?” são SINAIS EVIDENTES de uma irmandade profunda que nos poderia LIBERTAR da nossa regrada TIRANIA de “não porque me estraga o apetite”, ou “parece mal”, ou MAIS CONTUNDENTE do que tudo e mais TRAGICAMENTE português: “é chato...”
Os espanhóis COMEM FARTURAS ao pequeno-almoço COM CHOCOLATE. E porquê? PORQUE LHES APETECE, a todos, e não se importam. Também comem PÃO TORRADO, esfregado com ALHO e TOMATE e encharcado em AZEITE. Atente-se no que diz A NOSSA DEUSA sobre a QUANTIDADE DE AZEITE necessária para fazer uma tortilha decente e, PERANTE OS NOSSOS PRECONCEITOS diante de tal dispêndio AFINAL RACIONAL, compreender-se-á porque NÃO SOMOS, nem de longe, TÃO FELIZES como eles são. (...)
 
Inês Gonçalves e Miguel Esteves Cardoso, in Revista Preguiça, do jornal INDEPENDENTE, de 16/09/00

Pops, por Lopez

Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa da minha estante, popular é «respeitante ou pertencente ao povo». Já o populismo consiste na «simpatia pelo povo». Donde se conclui que o populista não é necessariamente o popular. O popular pertence ao povo, enquanto o populista pode até viver na Quinta da Marinha. Gosta do povo, tem simpatia por ele, pelas suas coisas. É tudo. O populista pode até demarcar-se do povo, com as suas gravatas de fino gosto, as suas camisas impecáveis e os seus fatos de marca. Mas depois cumprimenta a peixeira e o carpinteiro e aparece no arraial a dançar o vira.
 
A diferença entre o popular e o populista reside na sinceridade. O Nel Monteiro é um gajo popular: quando canta o clássico Mãe (Tu partiste e não voltaste/ mas ainda me deixaste/ o teu retrato tão lindo), de lágrimas nos olhos e mão trémula ao pé do coração, ele é sincero. Ele é aquilo: não há distância entre o cantor e a mensagem que transmite e que julga ser profunda. Nel é popular, é do povo e está no arraial no seu habitat natural.
Mas quando o Menino Toneca (aquele da cretina série televisiva) vai a uma festa de aldeia e pergunta, ainda nos bastidores, o nome do padre da paróquia e quer saber algumas histórias de gosto duvidoso que circulam na povoação, para, depois, fazer umas piadas de última hora durante o show, não está a ser popular, está a ser populista.
 
O que diferencia este mascarado Toneca do genuíno Nel é a consciência que oprimeiro possui do aproveitamento que faz do gosto popular. Podemos imaginar o Nel Monteiro genuinamente feliz depois de se entregar ao «seu» público após mais uma actuação. Pelo contrário, mal desce do palco, imaginamos o Toneca de sorriso subitamente apagado (agora que se apagaram, também, as luzes do ribalta), a olhar para o relógio e a dizer que se quer pôr a andar dali pra fora. Falta-lhe convicção, ao populista. Ele agrada ao povo porque isso corresponde ao seu interesse pessoal – é assim que ganha a vida e que se realiza. As suas convicções não são para ali chamadas. Desde que tenha sucesso, tanto lhe faz atacar como defender o padre da aldeia…
 
Em política também existem actores populares e outros populistas. Eu definiria o populismo em política como uma tentativa (sistemática) de criar um vínculo de ligação unipessoal entre o líder e o povo, com vista à satisfação dos interesses do primeiro. O populista sabe que esse vínculo é a chave do seu sucesso. Para o atingir parte do princípio de que não tem que apresentar convicções, princípios sólidos – que aliás não são necessários para nada, pelo contrário, só prejudicam -, mas simplesmente, corresponder aos anseios populares, dizer ao povo o que a este lhe agrada. O populismo é a política feita com base nas sondagens, nos gostos e nos interesses imediatos do povo. O professor que dá um teste de chacha aos alunos e lhes diz as respostas um dia antes, é populista – o que lhe interessa é o seu sucesso imediato e se os alunos se tramarem mais tarde no exame nacional e na vida, ele já tá noutra, já não é com ele. Por isso o populismo, em política como na vida, é volúvel, fútil, pouco rigoroso e inconsequente. Tanto diz uma coisa, como o seu contrário. O populismo é a ideologia do vazio, a batota do pensamento. Ar e vento. Visco e Sebo.

21/07/04

Paradise e eu, por Mangas

Sal Paradise foi apanhado pela Michigan Police, com dez latas de budweiser no banco traseiro, outras tantas já no bucho, para que o frio fosse mais fácil de suportar e a saudade da sua Califórnia não lhe desabasse na alma. Naquele tempo, apanhávamos grandes bebedeiras num bar manhoso e fugitivo, matávamos o tempo a falar de mulheres e a declamar poemas órfãos. Esperávamos que o Inverno passasse depressa para irmos Pela Estrada Fora, em sentido inverso às pegadas calcadas nos relvados brancos, bem alegres por não percebermos nadinha de golfe, escrever uma boa história e outros assuntos.


19/07/04

Morreu o Euro, renasceu o cinema!, por D. Vito

Nas últimas duas semanas, resolvi actualizar a minha agenda de filmes que ainda não tinha visto e precisava desesperadamente de ver. Foi óptimo. Vi, apenas, os seguintes filmes:



Shreck 2 - Para além de acabar de vez com a lamechice pegada e a moral politicamente correcta dos filmes da Disney – imaginem um casal de ogres que se peida na lama, dá cabeçadas em príncipes bonitos e faz festas malucas ao som dos Chic e do Ricky Martin –, os cenários parecem sonhos arrancados à nossa cabeça de quando éramos miúdos. ****


E a tua mãe também, Alfonso Cuarón - Há neste filme um sentido de humor que tem algo de latino, burlesco e cruel. Uma viagem no México, é também um choque entre a energia de viver e os tabus sociais. ****


Black Hawk Down, Ridley Scott – Ideologicamente pode ser mistificador, com a sua mensagem muito simples: «fazemos isto pelo gajo do lado»... A violência é tanta que chega a ser enjoativo. E os Somalis ganharam a guerra… Mas é uma excelente realização. ***




Red Dragon, Brett Ratner - Um bom filme, mas é o menos bom da trilogia. Deixa na sombra o personagem mais interessante, precisamente, o Dr. Lecter. Não consegue ultrapassar a condição de filme policial, embora seja excelente, enquanto tal. A relação entre o Dragão e a mulher cega é o aspecto mais interessante do filme (remete para Sartre e para a sua poderosa metáfora do olhar). ***



Hannibal, Ridley Scott – Excelente. Uma história de amor com o mesmo encanto da de Shreck, quem diria?*****
 



Elephant, Gus Van Sant – O massacre de Colombine chega ao cinema. Já tinha decorrido meia hora de filme e eu preparava-me para desistir quando, de repente, deu-me um click. É excelente, filma um segmento temporal muito reduzido de uma maneira muito peculiar à luz das diferentes perspectivas dos vários personagens. A mesma cena vista a partir do olhar das várias personalidades que por ali se cruzam. Amoral. ****



Cidade de Deus, Fernando Meirelles - O melhor filme brasileiro que alguma vez me foi dado a ver. Um manifesto de violência, a história da favela que a história oficial nunca faria. A narrativa é brilhante e transcende a linearidade do argumento. *****

Nacional nº 1, por Natasha Seminova

Do volante do meu Honda – Japonês – continuo a avistar as bandeiras de Portugal que esvoaçam, imponentes, nos carros que passam por mim na Nacional Nº 1: 
Passam dois Seat – um Toledo e um Ibiza -  um Fiat e um Alfa Romeu– Italianos – e um Peugeot mais um Renault – Franceses – ao despique pelo título do Senna – Brasileiro – do dia. Passa um Ford – Americano – e um Rover – Inglês -, um Subaru – Coreano – e um Mercedes – Alemão… 
  Passam alegres na Nacional Nº 1, com as suas bandeiras de Portugal– Chinesas – desfraldadas ao vento... Portuguese and proud, penso eu. Como é irónico o patriotismo no nosso país…

17/07/04

ELES COMEM TUDO..., por LanternaDeAristóteles

Aqui há uns anos tinha por costume passar férias em Aljezur. Mais precisamente na monstruosidade sousa cintrense do Vale da Telha. Uma urbanização turístico ventosa, a meio caminho entre um cenário mad max e jacques tati. Mas a coisa era, e é, servida por três das melhores praias portuguesas. Enevoadas pró bronze e horríveis para tomar banho, só possível a adeptos de emoções e braços fortes, estas praias contudo,  regurgitam de bicharada. A braveza marítima  e o crescimento da miúda tornou a coisa incompatível e fomos obrigados a sotaventar por alturas monte gordas.
Mas sempre tive pena da Bicharada.
 
E que Bicharada. Na praia da Amoreira e nos rochedos sobranceiros à ribeira que vem da serra de Monchique era um fartar vilanagem de Caranguejos, apanhados à sartela. Madrugando pela noite dentro, até uma Sapateira às vezes se enganava. Azar. Prá panela!
 
Na praia da Arrifana eram mexilhões aos milhões. Eram sacadas diárias para complementar a chupança sôfrega do Caranguejo. E que tamanho meu deus, e o bem que ficavam regadinhos em vinho branco num guisado de forte cebolada.
 
Mas era na praia de Monte Clérigo que criação se esmerava. Na baixa mar e no seu lado sul, esta praia revela um mundo fantástico de quilómetros de rocha esburacada e batida, com uma fauna e uma vida impressionante. A cada passo da sandália há um imediato espadanar da água e uma fuga veloz de algum tipo de criatura. Lapas, burriés, caranguejos, camarão da costa, e milhões de outras coisas que mexem e fogem mas que infelizmente não sei cozinhar. E Percebes meus caros, Percebas lindas, grandes, geladas de tão batidas pelas ondas. E aos milhões. Ali pratiquei selváticamente a minha religião preferida: a Mariscagem. Em dias de especial madrugação e sorte até Polvos consegui arrancar àqueles buracos agrestes e plenos de vida comestível.
 
Mais do que sol ou mar, passei horas infindas a apanhar, limpar e cozinhar Percebes. Arrancados a ferros à rocha negra, são o meu marisco preferido, o único que verdadeiramente sabe a Mar. Frescos da apanha recente e gelados pouco após a cozedura, são uma autêntica explosão de mar na boca. Rebentam-nos na boca como poderosas ondas, e invadem-nos as narinas com a mais sublime maresia. Uma trinca naquelas unhas negras, basálticas e carnudas e o céu da boca transborda de marés vivas.
 
Mas no meio da abundância alambazante, também trago dali uma frustração que me persegue há anos. Nas longas caminhadas pelas rochas de Monte Clérigo em chineleta batida pela onda, sempre marrei e espetei os calcantes nos inúmeros Ouriços-do-Mar. São aos biliões por ali. Nunca os soube comer e apenas tinha uma vaga referência de que a coisa se podia saborear. E só no último ano em que lá estive é que dei com um velho mariscador, com profissionais sacadas de percebas, que diligentemente apanhava Ouriços-do-Mar. Apanhava-os com cuidado para um saco tipo belmiro e lia-se-lhe gulosice na cara.
 
Impus-me ao pé dele, procurei ajudar e como quem não quer a coisa, fui perguntando:
- Ó Mestre, desculpe lá a curiosidade, mas o que é que o senhor faz isto, comé que os cozinha?
O velho olhou de lado, recusou os ouriços que lhe oferecia e resmungou com aspereza:
- Vêm prá aqui aos magotes foder isto tudo...
- Ó migo, diga lá, o que é que come disto?
Como eu fingia não ouvir os resmungos ofensivos e não o largava da interrogação, o velho levantou a cabeçorra e com uma raiva incontida, increspou o vozeirão:
- Bocês bêm prá aqui todos aos magotes, fodem isto tudo, e agora até os mes ouriços querem, ponha-se na alheta antes queu lhe dê uma ganchada, home dum cabreu!
 
Eu bem que chegava pró velho, apesar do gancho da mariscagem, mas a ouriçaria não me luzia ainda no olho e até compreendia o velho no ódio aos magotes que lhe invadiam a vidinha. Virei costas e fui de percebes. Mas a tenacidade e a fúria do velho, ficou-me a roer o miolo e depois dessas férias não descansei na procura do Santo Graal.
 
Hoje, sei que a verdadeira explosão de mar na boca, o tsunami bucal, não se dá com os Percebes, mas sim com os Ouriços-do-Mar. Os Alzejurenses apanham-nos às sacadas de Outubro a Março, e exportam tudo a preço de ourivesaria pró Japão e pra França. Cá não se servem, nem se encontram. Descobri que se podem consumir ao natural ou após cozedura directa e sem qualquer lavagem ou tratamento, durante dois ou três minutos.
 
Investiguei, li e encontrei: “...há que arrancar-lhes das entranhas os órgãos reprodutores, é aí que está a sua excelência. Para alcançar o âmago do animal, é preciso ajeitar uma das mãos em forma de concha de modo a acomodá-lo pela parte espinhosa e com a outra mão segurar uma faca e enfiá-la pela chamada “lanterna de Aristóteles”, a boca. Sem nunca esquecer que a força é, neste caso, o pior dos inimigos, roda-se a faca até partir a carapaça do ouriço em duas partes. No interior, muito bem guardadas, estão uma espécie de línguas de um cor-de-laranja intenso, que não são mais do que as gónadas, as suas glândulas sexuais. Para um devoto dos frutos do mar, o ouriço constitui a síntese de todos os sabores. É mar em estado puro quando se mete à boca e doce à medida que se vai entranhando...”

Tudo isto li, mas jamais os comi. Hoje, acho que tinha ido ao focinho ao velho. Cabrão. Egoísta de merda. E eu que podia tê-los comido aos magotes...

16/07/04

A Bandeira Nacional por Pagode Castelo

Os marretas juntaram-se. Pelo menos alguns deles. E foram jantar. Como é próprio destes excêntricos, a ementa escolhida primou pela novidade: terra e mar. Terra de migas, coentros, morcela, cabrito, rojões? Não. Carne de vaca (e febra de porco, para não destoar). O mar é de camarão congelado e lulas com saudades de água salgada. Salvou-se a água. Nem o pão.Mas valeu pelo convívio. Os habituais espirituosos fizeram maravilhas da palavra. Só repetiram quatro ou cinco piadas dos doze últimos jantares. Não faltou, obviamente, a inovação dos temas actuais, elaborados com a genialidade do Badaró.E os conselhos que ninguém quer ouvir também - há autistas mais comunicativos e com melhor razoabilidade.A imposição idealista, verberada com puxões e insistência, lá ia ocorrendo, na exacta proporção da solução etílica (vinho?) ingerida.Ah, se não fossem estes jantares que nos animam a alma! Por eles aprendemos a importância dos outros.Mas pronto, salvou-se a noite: um retrovisor partido por anónimos do lixo (que ironia) que varriam (literalmente) tudo aquilo que se assemelhava, tenuamente, ao evocar de uma fantástica noite.Haja esperança: para o ano há mais um... uma fotografia para a eternidade - ainda não descobri qual a justificação que vou dar para gastar o tempo desta forma, mas vou esforçar-me...

15/07/04

A Bola de Beckham, por Bibbó Pito

A história começou quando a imprensa identificou o felizardo espectador que guardou a bola atirada por Beckham para as bancadas na sequência do penaltie disparatado que este acabara de apontar no jogo dos quartos de final contra a selecção portuguesa. Foi só mais um penaltie falhado por Beckham, mas neste a bola foi guardada (indevidamente?, pode perguntar-se…) por um espectador devidamente identificado.
Alguns dias depois, o novo proprietário da bola chutada por David, um galego queixoso que se lamenta de nunca lhe ter saído a lotaria, recebe um proposta de 18.000 euros para a compra da bola fatídica. O vivaço recusou e colocou a bola autenticada à venda num site da Internet. Ontem a última oferta estava em 2 milhões de euros e eu pensei que o mundo está louco! Hoje a oferta mais alta chegou aos 10 milhões de euros («mais despesas de envio»!!!!) e eu penso que eu é que enlouqueci de vez!

Como é que ainda nos admiramos quando um quadro de Vermeer bate recordes na Sothebys? Ainda há quem se espante com os preços astronómicos de uns rabiscos de Picasso desenhados num guardanapo de um restaurante? Tudo aquilo que me parecia absurdo no estapafúrdio mercado da arte, parece-me agora, afinal, um pouco menos absurdo. Ao pé da bola do Beckham – que nem sequer é um jogador de futebol de excelência, mas, essencialmente, um gajo pintarolas -, as famosas caixas de merda do Manzoni parecem valer o que os leiloeiros pedem por elas.

Este caso é um sinal dos tempos. Uma marca do vazio. Com este episódio, inauguramos uma nova era em que o culto da irrelevância e da futilidade atinge o seu apogeu. Já temos apresentadores de TV – modelos, jogadores-vedetas de paserelles, actores-manequins, até primeiros ministros-cromos de revistas sociais. Entretanto, as personalidades verdadeiramente importantes dos nossos tempos, são pura e simplesmente ignoradas e atropeladas pelo império dos simulacros que nos vendem.
Se continuarmos assim, um destes dias eu abandono a minha profissão e dedico o resto da minha vida a angariar objectos tocados («o toque» tem, de resto,uma ressonância vagamente mítica) por personagens importantes do nosso tempo. Com um bocado de sorte pode ser que eu consiga apanhar um resto de baton da Lili Caneças, uma pirisca fumada pelo Paulo Pires ou, com um bocado de sorte, um bronzeador vazio largado na praia da Figueira pelo nosso novo primeiro-ministro. Talvez então, eu arranje uns trocados para fazer aquela operação plástica com que sempre sonhei e me torne, enfim, uma pessoa verdadeiramente importante.

14/07/04

IL CAPO DI TUTTI CAPO, por DonVitoCorleone

A televisão está uma merda, pelo que em regra não vejo televisão. Prefiro ler. Mas agora, voltou a hora de pura religiosidade e fascínio. Segundas -Feiras às 23.00 horas no Canal 2, liga-se o altar em adoração e fascinação.

A malta não vê, mas não sabe o que perde. Os Sopranos é uma série absolutamente genial. Fabulosa. Já andou a dar há dois anos e agora a RTP2 repescou-a. Do ponto onde foi retomada, vão ver numa desta Segundas que aí vêm, a melhor série de episódios da coisa. Ajoelhem e vejam a aparição deste Padrinho Suburbano. Vão atingir o cume, o sublime, a poesia pura, o enlevo máximo de prazer bruto e televisivo.


A coisa vai começar com um Capo mafioso, jovenzarro da pesada, que enche de tal maneira os cornos de Cavalo puro, que ao sentar-se no sofá da sala, esborracha a Caniche branquinha e ternurenta da namorada - boazona kitsch - que ali se encontrava a dormitar.

A cachopa do caniche, que até aí lhe vinha perdoando tudo, desde bofetadas a pontapés e cuspidelas prá sopa, não lhe perdoou o assassínio monstruoso da Caniche e vai de ir fazer queixa ao maioral lá do sitio, il Capo di Tutti Capo, um gordo simpático e putanheiro, mas algo depressivo que passa metade da vida a comer e a outra metade a psicanalisar-se numa psicanalista de boa perna.

Ora, o il Capo di Tutti Capo, que como já se disse é um gajo em permanente depressão e tratamento psicanalítico, tinha acabado, no episódio anterior, de esmagar a cabeça à pancada de um outro dos seus capos, porque este lhe tinha matado um cavalo pra receber um seguro. Ficou fodido com o cavalo assassinado e fodido ficou com o Capo jovenzarro por deixar o Cavalo foder a Caniche.

E vai daí, com a colaboração de um ex-drogado e ex-mafioso, que ainda faz umas coisitas de um lado e doutro, trataram de arranjar uma sessão de Alta Psicanálise em regime de "confontação e reconhecimento de culpa sem julgamento", onde o jovenzarro da heroína é confrontado com os capos todos, o Capo di Tutti Capo, a mãe, a namorada boazona, a tia, etc e tal. Esta gentinha toda, mailo psicanólogo, embarcam numa sessão de sala e sofá, em que confrontam o rapaz.

Já se vê que na primeira oportunidade, foi deixada de lado a psicologia barata e passaram à psicanálise aplicada, altura que os capos todos, mailo Il Capo di Tutti Capo, espetaram um tareião de caixão à cova ao Drogas.

Para se recompor da tarefa esgotante, il Capo di Tutti Capo vai visitar o seu tio, velhote adiantado - ex-Capo di Tutti Capo - que anda há anos a ser julgado em tribunal por mafiosice, e que há anos se vem escapando com adiamentos à pala de uma suposta incapacidade, uma vez que, não sendo parvo, cada vez que sai à porta de casa pra fora, vigiado pelos FBI`s todos, se mija pelas pernas abaixo.

Ora na casa do tio - que lá não está - o gordo do Capo maior, encontra a enfermeira russa do tio, uma loiraça optimista, bem feita e inteligente, que embora perneta, se embeiçou pelo maior.

O Padrinho que é gordo, mas não é parvo e nunca desperdiça uma boa coxa, deu-lhe uma mistura de coisa na alma e nó nos tomates, quando à luz difusa do sol da janela viu a cabecinha loira da russa perneta e optimista e mais viu ainda a protese de sapato à coxa, com meias e tudo, encostada ao canto do sofá, pelo que num momento de grande intimidade, fulgor romântico e lábia de putanheiro encartado, vai de saltar prá cueca da perneta, num must de langor e luxúria Def. Ou tecla três como agora se diz. Sublime.

12/07/04

A ironia de Velásquez, por DDT

De entre todas as obras de Vélasquez, aquela que podemos apresentar como símbolo da autoridade e da ortodoxia é o retrato do Papa Inocêncio X. O pintor copia o modelo com que Rafael pintou Júlio II, e que será depois retomado e corrompido por Bacon, cujos retratos de Papas e estudos em torno desta tela de Vélasquez são, mais uma vez, um olhar pós-moderno de desencantamento que coloca um ponto final simbólico nas concepções antigas do poder e do Estado, teorizadas na Renascença por Nicolau Maquiavel.

Vélasquez senta o Papa num trono dourado, dando-lhe a expressão de um poder máximo que se diria totalmente anti-giocondesco. É, em tudo, a antítese da Mona Lisa de Leonardo. O olhar é o de um homem imensamente poderoso, convicto da sua autoridade, portador da verdade, arrogante, autoritário e desconfiado. E se o génio de Leonardo se revela no sorriso de Mona Lisa, a ironia, quase cínica de Vélasquez expressa-se, igulamente de forma contida e discreta, mas genial, neste quadro. Sabe-se como o Sumo Pontíficie, peão da política espanhola que o alcandorou à cadeira de S. Pedro como elemento de uma estratégia contra a França de Mazzarino, era um nepotista, fraco de carácter, amancebado e dominado pela cunhada, Olimpia Maidalchini que se reclamaria viúva aquando da sua morte. O que Vélasquez ali pintou é de uma ironia extrema. Juan Bautista Pamfili, tal era o nome de baptismo de Inocêncio, é o contrário do que parece. Ali, naquela tela, está o elogio indirecto dos reis de Espanha, tão grandes que se poderiam ufanar de influenciar as decisões do papado. É de uma ironia extrema o olhar de Inocêncio X que, diz-se, não gostou da obra quando a contemplou acabada em 1650. «Demasiado real», terá afirmado! Pobre Papa, absolutamente irónica foi o resultado das pinceladas de Diego.

A verdade, porém, é que o génio hispânico, submetido à ortodoxia tridentina e ao poder esmagador de Madrid e do Paço do Escurial, dominado pelo culto do dogma e submetido aos valores da autoridade, está condenado ao culto da ironia que Vélasquez já aqui exibe e que atingirá o seu esplendor nas Meninas. Aqui, temos uma cena cortesã, onde a infanta Margarida se torna grande em face de cães amestrados, anões, bajuladores, aias e o pintor. Não é a grandeza da personagem principal que passa à posteridade. Margarida é uma criança, ainda que dada a ares de pequena mulher, arrogante e sabedora do seu estatuto imperial. A grandeza de Margarida é irónica e feita à custa da pequenez e do servilismo dos que a rodeiam. O pintor lá está também. Numa pose ambígua que deriva da sua dupla função de pintor oficial e de crítico. Exibe-se portanto, não como um bajulador oficial, o que seria de esperar de um pintor régio, nem tampouco como um crítico, o que seria inaceitável num pintor régio. A ironia que perpassa de toda a tela é pois a única solução possível. Os bajulados verão grandeza onde está pequenez e ficarão satisfeitos. Vélasquez pinta-se com os ares que farão a pose de Dalí.

11/07/04

Viva a República! O génio não é hereditário, provam-no os vinhos da Filipa Pato! Hoje, vou escrever à Saramago que foi agraciado com o título de doutor honoris causa na universidade de Coimbra. (Na verdade, o post foi alterado alguns dias depois, porque o autor não percebeu o que escrevera). Em sua homenagem vou escrever à maneira do escritor com a testa mais esquisita da história da literatura, talvez só equiparável ao Anatole France que tinha uma cabeça com dimensões incompatíveis com os feitos literários de acordo com os saberes científicos daquele seu ingrato tempo. Fosse tal prova ainda necessária e pela bizarria craniana do genial autor de Memorial do Convento se contestariam as teses de Johann Gaspar Spurzheim, fundador da frenologia, bem assim como de todos os frenólogos que já não existem. Perdoe-me o leitor estas minhas considerações prévias que mais não são do que preparativos para atacar o que no início deixei dito a propósito da república, da hereditariedade, do génio e da estreia enófila da bela filha de Luís Pato, célebre produtor da Bairrada. Ou melhor, das Beiras, caso prefira ter em consideração as divergências do autor da Vinha Pan ,Vinha Barrosa,Vinha Barrio, Quinta do Moinho e outras preciosidades, com destaque para o mítico Quinta do Ribeirinho Baga Pé Franco. Quero eu dizer então que se o génio dos escritores se não mede pela testa, assim também se não avaliará a qualidade dos enólogos pelo apelido de família ou pela formosura do rosto, posto que se assim procedêssemos seguramente a bela flor oriunda de Óis do Bairro nos mereceria os mais elevados encómios. Mas não, e é pena que os vinhos desmereçam a beleza do rosto que os concebe. Fosse esta regra uma das leis do universo e excelentes seriam os vinhos de Filipa, contrastando com os de seu pai. É porém Republicano o Mundo, e assim a qualidade do vinho deve ao génio tanto quanto é alheio à beleza das mãos que o criam.
Espero, aqui chegado, contar com a compreensão do meu caro leitor e agora lhe confidencio que a Real Esseponto do Tinto se deslocou na passada sexta-feira à cidade de Aveiro. Jantámos no Salpoente uma sopa de peixe que não estava má. Para alguns estava mesmo excelente, que não para mim que não vi suplantada a sopa de peixe do famoso e há já muito remodelado Centenário. Tal como a caldeirada que a quase todos agradou, que não a mim, mais uma vez ficando já eu amedrontado por ser tomado do contra. Mas, também aqui, não consegui ver ultrapassada a memória das belas caldeiradas de Peniche. Enfim, bem servidos. Presença marcaram, para além deste cronista humilde imitador e grande admirador de Fernão Lopes nesta tarefa de legar ao futuro marca dos feitos memoráveis, como quem carimba o tempo com as palavras do presente, o nosso Grão, o Mister (que atende pesados telefonemas às 3 da manhã), o Corneiro, o Banderas mais um convidado, o Mau, o Chulé, o Camisa Rosa, o Nini e o Vice. O abstémio Nini ganhou a prova cega com vinho de meia dúzia de euros - um tal de Barroso - que a todos agradou, provando-se como a lição do José Neiva é seguida por outras bandas. Surpresa foi porém, já no final do concurso quando encarapuçados só restavam dois tintos - um destinado à glória do lugar mais alto do podium e o outro a lançar à lama da ignomínia. No momento imediatamente anterior ao desvendar da resultado final, conformado estava o abstémio Nini com o lugar derradeiro que julgava seu, tanto mais que o parceiro na disputa, sabia-o ele, era um Filipa Pato de seu nome Ensaios. Julgo eu, e sabia-o o Nini, pertencente ao Vice, dado que o acompanhou de Coimbra à longínqua Águeda onde, sob generoso conselho, encontrou uma garrafeira disposta a ceder uma garrafa desta estreia da jovem filha do génio de Óis do Bairro. Aí chegados, o garrafeiro informou o nosso Vice que só dispensava a ambicionada garrafa às caixas de meia dúzia, exigência que não convidou o nosso confrade à reflexão, pois que se rara fosse a qualidade do vinho, intensa seria a demanda e doseada a venda. Mas não. Inverso era o que ali se passava e meia dúzia de garrafas comprou o nosso Vice. Com uma garrafita de Barroso se aconselhou o Nini e a adquiriu no mesmo estabelecimento. Voltemos pois à mesa do Salpoente, sabendo agora o leitor que na disputa final entre a glória e a desonra se encontravam dois peregrinos de Águeda: um portador satisfeito da obra de Filipa e o outro desinteressado apresentador de um vinho que o próprio mal conseguia nomear. Lançada estava a sorte e feito estava o escrutínio. Faltava apenas saber a quem seria entregue o troféu do vencedor. Convencido estava o Nini da derrota e discretamente ufano o Vice se antevia já na vitória. E eis que, quando o Mau desencarapuça o último lugar, se desvenda o primeiro por lógica exclusão. Caído o manto se revela o Ensaio de Filipa! Fosse o vinho reflexo da beleza do enólogo que o criou e de outro modo se entenderia este despir da garrafa que assim se exibiu aos olhos incrédulos de todos, provocando a gargalhada incontida do Abstémio e inesperado vencedor, o escárnio de todos os que mais uma vez renovaram a satânica tradição de calcar o vencido e o inconsolável desânimo do vencido Vice que agora se via com cinco indesejadas garrafas de Filipa Pato na bagageira do carro. Garrafas que poucas horas antes formavam um tesouro entretanto desqualificado. Tal é o efeito do juízo dos confrades, inversa alquimia se pode designar, e que por secretas sentenças unanimemente rejeitaram o Ensaio de Filipa, quais carbonários que fulminaram a herdeira do Pato.

09/07/04

ALMA MATER, por Los Borrachos

“Faço por abrir as garrafas algum tempo antes de servir, preferindo decantar todo e qualquer tipo de vinho. Não conheci ainda nenhum que não ganhasse ao ser decantado.
O vinho realça a comida , solta as línguas, aquece os corações, cria ligações entre as pessoas. Quem aprecia a vida aprecia o vinho.
Na vida há fases para tudo. Pretender que qualquer jovem de 18 anos aprecie vinho, entenda o que é a qualidade de vida, o requinte dos sabores, a paciência (para se apreciar vinho é preciso aprender a paciência) é talvez demasiado. E difícil. Os jovens são excessivos por natureza – e ainda bem, que maçada se fosse o contrário. A paciência demora tempo. Eu próprio não bebi vinho nessas idades. Sobretudo não apreciava. Também não tinha paciência!
Há que manter viva a cultura e a civilização do vinho, com o tempo todos o saberão apreciar. Sou sempre optimista.
Beber vinho, sempre com comida (mesmo aperitivos) e sempre, sempre com companhia. O vinho é uma coisa sobre pessoas, não apenas um líquido que se ingere por muito prazer que dê. É um catalizador, fomenta a concórdia, solta as línguas, liberta e ilumina (ou apaga se se exagera) os espíritos.
Só bebo vinho quando recebo amigos ou quando como fora. Beber sozinho é uma tristeza.”

excerto da entrevista a Cristiano Van-Zeller, vitivinicultor duriense da Quinta do Vale de D. Maria, na Epicur de Junho de 2002

06/07/04

As Capas dos Meus LPs, por Undercover


As capas de discos sempre me fascinaram. Considero a arte do cover uma verdadeira forma de expressão artística, e se tivesse um mínimo de jeito para decoração, forrava o meu escritório com algumas das minhas capas preferidas. Gosto do minimalismo elegante de Beggars Banquet (a versão de resposta à retrete censurada pela Decca), de The White Album (Beatles) ou de Fear of Music (Talking Heads).

Gramo os trabalhos do Andy Warhol para os Velvet ou para os Stones ( Love You Live , por exemplo). Acho incontornável a capa mítica do Sgt Peppers e as pastiches sequentes de Zappa (We're Only in It for the Money) e de outros freaks menores como Jun Fukamachi (Eletronic Version of Sgt Peppers) ou Tijuana in Blue.

Gosto da estética «jornalística» que une bandas aparentemente tão díspares como Jethro Tull (Thick As A Brick), Plastic Ono Band (Sometime In New York City) ou Tom Waits (Tom Waits - Heartattack and Vine).

É verdade que o gosto pelas capas está muito ligado ao gosto pelos músicos e pelas músicas que elas apresentam. No fundo é uma mesma estética que se trata de apreciar, uma espécie de prolongamento gráfico da música. Isso acontece claramente em grupos como os crípticos Pink Floyd , como os místicos Led Zeppelin ou como os violentos The Clash. As capas destes grupos, de um modo geral, têm personalidade, são ícones das bandas e da sua estética musical.

Admito, porém, que haja óptimas capas de bandas completamente irrelevantes ou simplesmente mazinhas. Assim como há capas de discos de grupos geniais que são autênticas bostas – por falar nisso, já repararam na falta de cuidado com que os grandes monstros do Jazz trataram as capas dos seus discos nos primórdios? Quando o Rock produzia excelentes covers, nos anos 60, os discos do Miles, do Coltrane e do Monk tinham as fronhas dos gajos (felizmente a coisa avançou e hoje, para nos mantermos no jazz, o catálogo ECM está na vanguarda do bom gosto).

Mas de um modo geral, creio que o que torna as capas de discos verdadeiras obras de arte é o facto delas reflectirem uma estética personalizada que encontramos na música, na atitude da banda e no contexto mais alargado da cultura de referência dos músicos. Através dos covers, prolongamos o nosso gosto por aquela banda, por aquela música ou por aquele movimento.

No entanto, qualquer coisa se perdeu, nos últimos tempos, devido à evolução tecnológica. Do ponto de vista da arte do «cover», o CD foi um verdadeiro retrocesso. O velho LP exigia um formato que aproximava a capa da pintura clássica, do quadro emoldurado que podemos expor na parede da sala ou do museu. A Gioconda até é mais pequena e é o que se sabe… O CD, pelo contrário retira a «aura» de grande arte à capa de disco, miniaturiza-a, torna impossível a leitura do pormenor… Já viram a capa do Sticky Fingers, concebida em 1970 pelo Andy Warhol para os Stones, em versão CD? No LP original a breguilha era real, com um zip a sério, não era um desenho… Aquilo não resulta em CD e não desperta, como o original, a curiosidade de meninas (e meninos) abelhudas que puxavam o zip pra ver se havia alguma coisa lá dentro!

Noutros casos a redução da escala é simplesmente mortal: a capa de Never mind the bollocks ... dos Pistols, com as suas «letras de sequestro» e aquelas cores inimigas, necessita de escala para se aproximar da força do grupo. Mas é completamente insonsa na escala CD, um ténue vestígio da intenção inicial. Os Cds acabaram com a imponência dos covers, são uma espécie de Lilliput estético. É como se agora algum génio brincalhão decidisse reduzir à escala de brinquedo o Pártenon, a Catedral de Milan ou o Gugenheim…

De resto, com a panóplia do marketing e de todas as novas tecnologias da comunicação, os covers já nem sequer têm um lugar de destaque na estética das bandas. Com a net pirataria até se passa por cima das capas. Eu, por exemplo, só conheci a capa do disco dos Zero Seven, muito depois de os ouvir. E com os N.E.R.D., The Strokes, White Stripes e The Vines passou-se a mesma coisa. Ainda agora, ando a ouvir Franz Ferdinand e nem conheço a capa!

Dá-se mais importância aos vídeos, por exemplo. Os vídeos são um novo caminho e eu não vou dizer que são melhores ou piores que os velhos covers. Mas que sinto algumas saudades das capas genuínas dos LPs, quando uma imagem fixa, era um dos poucos, senão o único indício visual da música que se ouvia, lá isso é verdade. Deve ser por essa razão que ainda guardo religiosamente as minhas capas de LPs. Os discos, já não ouço, jazem lá dentro, definitivamente riscados. Deus os guarde. Mas as capas, essas permanecem intactas, protegidas cuidadosamente por plásticos transparentes que eu comprava na Nova Almedina e que eram verdadeiras capas das capas. Como dizia uma canção dos Buggles, Vídeo Killed the Radio Stars. E as capas, digo eu…

05/07/04

O Jogo Eterno, por Camões Alves

Há duas famílias opostas na história do futebol: a família das equipas que praticam o jogo, querendo ganhar e a das que o praticam para não perder. À primeira família pertencem equipas como o Brasil tri campeão dos décadas de 50, 60 e 70, mas também o Brasil perdedor do mundial do Espanha 82; o Ajax vitorioso de Cruijjf ou o bayern de Bekenbauer, a laranja mecânica de Rinus Michels (que nunca ganhou um mundial) ou a Holanda de Van Basten, etc, etc, etc. A lista dos membros desta família é enorme e é feita, tanto de vencedores como de perdedores. Bem mais vencedores que vencidos, felizmente, para quem já me está acusar de ser lírico…

Depois existe a outra família, a das equipas cínicas, parasitas do jogo alheio, que esperam pacientemente o erro do adversário até o matarem numa oportunidade o jogo. É o caso da Alemanha campeã contra a Hungria de ataque de Puskas numa final violenta donde saem dois jogadores magiares lesionados, logo na primeira parte. É também o caso da Itália de Rossi e Gentile – que não era uma equipa bacteriologicamente pura, mas teve de defrontar o Brasil de Zico e Falcão e foi obrigada a fechar-se -, da Juve da última década, do Steua de Bucareste de Ducadam, da Alemanha do mundial de Itália ou do Brasil do mundial dos EUA…

Estas duas famílias «ideológicas» constituem duas formas de entender o futebol e enfrentam-se no mesmo jogo eterno ao longo da história. Umas vezes ganha uma e outras, outra. Eu sou um adepto incondicional do primeiro estilo. Por razões éticas e estéticas: porque acho que essa família de equipas que jogam para ganhar, e não a outra, é que faz a grandeza do futebol. Mesmo quando a outra família ganha…
Por isso quero que a minha família futebolística ganhe sempre e, mesmo quando Portugal não está em competição, eu sinto-me sempre representado por uma ou por outra equipa que eu reconheço na mesma tradição familiar. E acho que de cada vez que uma equipa de rapina ganha uma competição importante, o futebol regride uns anos.

Ontem virou-se mais um capítulo deste jogo eterno. Portugal, obviamente, representou o estilo de futebol ofensivo que eu aprecio. E os gregos foram os outros. Portugal perdeu e foi pena para o futebol. Eu vi e revi o jogo e, em particular no resumo da sport tv, pude confirmar que os gregos defendem, sistematicamente, com 11 – onze-11 jogadores atrás da linha da bola. Como no jogo com os Checos, deram cerca de 70% de tempo de posse de bola a Portugal. É muito difícil marcar um golo a equipas assim e essa é a sua vantagem: elas partem do princípio que o 0-0 já é um bom resultado e que nos penaltis até podem ganhar. Se fossem a penaltis com Portugal, já era uma grande vitória para eles. Pelo contrário, quem é melhor, parte do princípio de que ir a penaltis é perigoso. Se tivéssemos jogado para os penaltis e os perdêssemos, todos criticariam o scolari porque não atacou, apesar de ter a melhor equipa…

Eu acho que há uma solução para ganhar a equipas destas, mas esse caminho é uma traição – embora realista – ao estilo e à família de futebol que eu prefiro. É o que fez o Brasil do mundial dos EUA que defrontou a Itália na final mais vergonhosa de todos os tempos. Os brasileiros trocaram as voltas aos italianos e, dessa vez, não assumiram as despesas do jogo. Fizeram como a azzurra tinha feito no Espanha 82 e passaram 90 minutos mais a meia hora do prolongamento a trocar a bola no seu meio campo Resultado: zero oportunidades, ausência absoluta de emoção e, possivelmente, oportunidade histórica perdida de lançar o futebol nos States. No fim, ganhou o Brasil na lotaria dos penaltis como poderia ter ganho a Itália. Foi o título mais amargo da história do futebol brasileiro!

No jogo de ontem, Portugal (ou scolari) não quis fazer o mesmo e foi fiel à sua família ideológica. Perdeu o jogo por 1-0. Mas se me perguntarem se preferia ter ganho, fazendo o mesmo que os brasileiros fizeram no mundial dos Estados Unidos com a Itália, eu digo que não. É só uma opinião, mas prefiro ter perdido o jogo e continuar a acreditar que é possível que as equipas mais espectaculares ganhem grandes competições, jogando o jogo pelo jogo. Paradoxalmente é isso que dá brilho às vitórias de equipas como a Grécia. O entusiasmo com que aquela vitória é saudada vive do arrojo e da desenvoltura de selecções como Portugal ou como a República Checa que, jogando ao ataque, contribuíram para lhes dar a noção de que tinham alcançado um feito superior às suas capacidades.
Mas imagine-se uma final entre a Grécia e outra equipa igual: alguma delas teria vontade de festejar? E se a atitude de todas as equipas fosse a da Grécia, alguém acha que continuariam a encher-se os estádios de futebol? Eu acho que não. Mesmo perdendo, a selecção portuguesa merece o meu aplauso por ter permanecido fiel ao futebol e aos valores desportivos e lúdicos que fazem de mim um adepto da modalidade.


PS – Também é claro que, se eu fosse treinador profissional de futebol e me entregassem uma equipa como a dos gregos, não teria outro remédio que não fosse metê-la a jogar como fez o Renhagel, contra o gozo de adeptos como eu. E nisso, é claro que o homem tem mérito. Não me peçam é para dizer bem daquilo. Parabéns pela vitória, é tudo o que lhes posso dizer.

PS 2- Este é o pior campeão europeu da história, pelo menos desde 72 – no euro desse ano o campeão foi a Alemanha de Bekenbauer, Breitner e Netzer. No seguinte ganhou a Checoslováquia de Panenka e Nehoda; em 80 a Alemanha de Kaltz, Schuster e Rummenige; em 84 a França de Platini, Giresse e Tigana, a seguir, a Holanda de Van Basten e Gullit. Em 92 foi a a Dinamarca de Laudrup e Poulsen e em 96 a Alemanha de Sammer e Klinsmann e depois tivemos mais França com o grande Zidane. A semelhança entre esta equipa da Grécia e qualquer uma das que citei é … Bem, eu não vejo nenhuma…

PS 3 – Peço desculpa à malta por fazer um texto de kilómetros sobre bola. Afinal eu tinha dito que não devíamos abusar dos textos bolísticos no tapor. Mas, fónix, o euro é só de 4 em 4 anos e só vamos à final de 100 em 100.

03/07/04

Marlon Brando, 3/04/1924 - 1/07/2004, por Mangas

Morreu o velho Don. O actor que veio do Método e o reinventou. Como homem, viveu sempre com o perigo nas mãos. Anti-social, reactivo à mania de segurança e ao hipócrita conceito americano de parecer politicamente correcto, caracterizava-o, entre outras coisas, um profundo sentido de humor negro ao qual apelava para pregar partidas aos amigos ou para humilhar as bête-noirs do sistema com os quais nunca fez concessões. Preço alto a pagar por uma vida de desastres conjugais, dramas familiares, batalhas pela custódia dos filhos - jamais se consegui livrar do sentimento de culpa quando o filho mais velho viria a ser preso por homicídio. Como actor foi o maior de todos. Não tinha códigos definidos, a sua representação era movida por instintos. Animal imprevisível e de improviso, a espontaneidade genial era uma das suas facetas diante das câmaras. No início, quando duvidaram que seria capaz de se safar no palco com Um Eléctrico Chamado Desejo (1951) de Tennesse Williams, fez um Stanley Kowalski brutal, arrogante, maníaco, ignorante, e sem um pingo de compaixão, de tal modo que mais tarde, no filme de Kazan, se limitou a confirmar os créditos pelos quais a crítica se lhe rendeu incondicionalmente. Na célebre sequência no banco traseiro do carro com Rod Steiger em Há Lodo no Cais (1954), Brando não quis fazer a cena com a pistola à mostra. Achava que não tinha cabimento fazer um discurso do tipo “Eu poderia ter sido isto e aquilo, eu poderia ter sido muito mais do que um zé-ninguém, porque, vendo bem as coisas, é isso que eu sou”, com uma pistola por perto. Kazan decidiu esconder o revólver, Brando sentiu-se mais confortável com o discurso que deveria fazer. E uma vez mais, o que se seguiu foi, como Elia Kazan afirmou muitos anos mais tarde, “talvez a melhor coisa jamais feito por um actor americano”. O movimentos dos lábios, a forma como ele posiciona o corpo, as pausas, a modulação das frases, o ritmo das palavras alinhadas como se estivesse a falar sozinho, tudo feito em sete takes. Brando gravou aquele instante e aquele discurso para a imortalidade com uma espontaneidade notável. Foi Brando quem compôs D. Vito Corleone em O Padrinho (1972), afirmou Coppola. Os produtores embirraram que não iam desenterrar esse cabrão arrogante do Brando, Coppola insistiu em fazer um teste!, Brando acedeu!, e no dia seguinte, Coppola acompanhado de um fotógrafo e de Salvatore Corsitto (Bonasera), foi a casa de Brando. Conta Coppola: “Corsitto tinha fixado a fala na qual pede uma favor ao Padrinho. Brando veio ter connosco à sala de estar, vestido com um quimono japonês, o cabelo amarrado num rabo de cavalo. Comecei a filmá-lo no vídeo. E começou naquele instante a transformar-se no personagem. Pegou em graxa dos sapatos e pô-la no cabelo. A voz mudou: «Acham que preciso de bigode?» Eu respondi nervoso respondeu «Sim, o meu tio Louie tem bigode.» Tocou ao de leve o bigode falso e enquanto o filmava no vídeo, agarrou num pacote de Kleenex. «Quero parecer um verdadeiro bulldog», murmurou, e estofou a boca com vários pedaços de Kleenex. Continuava a falar com ele mesmo, murmurando, e finalmente disse, «Quero improvisar». O resultado foi um sucesso enorme. Vi Marlon Brando de quarenta e sete anos a transformar-se no chefe da Máfia que envelhece. Era fantástico. Mais tarde. Quando mostrei a gravação aos produtores, a reacção – e foi quando acreditei neles –foi instantânea. Ambos disseram que era grande.” Conta ainda Coppola que chegou a precisar de carregar três vezes as bobines de uma câmara de 75 mm durante as filmagens de Apocalipse Now (1979), para gravar um imenso improviso de 45 min. de Brando sobre Deus, Nietzsche, os valores humanos, a guerra, os gregos e a tragédia da condição humana, sem quebras nem pit-stops, apenas a equipa de filmagens parou por completo para assistir ao show, material esse, pela sua duração, impossível de incluir no filme, mas parcialmente adicionado na versão Redux. Ganhou dois Oscares, recusou o segundo pela forma como Hollywood e a sociedade americana em geral tratava os índios americanos.

A grandeza do seu enorme talento assenta num precário equilíbrio entre os feitos notáveis que alcançou enquanto actor e na dura realidade de uma vida brutal, ambivalente, quase sempre de mão dada com a dor e a tragédia. As performances que definem Brando mostraram que havia alternativas para os desencantados do pós-guerra, liberdade criativa para a geração de actores que lhe seguiu: a raiva e a auto-compaixão do paraplégico Ken em The Men (1950), o anjo rebelde do The Wild One (1953) e acima de todos, Terry Mallock do Há Lodo No Cais, o estivador em busca da transcendência.

O homem que achava que representar era uma perda de tempo, uma vida perdida, e que depois do pai falecer, deu consigo a pedir a Deus que o trouxesse de volta nem que fosse por oito segundo para lhe partir o queixo, afirmou uma vez que gostava da chuva, que um dia, quando morresse, queria fazer parte dela. Os mortos não ressuscitam, mas a imortalidade também não se negoceia com trocos.

02/07/04

'Bora rebentar com o Google

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(post inspirado em Garrafa Vazia Segunda-feira, Abril 26, 2004)

01/07/04

Pele curta, por Cão Maniche: Caniche

Um homem ficou sem gasolina num pinhal muito ermo. Era noite alta. Não havia telemóveis. Entre as árvores, o perdido viu uma luz eléctrica. Dirigiu-se lá. Era uma casa. Bateu à porta. Um homem veio abrir. Vivia ali sozinho. Não tinha telefone. Disse o homem da casa: “O melhor é você dormir aí no sofá da sala, que de manhã logo se vê.” O visitante agradeceu a hospitalidade, mas avisou: “Mas olhe que tenho a doença da pele curta...” O da casa disse: “Homem, isso não me interessa. Você no sofá e eu na minha cama!” E pronto, lá se foram deitar.
O resto da noite foi horrível para o dono da casa. Um cheiro insuportável tornou-lhe o sono impossível. De manhãzinha, irritado e olheirento, ralhou com a visita: “Um gajo oferece a casa e você faz dela uma suinicultura ilegal, gaita!”. O hóspede respondeu: “Mas eu disse-lhe que sofria da doença da pele curta...” E o da casa: “Mas que porra de doença é essa?” E o outro: “Sabe, é que tenho a pele tão curta, que, quando fecho os olhos para dormir, abre-se-me o olho do cu...”
O leitor desculpe. Mas esta anedota, que me foi contada pelo meu máximo amigo Fernando Nabais, é o que me ocorre quando vejo uma das milhares de bandeiras nacionais ao eurovento. Por mais bandeiras que estiquem, não é possível tapar o défice, nem o esgoto a céu aberto, nem o tribunal degradado, nem a escola fechada, nem a impostura dos impostos, nem a Ribeira dos Milagres, nem o futuro.
Nem é pela bandeira ser curta. É por fecharmos os olhos.